O Poder dos Quietos
4. Seria o temperamento determinado pelo destino?
Parte Dois: Sua biologia, sua personalidade?
Parte Dois
Sua biologia, sua personalidade?
4. Seria o temperamento determinado pelo destino?
4
Seria o temperamento determinado pelo destino?
Natureza, criação e a hipótese da orquídea
Algumas pessoas estão mais certas de tudo do que eu de qualquer coisa.
— Robert Rubin, In an Uncertain World
Quase dez anos atrás
São duas da manhã, não consigo dormir e quero morrer.
Normalmente não sou do tipo suicida, mas esta é a noite que antecede um grande discurso e
minha mente está a mil, considerando possibilidades terríveis. E se minha boca ficar seca e eu não conseguir fazer as palavras saírem? E se o público ficar entediado? E se eu vomitar no palco?
Ken, meu namorado (hoje meu marido), me vê revirar-me de um lado para o outro. Ele está
atordoado com a minha aflição. Um ex-agente de paz da ONU, certa vez foi emboscado na Somália, embora eu não acredite que tenha ficado tão assustado quanto eu estou agora.
— Tente pensar em coisas felizes — diz ele, acariciando minha testa. Olho para o teto, as lágrimas rolando. Que coisas felizes? Quem poderia ser feliz em um
mundo de palanques e microfones?
— Há um bilhão de pessoas na China que não estão nem aí para o seu discurso — diz Ken,
com simpatia.
Isso ajudou, por aproximadamente cinco segundos. Viro-me e olho para o despertador. São
seis e meia. Pelo menos a pior parte, a parte da noite anterior, acabou; amanhã, a essa hora, estarei livre. Mas primeiro preciso sobreviver ao dia. Visto-me desconfortavelmente e coloco um casaco. Ken me dá uma garrafinha cheia de licor Baileys. Não sou uma grande beberrona, mas gosto de Baileys porque tem gosto de milk-shake de chocolate.
— Beba isso quinze minutos de começar — diz ele, e me dá um beijo de despedida. Pego o elevador e entro no carro que espera para me transportar ao meu destino, a matriz de
uma grande corporação em Nova Jersey. A viagem me dá bastante tempo para me perguntar como entrei naquela situação. Recentemente deixei o emprego de advogada em Wall Street para abrir minha própria firma de consultoria. Na maior parte do tempo trabalhei com apenas uma pessoa ou em grupos pequenos, o que acho confortável. Mas quando um conhecido que é conselheiro-geral de uma grande companhia de mídia me pediu para dar um seminário para toda a sua equipe de executivos, concordei — e de forma entusiástica! —, por razões que não consigo recordar agora. Me pego rezando por um desastre — uma enchente ou talvez um pequeno terremoto —, qualquer coisa que me impeça de passar por aquilo. Então me sinto culpada por envolver o resto da cidade no meu drama.
O carro para no escritório do cliente e eu desço, tentando projetar a animada autoconfiança
de um consultor de sucesso. O organizador do evento me acompanha até o auditório. Peço indicações de onde fica o banheiro e na privacidade da cabine bebo um gole da garrafinha. Fico parada por alguns instantes, esperando que o álcool faça a sua mágica. Mas nada acontece — ainda estou aterrorizada. Talvez deva tomar outro gole. Não, são apenas nove da manhã — e se eles conseguirem sentir o cheiro de álcool no meu hálito? Retoco o meu batom e volto ao salão de eventos, onde arrumo minhas anotações no pódio, enquanto o salão se enche de homens e mulheres de negócios de aparência importante. O que quer que você faça, tente não vomitar , digo a mim mesma.
Alguns dos executivos olham para mim, mas a maioria tem o olhar fixo em seus
BlackBerrys. Claramente, estou retirando-os de trabalhos muito importantes. Como vou segurar sua atenção por tempo suficiente para que eles parem de digitar comunicados urgentes em suas pequenas máquinas de escrever? Eu juro, ali mesmo, que nunca farei outro discurso.
Bem, desde então, já fiz vários deles. Não superei completamente minha ansiedade, mas
com os anos descobri estratégias que podem ajudar qualquer um com medo de palco que precise falar em público. Mais sobre isso no capítulo 5.
Nesse meio-tempo, contei a você minha história de terror abjeto, pois ela é o centro de
algumas das minhas questões mais urgentes sobre introversão. Em algum nível profundo, meu medo de falar em público parece conectado a outros aspectos da minha personalidade que aprecio, principalmente meu amor por todas as coisas suaves e cerebrais. Isso me parece uma constelação de características que não são incomuns. Mas será que elas estão realmente conectadas? E se estiverem, como isso acontece? São elas resultado da “criação” — o modo como fui criada? Tanto meu pai quanto minha mãe são tipos de fala mansa e reflexivos; minha mãe também detesta falar em público. Ou são minha “natureza” — algo profundo na minha herança genética?
Tenho lidado com essas questões durante toda a minha vida adulta. Felizmente, os
pesquisadores de Harvard têm feito o mesmo, e lá, cientistas estão testando o cérebro humano em uma tentativa de descobrir as origens biológicas do temperamento humano.
