O Livro de Cesário Verde
Manhans Brumosas
Toda a maré luzida como escamas,
Como alguidar de prateados peixes.
E como é necessario que eu me afoite
A perder-me de ti por quem existo,
Eu fui passar ao campo aquella noite
E andei leguas a pé, pensando n'isto.
E tu que não serás sómente minha,
Ás caricias leitosas do luar,
Recolheste-te, pallida e sósinha
Á gaiola do teu terceiro andar!
MANHANS BRUMOSAS
Aquella, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, bucolica, morena, Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas, —Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!— Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas; E o meu desejo nada em epoca de banhos, E, ave de arribação, elle enche de surprezas Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.