O Jogo do Bilionário: Kade
Capítulo 7
Asha sorriu ao entrarem na sala de jantar. O aroma de frango grelhado e a visão da mesa repleta de comida fizeram com que seu estômago roncasse.
Encontrando o olhar interrogativo de Kade, ela sorriu para ele, tentando avisá-lo silenciosamente que estava tudo bem.
Ele sorriu de volta e os belos olhos azuis se iluminaram ao dar uma piscadela.
Minha nossa, como ele era bonito. E ela se sentou à frente dele na mesa.
Asha nunca tivera um jantar melhor com uma visão tão colorida e maravilhosa. Ele flertou descaradamente com ela, fazendo com que corasse e com que os outros lhe lançassem olhares interrogativos. Mas a refeição foi agradável e cheia de risadas, muito diferente de tudo que ela já vivera.
Para Asha, foi o primeiro jantar com sua família de verdade e ela tentou guardar todos os detalhes na memória. Ela sabia que momentos como aquele, sentindo-se daquela forma, não duravam para sempre.
Seus olhos encontraram os de Kade e ele assentiu devagar, como se tivesse lido seus pensamentos e garantindo que aquelas coisas poderiam durar para sempre. Ela suspirou e viveu o momento, desfrutando da intimidade, e tentou não pensar no que o futuro poderia trazer.
Porque, no momento... tudo estava perfeito.
Várias noites depois, Kade estava deitado na cama imensa, dolorido, sem sono e frustrado. Infelizmente, alguém tinha vazado a história de que a irmã perdida de Max Hamilton e Maddie Hudson fora encontrada. Kade e Asha foram assediados por repórteres durante todo o dia e ele não saíra de casa.
Em vez disso, observara Asha criando os desenhos na parede da sala de ginástica, de pau duro, enquanto se punia nos equipamentos. Ele tentara muito não observá-la, mas sabia que estava iludindo-se achando que só estava lá para fazer exercícios. Observá-la se tornara uma fascinação que ele não podia impedir, que não queria impedir. O corpo inteiro dela se movia à medida que pintava, cada parte envolvida no que estava criando.
Era quase como observá-la dançando um ritmo erótico. Só teria sido mais erótico se ela tivesse tirado as roupas enquanto desenhava. Mas ele tinha uma imaginação muito fértil e evocara as imagens dela nua enquanto a assistia fingindo que só estava exercitando-se, um exercício que levara o dia inteiro. Não era surpresa sentir dor no corpo inteiro. Ele estava acostumado a exercícios brutais, mas normalmente não duravam oito horas.
Surpreendentemente, ele começava a gostar das imagens que ela criava naquela parede. No início, ele hesitara quando ela sugerira pintar ali uma coleção das fotografias da época em que jogava futebol. Mas Asha era apaixonada pelo trabalho e argumentara que ele deveria celebrar o sucesso como jogador e tudo o que conquistara, lembrando todas as coisas que fizera bem enquanto jogava. Ela lembrara a ele que o futebol fora uma grande parte de sua vida e era melhor se lembrar das coisas agradáveis, em
vez de cultivar o negativo. Ele acabara cedendo, dando a ela liberdade para fazer o que quisesse.
As imagens foram copiadas de fotografias dos dias de glória e Asha deu vida a elas com talento extraordinário. Em vez deixá-lo deprimido por causa do que não podia mais fazer, os desenhos acentuaram a camaradagem do time e os momentos felizes que tivera com os colegas. Eram todas cenas alegres que fizeram com que ele sorrisse. A maioria dos homens que estavam com ele na parede estava aposentada e Kade suspeitava de que Asha sabia disso. Ela provavelmente pesquisara todas as fotografias. O desenho era um tributo alegre a alguns dos melhores jogadores de futebol que seguiram a vida fazendo outras coisas.
Sorrindo no escuro, Kade se perguntou se o projeto daquela sala particular era uma forma de Asha lhe dizer para celebrar, mas seguir em frente. Todos os desenhos dela significavam alguma coisa e ele tinha quase certeza de que ela estava tentando forçá-lo a aceitar a realidade e lidar com isso. Bem, estava funcionando e ele sabia que precisava encontrar uma nova finalidade na vida. Ele só queria saber exatamente qual era essa finalidade.
