O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 3 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Septentrional

Talvez já te esquecesses, ó bonina,

Que viveste no campo só commigo,

Que te osculei a bocca purpurina,

E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste commigo da Babel,

Mulher como não ha nem na Circassia,

Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,

E regámos com prantos uma acacia.

Talvez já te não lembres com desgosto

D'aquellas brancas noites de mysterio,

Em que a lua sorria no teu rosto

E nas lages que estão no cemiterio.

Quando, á brisa outoniça, como um manto, Os teus cabellos d'ambar desmanchados, Se prendiam nas folhas d'um acantho,

Ou nos bicos agrestes dos silvados,

E eu ia desprendel-os, como um pagem

Que a cauda solevasse aos teus vestidos; E ouvia murmurar á doce aragem

Uns delirios d'amor, entristecidos;

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas, Pousarem borbeletas doudejantes

Nas tuas formosissimas madeixas,

D'aquellas côr das messes lourejantes,

E no pomar, nós dois, hombro com hombro, Caminhavamos sós e de mãos dadas,

Beijando os nossos rostos sem assombro, E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos N'um amor grande como um mar sem praias, Ouviamos os meigos dithyrambos,

Que os rouxinoes teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casaes,

Eu comtigo, abraçado como as heras,

Escondidos nas ondas dos trigaes,

Devolvia-te os beijos que me déras;

Quando, se havia lama no caminho,

Eu te levava ao collo sobre a greda,

E o teu corpo nevado como o arminho

Pesava menos que um papel de sêda…

E foste sepultar-te, ó seraphim,

No claustro das Fieis emparedadas,

Escondeste o teu rosto de marfim

No véu negro das freiras resignadas.

E eu passo, tão calado como a Morte,

N'esta velha cidade tão sombria,

Chorando afflictamente a minha sorte

E prelibando o calix da agonia.

E, tristissima Helena, com verdade,

Se podéra na terra achar supplicios, Eu tambem me faria gordo frade