Um desses cientistas é um homem de 82 anos chamado Jerome Kagan, um dos grandes
psicólogos do desenvolvimento do século XX. Kagan devotou sua carreira a estudar o desenvolvimento emocional e cognitivo de crianças. Em uma série de estudos longitudinais inovadores, ele acompanhou crianças da infância até a adolescência, documentando suas fisiologias e personalidades ao longo do tempo. Estudos longitudinais como esse consomem muito tempo, são caros e, por isso, raros — mas quando dão resultados, como os de Kagan, compensam o investimento.
Para um desses estudos, lançado em 1989, o professor Kagan e sua equipe reuniram quinhentos bebês de quatro meses em seu Laboratório para o Desenvolvimento Infantil em Harvard, prevendo que conseguiriam dizer, depois de uma avaliação de 45 minutos, quais bebês tinham maior probabilidade de se tornarem introvertidos ou extrovertidos. Se você tiver visto um bebê de quatro meses recentemente, isso pode parecer uma pretensão audaciosa. Mas Kagan vinha estudando o temperamento havia muito tempo e tinha uma teoria.
Ele e sua equipe expuseram os bebês a um conjunto de experiências novas cuidadosamente
escolhido. As crianças ouviam gravações de vozes e de balões explodindo, viam móbiles coloridos dançando diante de seus olhos e inalavam o odor de álcool em cotonetes. Elas tinham reações muito variadas aos novos estímulos. Cerca de 20% chorava forte e mexia fortemente os braços e pernas. Kagan chamou esse grupo de “altamente reativo”. Cerca de 40% permanecia calmo e plácido, mexendo os braços e pernas ocasionalmente, mas sem os movimentos radicais. Os 40% restantes ficavam entre esses dois extremos. Em uma hipótese impressionantemente contraditória, Kagan presumiu que eram os bebês no grupo altamente reativo — com os movimentos radicais — que teriam a maior possibilidade de tornarem-se adolescentes quietos.
Quando tinham dois, quatro, sete e onze anos, muitas das crianças retornaram ao
laboratório de Kagan para testes de acompanhamento de suas reações a novas pessoas e novos eventos. Com a idade de dois anos, as crianças conheciam uma senhora vestindo uma máscara antigás e um jaleco, um homem com uma fantasia de palhaço e um robô controlado por rádio. Aos sete anos, pedia-se que brincassem com crianças que não conheciam. Aos onze, um adulto desconhecido entrevistava-as sobre sua vida pessoal. A equipe de Kagan observava como as crianças reagiam a essas situações estranhas, notando sua linguagem corporal e gravando o quanto riam, falavam e sorriam, e se aquilo era espontâneo. Eles também entrevistaram as crianças e seus pais para saber do que elas gostavam fora do laboratório. Preferiam ter um ou dois amigos próximos a ter uma turma? Gostavam de visitar lugares novos? Corriam riscos ou eram mais cautelosas? Consideravam-se tímidas ou ousadas?
Muitas dessas crianças acabaram se mostrando como Kagan esperava. Os bebês altamente
reativos, os 20% que berravam com o móbile sobre suas cabeças, tinham maior tendência a desenvolver personalidades sérias e cuidadosas. Os bebês pouco reativos — os quietos — tinham maior tendência a se tornar tipos relaxados e confiantes. Alta e baixa reatividade tendiam a corresponder, em outras palavras, à introversão e à extroversão. Como Kagan ponderou em seu livro, Galen’s Prophecy, de 1998 , “as descrições de Carl Jung de introversão e extroversão, escritas há mais de 75 anos, aplicam-se com inquietante exatidão à proporção de nossos adolescentes de alta ou baixa reatividade”.
Kagan descreve dois desses adolescentes, o reservado Tom e o extrovertido Ralph, e as
diferenças entre os dois é impressionante. Tom, que era excepcionalmente tímido quando criança, é bom na escola, atento e quieto, devotado a sua namorada e aos pais, inclinado a preocupar-se e adora aprender sozinho e pensar sobre problemas intelectuais. Ele pretende ser cientista. “Como (...) outros introvertidos famosos que eram tímidos na infância”, escreve Kagan, comparando Tom ao escritor T.S. Eliot e ao matemático e filósofo Alfred North Whitehead, Tom “escolheu a vida da mente”.
Ralph, ao contrário, é relaxado e autoconfiante. Ele toma o entrevistador de Kagan por um
colega, não por uma figura de autoridade 25 anos mais velha. Apesar de Ralph ser muito inteligente, recentemente foi reprovado em inglês e ciências porque não parava de brincar. Mas nada o incomoda muito. Ele admite suas falhas alegremente.
Os psicólogos muitas vezes discutem a diferença entre “temperamento” e “personalidade”.
Temperamento refere-se a padrões comportamentais e emocionais inatos, determinados biologicamente, observáveis em bebês e na primeira infância; personalidade é uma combinação complexa que emerge depois que a influência cultural e as experiências pessoais são jogadas na mistura. Alguns dizem que o temperamento é a fundação e a personalidade é a construção. O trabalho de Kagan ajudou a ligar o temperamento dos bebês aos estilos de personalidade adolescentes como os de Tom e Ralph.
Mas como Kagan sabia que os bebês agitados teriam maior tendência a se tornar
adolescentes cautelosos e reflexivos como Tom, ou que bebês quietos teriam maior tendência a se tornar práticos e pouco afeitos à escola como Ralph? A resposta está em suas fisiologias.