Virando de lado, ele deu um soco no travesseiro, determinado a dormir um pouco. Não pensaria em Asha deitada na cama do outro lado do corredor. Ele ficou imaginando se ela ainda usava a camisola nova que lhe dera quando estava doente ou se mudara para a que Maddie e Mia tinham comprado. Ele tinha que admitir que Maddie e a irmã tinham gosto muito melhor em se tratando de roupas. Mesmo assim, ele adorara ver Asha nas roupas que comprara para ela. E ele não a vira usar outra coisa além das camisetas e das calças que ele comprara em Nashville, exceto no dia em que Maddie, Max e Mia foram visitá-los e Kade lhe entregara uma das camisas que a irmã comprara.
O estômago dele roncou, reverberando sob as cobertas.
— Merda. Estou com fome — disse ele irritado, sabendo que não conseguiria dormir. Ele queimara tanta energia naquele dia que o corpo exigia mais comida.
Ele jogou os lençóis e cobertores para o lado, saiu da cama, andou até a porta do quarto e abriu-a. Ele parou por um momento, olhando para a porta do quarto de Asha. Estava tudo escuro, incluindo o quarto dela. Não havia luz sob a porta. Ele ligou a luz do corredor e desceu para o andar inferior, parando abruptamente na porta da cozinha.
Kade viu um fio de luz saindo da geladeira que iluminava o rosto de Asha enquanto ela olhava para o interior, com uma expressão de ansiedade no rosto.
O que diabos ela está fazendo?
Ele permaneceu em silêncio e os minutos se passaram enquanto ela parecia agonizar sobre alguma coisa, mas não pegou nada. Ela ficou imóvel com o olhar passeando pelo interior da geladeira.
Sem conseguir ficar quieto por mais tempo, Kade acendeu a luz, fazendo com que Asha soltasse um grito de surpresa e fechasse a porta da geladeira.
Colocando a mão sobre o peito, ela disse nervosa: — Você me assustou.
— Desculpe, não queria assustá-la. O que diabos está fazendo? E por que não acendeu a luz? Poderia ter se machucado andando por aí no escuro
— resmungou ele, sentindo-se infeliz com a ideia de Asha caindo da escada porque não conseguia ver para onde diabos estava indo.
— Acho que não pensei nisso — respondeu ela agitada. — Desculpe.
Vou voltar para a cama.
— Você está com fome? Estou faminto. Quer alguma coisa? —
perguntou ele, andando até a geladeira e abrindo a porta. Mia estocara bem a casa antes que ele voltasse de Nashville. Não só comprara as coisas que ele lhe pedira para Asha, como fizera um estoque grande de alimentos, pois Kade estivera fora durante dois meses fazendo um favor para seu marido.
— Nós já jantamos — respondeu Asha, mudando o peso do corpo de um pé para o outro nervosamente.
— Sim. E estava uma delícia. Mas isso foi horas atrás. — Kade olhou para Asha curiosamente. Ela cozinhara naquela noite, preparara uma comida indiana tradicional, e ele devorara o jantar caseiro. Asha era uma cozinheira excelente, mas não comera muito. Pensando bem... ela raramente comia. — Eu comi sua comida como um porco. Você se alimentou o suficiente? — perguntou ele em tom solene. — Achei que tinha sobrado um pouco.
— Você disse que comeríamos o resto no almoço de amanhã — disse ela em tom desconfortável.
Kade se lembrou das outras refeições. Ele fizera carne grelhada na noite anterior e ela também comera muito pouco. — Eu quis dizer que comeria se ainda tivesse. Não sou exigente. Poderia comer praticamente qualquer coisa.
Asha ficou em silêncio, olhando para ele com olhos confusos. — Eu não queria comer a sua comida.
— Merda — resmungou Kade quando finalmente entendeu. Ele a segurou de leve pelos ombros, deixando que a porta da geladeira se fechasse atrás de si. — Asha... diga que não está ficando com fome porque tem medo de comer. — Kade sentiu uma náusea súbita, um bolo formando-se no estômago. Havia algo muito errado naquela situação e a ideia de que ela estivesse passando fome o deixou maluco.
Afastando-se dele, ela começou a andar para longe e murmurou: — Eu como.
Kade a segurou pelo braço antes que conseguisse fugir, virando-a de costas para ele. — Diga-me qual é o problema. Você não come muito e é magra demais. Ainda está se sentindo mal?
Ela balançou a cabeça negativamente. — Não, não estou me sentindo mal. Só não quero comer mais do que a minha parte — retrucou ela com a voz repleta de vergonha. — Mas às vezes sinto fome entre as refeições.
Kade quase sentiu o calor da raiva irradiando do próprio corpo. — A sua parte é comer até que esteja saciada e depois comer de novo sempre que sentir fome. Você come como um passarinho. Por quê?
— Porque não quero comer uma comida pela qual não paguei —
respondeu ela subitamente furiosa e na defensiva.
