O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 28 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Provincianas

Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!

Não sei d'um infortunio immenso como o seu! Vio o seu fim chegar como um medonho muro, E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!

De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo Como tanta crueldade e tantas injustiças, Se inda trabalho é como os presos no degredo, Com planos de vingança e idéas insubmissas.

E agora, de tal modo a minha vida é dura, Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos, Que sinto só desdem pela litteratura,

E até desprézo e esqueço os meus amados versos!

 

PROVINCIANAS

 

I

Olá! Bons dias! Em março

Que mocetona e que joven

A terra! Que amor esparso

Corre os trigos, que se movem

Ás vagas d'um verde garço!

Como amanhece! Que meigas

As horas antes de almoço!

Fartam-se as vaccas nas veigas E um pasto orvalhado e moço

Produz as novas manteigas.

Toda a paizagem se doura;

Tibida ainda, que frecas!

Bella mulher, sim senhora,

N'esta manhã pittoresca,

Primaveral, creadora!

Bom sol! As sebes d'encosto

Dão madresilvas cheirosas

Que entotecem como um mosto

Floridas, ás espinhosas

Subio-lhes o sangue ao rosto.

Cresce o relevo dos montes,

Como seios offegantes;

Murmuram como umas fontes

Os rios que dias antes

Bramiam galgando pontes.

E os campos, milhas e milhas,

Com póvos d'espaço a espaço,

Fazem-se ás mil maravilhas;

Dir-se-ia o mar de sargaço

Glauco, ondulante, com ilhas!

Pois bem. O inverno deixou-nos.

É certo. E os grãos e as sementes

Que ficam d'outros outonos

Acordam hoje frementes

Depois d'uns poucos de somnos.

Mas nem tudo são descantes

Por esses longos caminhos

Entre favaes palpitantes

Há solos bravos, maninhos,

Que expulsam seus habitantes!

E n'esta quadra d'amores

Que emigram os jornaleiros

Ganhões e trabalhadores!

Passam clans de forasteiros

Nas terras de lavradores.

Tal como existem mercados

Ou feiras, semanalmente

Para comprarmos os gados

Assim ha praças de gente

Pelos domingos calados!

Emquanto a ovelha arredonda,

Vão tribus de sete filhos,

Por varzeas que fazem onda,

Para as derregas dos milhos

E molhadellas da monda.

De roda pulam borregos;

Enchem então as cardosas

As moças d'esses labregos

Com altas botas bartrosas

De se atirarem aos regos!

Eil-as que vem ás manadas

Com caras de soffrimento, Nas grandes marchas forçadas!