O Livro de Cesário Verde
Capítulo II
E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas, E o peixe pôdre géra os focos de infecção!
II
NOITE FECHADA
Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças, Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!
E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão morbido me sinto, ao accender das luzes; Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes, Chora-me o coração que se enche e que se abysma.
A espaços, illuminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos Alastram em lençol os seus reflexos brancos; E a lua lembra o circo e os jogos malabares.
Duas egrejas, n'um saudoso largo,
Lançam a nodoa negra e funebre do clero: N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo, Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.
Na parte que abateu no terremoto,
Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas; Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas, E os sinos d'um tanger monastico e devoto.