O Poder dos Quietos

Susan Cain · Capítulo 10 de 18

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O Poder dos Quietos

6. "Franklin Roosevelt era um político, mas sua mulher, Eleanor, agia de acordo com sua consciência"

 

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“Franklin Roosevelt era um político,

mas sua mulher, eleanor, agia de acordo

com sua consciência”

Por que o descolado é supervalorizado

 

Um homem tímido sem dúvida teme a atenção de estranhos, mas

dificilmente pode-se dizer que tem medo deles. Ele pode ser ousado como

um herói na batalha e mesmo assim não ter autoconfiança em relação a

frivolidades na presença de estranhos.

— Charles Darwin

 

Domingo de Páscoa, 1939. Lincoln Memorial. Marian Anderson, uma das mais extraordinárias cantoras de sua geração, sobe no palco, com a estátua do 16o presidente dos Estados Unidos atrás dela. Uma mulher explêndida com a pele cor de caramelo, ela olha para seu público de 75 mil pessoas: homens com chapéus de abas, mulheres em seus trajes de domingo, um enorme mar de rostos de negros e brancos. Ela começa a entoar a canção patriótica “My Country ‘tis of Thee” [“Meu país é teu”], sua voz elevando-se, cada palavra pura e distinta. A multidão está arrebatada e chorosa. Eles nunca acharam que esse dia chegaria.

E não chegaria sem Eleanor Roosevelt. Mais cedo naquele ano, Anderson planejara cantar

no Constitution Hall em Washington, D.C., mas a associação Filhas da Revolução Americana (DAR, na sigla em inglês), a quem pertencia o salão, rejeitara-a por causa de sua cor. Eleanor Roosevelt, cuja família lutara na revolução, deixou a DAR e ajudou a organizar para que Anderson cantasse no Lincoln Memorial — o que foi o estopim para uma tempestade nacional. Roosevelt não foi a única a protestar, mas trouxe conteúdo político à questão, arriscando sua própria reputação no processo.

Para Roosevelt, que parecia incapaz por natureza de desprezar os problemas dos outros, tais

atos de consciência social não eram nada incomuns. Mas outros apreciavam o quanto eram notáveis. “Aquilo foi algo único”, lembrou o líder dos direitos civis afro-americanos James Farmer, a respeito do corajoso posicionamento de Eleanor. “Franklin era um político. Ele pesava as consequências políticas de cada passo que dava. E também era um bom político. Mas Eleanor agia de acordo com sua consciência, como uma pessoa íntegra. Isso era diferente.”

Esse foi o papel que ela desempenhou durante toda a sua vida juntos: o de conselheira de

Franklin, a consciência de Franklin. Ele pode tê-la escolhido apenas por essa razão: em outros aspectos eles eram um casal improvável.

Eles se conheceram quando ele tinha vinte anos. Franklin era um primo distante de

Eleanor, um aluno protegido de Harvard de uma família da alta sociedade. Eleanor tinha apenas dezenove anos, também filha de um clã endinheirado, mas que escolhera imergir nos sofrimentos dos pobres, apesar da desaprovação da família. Como voluntária em um abrigo no empobrecido Lower East Side em Manhattan, ela conhecera crianças que eram forçadas a costurar flores artificiais em fábricas sem janelas até o ponto da exaustão. Um dia, levou Franklin com ela. Ele não conseguia acreditar que seres humanos vivessem em condições tão miseráveis — ou que uma jovem de sua classe social fosse a pessoa a abrir seus olhos para aquele lado dos Estados Unidos. Ele imediatamente apaixonou-se por ela.

Mas Eleanor não era o tipo alegre e brincalhão com que ele esperava se casar. Bem o

contrário: ela demorava a rir, aborrecia-se com papo furado, era séria e tímida. Sua mãe, uma aristocrata vivaz e de constituição delicada, a apelidara de “vovó” por causa do comportamento. Seu pai, o charmoso e popular irmão mais novo de Theodore Roosevelt, a adorava quando a via, mas ele estava bêbado a maior parte do tempo e morreu quando Eleanor tinha apenas nove anos. Quando ela conheceu Franklin, não podia acreditar que alguém como ele pudesse se interessar por alguém como ela. Franklin era tudo o que ela não era: ousado e alegre, com um sorriso largo e fácil, tão tranquilo com as pessoas quanto ela era cautelosa. “Ele era jovem, alegre e bonito”, lembrou Eleanor. “E eu me senti tímida, estranha e empolgada quando ele me chamou para dançar.”

