O Jogo do Bilionário: Kade

J. S. Scott · Capítulo 4 de 21

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O Jogo do Bilionário: Kade

Capítulo 3

O problema era que alguma coisa dentro dele a reconhecia, uma parte que buscava encontrar algo ou alguém que aliviasse o vazio que sentia. Pela primeira vez em muito tempo, ele queria parar de fugir e desfrutar da sensação da mulher em seus braços, sentir-se intoxicado por seu perfume.

Apesar de o corpo ansiar por tomá-la de forma carnal, ele também se sentiu... em paz.

Kade desligou o cérebro e simplesmente desfrutou da sensação do corpo de Asha sobre o seu, com as pernas finas e nuas enroladas nas suas, mais musculosas. Ele não conseguia afastar a ideia de que aquilo estava certo e não sabia se queria perdê-la. Kade precisava investigar a estranha reação que sentia em relação a ela e decidiu fazer algumas coisas: Um: Asha voltaria para Tampa com ele, mesmo se tivesse que carregá-la aos gritos.

Dois: ele não se importava se ela era ou não parente de Max e Maddie.

Três: quando estivesse bem, ele treparia com ela até que nenhum dos dois conseguisse se mover.

Quatro: pela primeira vez na vida, ele se tornaria um herói, matando todos os dragões e demônios que a assombravam.

Cinco: ele faria com que ela sorrisse... muito. A atitude estoica dela lhe dizia que ela não tivera muitos motivos para sorrir na vida.

Com um braço em volta da cintura dela e outra segurando-lhe o traseiro possessivamente para mantê-la no lugar, Kade adormeceu rapidamente, sem a inquietação usual. Na verdade, ele estava quase contente.

Kade não deixou que ela saísse da cama por vários dias, para desespero de Asha. Depois que os antibióticos começaram a fazer efeito, ela passou a se sentir melhor e ficar à toa não era fácil. Os dois anos anteriores tinham sido uma corrida frenética para se manter alimentada e encontrar uma cama para dormir, e ficar parada não parecia certo. Além disso, ela odiava depender de alguém. Ela se sujeitara à vontade dos outros durante a vida inteira e começava a sentir o que era ser livre. Ela mal se mantinha na superfície, claro, mas estava começando a se virar. Se conseguisse trabalhos regulares e guardasse algum dinheiro, poderia encontrar um lugarzinho para chamar de seu. Finalmente!

Sobreviva. Sobreviva. Sobreviva.

— O que está fazendo? — A voz profunda fez com que Asha tivesse um sobressalto. Ela fechou o caderno de desenho, sentindo-se culpada, e guardou-o dentro da mochila que estava ao lado da cama.

Sem querer admitir que estava fazendo um desenho dele, ela respondeu a Kade em tom vago: — Desenhando. Como foi o seu negócio?

Kade saíra do quarto de hotel várias horas antes, alegando que precisava cuidar de um negócio, mas não antes de garantir que ela tivesse o número de seu celular para telefonar para ele se precisasse. Ele sorriu ao fechar a porta com o ombro forte, carregando vários pacotes e sacolas nos braços.

Ela sorriu de volta fracamente, incapaz de se impedir de responder à presença dele. Como era possível que tivesse sentido a falta dele? Mal conhecia o cara e ele só estivera longe por algumas horas.

Não faça isso consigo mesma, Asha. Não encha a cabeça com bobagens sobre Kade. Ele está ajudando você porque é gentil. Basta ser grata pela gentileza, pagá-lo e continuar a vida.

O sorriso de Kade ficou maior ainda quando ele jogou os pacotes sobre a cama e perguntou brincando: — Sentiu saudades de mim?

Sim!

Para evitar responder à pergunta dele diretamente, ela disse o mais casualmente que conseguiu: — Foi pacífico, sem ninguém para mandar em mim.

Ninguém para me mimar. Ninguém com quem conversar nem discutir.

Estivera quieto demais. Ela estava começando a se acostumar com o som da voz dele. Mesmo quando ele cantava em tom desafinado no chuveiro com mais entusiasmo do que talento, fazia com que ela sorrisse.

