O Livro de Cesário Verde
Capítulo III
Artistas despedidos, desgraçados.
Muitos! E um bebedo—o Camões—que fôra Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
Com uma pala verde sobre um olho!
Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.
E o resto? Bandos de selvagensinhos:
Um nú que se gabava de maroto;
Um, que cortada a mão, coçava o coto,
E os bons que nos tratavam por padrinhos.
Pediam fatos, botas, cobertores!
Outro jogava bem o pau, e vinha
Chorar, humilde, junto da coxinha!
«Cinco réisinhos!… Nobres bemfeitores!…
E quando alguns ficavam nos palheiros,
E de manhã catavam os piolhos:
Emquanto o sol batia nos restolhos
E os nossos cães ladravam, resingueiros!
Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos,
Dos surdos, dos manhosos, dos manetas. Sulcavam as calçadas, de muletas;
Cantavam, no pomar, os pintarroxos!
III
HISTORIAS