O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 14 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Manhans Brumosas

Toda a maré luzida como escamas,

Como alguidar de prateados peixes.

E como é necessario que eu me afoite

A perder-me de ti por quem existo,

Eu fui passar ao campo aquella noite

E andei leguas a pé, pensando n'isto.

E tu que não serás sómente minha,

Ás caricias leitosas do luar,

Recolheste-te, pallida e sósinha

Á gaiola do teu terceiro andar!

 

MANHANS BRUMOSAS

Aquella, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, bucolica, morena, Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas, —Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!— Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas; E o meu desejo nada em epoca de banhos, E, ave de arribação, elle enche de surprezas Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.