O Livro de Cesário Verde
Capítulo II
Do seio do logar—casitas com postigos— Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro. Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro, Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos!
Nós davamos, os dois, um giro pelo valle: Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos! E os fartos animaes, ao recolher dos pastos, Roçavam pelo teu «costume de percale».
Já não receias tu essa vaquita preta,
Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro Que estavas a tremer, cosida com o muro, Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!
II
OS IRMÃOSINHOS
Pois eu, que no deserto dos caminhos,
Por ti me expunha immenso, contra as vaccas; Eu, que apartava as mansas das velhacas, Fugia com terror dos pobresinhos!
Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço!
Os velhos, que nos rezam padre-nossos; Os mandriões que rosnam, altos, grossos; E os cegos que se apoiam sobre o moço.
Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros,
Ou que a poeira no suor mascarra, Chegam das feiras a tocar guitarra,
Rolam os olhos como dois escarros!
E os pobres mettem medo! Os de marmita, Para forrar, por anno, alguns patacos,
Entrapam-se nas mantas com buracos,
Choramingando, a voz rachada, afflicta.
Outros pedincham pelas cinco chagas;
E no poial, tirando as ligaduras,
Mostram as pernas putridas, maduras,
Com que se arrastam pelas azinhagas!
Querem viver! E picam-se nos cardos;
Correm as villas; sobem os outeiros;
E ás horas de calor, nos esterqueiros,
De roda d'elles zumbem os moscardos.
Aos sabbados, os monstros, que eu lamento, Batiam ao portão com seus cajados;
E um aleijado com os pés quadrados,
Pedia-nos de cima de um jumento.
O resmungão! Que barbas! Que saccolas! Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
Dormia as noutes por telheiros rotos,
E sustentava o burro a pão d'esmolas.
* * * * *
Ó minha loura e doce como um bolo!
Affavel hospeda na nossa casa, Logo que a torrida cidade abraza,
Como um enorme fôrno de tijolo!
Tu visitavas, esmoler, garrida,
Umas creanças n'um casal queimado;
E eu, pela estrada, espicaçava o gado,
N'uma attitude esperta e decidida.
Por lobishomens, por papões, por bruxas, Nunca soffremos o menor receio.
Temieis vós, porém, o meu aceio,
Mendigasitas sordidas, gorduchas!
Vicios, sezões, epidemias, furtos,
De certo, fermentavam entre lixos;
Que podridão cobria aquelles bichos!
E que luar nos teus fatinhos curtos!
* * * * *
Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos, Ruça, descalça, a trote nos atalhos,
E que lavava o corpo e os seus retalhos
No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.
E a douda a quem chamavam a «Ratada» E que fallava só! Que antipathia!
E se com ella a malta contendia,
Quanta indecencia! Quanta palavrada!
Uns operarios, n'estes descampados,
Tambem surdiam, de chapeu de côco, Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,