O Livro de Cesário Verde
Capítulo IV
Que grande cobra, a lubrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo! Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo, Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
E aquella velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto, Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto, Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.
Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentaes seccam nos mostradores; Flócos de pós de arroz pairam suffocadores, E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,
Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco; Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.
«Dó da miseria!… Compaixão de mim!…» E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso, Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso, Meu velho professor nas aulas de latim!
IV
HORAS MORTAS
O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras, Enleva-me a chimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos! Um parafuso cáe nas lages, ás escuras:
Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras, E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.
E eu sigo, como as linhas de uma pauta A dupla correnteza augusta das fachadas; Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas, As notas pastoris de uma longiqua flauta.
Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Esqueço-me a prever castissimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, N'umas habitações translucidas e frageis.
Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes, Nós vamos explorar todos os continentes E pelas vastidões aquaticas seguir!
Mas se vivemos, os emparedados,
Sem arvores, no valle escuro das muralhas!… Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.