Além de observar o comportamento das crianças em situações estranhas, a equipe de Kagan
mediu taxa cardíaca, pressão, temperatura e outras propriedades do sistema nervoso. Kagan escolheu essas medidas porque se acredita que são controladas por um importante órgão localizado no cérebro chamado amígdala. Ela fica nas profundezas do sistema límbico, uma antiga rede cerebral encontrada até em animais primitivos como ratos e camundongos. Essa rede — às vezes chamada de “cérebro emocional” — é fonte de muitos dos instintos básicos que compartilhamos com esses animais, como o apetite, o desejo sexual e o medo.
A amígdala atua como o painel de controle do cérebro, recebendo informações dos sentidos
e sinalizando para o resto do cérebro e do sistema nervoso como responder. Uma de suas funções é detectar instantaneamente elementos novos e perigosos no ambiente — de um disco d e frisbee no céu a uma serpente — e mandar pelo corpo sinais rápidos que despertam a resposta de bater ou correr. Quando o disco de frisbee parece direcionado para o seu nariz, é a amígdala que faz você se abaixar. Quando a cobra parece pronta para o bote, é a amígdala que garante que você vai fugir.
Kagan levantou a hipótese de que bebês nascidos com uma amígdala especialmente
excitável iriam se contorcer e gritar quando lhes fossem mostrados objetos desconhecidos — e se tornariam crianças com tendência a serem mais vigilantes ao conhecer pessoas novas. E isso é exatamente o que ele descobriu. Em outras palavras, os bebês que movimentavam os braços como punks faziam isso não por serem extrovertidos, mas porque seus corpinhos reagiam fortemente — eles eram altamente reativos — a novas visões, sons e cheiros. Os bebês quietos não ficavam em silêncio porque seriam futuros introvertidos — exatamente o oposto —, mas porque tinham sistemas nervosos que não se incomodavam com novidades.
Quanto mais reativa a amígdala de uma criança, maior tende a ser sua taxa cardíaca, mais seus olhos se dilatam, mais tensas são suas cordas vocais, mais cortisol (o hormônio do estresse) há em sua saliva — mais crepitante ela tende a se sentir quando confrontada com algo novo e estimulante. Enquanto crescem, crianças altamente reativas continuarão a confrontar o desconhecido em diferentes contextos, da primeira visita a um parque de diversões a conhecer novos colegas no primeiro dia no jardim de infância. Tendemos a perceber mais a reação de uma criança a pessoas desconhecidas — Como ela se comporta no primeiro dia de escola? Ela parece insegura em festas de aniversário cheias de pessoas que não conhece? Mas na verdade o que estamos observando é a sensibilidade da criança a novidades em geral, não apenas às pessoas.
A alta e a baixa reatividade provavelmente não são as duas únicas rotas biológicas até a
introversão e a extroversão. Há muitos introvertidos que não possuem a sensibilidade de um altamente reativo clássico, e uma pequena porcentagem dos altamente reativos torna-se extrovertida quando cresce. Mesmo assim, as descobertas de Kagan em mais de uma década marcam um enorme avanço na nossa compreensão desses estilos de personalidade — incluindo os julgamentos de valor que fazemos. Às vezes, os extrovertidos recebem o crédito de “pró-sociais” — o que significa que se importam com os outros —, enquanto os introvertidos são desprezados como pessoas que não gostam de outras pessoas. Mas as reações dos bebês nos testes de Kagan não tinham nada a ver com pessoas. Eles estavam berrando (ou não) para cotonetes. Eles mexiam seus membros (ou ficavam calmos) em resposta a balões estourando. Os bebês altamente reativos não nasceram misantropos; eles simplesmente eram sensíveis a seus ambientes.
Na verdade, a sensibilidade do sistema nervoso dessas crianças parece estar ligada não
apenas à percepção de coisas assustadoras, mas à percepção em geral. Crianças altamente reativas prestam o que um psicólogo chama de “atenção alerta” a pessoas e coisas. Elas usam mais movimentos dos olhos do que os outros para comparar opções antes de tomar uma decisão. É como se processassem mais profundamente — às vezes de forma consciente, às vezes não — as informações que absorvem sobre o mundo. Em uma de suas primeiras séries de estudos, Kagan pediu a um grupo de alunos da primeira série para participar de um jogo de combinação visual. Mostrava-se para cada criança uma imagem de um ursinho sentado em uma cadeira, além de seis outras imagens similares, entre as quais apenas uma era a combinação exata. As crianças altamente reativas passavam mais tempo que as outras considerando todas as alternativas e tinham maior tendência a fazer a escolha correta. Quando Kagan pediu que essas mesmas crianças participassem de um jogo de palavras, ele descobriu que elas também liam mais corretamente do que as crianças impulsivas.
