O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 2 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Capítulo I

 

CRISE ROMANESCA

 

DESLUMBRAMENTOS

Milady, é perigoso contemplal-a,

Quando passa aromatica e normal,

Com seu typo tão nobre e tão de sala,

Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que n'isso a desgoste ou desenfade, Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas, Eu vejo-a, com real solemnidade,

Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me attrae como um thesoiro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de oiro

E o seu nevado e lucido perfil!

Ah! Como m'estontêa e me fascina…

E é, na graça distincta do seu porte, Como a Moda superflua e feminina,

E tão alta e serena como a Morte!…

Eu hontem encontrei-a, quando vinha,

Britannica, e fazendo-me assombrar;

Grande dama fatal, sempre sósinha,

E com firmeza e musica no andar!

O seu olhar possue, n'um fogo ardente,

Um archanjo e um demonio a illuminal-o; Como um florete, fere agudamente,

E afaga como o pello d'um regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos, O modo diplomatico e orgulhoso

Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.

E emfim prosiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramatica, cortante;

Que eu procuro fundir na minha chamma Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,

Que hão-de acabar os barabaros reaes;

E os povos humilhados, pela noite,

Para a vingança aguçam os punhaes.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o setim do Azul e as andorinhas,

Eu hei-de ver errar, allucinadas,

E arrastando farrapos—as rainhas!