O Jogo do Bilionário: Kade

J. S. Scott · Capítulo 7 de 21

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O Jogo do Bilionário: Kade

Capítulo 6

— Estou bem — murmurou ela, apertando a mão dele com força.

Asha se agarrava nele, mas ele não reclamaria. Ela podia se apoiar nele o quanto quisesse. Ele estaria ao lado dela sempre que precisasse dele. Era outra coisa que não conseguia explicar. Kade realmente queria que ela precisasse dele, que pudesse contar com ele para que a apoiasse em qualquer situação ruim.

Balançando a cabeça ao pensar naquilo, ele soltou a mão dela e passou o braço em volta de sua cintura, puxando-a para perto em um gesto protetor.

Eles saíram do quarto em silêncio, mas Kade não a soltou, nem mesmo depois de chegarem ao andar debaixo.

 

Asha tentou com todas as forças não se sentir inferior às mulheres que aguardavam na sala de estar de Kade, mas não conseguiu. Durante as apresentações, ela tentou aceitar o fato de que talvez fosse realmente parente daquelas pessoas ricas e sofisticadas. Não é possível. Não tinha nada a ver com elas. Não conseguia acreditar que Max, o homem bonito de cabelos escuros que tinha o braço em volta de Mia, pudesse ser seu irmão.

Ou que a adorável médica ruiva, que se apresentou como Maddie, pudesse ser sua irmã. Aquelas pessoas eram de um nível completamente diferente e, internamente, ela se encolheu ao imaginar o que estariam pensando dela.

Seus cabelos precisavam de uma boa escovada, a calça era surrada e os pés estavam descalços, com a tatuagem de henna surgindo sob a barra do jeans. A única coisa bonita que vestia era a bela blusa vermelha, o que lhe fora dado pelas duas mulheres à sua frente. Minha nossa... ela estava um caos. Mesmo se fosse parente deles, certamente não gostariam de chamá-la assim.

— Você pode ficar conosco — disse Mia em tom alegre depois que todos foram apresentados.

— Não. Quero que ela fique comigo e com Sam — disse Maddie em tom enfático.

Asha ouviu um rosnado baixo vindo de Kade. — Ela vai ficar aqui —

resmungou ele, olhando friamente para os convidados. — Ela está fazendo uns desenhos para mim.

— Que desenhos? — perguntou Mia curiosa.

— Eu faço desenhos em paredes — respondeu Asha baixinho, subitamente desejando ter uma carreira mais estável, mais educação ou qualquer coisa que a fizesse se sentir menos fracassada perto daquelas pessoas.

— Ela é uma artista incrível — comentou Kade com orgulho, apertando um pouco o mais o braço em volta da cintura dela.

Mia sorriu e disse: — Eu faço desenho de joias. Adoraria ver o seu trabalho.

— Tenho algumas fotografias lá em cima — respondeu Asha hesitante, quase certa de que Mia só estava sendo educada. Sem dúvida, Mia frequentara a faculdade, estudara aquela arte. Asha aprendera sozinha, usando o instinto e o talento para criar os desenhos.

A expressão de Mia ficou animada. — Vamos olhar — disse ela empolgada. Maddie acenou com a cabeça concordando.

— Esperem — disse Max quando as duas mulheres a tiraram de perto de Kade. — Eu gostaria de abraçar minha irmã antes que vocês a arrastem para uma sessão de conversa feminina.

Asha recuou um passo com o corpo trêmulo. Ela queria muito a afeição fraternal que Max oferecia, mas estava aterrorizada em aceitá-la. Mas não teve tempo para pensar. Max se aproximou e puxou-a para seus braços, envolvendo-a em um abraço apertado. Estranhamente, não houve nada de desconfortável no abraço de Max. E, apesar de ser um pouco desconcertante para ela por não estar acostumada à afeição física, Asha teve uma sensação de paz e segurança quando ele a segurou contra o corpo forte. Não sentiu nada além de aceitação e as lágrimas surgiram em seus olhos ao abraçá-lo de volta hesitantemente. — Não estou acostumada a ter alguém —

sussurrou ela sem pensar nas palavras.

