O Livro de Cesário Verde
Frigida
As irlandezas teem soberbos desmazelos! Ella descobre assim, com lentidões ufanas, Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos; E como aquellas são maritimas, serranas, Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas, Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos, Botões a tiracollo e applicações vermelhas; E á roda, n'um paiz de prados e barrancos, Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas, Correm os seus desdens, como vitellos brancos.
E aquella, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, catholica, morena, Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.
FRIGIDA
I
Balzac é meu rival, minha senhora ingleza! Eu quero-a porque odeio as carnações redondas! Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.
II
Admiro-a. A sua longa e placida estatura
Expõe a magestade austera dos invernos. Não cora no seu todo a timida candura;
Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.
III
Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante, N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!… Ninguem me prende assim, funebre, extravagante, Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!
IV
Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite, Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca; Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite, É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!
V
Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso, Ó gelida mulher bizarramente estranha,
E tremulo depor os labios no seu pulso,
Entre a macia luva e o punho de bretanha!…
VI
Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
Ao encarar comsigo a phantasia pasma; Pausadamente lembra o silvo das giboias E a marcha demorada e muda d'um phantasma.
VII
Metallica visão que Charles Baudelaire
Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos, Permitta que eu lhe adule a distincção que fere, As curvas de magreza e o lustre dos adornos!
VIII
Deslise como um astro, uma astro que declina; Tão descançada e firme é que me desvaria, E tem a lentidão d'uma corveta fina
Que nobremente vá n'um mar de calmaria.
IX
Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge, No bosque das ficções, ó grande flor do Norte! E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe O socegado espectro angelico da Morte!
X
O seu vagar occulta uma elasticidade
Que deve dar um gosto amargo e deleitoso, E a sua glacial impassibilidade
Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.