Ao mesmo tempo, muitos diziam a Eleanor que Franklin não era bom o suficiente para ela.

Alguns o viam como leviano, um acadêmico medíocre, um frívolo homem da cidade. E apesar de a imagem que fazia de si própria ser ruim, não faltavam a Eleanor admiradores que apreciassem sua seriedade. Alguns dos pretendentes dela escreveram cartas ressentidas de felicitações a Franklin quando ela aceitou se casar com ele. “Tenho mais admiração e respeito por Eleanor do que por qualquer garota que eu conheça”, dizia uma carta. “Você é muito sortudo. Ter uma futura esposa como a sua é um privilégio para poucos homens”, dizia outra.

Mas a opinião pública não tinha importância para Franklin e Eleanor. Um tinha a força que

o outro desejava — a empatia dela, a bravura dele. “E. é um anjo”, escreveu Franklin em seu diário. Quando ela aceitou o pedido de casamento, em 1903, ele se proclamou o homem mais feliz do mundo. Ela respondeu com uma enxurrada de cartas de amor. Eles se casaram em 1905 e tiveram seis filhos.

Apesar da empolgação da corte, inicialmente suas diferenças causaram problemas. Eleanor

desejava intimidade e conversas profundas; ele adorava festas, flertes e fofocas. O homem que declararia que não tinha nada a temer a não ser o próprio medo não conseguia compreender a luta de sua mulher contra a timidez. Quando Franklin foi indicado como secretário assistente da Marinha em 1913, o ritmo de sua vida social passou a ser ainda mais frenético e as coisas ainda mais suntuosas — clubes privados de elite, as mansões de seus amigos de Harvard. Ele farreava até cada vez mais tarde da noite. Eleanor ia para casa cada vez mais cedo.

Nesse meio-tempo, ela deparou-se com um calendário cheio de compromissos sociais.

Esperava-se que visitasse as esposas de outros homens importantes de Washington, deixando cartões em suas portas e promovendo reuniões em casa. Ela não apreciava esse papel, então contratou uma secretária chamada Lucy Mercer para ajudá-la. O que parecia uma boa ideia — até o verão de 1917, quando Eleanor levou as crianças para passar o verão no Maine, deixando Franklin em casa com Mercer. Os dois começaram um caso que durou a vida inteira. Lucy tinha exatamente o tipo de beleza vivaz com que era esperado que Franklin se casasse.

Eleanor descobriu a traição de Franklin quando encontrou um pacote de cartas de amor na

mala dele. Ela ficou devastada, mas continuou com o casamento. E apesar de nunca terem recuperado o aspecto romântico do relacionamento, ela e Franklin o substituíram por algo formidável: a união da confiança dele com a consciência dela.

 

Seguindo mais à frente no tempo, encontraremos outra mulher de temperamento similar

agindo de acordo com seu próprio senso de consciência. A dra. Elaine Aron é uma psicóloga e pesquisadora cuja primeira publicação, em 1997, reenquadrou sozinha o que Jerome Kagan e outros chamaram de alta reatividade (e às vezes “negatividade” ou “inibição”). Ela chama isso de “sensibilidade”, e junto ao novo nome para esse traço, ela transformou e aprofundou nosso conhecimento sobre ele.

Quando ouço que Aron será a principal palestrante em uma reunião anual de “pessoas

altamente sensíveis” no rancho Walker Creek no condado de Marin, na Califórnia, rapidamente compro as passagens de avião. Jacquelyn Strickland, psicoterapeuta, fundadora e anfitriã do evento, explica que criou esses finais de semana para que pessoas sensíveis pudessem beneficiar-se da presença umas das outras. Ela me mandou uma agenda explicando que dormiríamos em quartos designados para “tirar uma soneca, escrever em diários, divagar, meditar, organizar, escrever e refletir”.

“Por favor, socialize com muita tranquilidade em seu quarto (com o consentimento de seu

colega), ou preferencialmente nas áreas comuns durante as caminhadas e refeições”, diz a agenda. A conferência é voltada para pessoas que gostam de discussões significativas e às vezes “levam a conversa a um nível mais profundo, apenas para descobrir que somos os únicos a encarar as coisas dessa forma”. Garantem-nos que haverá muito tempo para conversas sérias nesse fim de semana. Mas também estaremos livres para ir e vir como bem entendermos. Strickland sabe que a maioria de nós terá suportado uma vida de atividades de grupo obrigatórias e quer nos mostrar um modelo diferente, mesmo que apenas por alguns dias.