Crianças altamente reativas também tendem a pensar sobre e sentir profundamente o que
perceberam e a dar um toque extra às experiências do dia a dia. Isso pode ser expresso de muitas formas diferentes. Se a criança for orientada ao convívio social, ela pode passar muito tempo ponderando suas observações sobre os outros — “Por que o Jason não quis compartilhar seus brinquedos hoje?”, “Por que a Mary ficou tão chateada com o Nicholas quando ele esbarrou nela por acidente?”. Se ela tiver algum interesse em particular — montar quebra-cabeças, produzir arte, construir castelos de areia —, muitas vezes se concentrará com uma intensidade incomum. Estudos mostram que se uma criancinha altamente reativa quebrar o brinquedo de outra por acidente, ela muitas vezes sentirá uma mistura mais intensa de culpa e tristeza do que uma criança com baixa reatividade. É claro que todas as crianças percebem seus ambientes e sentem emoções, mas crianças altamente. reativas parecem sentir mais as coisas. Se você perguntar a uma criança de sete anos altamente reativa como um grupo de crianças deve compartilhar determinado brinquedo, afirma a jornalista científica Winifred Gallagher, ela tenderá a propor estratégias sofisticadas como “colocar os nomes em ordem alfabética e deixar a pessoa mais próxima da letra A ser a primeira”.
“Colocar a teoria em prática é difícil para elas”, escreve Gallagher, “pois sua natureza
sensível e esquemas elaborados são inadequados ao rigores heterogêneos do pátio da escola”. Mesmo assim, como veremos em capítulos adiante, esses traços — vigilância, sensibilidade às nuances, complexidade emocional — acabaram se tornando poderes bastante subvalorizados.
Kagan nos deu uma prova meticulosamente documentada de que a alta reatividade é uma
das bases biológicas da introversão (exploraremos outra rota provável no capítulo 7), mas suas descobertas são poderosas em parte porque confirmam o que nós já suspeitávamos. Alguns de seus estudos se aventuram até mesmo pelo caminho dos mitos. Por exemplo, ele acredita, baseado em seus dados, que a alta reatividade estaria ligada a características físicas como olhos azuis, alergias e rinite alérgica, e que homens altamente reativos teriam mais tendência a ter o corpo magro e o rosto fino. Tais conclusões são especulativas e lembram a prática do século XIX de adivinhar a alma de um homem pelo formato de seu crânio. Mas quer elas se mostrem acertadas, quer não, é interessante que essas sejam exatamente as características físicas que damos a personagens ficcionais quando queremos sugerir que são quietos, introvertidos, cerebrais. É como se essas tendências psicológicas estivessem enterradas em nosso inconsciente cultural.
Considere os filmes da Disney, por exemplo. Kagan e seus colegas especularam se os
animadores da Disney inconscientemente entendiam a alta reatividade quando desenhavam figuras sensíveis como Cinderela, Pinóquio e Dunga com olhos azuis e personagens mais fortes como as irmãs da Cinderela, Zangado e Peter Pan com olhos mais escuros. Em muitos livros, filmes de Hollywood e programas de TV, o personagem-padrão do jovem magro e lacrimoso não está longe do garoto azarado mas pensativo que tira boas notas, é um pouco incomodado pelo furacão social e tem talento para atividades introspectivas como a poesia ou a astrofísica. (Pense em Ethan Hawke no filme Sociedade dos poetas mortos.) Kagan chega a especular que homens preferem mulheres com a pele clara e olhos azuis porque inconscientemente as codificam como sensíveis.
Outros estudos da personalidade também dão suporte à premissa de que a introversão e a
extroversão são fisiologicamente, e até geneticamente, determinadas. Umas das formas mais comuns de separar natureza de criação é comparar traços da personalidade de gêmeos idênticos e fraternos. Gêmeos idênticos são desenvolvidos a partir de um único óvulo e por isso possuem exatamente os mesmos genes, enquanto gêmeos fraternos vêm de óvulos diferentes e compartilham em média apenas 50% de seus genes. Então, se você medir os graus de introversão ou extroversão em gêmeos e encontrar maior correlação em gêmeos idênticos do que em fraternos — o que cientistas fazem, estudo após estudo, até com gêmeos criados em famílias separadas —, você pode concluir com certa razão que esse traço possui alguma base genética.
Nenhum desses estudos é perfeito, mas os resultados sugeriram de forma coerente que
introversão e extroversão, assim como outros importantes traços da personalidade como a amabilidade e a consciência, são entre 40% e 50% herdadas geneticamente.
Mas será que as explicações biológicas para a introversão são completamente satisfatórias?
Quando li pela primeira vez o livro de Kagan, Galen´s Prophecy, fiquei tão empolgada que não conseguia dormir. Ali, naquelas páginas, estavam meus amigos, minha família, eu mesma — de fato, toda a humanidade! — cuidadosamente arrumados segundo o prisma de um sistema nervoso tranquilo versus um reativo. Foi como se séculos de investigação filosófica sobre o mistério da personalidade humana tivessem levado a um brilhante momento de clareza científica. Havia finalmente uma resposta fácil para a questão da natureza e da criação — nascemos com um pacote de temperamentos que moldam vigorosamente nossas personalidades adultas.