Max a abraçou com mais força e disse: — Você tem a nós. Lamento que tenha demorado tanto para encontrá-la. — Ele se afastou e segurou-a pelos ombros. — Eu sei que isso é demais. Eu também não tinha família até encontrar Maddie. Encontrar você é um presente enorme para Maddie e eu.

— Eu também estava sozinha — disse Maddie ao puxar Asha para longe de Max e abraçá-la com praticamente a mesma força que o irmão usara.

Asha teve a mesma sensação de conexão quando Maddie a abraçou e as lágrimas escorreram livremente dos olhos. Aquelas duas pessoas estavam tão ansiosas em aceitá-la como irmã, em colocá-la no seio da família. Era

algo incrível e maravilhoso, mas assustador. Apesar de querer muito uma família, com todas as suas forças, os aspectos desconhecidos da situação eram aterrorizantes. Ela sempre fora sozinha. O que sabia sobre ter uma família de verdade?

Finalmente, ela se afastou de Maddie, limpando as lágrimas com a mão.

— Não temos certeza se sou mesmo parente de vocês. — Ela lembrou a si mesma da realidade de que não havia nada completamente provado. Era melhor não se prender à ideia de família para que lhe fosse tirada depois.

Era uma ideia sedutora que não podia deixar que a afastasse da realidade.

— Não preciso de provas — disse Max. — Eu consigo sentir.

— Eu também — concordou Maddie. — É a mesma sensação estranha de estar ligada a você que senti com Max antes de saber que éramos irmãos.

E sabemos que tivemos a mesma mãe. O nome dela era o mesmo e a investigação de Max foi bastante conclusiva depois que Kade conseguiu mais informações. Temos a mesma mãe.

— Mas e se for tudo um engano? E se ela só tinha o mesmo nome ou algo assim? — Ela queria muito acreditar que era irmã daquelas duas pessoas extraordinárias, mas era tão surreal que não conseguia. Coisas assim não aconteciam com ela.

Max tirou a carteira do bolso e pegou uma fotografia. — Olhe. Esta é nossa mãe. Ela era muito jovem na época. Foi a única fotografia que consegui localizar.

Asha pegou a fotografia da mão dele, sentindo o coração acelerado de medo e expectativa. Ela a estudou, mordendo o lábio inferior em concentração ao perceber a semelhança, uma mulher que era muito parecida com Maddie e uma versão mais jovem da própria mãe biológica. Passando o dedo pela borda da fotografia, ela murmurou: — Ela se parece com a minha mãe.

— Você tem uma fotografia? — perguntou Maddie. — Eu gostaria de vê-la.

— Tenho. É uma fotografia dela e do meu pai logo antes de morrerem.

— Asha devolveu a fotografia a Max.

— Você se lembra deles? — perguntou Max, guardando a fotografia. —

Eu sei que eles morreram em um acidente de carro. De acordo com as informações que tenho, seu pai estava dirigindo bêbado.

— Suas informações estão erradas — respondeu Asha na defensiva. —

Meu pai não estava dirigindo e ele não bebia. Não havia álcool nele. Mas o homem que dirigia estava bêbado. Eles foram a uma festa do trabalho.

Minha mãe e meu pai estavam no banco de trás e todos no carro morreram instantaneamente quando o motorista perdeu o controle e foram atingidos por um caminhão. — Respirando fundo, ela continuou: — E não... não me lembro deles. Eu só tinha três anos quando eles morreram. Não tenho muita coisa deles. Quando o inventário foi concluído, não havia nada além de alguns pertences pessoais. — Na verdade, ela recebera vários pertences dos pais, mas tudo fora vendido pelos pais temporários, supostamente para pagar as despesas, deixando-a com nada além de algumas fotografias.

Maddie colocou o braço sobre seu ombro, como se sentisse a tristeza de Asha. — Vamos dar uma olhada nessas fotografias.

— Lamento, Asha — disse Max. — Ninguém tão jovem deveria perder os pais assim.