O rancho Walker Creek fica num espaço de sete quilômetros quadrados na natureza

intocada do norte da Califórnia. Ele oferece trilhas, vida selvagem e vastos céus límpidos, mas em seu centro há um aconchegante centro de conferências na forma de um celeiro, onde cerca de trinta de nós se reúnem em uma tarde de quinta-feira em meados de junho. O Buckeye Lodge é equipado com carpetes industriais cinzentos, grandes quadros brancos e janelas panorâmicas dando para a floresta ensolarada. Ao lado da usual pilha de formulários de inscrição e crachás, há um quadro em um cavalete no qual pedem que escrevamos nosso nome e tipo de personalidade segundo o teste Myers-Briggs. Dou uma olhada na lista. Todos são introvertidos, à exceção de Strickland, que é calorosa, receptiva e expressiva. (De acordo com a pesquisa de Aron, a maioria das pessoas sensíveis é introvertida.)

As mesas e cadeiras da sala estão organizadas em um grande quadrado para que todos

possamos sentar e encarar uns aos outros. Strickland nos convida — a participação é opcional — a compartilhar o motivo que nos levou até lá. Um engenheiro de softwares chamado Tom começa, descrevendo com grande entusiasmo seu alívio ao descobrir que havia “uma base fisiológica para o traço da sensibilidade. Aqui está a pesquisa! É assim que eu sou! Não tenho mais que atender às expectativas de ninguém. Não preciso pedir desculpas nem ficar na defensiva!” Com seu rosto longo e fino, cabelos castanhos e barba da mesma cor, Tom me lembra Abraham Lincoln. Ele apresenta sua esposa, que diz como ela e Tom são compatíveis e como juntos encontraram o trabalho de Aron.

Quando chega a minha vez, falo sobre como nunca estive em um ambiente de grupo no qual

eu não me sentisse obrigada a apresentar uma versão pouco natural e engraçadinha de mim mesma. Digo que estou interessada na conexão entre introversão e sensibilidade. Muitas pessoas assentem.

No sábado de manhã, a dra. Aron aparece no Buckeye Lodge. Ela espera, divertindo-se atrás

de um cavalete com um quadro enquanto Strickland a apresenta ao público. Então ela surge sorrindo — tcharam! — de trás do cavalete, cuidadosamente trajada com um blazer, uma camisa de gola alta e uma saia de veludo. Ela tem cabelos castanhos finos e curtos e calorosos olhos azuis que parecem não deixar passar nenhum detalhe. Dá para ver imediatamente a respeitada acadêmica que Aron é hoje, assim como a estranha adolescente que ela deve ter sido. Também dá para perceber o respeito que tem pelo público.

Indo direto ao assunto, ela nos informa que há cinco subtópicos que ela pode discutir, e nos

pede para levantarmos as mãos para votar em nossa primeira, segunda e terceira opções de temas. Então ela faz rapidamente um elaborado cálculo matemático a partir do qual determina quais os três subtópicos em que votamos coletivamente. A multidão acalma-se afavelmente. Não importa realmente que subtópicos escolhemos; sabemos que Aron está ali para falar sobre sensibilidade e que ela está levando em consideração nossas preferências.

Alguns psicólogos deixam sua marca fazendo experimentos incomuns. A contribuição de

Aron é pensar de forma diferente, radicalmente diferente, sobre os estudos que outros fizeram. Quando era mais jovem, muitas vezes disseram a Aron que ela era “sensível demais para seu próprio bem”. Tinha dois irmãos mais velhos e era a única criança em sua família que gostava de fantasiar, brincar dentro de casa, e cujos sentimentos eram facilmente feridos. Quando cresceu e saiu da órbita de sua família, ela continuou a perceber coisas sobre si mesma que eram diferentes da norma. Ela podia dirigir sozinha durante horas sem nunca ligar o rádio. Tinha sonhos fortes e por vezes perturbadores durante a noite. Era “estranhamente intensa” e muitas vezes se via tomada por poderosas emoções, positivas e negativas. Tinha problemas em encontrar o sagrado no dia a dia, que aparecia somente quando ela se afastava do mundo.