Mas não poderia ser assim tão simples, poderia? Podemos realmente reduzir uma
personalidade introvertida ou extrovertida ao sistema nervoso com que seu dono nasceu? Eu suporia que herdei um sistema nervoso altamente reativo, mas minha mãe insiste que eu era um bebê tranquilo, não do tipo que chuta e chora com o estouro de um balão. Tenho tendência a ser muito insegura, mas também tenho muita coragem em minhas próprias convicções. Sinto-me terrivelmente desconfortável em meu primeiro dia em uma cidade estrangeira, mas amo viajar. Eu era tímida quando criança, mas superei o pior disso. Além disso, não acho que essas contradições sejam tão incomuns; muitas pessoas possuem aspectos dissonantes em suas personalidades. E as pessoas mudam profundamente com o tempo, não é? E o livre-arbítrio — será que não temos controle sobre o que somos e quem vamos nos tornar?
Decidi localizar o professor Kagan para fazer-lhe essas perguntas pessoalmente. Senti-me
atraída a ele não apenas porque as descobertas de sua pesquisa eram tão arrebatadoras, mas também pelo que ele representa no debate natureza versus criação. Ele iniciou a carreira em 1954 firmemente ao lado da criação, uma visão que corroborava as constatações científicas da época. Naquele tempo, a ideia de um temperamento inato era uma bomba política, evocando o fantasma da eugenia nazista e da supremacia branca. Por outro lado, a noção da criança como uma tela em branco para quem qualquer coisa seria possível atraía uma nação construída sobre fundamentos democráticos.
Mas Kagan mudou de ideia ao longo do percurso. “Fui forçado, chutando e gritando, pelos
meus dados, a reconhecer que o temperamento é mais poderoso do que eu pensava e gostaria de acreditar.” A publicação de suas primeiras descobertas sobre crianças altamente reativas na revista Science, em 1988, ajudou a legitimar a ideia do temperamento inato, em parte porque sua reputação de defensor da criação era muito forte.
Se alguém pudesse me ajudar a desemaranhar a questão da natureza e da criação, eu esperava que fosse Jerry Kagan.
Kagan me conduz ao seu escritório no William James Hall, na Universidade de Harvard,
examinando-me sem piscar enquanto me sento: ele não é indelicado, mas definitivamente é perspicaz. Imaginei-o como um cientista gentil, de jaleco, como em um desenho animado, passando produtos químicos de um tubo de ensaio para o outro até que — puf! Agora, Susan, você sabe exatamente quem você é. Mas ele não é o professor de modos suaves que eu imaginara. Ironicamente, para um cientista cujos livros são cheios de humanismo e que se descreve como tendo sido um menino ansioso, que se assustava facilmente, acho-o completamente intimidador. Começo nossa entrevista fazendo uma pergunta sobre a motivação do estudo, com a qual ele discorda. “Não, não, não!”, troveja ele como se eu não estivesse sentada em sua frente.
O lado altamente reativo da minha personalidade é ativado. Tenho sempre a fala mansa,
mas agora preciso forçar minha voz a sair mais alta do que um sussurro (na gravação da nossa conversa, a voz de Kagan parece explosiva e declamatória; a minha, muito mais calma). Estou ciente de que minhas costas estão tensas, um dos sinais clássicos de alta reatividade. É estranho saber que Kagan provavelmente está percebendo isso também — ele diz isso, assentindo para mim enquanto observa que muitos altamente reativos tornam-se escritores ou escolhem outras vocações intelectuais em que “você está no comando: você fecha a porta, puxa as cortinas e faz seu trabalho. Está protegido de encontrar coisas inesperadas”. (Os menos instruídos tendem a se tornar arquivistas ou motoristas de caminhão pelas mesmas razões, diz ele.)
Menciono uma garotinha que conheço que “demora para esquentar”. Ela analisa as pessoas
novas em vez de cumprimentá-las: sua família vai à praia todo fim de semana, mas ela demora séculos para molhar os pezinhos. Uma altamente reativa clássica, observo.
“Não!”, exclama Kagan. “Todo comportamento tem mais de uma causa. Nunca se esqueça
disso! Para cada criança que ‘demora para esquentar’, sim, estatisticamente haverá mais altamente reativos, mas você pode se comportar assim pelo modo como passou os primeiros três anos e meio da sua vida! Quando escritores e jornalistas falam, querem ver uma relação entre duas coisas — um comportamento, uma causa. Mas é realmente importante que você veja que para comportamentos como o descrito, para a timidez, para a impulsividade... há muitos caminhos para eles.”
Ele enumera exemplos de fatores ambientais que poderiam produzir uma personalidade
introvertida independente de, ou em conjunto com, um sistema nervoso reativo: uma criança pode gostar de, digamos, ter novas ideias sobre o mundo, então passa muito tempo com seus pensamentos. Ou problemas de saúde podem dirigir a criança para dentro, ao que está acontecendo em seu corpo.
Meu medo de falar em público pode ser igualmente complexo. Será que tenho esse medo por ser uma introvertida altamente reativa? Talvez não. Alguns altamente reativos adoram falar em público e atuar, e muitos extrovertidos têm medo do palco; o medo de falar em público é o número um nos Estados Unidos, muito mais comum que o medo da morte. A fobia de falar em público pode ter muitas causas, incluindo contrariedades ocorridas na primeira infância, que têm a ver com nossas histórias pessoais e únicas, não com um temperamento inato.