Asha deu de ombros. — Nós todos perdemos. — Ela sabia que Max fora adotado por bons pais, mas Maddie passara por vários lares temporários e sabia como era se sentir solitária.

— Eu tive mais sorte que você e Maddie — respondeu Max.

Ela olhou para Max e sentiu vontade de abraçá-lo novamente ao perceber a expressão triste. — Fico feliz por pelo menos um de nós ter sido adotado. Não é culpa sua se eu não fui. Eu sobrevivi. Tive pais temporários que me alimentaram e deram-me um teto.

Maddie riu. — Não perca seu tempo tentando dizer isso a ele. Logo perceberá que Max se sente como um irmão que deveria ter ajudado as irmãs, apesar de nem saber que existíamos. Talvez juntas seja possível convencê-lo de que não é vidente e não é responsável por nossos problemas.

Asha sorriu timidamente para Maddie. — As coisas acontecem. Não é culpa de ninguém.

Lançando um sorriso afetuoso a Max, ela deixou que Maddie e Mia a levassem em direção à escada.

— Colocaremos alguma coisa na churrasqueira. Estou morrendo de fome — resmungou Kade. — Não demorem demais.

Depois que as três mulheres subiram a escada e entraram no quarto temporário de Asha, ela olhou para Mia e Maddie e perguntou: — Eles vão

mesmo cozinhar? — Ela nunca vira o pai temporário cozinhar e o ex-marido certamente não fizera isso.

Mia e Maddie se sentaram na cama de Asha. — Kade é um pouco assustador no aspecto culinário, mas Max é um cozinheiro decente. E o marido de Maddie, Sam, quase sempre cozinha. Ele prepara coisas incríveis

— respondeu Mia, dobrando as pernas sob o corpo e olhando para Asha com uma expressão perplexa. — Você parece surpresa.

— Nunca vi um marido que cozinhasse — respondeu ela, ainda surpresa ao saber que o marido bilionário de Maddie passava tempo na cozinha.

— Sam não me deixou preparar uma refeição desde que engravidei —

disse Maddie com um suspiro. — Ele está um pouco assustado porque terei gêmeos. Kade nos disse que você foi casada por sete anos. Não me diga que seu ex-marido nunca preparou uma refeição.

Asha balançou a cabeça negativamente. — Nunca. Meus pais temporários eram indianos conservadores e meu marido também. Homens não cozinham. — Ela observou Maddie se deitar na cama, notando pela primeira vez que a nova irmã tinha a barriga acentuada. Ela não a vira sob a blusa larga que Maddie usava, mas agora que estava deitada na cama, era fácil perceber. — Você está esperando gêmeos? — perguntou ela em tom ligeiramente maravilhado.

Maddie sorriu de forma sonhadora. — Sim. Para o desespero do meu marido. Ele está encantado, mas se preocupa com os fatores de risco.

— Se o seu marido nunca cozinhou, fico surpresa por ter ficado com ele durante sete anos — disse Mia.

— Era a coisa aceitável a fazer na minha cultura. Meus pais temporários e o meu ex-marido eram imigrantes muito tradicionais. O normal era que a mulher cuidasse da cozinha, da limpeza e de todas as tarefas femininas.

— Talvez esteja na hora de aprender mais sobre a cultura norte-americana — comentou Maddie. — A maioria das mulheres trabalha ou cuida das crianças e os homens dividem as responsabilidades. Se não fazem isso, levam um chute no traseiro.

Asha sorriu ao ouvir o comentário de Maddie. Ela vasculhou a bolsa, procurando as fotografias, e continuou explicando a Maddie e Mia como fora sua vida. As duas fizeram o que pareceu um milhão de perguntas sobre sua criação e o casamento. Ela respondeu a todas as perguntas, deixando de

fora a parte sobre o abuso doméstico. Finalmente, ela encontrou a fotografia dos pais, além das fotografias do trabalho dela.

