O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 6 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Responso

I

N'um castello deserto e solitario,

Toda de preto, ás horas silenciosas,

Envolve-se nas pregas d'um sudario

E chora como as grandes criminosas.

Podesse eu ser o lenço de Bruxellas

Em que ella esconde as lagrimas singellas.

II

E loura como as doces escocezas,

D'uma belleza ideal, quasi indecisa;

Circumda-se de luto e de tristezas

E excede a melancolica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados

E havia de escutar-lhe os seus peccados.

III

Alta noite, os planetas argentados

Deslisam um olhar macio e vago

Nos seus olhos de pranto marejados

E nas aguas mansissimas do lago

Podesse eu ser a lua, a lua terna,

E faria que a noite fosse eterna.

IV

E os abutres e os corvos fazem giros

De roda das ameias e dos pégos,

E nas salas resoam uns suspiros

Dolentes como as supplicas dos cegos.

Fosse eu aquellas aves de pilhagem

E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

V

E ella vaga nas praias rumorosas,

Triste como as rainhas desthronadas,

A contemplar as gondolas airosas,

Que passam, a giorno illuminadas.

Podesse eu ser o rude gondoleiro

E alli é que fizera o meu cruzeiro.

VI

De dia, entre os veludos e entre as sedas, Murmurando palavras afflictivas,

Vagueia nas umbrosas alamedas

E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquellas arvores frondosas

E prendera-lhe as roupas vaporosas.

VII

Ou domina, a rezar, no pavimento

Da capella onde outr'ora se ouviu missa,

A musica dulcissima do vento

E o sussuro do mar, que s'espreguiça.

Podesse eu ser o mar e os meus desejos Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

VIII

E ás horas do crepusculo saudosas,

Nos parques com tapetes cultivados,

Quando ella passa curvam-se amorosas

As estatuas dos seus antepassados.

Fosse eu tambem granito e a minha vida Era vêl-a a chorar arrependida.

IX

No palacio isolado como um monge,

Erram as velhas almas dos precítos,

E nas noites de inverno ouvem-se ao longe Os lamentos dos naufragos afflictos.

Podesse eu ter tambem uma procella

E as lentas agonias ao pé d'ella!

X

E ás lages, no silencio dos mosteiros,

Ella conta o seu drama negregado, E o vasto carmesim dos resposteiros

Ondula como um mar ensanguentado.

Fossem aquellas mil tapeçarias

Nossas mortalhas quentes e sombrias.

XI

E assim passa, chorando, as noites bellas, Sonhando nos tristes sonhos doloridos,

E a reflectir nas gothicas janellas

As estrellas dos ceus desconhecidos.

Podesse eu ir sonhar tambem comtigo

E ter as mesmas pedras no jazigo!

XII

Mergulha-se em angustias lacrimosas

Nos ermos d'um castello abandonado,

E as proximas florestas tenebrosas

Repercutem um choro amargurado.

Unissemos, nós dois, as nossas covas,

Ó doce castellã das minhas trovas!