O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 12 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Sardenta

MERINA

Rosto comprido, airosa, angelical, macia, Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada, Mais alva que o luar de inverno que me esfria, Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada; Sob os abafos bons que o Norte escolheria, Com seu passinho curto e em suas lãs forrada, Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.

 

SARDENTA

Tu, n'esse corpo completo,

Ó lactea virgem doirada,

Tens o lymphatico aspecto

D'uma camelia melada.

 

FLORES VELHAS

Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,

Aonde tanta vez a luz nos beijou,

E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste, Soberba como um sol, serena como um vôo.

Em tudo scintillava o limpido poema

Com osculos rimado ás luzes dos planetas; A abelha inda zumbia em torno da alfazema; E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem, A imagem que inspirava os castos madrugaes; E as virações, o rio, os astros, a pasizagem, Traziam-me á memoria idyllios immortaes.

Diziam-me que tu, no florido passado,

Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas, Aquelle teu olhar moroso e delicado,

Que fala de languor e d'emoções mimosas;

E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura, Que não me desgostou nem uma vez sequer, Eu não sabia haurir do calix da ventura

O nectar que nos vem dos mimos da mulher.

Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores, Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes; As falas quasi irmãs do vento com as flores E a molle exhalação das varzeas rescendentes.

Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas No ninho de affeições creado para ti,

Por entre o riso claro, e as vozes das creanças, E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas, Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas, E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

E nosso bom romance escripto n'um desterro, Com beijos sem ruido em noites sem luar, Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro, Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas Nos bancos de tijolo em musgo atapetados, E eu não beijarei, ás horas somnolentas, Os dedos de marfim, polidos e delgados…

Eu, por não ter sabido amar os movimentos Da estrophe mais ideal das harmonias mudas, Eu sinto as decepções e os grandes desalentos E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

E tudo emfim passou, passou como uma penna, Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes, E aquella doce vida, aquella vida amena, Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!

Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante! Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado, A areia em que rangia a saia roçagante,

Que foi na minha vida o ceo aurirosado,

Eu tinha tão impresso o cunho da saudade, Que as ondas que formei das suas illusões Fizeram-me enganar na minha soledade

E as azas ir abrindo ás minhas impressões.

Soltei com devoção lembranças inda escravas, No espaço construi phantasticos castellos, No tanque debrucei-me em que te debruçavas, E onde o luar parava os raios amarellos.