— Então eles venderam você? — perguntou Maddie furiosa, parecendo tão revoltada quanto Kade e praticamente repetindo as palavras dele, depois que Asha contou vagamente às duas mulheres sobre o casamento. —

Querida, isso não se trata de cultura. Há mulheres indianas que são médicas, advogadas e cientistas. Você é norte-americana com sangue indiano, mas ainda é norte-americana e mora nos Estados Unidos. E as indianas fazem coisas incríveis aqui, recebem educações maravilhosas. Acho que sua família temporária e seu ex-marido achavam que ainda estavam na Índia. E, não importa quem fossem, não acho que eram pessoas boas.

Asha suspirou e sentou-se em uma cadeira ao lado da cama. — Meus pais temporários não falam mais comigo porque me divorciei de Ravi. —

Não que tivessem falado muito com ela depois do casamento, de qualquer forma. Falavam com Ravi, mas raramente perguntavam sobre ela.

— Nós avaliaremos seu próximo marido — disse Mia. O tom de voz fez com que aquilo soasse mais como uma ameaça do que uma brincadeira. —

Se não houver uma troca no relacionamento, não poderá se casar com ele.

— Não vou me casar de novo — respondeu Asha baixinho.

— É claro que vai. Mia e eu éramos mais velhas que você quando nos casamos com Max e Sam — retrucou Maddie. — Só precisa encontrar o cara certo dessa vez.

— Não posso ter filhos — admitiu Asha relutante. Por algum motivo, aquelas duas mulheres faziam com que tivesse vontade de contar todos os seus segredos.

— Você pode adotar, se quiser filhos. E, dependendo do motivo, pode haver outras opções. Sabe por que não pode conceber? — perguntou Maddie.

— Não sei. Mas não importava. Ravi disse que fez exames e era saudável. Disse que era um defeito meu.

— Você não é defeituosa só porque não pode ter um filho — retrucou Maddie exasperada. — Case-se com um homem que ama e poderá resolver o resto quando chegar a hora. O amor é tudo, Asha. Os outros problemas podem ser contornados.

Asha se mexeu desconfortavelmente na cadeira. — Nunca houve amor no meu casamento.

— Haverá no próximo — disse Mia. — Maddie e eu cuidaremos disso.

Asha não achava que haveria um próximo, mas sorriu para as duas mulheres sobre a cama. Ela sentiu o coração apertado no peito por elas estarem preocupadas.

É isso que significa ter amigos. Amigos de verdade, que se importam.

— Obrigada — respondeu ela simplesmente, entregando a fotografia dos pais para Maddie e as de seu trabalho para Mia.

— Seu pai era muito bonito. E esta é com certeza nossa mãe —

comentou Maddie, olhando para a fotografia que Asha lhe entregava. — Ela parece feliz.

— Gosto de achar que eles eram muito felizes — disse Asha.

Maddie se deitou novamente na cama para esticar as costas. — Ela teve uma vida difícil. Espero que tenha sido feliz no final.

— Não se ressente de ela ter desistido de você e de Max? — perguntou Asha, imaginando como Maddie podia soar tão sincera sobre desejar a felicidade da mãe.

— Não. Não mais. Tenho Sam e sou mais feliz do que jamais sonhei.

Não importa o que aconteceu, gosto de pensar que ela desistiu de nós para ter uma vida melhor. Talvez ela não tivesse outra opção. — Ela colocou a mão sobre a barriga, acariciando-a distraída. — A minha vida agora compensa qualquer infelicidade que tive antes. Vou ter dois filhos, tenho um irmão e agora uma irmã. Não tenho nenhum ressentimento. Tenho um futuro maravilhoso à frente. Tudo o que aconteceu me levou a esta vida maravilhosa e a Sam.

Maddie estava radiante e Asha sabia que não era apenas por causa da gravidez. Era a expressão da felicidade suprema. Mia tinha o mesmo brilho.

Será que amar um homem bom realmente deixava uma mulher tão feliz assim? Tristemente, Asha tinha certeza de que nunca saberia.

— São fantásticas — exclamou Mia, olhando as fotografias do trabalho de Asha.