Na verdade, a ansiedade de falar em público pode ser primária e essencialmente humana,
não limitada àqueles nascidos com um sistema nervoso altamente reativo. Uma teoria, baseada nos escritos do sociobiólogo E.O. Wilson, diz que quando nossos ancestrais viviam na savana, ser observado atentamente significava apenas uma coisa: um animal selvagem estava à espreita. E quando pensamos que estamos prestes a ser comidos, ficamos de pé e discursamos com confiança? Não. Nós fugimos. Em outras palavras, centenas de milhares de anos de evolução nos impelem a sair correndo do palco, onde podemos confundir o olhar dos espectadores com o brilho nos olhos do predador. Mesmo assim, o público não apenas espera que permaneçamos no lugar, mas que ajamos com desenvoltura e segurança. Esse conflito entre biologia e protocolo é uma das razões pelas quais fazer discursos pode ser tão assustador. É também por isso que conselhos como imaginar o público nu não ajuda oradores nervosos; leões nus são tão perigosos quanto leões elegantemente vestidos.
Mas apesar de todos os seres humanos talvez terem a tendência de confundir membros do
público com predadores, cada um de nós possui um limiar diferente para despertar a reação de bater ou correr. O quão ameaçadoramente devem se estreitar os olhos do público antes que sintamos que estão prestes a dar o bote? Isso acontece antes de você sequer pisar no palco ou são necessárias algumas boas perturbações para desencadear o fluxo de adrenalina? É possível perceber como uma amígdala altamente sensível tornaria alguém mais suscetível a testas franzidas, suspiros aborrecidos e pessoas checando o Blackberry enquanto o orador está no meio de uma frase. E de fato, estudos mostram que introvertidos possuem significativamente maior tendência a temer falar em público.
Kagan me conta sobre a vez em que ele assistiu a um colega cientista dar uma maravilhosa
palestra em uma conferência. Depois, o palestrante perguntou se eles poderiam almoçar. Kagan concordou e, durante o almoço, o cientista contou-lhe que dá palestras todo mês e, apesar de sua competente “persona de palco”, ele fica aterrorizado a cada vez. Ler o trabalho de Kagan, no entanto, teve um grande impacto nele.
“Você mudou a minha vida”, disse ele a Kagan. “Todo esse tempo, eu culpei a minha mãe,
mas agora acho que sou altamente reativo.”
Então, sou introvertida porque herdei a alta reatividade dos meus pais, porque copiei seus
comportamentos ou ambos? Lembre-se de que as estatísticas sobre hereditariedade derivadas de estudos com gêmeos mostraram que a introversão ou a extroversão são apenas 40% a 50% herdadas. Isso significa que, em um grupo de pessoas, em média metade da variabilidade em introversão ou extroversão é causada por fatores genéticos. Para tornar as coisas ainda mais complexas, há provavelmente muitos genes em ação, e o contexto de Kagan em que atua a alta reatividade é provavelmente uma das muitas rotas fisiológicas para a introversão. Além disso, médias são traiçoeiras. A taxa de hereditariedade de 50% não significa necessariamente que minha introversão foi 50% herdada de meus pais ou que metade da diferença de extroversão entre mim e meu melhor amigo é genética. Cem por cento da minha introversão pode vir dos meus genes, ou absolutamente nenhuma parte dela — ou, o que é mais provável, que ela seja uma combinação incompreensível de genes e experiência. Perguntar se é natureza ou criação, diz Kagan, é como perguntar se uma tempestade de neve é causada pela temperatura ou pela umidade. É a intrincada interação entre os dois que nos torna quem somos.
Então talvez eu venha fazendo a pergunta errada. Talvez o mistério de que percentual da
personalidade é natureza e que percentual é criação seja menos importante que a questão de como seu temperamento inato interage com o ambiente e com seu livre-arbítrio. Até que ponto temperamento é destino?
Por um lado, de acordo com a teoria da interação entre gene e ambiente, as pessoas que
herdam certos traços tendem a procurar experiências de vida que reforcem essas características. As crianças de mais baixa reatividade, por exemplo, gostam do perigo desde pequenas, e assim, quando crescem, não titubeiam diante de riscos de gente grande. Elas “pulam algumas cercas, perdem a sensibilidade e sobem no telhado”, explicou certa vez o psicólogo David Lykken em um artigo na revista Atlantic. “Elas terão todo tipo de experiência que as outras crianças não terão. Chuck Yeager (o primeiro piloto a romper a barreira do som) conseguiu descer de um bombardeiro e entrar no avião rápido e pressionar o botão não porque tenha nascido com essa diferença entre mim e ele, mas porque durante os trinta anos anteriores seu temperamento o impeliu a trabalhar nesse caminho, desde subir em árvores até graus cada vez maiores de perigo e excitação.”
De forma recíproca, crianças altamente reativas podem ter maior tendência a virar artistas,
escritores, cientistas e pensadores, pois sua aversão à novidade faz com que passem mais tempo no ambiente familiar — e intelectualmente fértil — de suas mentes. “A universidade está recheada de introvertidos”, observa o psicólogo Jerry Miller, diretor do Centro para a Criança e a Família da Universidade de Michigan. “O estereótipo do professor universitário é correto para muitas pessoas no campus. Eles gostam de ler; para eles, não há nada mais excitante do que ideias. E parte disso tem a ver com a maneira como eles passaram o tempo enquanto cresciam. Se você ficar muito tempo perambulando para carregar as energias, sobra menos tempo para ler e aprender. Simplesmente não há tanto tempo na vida.”