Kade a segurou pelos ombros, sacudindo-a de leve. — Alguma vez eu fiz com que você se sentisse algo que não fosse uma convidada com acesso livre a tudo nesta casa? Alguma vez eu neguei alguma coisa de que você precisasse? Alguma vez eu fiz com que você sentisse que não podia fazer o que quisesse aqui? — perguntou ele com raiva, apesar de a fúria ser direcionada a si mesmo. Ele deveria ter notado que ela não comia o suficiente. O problema era que estava acostumado com Amy, que só comia salada e carne magra para manter a silhueta de modelo. Mas até mesmo ela exagerava de vez em quando.
— Não. Nunca. Não é você, Kade — respondeu ela trêmula e de cabeça baixa. Só o que Kade conseguia ver era o topo da cabeça dela.
— Então, pelo amor de Deus, me diga qual é o problema. Porque a ideia de você passar fome me faz ter vontade de dar um soco em mim mesmo por não ter notado.
Asha ergueu a cabeça lentamente, finalmente encarando-o nos olhos. —
Meus pais temporários me davam porções de comida medidas. Eles diziam que não recebiam muito para serem meus pais temporários e que eu só poderia comer o que me davam porque a comida era cara. As crianças menores, filhos deles, jantavam primeiro e eu servia a família. Eu comia o que sobrava ou a minha porção, o que fosse menor. — Ela respirou fundo e continuou: — Eu fiz o mesmo enquanto estava casada, tentando economizar dinheiro em comida. Acho que se tornou um hábito. Não trabalhei durante a maior parte do casamento e não queria causar mais despesas a Ravi, especialmente porque não engravidei. Eu podia me virar com menos comida.
Kade deu um soco na mesa da cozinha com força suficiente para que o móvel estremecesse sobre as pernas finas de madeira, fazendo com que Asha saltasse ao ouvir o som violento. — Mas que merda! Diga-me que está brincando! — pediu ele furioso, com a raiva pulsando no corpo inteiro.
— Você era uma maldita empregada para sua família temporária e comia restos? Depois fez o mesmo enquanto estava casada... e seu marido nunca disse nada? — Era algo inimaginável e a fúria invadiu Kade.
Ela deu de ombros. — Eu não queria nada a que não tinha direito —
respondeu fracamente.
Kade explodiu. — Você tem o direito de comer. Você tinha direito a uma educação porque tem um talento incrível. Você tem o direito de ser tratada como uma filha e uma esposa adorada. Isso inclui os idiotas de seus pais e o imbecil do seu ex-marido, que deveriam ter garantido que você tivesse tudo que queria e de que precisava.
Alguém na vida dela fizera algo por ela? Pelo amor de Deus! A mulher precisava que alguém lhe ensinasse a sentir que tinha valor e isso começaria com ele.
Kade sentiu outra pontada de culpa ao se lembrar do olhar no rosto dela quando a observara da porta da cozinha. Ele não percebera que, em alguns hábitos, ela ainda estava condicionada a ser uma cidadã de segunda classe.
Os pais temporários tinham sido cruéis e o ex-marido fora um idiota egoísta.
— Sente-se — exigiu ele baixinho, levando-a até uma cadeira, que puxou para que ela se sentasse.
Ela se sentou e perguntou ansiosa: — Está bravo comigo?
Kade se ajoelhou ao lado dela, passando o braço em volta de sua cintura.
— Estou bravo comigo mesmo. — Ele soltou um suspiro pesado e continuou: — Eu quero que você coma, Asha. Quero que coma sempre que quiser e o que tiver vontade. Não existe isso de comer apenas o que acha que merece e passar fome nesta casa. Minhas regras. Não me importo com o que alguém possa ter dito a você. Saber que você passou fome na minha casa está me matando. — Ele se levantou e começou a tirar coisas das prateleiras e da geladeira. — Não sou um grande cozinheiro, mas faço um sanduíche excelente.
— Deixe-me ajudar você. — Asha começou a se levantar da cadeira.
— Fique sentada — disse ele firmemente, empurrando-a pelo ombro até que estivesse novamente sentada. — Eu vou servir desta vez.
— É a sua casa. Você não deveria fazer isso — disse Asha inconformada.
— Eu quero. — Ele queria empilhar comida na frente dela até que Asha mal conseguisse ver o topo. Ela comeria e depois comeria mais um pouco.
Ele nunca mais queria ver aquele olhar de ansiedade no rosto dela, a não ser que fosse sexual. E ele estava mais do que disposto a saciar aquela necessidade também.