Maddie se aproximou para olhar as fotos com Mia. As duas tinham a cabeça perto uma da outra. — Não é surpresa que Kade queira que você coloque um pouco de vida nesta casa. Seus desenhos deixarão o lugar muito mais aconchegante.

Asha sorriu enquanto as duas tentaram ansiosamente marcar um horário para si mesmas. Maddie queria pintar o quarto dos bebês e Mia queria

decorar a parede da oficina de trabalho, dizendo que adoraria a inspiração.

Ela se perguntou se estavam falando sério ou apenas sendo gentis. Ainda assim, ficou feliz por parecerem gostar de seu trabalho.

— A comida está pronta — gritou Kade impacientemente no pé da escada.

As mulheres se levantaram. Mia saiu primeiro, como se estivesse ansiosa para ver o rosto do marido novamente. Maddie esperou um pouco, devolvendo a Asha a fotografia dos pais. Asha reuniu as fotografias de seu trabalho que Mia deixara sobre a cômoda e guardou-as na mochila.

— Asha... você não se importa mesmo de ficar com Kade? — perguntou Maddie preocupada. — Quero que fique comigo e minha casa estará sempre de portas abertas se quiser ficar comigo e com Sam. Você precisa de algum tempo para se assentar depois do divórcio.

— Acha que não é adequado ficar aqui com ele? — perguntou Asha com hesitação. Ela era solteira. Kade era solteiro. Talvez não fosse uma ideia tão boa. Mas a ideia de deixar Kade no momento não era confortável. Ele cuidara dela enquanto estava doente e, apesar de deixá-la inquieta às vezes, ela gostava de sua presença. E confiava nele.

— É claro que não é inadequado. Vocês dois são adultos e solteiros. Só quero ter certeza de que está confortável. Vi como Kade estava olhando para você. Acho que ele já está ficando... ahm... apegado. — Pareceu que Maddie queria dizer mais alguma coisa, mas olhou para Asha de forma solene.

— Estou bem aqui — respondeu ela, sentindo-se aliviada por não ter que se afastar de Kade tão cedo. — E ele só está sendo... gentil.

— Bobagem. Kade está sendo protetor, possessivo. Acho que ele foi mordido pelo inseto do homem das cavernas — retrucou Maddie em tom enfático.

— Inseto do homem das cavernas? — perguntou Asha em tom confuso.

Maddie riu. — A síndrome do macho-alfa-que-bate-no-peito. Ele está começando a gostar de você, Asha.

Abaixando a cabeça, ela respondeu com voz fraca: — Não se preocupe.

Não vou me apegar a ele. Sei que ele é de um mundo totalmente diferente. Maddie a segurou pelos ombros, sacudindo-a de leve. — Ninguém é de um mundo totalmente diferente. Só estou avisando que ele não está sendo apenas gentil. Acredite, conheço quando o olhar de Tarzan começa a

emergir. Tenho que admitir que isso me deixou surpresa. Nunca vi esse lado de Kade.

Asha olhou para os olhos castanhos de Maddie e viu que estavam repletos de afeição. Ela engoliu em seco e respondeu com sinceridade: —

Maddie... não tenho casa, sou pobre e nunca frequentei uma faculdade. Para que mais eu serviria para Kade Harrison além de pintar as paredes dele? —

Ok, talvez ele quisesse fazer sexo com ela, mas Asha não achava que a atenção dele iria além disso. Não mesmo.

— Eu era pobre quando encontrei Sam novamente. Estava cheia de dívidas por causa dos empréstimos estudantis e não tinha um centavo sobrando porque queria ter uma clínica gratuita. Nada disso importa se o destino quiser que fiquem juntos. Você é talentosa e corajosa. É uma sobrevivente. Nunca pense que não é boa o suficiente. — Maddie deixou as mãos caírem e ergueu a sobrancelha. — Você gosta dele.

— Quem não gostaria? — perguntou Asha, abrindo um sorriso leve. —

Ele é bonito, inteligente, doce e veste camisas maravilhosas.

— Ai, meu Deus. Você gosta das camisas dele? Isso não é bom —

resmungou Maddie.

