O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 10 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Crystalisações

A Bettencourt Rodrigues

Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros, Vibra uma immensa claridade crua.

De cocaras, em linha os calceteiros,

Com lentidão, terrosos e grosseiros,

Calcam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações seccaram do relento, E o descoberto sol abafa e cria!

A frialdade exige o movimento;

E as poças d'agua, como em chão vidrento, Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita, Disseminadas, gritam as peixeiras;

Luzem, aquecem na manhã bonita,

Uns barracões de gente pobresita.

E uns quintalorios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora! Tomam por outra parte os viandantes;

E o ferro e a pedra—que união sonora!— Retinem alto pelo espaço fóra,

Com choques rijos, asperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços, Cuja columna nunca se endireita,

Partem penedos; cruzam-se estilhaços.

Pesam enormemente os grossos maços, Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes! Que espessos forros! N'uma das regueiras Acamam-se as japonas, os colletes:

E elles descalçam com os picaretes,

Que ferem lume sobre pederneiras.

E n'esse rude mez, que não consente as flores, Fundêam, como a esquadra em fria paz, As arvores despidas. Sobrias côres!

Mastros, enxarcias, vergas! Valladores

Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio—o grande agente!— Carros de mão, que chiam carregados,

Conduzem saibro, vagarosamente;

Vê se a cidade, mercantil, contente:

Madeiras, aguas, multidões, telhados!

Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria; Em arco, sem as nuvens fluctuantes,

O ceu renova a tinta corredia;

E os charcos brilham tanto, que eu diria Ter ante mim lagôas de brilhantes!

E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos, Eu tudo encontro alegremente exacto.

Lavo, refresco, limpo os meus sentidos. E tangem-me, excitados, sacudidos,

O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem De tão lavada e egual temperatura!

Os ares, o caminho, a luz reagem;

Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;

Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo; Dois assobiam, altas as marretas

Possantes, grossas, temperadas d'aço;

E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço E manso, tira o nivel das valletas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas! Que vida tão custosa! Que diabo!

E os cavadores pousam as enxadas,

E cospem nas callosas mãos gretadas,

Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No panno cru rasgado das camizas Uma bandeira penso que transluz!

Com ella soffres, bebes, agonisas:

Listrões de vinho lançam-lhe divisas,

E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!

D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca, Surge um perfil direito que se aguça;

E ar matinal de quem sahiu da toca,

Uma figura fina, desemboca,

Toda abafada n'um casaco á russa.

D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento E a quem, á noite na plateia, attraio Os olhos lizos como polimento!