— Não fico dando ordens. Só impeço que faça qualquer coisa que prejudique sua saúde — respondeu Kade em tom indignado ao se sentar na beirada da cama.

Asha notou que ele esfregava a perna de forma distraída. — Dói?

Kade franziu a testa, afastando a mão ao responder: — Está tudo bem. É

só hábito.

— É mais do que isso, dá para notar. Você sente dor. Não tem remédio para dor para quando piora?

— Eu não tomo — retrucou Kade.

Asha recuou ligeiramente com a firmeza na voz dele. — Desculpe. Não é da minha conta. Eu só estava preocupada.

Kade suspirou, parecendo instantaneamente arrependido. — Eu tomava quando me feri. Demais. Comecei a gostar do fato de não apenas afastar a dor física, como embotar a mente. Eu percebi que o remédio estava tornando-se uma muleta, uma fuga da realidade de que eu nunca mais jogaria futebol. Eu estava fugindo da realidade e sabia que precisava parar antes que fosse tarde demais.

O olhar nu de arrependimento no rosto dele fez com que ela sentisse o coração apertado. — O futebol era tão importante assim para você? — Ela não precisou ouvir a resposta. Obviamente, o futebol era tão importante para ele quanto a arte era para ela. E ela não sabia o que faria se não pudesse mais desenhar e pintar.

— Era tudo para mim — respondeu ele com sinceridade. — Era a única coisa em que eu era realmente bom.

Asha o encarou. — Isso não é verdade. Tenho certeza de que há muitas coisas em que você é bom.

Kade soltou um suspiro. — Está bem. É a única coisa em que eu era bom quando estava na vertical. — Ele abriu um sorriso malicioso.

Ela corou, sentindo o rosto quente quando o olhar dele encontrou e manteve o seu. Ela não responderia àquele comentário. Alguma coisa lhe dizia que ele seria muito melhor em assuntos sexuais do que ela conseguiria lidar. Se havia uma coisa que notara sobre Kade era que ele tinha a tendência de evitar falar sobre si mesmo, usando um humor depreciativo quando queria fugir de um assunto particular. — Então, você parou de fugir da realidade? — perguntou ela, mudando o assunto o mais depressa possível. Certamente não queria conversar sobre sexo com ele.

— Praticamente — respondeu ele. — Não vou dizer que não sinto falta do futebol, mas lidei com o fato de que não posso mais jogar e não tomo remédios para a dor. — Ele fez uma pausa, ainda encarando-a ferozmente.

— Talvez algum dia você me conte por que está fugindo.

Incapaz de olhar para ele por mais tempo, ela virou o rosto e disse: —

Quem disse que estou fugindo de alguma coisa?

— Você está — respondeu Kade, pegando os pacotes da cama e jogando-os ao lado dela. — Escolhi algumas coisas para você.

— Por quê? — perguntou Asha confusa.

Kade deu de ombros. — Porque são coisas de que você precisa e não parece ter.

Quando ela continuou encarando-o confusa, Kade começou a tirar as coisas das sacolas, uma a uma. — Você precisa de um telefone. — Ele entregou a ela um iPhone de modelo mais recente. — E um notebook. —

Tirando o computador da caixa, ele o colocou sobre o colo dela. — Você não pode administrar um negócio sem as coisas básicas. — Entregando outra sacola a ela, ele disse em tom malicioso: — E mais algumas necessidades. Não é exatamente um traje noturno sedutor, mas é uma camisola apropriada, pois você está doente. E a calça jeans e a camiseta têm a sua cara.

Asha olhou para Kade, tão chocada que mal conseguiu falar. — Não posso pagar estas coisas no momento.

— São um presente. Não espero que pague — resmungou ele, sentindo-se afrontado.

Tirando a camisola da sacola, que também continha itens de higiene, jeans e camiseta, canetas de desenho e um bloco de desenho novos, ela acariciou o material sedoso. Era bonita e feminina, de um belo tom de rosa que cobriria o corpo inteiro de forma modesta. Ela queria muito vestir a camisola, sentir a seda acariciar seu corpo e fazê-la se sentir feminina. Mas finalmente ela disse a Kade: — Não posso aceitar estas coisas. Devem ter custado uma fortuna.