Por outro lado, há também uma grande variedade de possíveis desfechos para cada
temperamento. Crianças de baixa reatividade, extrovertidas, se criadas em famílias atenciosas e em ambientes seguros podem crescer para ser vencedoras enérgicas com grande personalidade — os Richards Branson e Oprahs Winfrey deste mundo. Mas dê a essas mesmas crianças pais e famílias negligentes ou um bairro ruim, e elas podem se tornar arruaceiras, delinquentes juvenis ou criminosas, segundo alguns psicólogos. Lykken causou polêmica chamando psicopatas e heróis de “ramos do mesmo galho genético”.
Considere o mecanismo pelo qual crianças adquirem a noção de certo e errado. Muitos
psicólogos acreditam que crianças desenvolvem uma consciência quando fazem algo impróprio e são repreendidas por seus pais e familiares. A desaprovação faz com que se sintam ansiosas, e como a ansiedade é desagradável, elas aprendem a passar longe de comportamentos antissociais. Isso é conhecido como a internalização dos padrões de conduta dos pais, e sua essência é a ansiedade.
Mas e se algumas crianças tiverem menos tendência à ansiedade que outras, como acontece
com aquelas com reatividade extremamente baixa? Muitas vezes a melhor forma de ensinar valores a essas crianças é oferecer a elas modelos positivos e canalizar seu destemor para atividades produtivas. Uma criança pouco reativa em um time de hóquei aprecia a aprovação de seus companheiros quando comete uma falta contra um oponente com o ombro baixo, o que é um movimento “legal”. Mas se ela for longe demais, levantar o cotovelo e causar uma concussão no oponente, sofrerá uma penalidade. Com o tempo ela aprenderá a usar o apetite pelo risco e a assertividade de forma inteligente.
Agora imagine essa mesma criança crescendo em um bairro perigoso, com poucos esportes
organizados ou outros canais construtivos para sua ousadia. Você verá como ela pode cair na delinquência. Pode ser que algumas crianças carentes que se envolvem em problemas sofram não apenas com a pobreza ou a negligência, mas também com a tragédia de um temperamento ousado e exuberante privado de escoadouros saudáveis, dizem aqueles que possuem essa visão.
O destino da maioria das crianças altamente reativas também é influenciado pelo mundo
em volta delas — talvez até mais do que o padrão normal das crianças, de acordo com a inovadora teoria chamada “hipótese da orquídea”, de David Dobbs, em um maravilhoso artigo na revista The Atlantic. Essa teoria defende que muitas crianças são como dentes-de-leão, capazes de resistir em quase qualquer ambiente. Mas outras, incluindo os tipos altamente reativos estudados por Kagan, são como orquídeas: murcham facilmente, mas com as condições certas crescem fortes e esplendorosas.
De acordo com Jay Belsky, um dos maiores defensores dessa visão, professor de psicologia e
especialista em cuidados infantis na Universidade de Londres, a reatividade do sistema nervoso dessas crianças faz com que sejam rapidamente tomadas pelas adversidades da infância, mas também são capazes de se beneficiar de um ambiente estimulante mais do que outras crianças. Em outras palavras, crianças-orquídeas são afetadas mais fortemente por todo tipo de experiência, seja ela positiva, seja negativa.
Há algum tempo, os cientistas sabem que temperamentos altamente reativos acompanham
fatores de risco. Essas crianças são especialmente vulneráveis a desafios como tensões conjugais, a morte de um dos pais ou abusos. Elas têm mais tendência que outras a reagir a esses acontecimentos com depressão, ansiedade ou timidez. Na verdade, cerca de um quarto das crianças altamente reativas de Kagan sofrem de algum grau da condição chamada de “transtorno da ansiedade social”, uma forma crônica e incapacitante de timidez.
O que os cientistas não tinham percebido até recentemente é que esses fatores de risco
possuem um lado positivo. Em outras palavras, as sensibilidades e as forças são um pacote. Crianças altamente reativas que possuem bons pais, recebem cuidados e têm um ambiente estável em casa tendem a desenvolver menos problemas emocionais e mais habilidades sociais do que crianças de baixa reatividade, como mostram estudos. Muitas vezes são excessivamente simpáticas, acolhedoras e cooperativas. Elas trabalham bem com outros, são gentis, honestas e facilmente incomodadas pela crueldade, injustiça e irresponsabilidade. Têm sucesso naquilo que gostam de fazer. Não se tornam necessariamente representantes de turma ou estrelas da peça do colégio, disse Belsky, apesar de isso também ser possível: “Para algumas, é tornar-se líder da turma. Para outras, assume a forma de ir bem academicamente ou serem queridas.”
Os pontos positivos do comportamento altamente reativo foram documentados por
empolgantes pesquisas que apenas agora os cientistas estão começando a reunir. Uma das descobertas mais interessantes, também relatada por Dobbs em seu artigo na Atlantic, vem do mundo dos macacos Rhesus, uma espécie que compartilha cerca de 95% de seu DNA com os humanos e possui elaboradas estruturas sociais que lembram a nossa.