— Como era a namorada dele? Acho que ela o magoou — perguntou Asha incapaz de se conter.

— Ela era uma vadia nota 10 — respondeu Maddie com raiva. —

Quando Kade era uma estrela do futebol, era maior do que a vida. Sam diz que ele foi um dos melhores jogadores de nossa geração. Poderia ter a mulher que quisesse, mas permaneceu fiel durante anos a uma mulher que não queria nada além do status de celebridade dele para avançar na carreira de modelo. Ela terminou tudo bem depressa quando ele não pôde mais ajudar na visibilidade dela nos círculos da moda. Ele é um homem bom.

Acho que nenhum de nós entende por que ele ficou com ela. Talvez fosse por hábito ou por que não conhecia mais nada. Perder a carreira e ser chutado porque não era mais perfeito provavelmente acabou com a autoestima dele. Ele tem o mesmo histórico familiar horrível de Mia. Não merecia o que aconteceu com ele.

— A infância dele foi ruim? — perguntou Asha hesitante, sabendo que aquilo não era de sua conta, mas ainda assim querendo saber. Kade não falara sobre a infância. Falara sobre a família, mas a maioria dos eventos sobre os quais contara era recente.

Maddie fez um careta. — Ruim? A infância dele faz com que a nossa pareça o paraíso. O pai dele era um louco que bebia. Kade, Mia e Travis sofreram muitos abusos. Um dia, o pai deles matou a mãe e depois se suicidou. Foi um grande escândalo e um estigma que ainda volta à tona de vez em quando. É um incidente do qual todos eles têm dificuldades em se livrar.

Asha sentiu o peito doer, quase como se conseguisse sentir a dor do passado de Kade. Houve um silêncio quando as duas se encararam, um momento de comunicação silenciosa em que sabiam o que a outra pensava: a vida não era justa e, algumas vezes, coisas muito ruins aconteciam com pessoas boas.

Finalmente, Asha disse em tom tímido: — Maddie.

— Sim? — respondeu Maddie, olhando para Asha interrogativamente.

— Ainda acho que Kade é um homem maravilhoso. A perna dele não importa. Detesto o fato de que ele não faz o que ama e lamento que sinta dor na perna. Mas ainda é o mesmo homem e ele é esplêndido — disse Asha, suspirando.

Maddie colocou as mãos na cintura e olhou para Asha com expressão divertida. — Você gosta dele. Mas lembre-se, ele é um homem e é impossível que seja perfeito.

— Você não acha que Sam seja perfeito?

— Ai, nossa, não! Ele é arrogante, mandão e muito superprotetor. E eu lembro isso a ele com frequência — respondeu Maddie, rindo. — Mas ele é também o homem que roubou meu coração e não quis devolver. Minha alma gêmea. Ele é gentil, amoroso e não há nada que não faça para me deixar feliz. E vice-versa. Então, não... ele não é perfeito. Mas é perfeito para mim.

Asha estudou os olhos sonhadores e a expressão de adoração de Maddie, feliz por ela finalmente ter encontrado o homem de seus sonhos. — Eu gostaria de conhecê-lo um dia.

— Você conhecerá. Em breve — prometeu Maddie. — Ele também está ansioso para conhecer você. Mas ficou com receio de que fosse um pouco demais para você. O irmão de Sam é casado com a minha melhor amiga.

Simon e Kara também querem conhecer você quando se sentir mais confortável.

— Ei, onde estão vocês duas? Já estamos comendo — gritou Max do andar inferior.

Maddie e Asha se entreolharam e riram. Max parecia um urso furioso pronto para saltar sobre a comida.

— Você está bem? — perguntou Maddie, colocando o braço em volta dos ombros de Asha. — Sei que isto tudo é novo para você e provavelmente muito confuso.

— Estou bem — respondeu Asha com sinceridade. — Na verdade, estou ansiosa para pintar algumas das paredes desta casa. Acho que ainda tenho um pequeno conflito cultural, presa entre a forma como fui criada e o que realmente quero. Desejo ser independente e forte, mas estou lutando com a bagagem do passado.