— Eu falei que são um presente — disse ele quase bravo. — E não custaram uma fortuna. São só algumas coisinhas de que você precisa.

— Eu nunca ganhei um presente — murmurou ela baixinho, continuando a acariciar o material macio da camisola, incapaz de olhar para Kade porque os olhos estavam cheios de lágrimas. — E nem conheço você.

Não posso aceitar.

— Você aceitará porque precisa deles. E como é possível que nunca tenha recebido um presente? Nunca? — perguntou Kade em voz confusa.

Asha deu de ombros, ainda sem encará-lo. — Só nunca recebi.

Kade chegou mais perto, estendendo a mão grande para erguer gentilmente o queixo dela. — Então, deixe-me explicar como funciona.

Você me agradece em voz doce e aceita o que eu lhe dei para não ferir meus sentimentos. — Abrindo um sorriso leve, ele acrescentou: — Um beijo ou um abraço de agradecimento seria adequado.

Asha limpou impacientemente uma lágrima que escapou do olho, encarando-o indecisa. Ele a ajudara tanto, provavelmente salvara sua vida ao levá-la ao hospital. Como poderia aceitar mais alguma coisa dele? Por outro lado, não queria ferir seus sentimentos. Apesar de ele ter dito aquilo em tom de brincadeira, rejeitar os presentes que comprara para ela poderia feri-lo. Ele parecera tão empolgado ao lhe dar todas aquelas coisas. — Eu vou pagar a você — disse ela, decidindo que era um bom compromisso.

Precisava daqueles itens, mas ele gastara muito mais do que ela conseguiria pagar. Obviamente, ele gostava de produtos topo de linha.

— Asha... você não vai me pagar. Um presente não exige pagamento. Eu quis comprar essas coisas para você. Não é nada demais para mim.

Entendeu? — respondeu ele em voz baixa e perigosa.

— É muito dinheiro. Você pode pagar? — Ela cuspiu os pensamentos ansiosos antes que pudesse se conter.

O olhar dele passou de intenso para divertido. — Acho que consigo pagar de forma confortável, sim — respondeu ele, sem conseguir evitar o riso na voz.

— Fale sério — pediu ela ansiosa. — Não quero prejudicar você financeiramente. Já fez tanto por mim, pagou a conta do hospital...

— Eu sou um bilionário. Sou um dos dois donos da Corporação Harrison. Além do mais, fui jogador profissional de futebol por oito anos e ganhei milhões com meus contratos, que investi muito bem.

Asha já supusera que Kade não tinha problemas de dinheiro, mas aquelas palavras a deixaram chocada. — Então por que está aqui? Por que está me ajudando? — Por que alguém com tanto dinheiro perderia tempo com ela? Kade ergueu a sobrancelha em um gesto que parecia ao mesmo tempo de interrogação e repreensão. — O que quer dizer? Só porque tenho dinheiro, isso significa que não posso fazer favores para amigos ou parentes?

Significa que eu deveria ser um imbecil com uma mulher que está doente?

Bem, não fora exatamente aquilo que ela quisera dizer. Asha soltou um suspiro leve e lançou-lhe um olhar de desculpas. Ela o estava julgando por ser rico e não havia nada que desgostasse mais do que supor coisas que não eram verdadeiras. — Desculpe. É que isso tudo parece muito incomum.

Não conheço pessoas ricas, mas eu imaginaria que elas não passariam o tempo rastreando pessoas sem importância que não conhecem.

— Você não é sem importância e eu estava disponível, já que não posso mais jogar futebol. Max precisava passar algum tempo com a minha irmã, senão teria vindo ele mesmo. É um assunto pessoal para ele. Não teria enviado um funcionário para falar com você.

Asha correu a mão sobre o notebook, admirando a superfície brilhante.