Nesses macacos, assim como em humanos, um gene conhecido como o transportador de
serotonina (SERT) ou 5-HTTLPR ajuda a regular o processamento da serotonina, um neurotransmissor que afeta o humor. Pensa-se que uma variação particular, ou alelo, desse gene, às vezes chamado de alelo “curto”, é associado com a alta reatividade e a introversão, assim como ao maior risco de depressão em humanos que tiveram vidas difíceis. Quando macacos bebês com alelos similares foram sujeitados ao estresse — em um experimento foram retirados de suas mães e criados como órfãos —, eles processaram serotonina com menor eficiência (um fator de risco para a depressão e a ansiedade) do que macacos com o alelo longo que passaram por privações similares. Mas os macaquinhos com o mesmo perfil genético de risco que foram criados por mães atenciosas foram tão bem ou até melhor do que aqueles com o alelo longo — mesmo os macacos criados em ambientes igualmente seguros — em tarefas sociais essenciais, como encontrar companheiros para brincadeiras, criar alianças e lidar com conflitos. Muitas vezes tornavam-se líderes de seus bandos. Eles também processavam serotonina com maior eficiência.
Stephen Suomi, o cientista que conduziu esses estudos, especulou que os macacos altamente
reativos deviam seu sucesso à enorme quantidade de tempo que passavam observando o grupo mais do que participando dele, absorvendo em um nível profundo as leis da dinâmica social. (Essa é uma hipótese que pode soar verdadeira aos pais cujos filhos altamente reativos pairam observadores em torno de seu grupo de colegas, às vezes por semanas ou até meses, antes de penetrar no grupo com sucesso.)
Estudos com humanos descobriram que meninas adolescentes com o alelo curto do gene
SERT têm 20% mais chance de sofrer de depressão do que garotas com alelos longos quando expostas a ambientes familiares estressantes, mas 25% menos chances de terem depressão se criadas em lares estáveis. Da mesma forma, adultos com o alelo curto mostraram ter mais ansiedade à noite do que outros quando tiveram dias estressantes, mas menos ansiedade em dias calmos. Crianças de quatro anos altamente reativas têm mais reações pró-sociais do que outras quando se deparam com dilemas morais — mas essa diferença mantém-se aos cinco anos apenas se suas mães utilizarem disciplina suave, e não dura. Crianças altamente reativas criadas em ambientes em que contam com apoio são mais resistentes do que outras à gripe comum e outras doenças respiratórias, mas ficam mais doentes sob condições estressantes. O alelo curto do gene SERT também é associado a uma melhor performance em uma série de tarefas cognitivas.
Essas descobertas são tão radicais que é notável que ninguém tenha chegado a elas até
pouco tempo atrás. Notável, mas talvez não surpreendente. Psicólogos são treinados para curar, por isso suas pesquisas naturalmente se concentram em problemas e patologias. “É quase como se, metaforicamente falando, marinheiros estejam tão ocupados — sabiamente — procurando sob a linha da água por extensões de icebergs que poderiam afundar seus navios”, escreve Belsky, “que deixam de observar que ao subir no topo do iceberg podem provar ser possível traçar uma passagem livre pelo mar cheio de gelo”.
Os pais de crianças altamente reativas são excessivamente sortudos, diz Belsky. “O tempo e
o esforço que investem nos filhos realmente vão fazer a diferença. Em vez de ver essas crianças como vulneráveis às adversidades, os pais devem vê-las como maleáveis — para o pior, mas também para o melhor.” Ele descreve o pai ideal para a criança altamente reativa: alguém que “possa decifrar suas pistas e respeitar sua individualidade; é carinhoso e firme em lhe fazer pedidos sem ser duro ou hostil; alguém que promove a curiosidade, as conquistas acadêmicas, gratificações tardias e o autocontrole; e que não é duro, negligente ou inconsistente”. É claro que esse conselho é maravilhoso para todos os pais, mas é crucial para pais de crianças altamente reativas. (Se você achar que seu filho pode ser altamente reativo, provavelmente já está se perguntando o que pode fazer para educá-lo. O capítulo 11 tem algumas respostas.)
Mas até crianças-orquídeas podem resistir a algumas adversidades, diz Belsky. Pegue como
exemplo o divórcio. Em geral, ele perturbará mais as crianças-orquídeas do que as outras: “Se os pais brigarem muito e colocarem o filho no meio, cuidado — esta é a criança que não resistirá.” Mas se os pais que estão se divorciando se derem bem, se fornecerem outros nutrientes psicológicos de que o filho precisa, então até uma criança-orquídea poderá ficar bem.
Eu acho que a maioria das pessoas gostaria da flexibilidade dessa mensagem. Poucos de nós
tiveram infâncias livres de problemas.
Mas há um outro tipo de flexibilidade que todos esperamos que se aplique à questão de
quem somos e do que nos tornamos. Queremos liberdade para traçar nossos próprios destinos. Queremos preservar os aspectos vantajosos de nossas personalidades e melhorar, ou até descartar, aqueles de que não gostamos — como o horror a falar em público. Além de nossos temperamentos inatos, além das nossas experiências infantis, queremos acreditar que nós — enquanto adultos — possamos moldar a nós mesmos e fazer o que quisermos da nossa vida.
Mas será que podemos?
Notas do capítulo 4