Aron cresceu, tornou-se psicóloga e casou-se com um homem robusto que amava suas

qualidades. Para seu marido, Art, Aron era criativa, intuitiva e dona de pensamentos profundos. Ela também apreciava essas coisas em si mesma, mas as via como “aceitáveis manifestações superficiais de uma falha terrível e escondida da qual ela estivera ciente durante toda a sua vida”. Ela acreditava ser um milagre que Art a amasse apesar dessa falha.

Mas quando um de seus colegas psicólogos casualmente descreveu Aron como “altamente

sensível”, uma luz acendeu-se em sua cabeça. Era como se as duas palavras descrevessem sua falha misteriosa, tirando o fato de que o psicólogo não estava se referindo a uma falha. Aquela fora uma descrição neutra.

Aron considerou essa nova ideia e então iniciou uma pesquisa sobre o traço chamado de

“sensibilidade”. Ela começou quase sem referências, então voltou-se para a vasta literatura sobre a introversão, que parecia intimamente relacionada: o trabalho de Kagan sobre crianças altamente reativas e a longa série de experiências sobre a tendência dos introvertidos a serem mais sensíveis a estímulos sociais e sensoriais. Esses estudos deram a ela pistas sobre o que estava procurando, mas Aron achou que faltava uma peça no emergente retrato das pessoas introvertidas.

“O problema para os cientistas é que tentamos observar o comportamento, e isso é algo que

não é possível observar”, explica ela. Os cientistas podem facilmente relatar o comportamento de extrovertidos, que com frequência podem ser encontrados rindo, falando ou gesticulando. Contudo, “se a pessoa estiver de pé num canto da sala, você pode atribuir cerca de quinze motivações para esse comportamento. Mas você não sabe realmente o que se passa dentro da cabeça dela”.

Mesmo assim, um comportamento interior ainda era um comportamento, pensou Aron,

mesmo se fosse difícil de catalogar. Então qual seria o comportamento interior de uma pessoa cuja característica mais visível é a de que quando você a leva para uma festa, ela não fica muito contente? Ela decidiu descobrir.

Primeiro Aron entrevistou 39 pessoas que se descreveram como introvertidas ou facilmente

perturbadas por estímulos. Ela perguntou-lhes sobre os filmes de que gostavam, as primeiras memórias, a relação com os pais, amizades, vida amorosa, atividades criativas, visões filosóficas e religiosas. Baseada nessas entrevistas, ela criou um volumoso questionário que distribuiu entre vários grandes grupos. Então reuniu as respostas em um grupo de 27 atributos e nomeou as pessoas que incorporavam esses atributos de “altamente sensíveis”.

Alguns desses 27 atributos eram conhecidos dos trabalhos de Kagan e de outros. Por

exemplo, pessoas altamente sensíveis tendem a ser atentos observadores que olham antes de dar um salto. Elas organizam suas vidas de forma a limitar surpresas. Muitas vezes são sensíveis a visões, sons, cheiros, dor, café. Têm dificuldade quando são observadas (no trabalho ou, digamos, tocando em um recital) ou julgadas por méritos gerais (em um encontro, em entrevistas de emprego).

Mas também houve novas ideias. As pessoas altamente sensíveis tendem a ter uma

orientação filosófica ou espiritual, em vez de materialista ou hedonista. Elas não gostam de conversa fiada. Muitas vezes descrevem-se como criativas ou intuitivas (exatamente como o marido de Aron a descreveu). Têm sonhos vívidos e muitas vezes conseguem se lembrar deles no dia seguinte. Amam música, natureza, arte, beleza física. Têm emoções excepcionalmente fortes — muitas vezes acessos agudos de alegria, mas também de tristeza, melancolia e medo.

Pessoas altamente sensíveis também processam informações sobre seus ambientes — físicos

e emocionais — com uma profundidade rara. Elas tendem a perceber sutilezas que os outros não percebem — a mudança de humor de uma pessoa ou, digamos, uma lâmpada brilhando um pouco mais.

Recentemente, um grupo de cientistas da Universidade de Stony Brook testou essa

descoberta ao mostrar dois pares de fotos (de uma cerca e de alguns montes de feno) a dezoito pessoas deitadas em aparelhos de ressonância magnética. Em um par, as fotos eram perceptivelmente diferentes uma da outra, e em outro a diferença era muito mais sutil. Para cada par, os cientistas perguntaram se a segunda foto era igual à primeira. Eles descobriram que pessoas sensíveis passam mais tempo que as outras olhando para as fotos com diferenças sutis. Seus cérebros também mostraram mais atividade em regiões que ajudavam a fazer associações entre aquelas imagens e outras informações armazenadas. Em outras palavras, pessoas sensíveis processavam as fotos em um nível mais profundo do que as outras, refletindo mais sobre as cercas e os montes de feno.