Quanto tempo fazia que não tinha nada totalmente novo? Comprava tudo de segunda mão em brechós ou lojas de liquidação, economizando cada centavo. Mas os presentes de Kade a deixaram emocionada e significavam muito mais do que o dinheiro que ele gastara. Era quase como se ele estivesse encorajando sua carreira artística ao lhe dar o notebook, o telefone e os materiais de desenho. — Obrigada — murmurou ela finalmente. —

Isso significa para mim muito mais do que você pode imaginar. Mas pagarei

 

a conta do hospital e os remédios. Não me importa o quanto você é rico —

terminou ela em tom teimoso.

— Não vou aceitar. — Kade cruzou os braços e encarou-a de forma intimidadora, um olhar que ela estava começando a se acostumar a ver. — Você me agradeceu de forma doce o suficiente. Estou esperando o beijo. —

Ele virou a cabeça, mostrando a bochecha.

— Não quero contaminar você — respondeu ela hesitantemente.

— Não vai me contaminar. Você está tomando antibióticos a tempo suficiente. Além do mais, respiramos o mesmo ar. Dormimos na mesma cama há dias. — Ele chegou ainda mais perto, batendo com o dedo na bochecha.

As lembranças de Asha dos primeiros dias da doença eram pontuais, mas o alívio a invadiu ao perceber que finalmente poderia tocar nele. Ela se aproximou, jogou os braços em volta do pescoço de Kade e deu-lhe um beijo ruidoso. — Obrigada, Kade. Não sei como retribuir por ter me ajudado, mas eu gostaria de tentar. — Onde ela estaria se não fosse por Kade? Ele cuidara dela quando estivera doente, dera-lhe abrigo enquanto se recuperava e agora lhe dera coisas que a ajudariam a conseguir mais trabalhos.

Kade passou os braços em volta dela, envolvendo-a com seu calor. O

perfume dele era tão gostoso que Asha prolongou o abraço de obrigada por mais tempo do que era necessário. Mas não conseguiu evitar.

Kade a puxou para mais perto e colocou-a sem esforço sobre o colo, apoiando-lhe a cabeça contra o ombro largo. Em seguida, respondeu com voz rouca: — Foi o melhor agradecimento que já recebi. É tudo de que eu preciso.

Asha suspirou contente e aconchegou-se contra o corpo musculoso, tão quente e confortável que não queria mais se mexer. Depois de algum tempo, teria que desistir da sensação de segurança que tinha quando estava perto dele. Ela estava sozinha, sempre estivera. Mas, só por alguns momentos, deixou-se relaxar e ser reconfortada por um homem em quem aprendia a confiar.

Kade tivera a reputação de ser um dos jogadores mais calmos e mais concentrados do futebol. Raramente hesitava em campo. Seu objetivo fora vencer e nunca deixara que as emoções ficassem no caminho.

Mas ele não estava em um campo de futebol e, naquele momento em particular, estava muito longe da tranquilidade.

Que mulher da idade de Asha nunca ganhou um presente?

Kade fora um idiota, mas até mesmo ele dera à namorada presentes excelentes e lembrara-se do aniversário dela. Ele se lembrara de ocasiões especiais de todos os amigos e parentes.

Ela esteve sozinha. Realmente sozinha.

Kade segurou Asha com mais firmeza, percebendo que ela adormecia contra seu ombro. Ela ainda estava muito doente, mas melhorava. Ele não tivera negócio algum para fazer em Nashville. Saíra apenas para comprar algumas coisas de que ela precisava. Agora, estava feliz por isso. Gostasse ou não, Asha teria que aprender que não estava mais sozinha. Ela tinha Max e Maddie.

E ela terá a mim.

A fera possessiva que se revirava na mente em se tratando de Asha voltara. Na verdade, Kade não tinha certeza de que ela ia embora de verdade. Parecia estar sempre escondida sob a superfície e, a cada dia, saía com mais facilidade caso houvesse alguma ameaça a Asha.

Kade mudou o corpo leve de lugar, colocando a garota adormecida novamente na cama. Perguntas se formavam na mente dele, uma após a outra.

Por que ela sempre foi sozinha?

Como foi a vida dela?

Nunca houve ninguém para cuidar dela?

Ele sabia muito pouco sobre ela e já não gostara. Queria saber de tudo sobre ela. Asha o fascinava de uma forma que ele tinha certeza não ser exatamente sã e, talvez, um pouco obsessiva.