O Livro de Cesário Verde

Cesário Verde · Capítulo 20 de 29

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O Livro de Cesário Verde

Capítulo IV

Que grande cobra, a lubrica pessoa,

Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo! Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo, Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquella velha, de bandós! Por vezes,

A sua traîne imita um leque antigo, aberto, Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto, Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;

Plantas ornamentaes seccam nos mostradores; Flócos de pós de arroz pairam suffocadores, E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,

Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco; Da solidão regouga um cauteleiro rouco;

Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.

«Dó da miseria!… Compaixão de mim!…» E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso, Meu velho professor nas aulas de latim!

 

IV

HORAS MORTAS

O tecto fundo de oxygenio, d'ar,

Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;

Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras, Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos! Um parafuso cáe nas lages, ás escuras:

Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras, E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta A dupla correnteza augusta das fachadas; Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas, As notas pastoris de uma longiqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Esqueço-me a prever castissimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,

Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!

Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, N'umas habitações translucidas e frageis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,

E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes, Nós vamos explorar todos os continentes E pelas vastidões aquaticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,

Sem arvores, no valle escuro das muralhas!… Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.