O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 23 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Capítulo II

Do seio do logar—casitas com postigos— Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro. Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro, Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos!

Nós davamos, os dois, um giro pelo valle: Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos! E os fartos animaes, ao recolher dos pastos, Roçavam pelo teu «costume de percale».

Já não receias tu essa vaquita preta,

Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro Que estavas a tremer, cosida com o muro, Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!

 

II

OS IRMÃOSINHOS

Pois eu, que no deserto dos caminhos,

Por ti me expunha immenso, contra as vaccas; Eu, que apartava as mansas das velhacas, Fugia com terror dos pobresinhos!

Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço!

Os velhos, que nos rezam padre-nossos; Os mandriões que rosnam, altos, grossos; E os cegos que se apoiam sobre o moço.

Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros,

Ou que a poeira no suor mascarra, Chegam das feiras a tocar guitarra,

Rolam os olhos como dois escarros!

E os pobres mettem medo! Os de marmita, Para forrar, por anno, alguns patacos,

Entrapam-se nas mantas com buracos,

Choramingando, a voz rachada, afflicta.

Outros pedincham pelas cinco chagas;

E no poial, tirando as ligaduras,

Mostram as pernas putridas, maduras,

Com que se arrastam pelas azinhagas!

Querem viver! E picam-se nos cardos;

Correm as villas; sobem os outeiros;

E ás horas de calor, nos esterqueiros,

De roda d'elles zumbem os moscardos.

Aos sabbados, os monstros, que eu lamento, Batiam ao portão com seus cajados;

E um aleijado com os pés quadrados,

Pedia-nos de cima de um jumento.

O resmungão! Que barbas! Que saccolas! Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;

Dormia as noutes por telheiros rotos,

E sustentava o burro a pão d'esmolas.

* * * * *

Ó minha loura e doce como um bolo!

Affavel hospeda na nossa casa, Logo que a torrida cidade abraza,

Como um enorme fôrno de tijolo!

Tu visitavas, esmoler, garrida,

Umas creanças n'um casal queimado;

E eu, pela estrada, espicaçava o gado,

N'uma attitude esperta e decidida.

Por lobishomens, por papões, por bruxas, Nunca soffremos o menor receio.

Temieis vós, porém, o meu aceio,

Mendigasitas sordidas, gorduchas!

Vicios, sezões, epidemias, furtos,

De certo, fermentavam entre lixos;

Que podridão cobria aquelles bichos!

E que luar nos teus fatinhos curtos!

* * * * *

Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos, Ruça, descalça, a trote nos atalhos,

E que lavava o corpo e os seus retalhos

No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.

E a douda a quem chamavam a «Ratada» E que fallava só! Que antipathia!

E se com ella a malta contendia,

Quanta indecencia! Quanta palavrada!

Uns operarios, n'estes descampados,

Tambem surdiam, de chapeu de côco, Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,