Ele preparou um sanduíche alto, colocando tudo que encontrava pela frente. Depois de colocá-lo em frente a ela, botou um guardanapo ao lado do prato. Vasculhando o armário, começou a empilhar várias caixas de biscoitos e salgadinhos na mesa.
O que mais?
— O que estava procurando quando eu entrei na cozinha? — perguntou ele ansioso, pronto a empilhar na mesa tudo o que havia dentro da geladeira.
— Um bolo de chocolate — respondeu ela em voz baixa e maravilhada.
— Um com morangos e pedaços de chocolate em cima.
Kade sorriu. — A torta de chocolate com morangos. Minha favorita. Mia comprou na nossa confeitaria preferida. — Ele a tirou da geladeira e cortou duas fatias grandes, colocando-as em um prato. Em seguida, pegou dois garfos e acrescentou tudo à mesa. Depois de servir dois copos altos de leite, ele finalmente se sentou, notando que Asha ainda olhava para a comida sobre a mesa. — Coma — disse ele. — Se não devorar esta comida por conta própria, juro que vou jogar você no chão e enfiar tudo em sua boca.
Nunca mais você passará fome. Vai andar por aí estufada de comida todos os minutos do dia — terminou Kade.
Kade sorriu quando Asha colocou a mão sobre a boca e reprimiu uma risada. — Não vou conseguir comer isto tudo — disse ela em tom divertido.
Kade olhou para a mesa com pilhas de comida. — Coma o tanto que conseguir. É parte de seu trabalho daqui em diante. Chega de economizar comida. Considerarei um insulto se não comer. Obviamente, ainda há coisas do seu passado que você precisa reconhecer como erradas e acabar com elas. Estamos resolvendo o problema da comida agora.
Ela bebeu um gole grande de leite e começou a comer o sanduíche monstruoso. Kade abriu um saco de batatas fritas e começou a botá-las na boca de Asha entre mordidas no sanduíche. Na metade do sanduíche que ele criara, ela empurrou o prato e colocou a mão na barriga. — Estou cheia.
Kade pegou a outra metade do sanduíche do prato, empurrou o bolo para ela e colocou o garfo em sua mão. — Coma.
Os olhos dela se iluminaram quando ela cortou um pedaço minúsculo.
— Nunca comi muito chocolate. Este bolo parece quase um pecado.
Kade sorriu, capturando o olhar dela e mantendo-o por um momento. —
E é. Mas o pecado pode ser muito mais divertido do que ser bom o tempo todo. — Ele devorou o restante do sanduíche e começou a comer o bolo.
Ele a observou enquanto ela comia. Asha tinha uma expressão quase erótica no rosto. Comeu como se estivesse tendo orgasmos cada vez que botava um pedaço do bolo na boca, fechando os olhos e saboreando-o antes de deixar que descesse lentamente pela garganta. Ele sentia o pênis saltar toda vez que ela soltava um gemido satisfeito de prazer.
Estou encrencado. Tudo o que ela faz me deixa excitado.
Ele afastou os olhos dela, estudando o próprio prato quase vazio. — Não faça algo parecido com isso novamente, Asha. Se quiser ou precisar de alguma coisa, só precisa falar. O que aconteceu com você não foi certo.
Você precisa pedir o que quer. Não vou negar nada a você. Fico feliz em agradar você — disse ele com voz rouca.
— Isso me deixa confusa — admitiu ela, empurrando o prato vazio para longe. — Não estou acostumada.
— Então acostume-se — disse ele, lançando-lhe um olhar de advertência.
— Eu provavelmente conseguiria. Com muita facilidade. — Ela se levantou e começou a guardar as coisas. — E não estarei com você para sempre. Não sei se eu deveria me acostumar com isso. A vida não é fácil lá fora, Kade. Não para uma mulher que precisa sobreviver.
Ela nunca mais teria que sofrer novamente. Nunca mais teria que se preocupar com onde conseguiria a próxima refeição ou o próximo trabalho.
Ele garantiria isso. — Sua vida não será assim novamente. Você tem uma família agora. Você tem a mim.
Ele se levantou e colocou as louças na lava-louça, batendo-as com um pouco mais de força do que o necessário, tentando controlar o instinto que lhe dizia para agarrá-la e tomá-la até que estivesse totalmente convencida.
— Fico feliz por ter amigos e parentes agora. Mas preciso saber que posso depender de mim mesma — respondeu ela em tom teimoso. —
Colocar minha vida nas mãos de outras pessoas não foi uma coisa boa para mim.
— Talvez você tenha apenas confiado nas pessoas erradas — resmungou ele, batendo a porta da lava-louça e virando-se para ela.
