O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 16 de 29

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O Livro de Cesário Verde

De Verão

Porem, não arderei aos seus contactos frios, E não me enroscará nos serpentinos braços: Receio supportar febrões e calefrios;

Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

XII

E se uma vez me abrisse o collo transparente, E me osculasse, emfim, flexivel e submisso, Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,

Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

 

DE VERÃO

A Eduardo Coelho

I

No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:

A claridade, a robustez, a acção.

Esta manhã, saí com minha prima,

Em que eu noto a mais sincera estima

E a mais completa e séria educação.

II

Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro

Da lyrica excursão, d'intimidade

Não pinto a velha ermida com seu adro;

Sei só desenho de compasso e esquadro,

Respiro industria, paz, salubridade.

III

Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;

E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?

Apaga o teu cachimbo junto ás eiras;

Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!

Quando me alegra a calma das debulhas!»

IV

E perguntavas sobre os ultimos inventos

Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!

Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!

Olha: Os saloios vivos, corpulentos,

Como nos fazem grandes barretadas!

V

Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens

Dos olivaes escuros. Onde irás?

Regressam os rebanhos das pastagens;

Ondeiam milhos, nuvens e miragens,

E, silencioso, eu fico para traz.

VI

N'uma collina azul brilha um logar caiado.

Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,

Com teu chapéo de palha, desabado,

Tu continúas na azinhaga; ao lado

Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

VII

N'isto, parando, como alguem que se analysa,

Sem desprender do chão teus olhos castos,

Tu começaste, harmonica, indecisa,

A arregaçar a chita, alegre e lisa

Da tua cauda um poucochinho a rastos.

VIII

Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;

O sol abrasa as terras já ceifadas,

E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,

Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,

As saias curtas, frescas, engommadas.

IX

E, como quem saltasse, extravagantemente,

Um rego d'agua sem se enxovalhar,

Tu, a austera, a gentil, a intelligente,

Depois de bem composta, déste á frente

Uma pernada comica, vulgar!

X

Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!

No atalho enxuto, e branco das espigas

Caidas das carradas no salmejo,

Esguio e a negrejar em um cortejo,

Destaca-se um carreiro de formigas.

XI

Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,

Na natureza trémula de sede,

Arrastam bichos, uvas e sementes;

E atulha, por instincto, previdentes,

Seus antros quasi occultos na parede.

XII

E eu desatei a rir como qualquer macaco!

«Tu não as esmagares contra o solo!»

E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,

Eu de jasmim na casa do casaco

E d'oculo deitado a tiracolo!

XIII

«As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora

Um sublimado corrosivo, uns pós

De solimão, eu, sem maior demora,

Envenenal-as-hia! Tu, por ora,

Preferes o romantico ao feroz.

XIV

Que compaixão! Julgava até que matarias

Esses insectos importunos! Basta.

Merecem-te espantosas sympathias?

Eu felicito suas senhorias,

Que honraste com um pulo de gymnasta!»

XV

E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros

Luziam, com doçura, honestamente;

De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,

Lembravam-me fusões d'immensos oiros,

E o mar um prado verde e florescente.

XVI

Vibravam, na campina, as chocas da manada;

Vinham uns carros a gemer no outeiro,

E finalmente, energica, zangada,

Tu inda assim bastante envergonhada,

Volveste-me, apontando o formigueiro:

XVII

«Não me incommode, não, com ditos detestaveis!

Não seja simplesmente um zombador!

Estas mineiras negras, incançaveis,

São mais economistas, mais notaveis,

E mais trabalhoras que o senhor.»