O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 8 de 29

Páginas do PDF

O Livro de Cesário Verde

A Debil

Eu, que sou feio, solido, leal,

A ti, que és bella, fragil, assustada,

Quero estimar-te, sempre, recatada

N'uma existencia honesta, de crystal.

Sentado á mesa d'um café devasso,

Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,

N'esta Babel tão velha e corruptora,

Tive tenções de offerecer-te o braço.

E, quando soccorreste um miseravel,

Eu, que bebia calices d'absintho,

Mandei ir a garrafa, porque sinto

Que me tornas prestante, bom, saudavel.

«Ella ahi vem!» disse eu para os demais; E puz-me a olhar, véxado e suspirando,

O teu corpo que pulsa, alegre e brando,

Na frescura dos linhos matinaes.

Via-te pela porta envidraçada;

E invejava,—talvez que o não suspeites!— Esse vestido simples, sem enfeites,

N'essa cintura tenra, immaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarcha.

Triste eu sahi. Doía-me a cabeça;

Uma turba ruidosa, negra, espessa,

Voltava das exequias d'um monarcha.

Adoravel! Tu muito natural

Seguias a pensar no teu bordado;

Avultava, n'um largo arborisado,

Uma estatua de rei n'um pedestal.

Sorriam nos seus trens os titulares;

E ao claro sol, guardava-te, no entanto,

A tua boa mãe, que te ama tanto,

Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito

A limpidez do teu semblante grego;

E uma familia, um ninho de socego,

Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegancia e sem ostentação,

Atravessavas branca, esvelta e fina,

Uma chusma de padres de batina,

E d'altos funccionarios da nação.

«Mas se a atropella o povo turbolento!

Se fosse, por acaso, alli pisada!»

De repente, paraste embaraçada

Ao pé d'um numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes faceis esbocetos,

Julguei vêr, com a vista de poeta,

uma pombinha timida e quieta

N'um bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu homem varonil,

Quiz dedicar-te a minha pobre vida, A ti, que és tenue, docil, reconhecida,