Kade ouviu quando ela prendeu a respiração ao olhar para ele, com os olhos percorrendo seu corpo. — Ai, Kade. Coitada da sua perna. Deve ter doído tanto.
Ele olhou para baixo, percebendo que usava apenas uma cueca de seda preta. Não se preocupara em vestir uma roupa decente porque não planejara encontrar ninguém mais à uma hora da manhã na própria casa.
Os olhos dela estavam fixados na perna ferida e ele se encolheu. —
Desculpe. Eu deveria ter coberto a perna, mas não sabia que você estaria aqui.
Que merda! Asha era a última pessoa que ele queria que visse a perna aleijada. Mesmo curado, as cicatrizes eram horríveis. — Não olhe para a minha perna — resmungou ele, aproximando-se dela e erguendo-lhe o queixo. — Nem eu aguento olhar para ela.
— Não é a aparência dela. É a dor que você deve ter sentido — disse ela com os olhos cheios de lágrimas. — Como você aguentou? — Ajoelhando-se ao lado dele, Asha passou a ponta dos dedos de leve sobre as cicatrizes.
— Não tive muita opção — respondeu ele com o coração batendo mais forte ao sentir o toque dos dedos dela. Parte da sensibilidade da pele desaparecera, mas ele ainda conseguiu sentir as carícias cuidadosas.
Ela não sente repulsa pelas minhas cicatrizes. Só se importa com a dor que eu senti.
Kade a observou cuidadosamente. Vestindo a camisola de seda que ele comprara, ela parecia um anjo com o rosto invadido pela preocupação.
— E você se preocupa que eu passe fome quando sofreu tanto? —
recriminou Asha, levantando-se e encarando-o.
Kade queria lhe dizer que não sentia mais dor, não tanto quanto a dor que sofria por querê-la. — Já acabou. — Ele queria esquecer aquela época de sua vida. A perna doía de vez em quando, mas ele sobrevivera.
— Ainda dói? Fale a verdade.
Sim. Dói, mas a dor não é na perna. Sinto dor todas as vezes que olho para você.
— Não — respondeu ele. — Não é tão ruim assim. — Pelo menos, não na perna.
Ela chegou mais perto e passou os braços em volta da cintura dele. A sensação da mão dela na pele nua quase o fez perder o controle. Ela tentava consolá-lo por causa de uma dor antiga, mas causava outra muito intensa.
Ele colocou os braços em volta dela, sentindo a maciez de Asha contra o próprio corpo.
— Eu sinto muito, Kade. Queria muito que isso não tivesse acontecido com você — murmurou ela contra seu peito.
— Merdas acontecem — respondeu ele casualmente, tentando não ceder à tentação de carregá-la para sua cama e enterrar-se em seu calor, aceitar o conforto que estava disposta a lhe dar. Mas ele não a queria assim. Queria que fosse algo mútuo, que queimasse por ele tanto quanto ele queimava por ela. Ela continuou a abraçá-lo, murmurando palavras suaves em seu peito que ele não entendeu, suspeitando que fossem em telugu.
— Você sabe que não entendo uma palavra do que está dizendo — disse ele, tentando conter as emoções que ameaçavam se libertar.
— Eu sei. É melhor que não entenda — retrucou ela com voz divertida.
— E acho que você precisa superar algumas coisas do seu passado. Você é jovem, incrivelmente bonito, ainda consegue caminhar e está vivo. Você sobreviveu. Além da dor que eu sei que sente algumas vezes, a sua perna não importa. A aparência dela não importa.
Kade sabia que Asha estava falando sério e sua alma ficou um pouco mais curada. Ele encostou o rosto nos cabelos dela, inalando o perfume
floral e fechando os olhos.
Kade não soube exatamente quanto tempo ficaram daquele jeito, abraçados como se estivessem conectados. Ele tinha certeza de que fora um período relativamente longo, mas não longo o suficiente. O pênis estava rígido, uma reação que era praticamente certa sempre que Asha estava perto o suficiente para que ele a sentisse, para que a cheirasse. Mas ele não queria pensar no pênis naquele momento. Só queria absorver a doçura de Asha, mantê-la perto de si. Estar perto dela se tornara um vício e satisfazer todas suas vontades e necessidades, uma obsessão.
Finalmente, eles se separaram e voltaram para o andar superior. Ele precisou cerrar os punhos para resistir à tentação de tocá-la quando ela abriu um sorriso tímido e fechou a porta do quarto. Kade se jogou na própria cama, que subitamente pareceu solitária e grande demais. Demorou muito tempo até que, finalmente, caísse em um sono exausto.