O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 15 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Frigida

As irlandezas teem soberbos desmazelos! Ella descobre assim, com lentidões ufanas, Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos; E como aquellas são maritimas, serranas, Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas, Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos, Botões a tiracollo e applicações vermelhas; E á roda, n'um paiz de prados e barrancos, Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas, Correm os seus desdens, como vitellos brancos.

E aquella, cujo amor me causa alguma pena, Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda, E com a forte voz cantada com que ordena, Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda, Por entre o campo e o mar, catholica, morena, Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.

 

FRIGIDA

I

Balzac é meu rival, minha senhora ingleza! Eu quero-a porque odeio as carnações redondas! Mas elle eternisou-lhe a singular belleza

E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.

II

Admiro-a. A sua longa e placida estatura

Expõe a magestade austera dos invernos. Não cora no seu todo a timida candura;

Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

III

Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante, N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!… Ninguem me prende assim, funebre, extravagante, Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

IV

Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite, Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca; Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite, É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

V

Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso, Ó gelida mulher bizarramente estranha,

E tremulo depor os labios no seu pulso,

Entre a macia luva e o punho de bretanha!…

VI

Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.

Ao encarar comsigo a phantasia pasma; Pausadamente lembra o silvo das giboias E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

VII

Metallica visão que Charles Baudelaire

Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos, Permitta que eu lhe adule a distincção que fere, As curvas de magreza e o lustre dos adornos!

VIII

Deslise como um astro, uma astro que declina; Tão descançada e firme é que me desvaria, E tem a lentidão d'uma corveta fina

Que nobremente vá n'um mar de calmaria.

IX

Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge, No bosque das ficções, ó grande flor do Norte! E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe O socegado espectro angelico da Morte!

X

O seu vagar occulta uma elasticidade

Que deve dar um gosto amargo e deleitoso, E a sua glacial impassibilidade

Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

XI