— Tudo ficará bem, Asha. Prometo. Estamos todos aqui para ajudá-la a conseguir o que deseja.

Infelizmente, Asha não sabia se era um caso de “o que deseja” ou de “quem deseja”, mas não diria aquilo a Maddie. Ainda tinha um longo caminho a percorrer até que aquela borboleta emergisse e ficasse livre.

As duas andaram devagar em direção ao topo da escada e Asha segurou gentilmente o braço de Maddie antes de descerem. — Há alguma forma de descobrirmos com certeza, sem nenhuma margem de erro, que somos mesmo irmãs?

Maddie franziu a testa ao estudar o rosto de Asha. — Eu sei que você é minha irmã.

— Eu quero saber com certeza. Podemos fazer isso? — Se alguém saberia, era Maddie. Ela era médica e saberia se havia uma forma de obter provas científicas.

— Podemos fazer o teste de DNA mitocondrial, já que estamos tentando descobrir apenas se temos a mesma mãe. Mas já sabemos que sim — disse Maddie em tom confuso. — Não preciso de mais provas, Asha. Eu me sinto da mesma forma que Max e temos provas suficientes.

— Acho que é difícil para mim acreditar — disse Asha, balançando a cabeça.

Maddie passou a mão nos cabelos pretos de Asha, prendendo um cacho rebelde atrás da orelha. — Podemos fazer o teste. Eu já sei qual será o resultado porque é o que sinto. Espero que algum dia você também sinta.

Asha sentia, mas tinha medo de acreditar em alguma coisa que não podia provar de forma científica. Ela queria dizer a Maddie que já se sentia como sua irmã, que a ligação já existia. Mas a incerteza ainda estava lá e ela a odiava. Por que não podia acreditar no instinto? Talvez porque nunca tivesse dado ouvidos a ele?

— Não faz mal. Faremos o teste — disse Maddie em tom gentil, começando a descer a escada com o braço sobre os ombros de Asha. —

Peça a Kade que a leve até a clínica e cuidaremos de tudo.

— Eu sei que é idiota pedir isso...

— Não, não é — retrucou Maddie. — Nunca se sinta idiota por pedir algo que deseja. Você tem direito aos próprios sentimentos. E nunca deixe que ninguém lhe diga o contrário.

Asha sorriu ao ouvir o tom maternal de Maddie, sabendo imediatamente que a irmã seria uma excelente mãe. Os filhos dela seriam fortes, corajosos... e seguros. — Tentarei me lembrar disso — respondeu ela, abrindo um sorriso.

— Sim, lembre-se — respondeu Maddie, abraçando Asha com força quando chegaram ao pé da escada. — Faremos o teste, mas você é minha irmã. Então, é melhor se acostumar com meus conselhos não solicitados.

As duas mulheres sorriram uma para a outra, sentindo a ligação entre elas cada vez mais forte.

— Já estava na hora — resmungou Max ao sair da sala de jantar e passar um braço sobre os ombros das duas irmãs. — Eu estava prestes a morrer de fome — continuou ele em tom melodramático.

— Vejo que conseguiu permanecer vivo — respondeu Maddie secamente ao abraçar a cintura de Max. — Vocês podiam ter começado sem nós.

— Claro, nenhuma gratidão pela forma como eu e Kade trabalhamos feito escravos na cozinha — resmungou ele em tom brincalhão.

Asha sentiu o coração leve enquanto continuava a observar a discussão entre Max e Maddie. Silenciosamente, ela colocou devagar o braço em volta da cintura de Max, começando a sentir que fazia parte da família.

— Você também vai ser ingrata, Asha? — perguntou Max, sorrindo para ela enquanto os três andavam na direção da sala de jantar.

Asha achou a pergunta divertida. Era algo que nunca tivera. — Depende se o jantar estará gostoso — respondeu ela, experimentando a implicância

leve pela primeira vez.

— Ótimo. Agora estou mesmo encrencado. Duas irmãs contra mim — resmungou Max, mas o tom alegre deixou as palavras leves.