Esse é um estudo muito novo, e suas conclusões ainda precisam ser replicadas e exploradas

em outros contextos. Mas ele ecoa as descobertas de Jerome Kagan, em que alunos da primeira série altamente reativos passavam mais tempo do que outras crianças comparando escolhas quando participavam de jogos de combinação ou liam palavras desconhecidas. E isso sugere, diz Jadzia Jagiellowicz, cientista-chefe em Stony Brook, que tipos sensíveis pensam com uma complexidade incomum. Isso também pode ajudar a explicar por que essas pessoas ficam tão entediadas com conversas triviais. “Se você está pensando de forma mais complexa”, diz ela, “falar sobre o tempo ou o lugar para onde você viajou nas férias não é tão interessante quanto falar sobre valores ou sobre moralidade”.

Outra coisa que Aron descobriu sobre pessoas sensíveis é que às vezes elas são altamente

empáticas. É como se tivessem fronteiras mais finas separando-as das emoções de outras pessoas e das tragédias e crueldades do mundo. Elas tendem a ter a consciência surpreendentemente forte. Evitam filmes e programas de TV violentos; têm consciência das consequências de um lapso em seu comportamento. Em meios sociais, geralmente se concentram em temas como problemas pessoais, que os outros consideram “pesados demais”.

Aron percebeu que ela estava lidando com algo grande. Os psicólogos acreditavam que

muitas das características das pessoas sensíveis que ela tinha identificado — como a empatia e a receptividade à beleza — eram características de outros traços de personalidade como “comodidade” e “abertura à experiência”. Mas Aron viu que também eram parte fundamental da sensibilidade. Suas descobertas desafiaram implicitamente dogmas da psicologia da personalidade.

Ela começou a publicar seus resultados em jornais acadêmicos e livros e a falar

publicamente sobre seu trabalho. Em um primeiro momento, foi difícil. Membros do público disseram a ela que suas ideias eram fascinantes, mas que sua apresentação incerta dispersava. Mas Aron tinha um grande desejo de espalhar sua mensagem. Ela perseverou e aprendeu a falar como a autoridade que era. Na época em que a vi no rancho Walker Creek, ela estava bem-treinada e se mostrava incisiva e segura. A única diferença entre ela e o orador típico era o quanto ela parecia consciente ao responder cada questão do público. Depois, ela continuou com o grupo apesar de, como alguém extremamente introvertido, provavelmente estar se coçando para voltar para casa.

A descrição de pessoas altamente sensíveis de Aron soa como se ela estivesse falando de Eleanor Roosevelt. Na verdade, desde que Aron publicou suas primeiras descobertas, cientistas descobriram que quando se colocam pessoas cujos perfis genéticos foram associados à sensibilidade e à introversão (pessoas com o gene variante do 5-HTTLPR que caracteriza os macacos Rhesus do capítulo 3) em um aparelho de ressonância magnética e mostra-se a elas fotos de rostos assustados, vítimas de acidentes, corpos mutilados e cenários poluídos, a amígdala — a parte do cérebro que desempenha um papel tão importante no processamento de emoções — torna-se fortemente ativada. Aron e sua equipe de cientistas também descobriram que quando pessoas sensíveis veem rostos de pessoas passando por sentimentos fortes, elas têm mais estímulos do que outras nas partes do cérebro associadas à empatia e à tentativa de controle de emoções fortes.

É como se, a exemplo de Eleanor Roosevelt, elas não pudessem evitar sentir o que os outros

sentem.

 

Em 1921, Franklin Roosevelt contraiu pólio. Foi um terrível golpe, e ele pensou em se

retirar para o campo a fim de viver o resto de seus dias como um cavalheiro inválido. Mas Eleanor manteve vivos os contatos dele com o Partido Democrático enquanto ele se recuperava, concordando até mesmo em levantar fundos para o partido. Ela tinha horror a falar em público e não era muito boa nisso — tinha uma voz aguda e ria nervosamente nas horas erradas. Mas treinou para o evento e passou pelo discurso.

Depois disso, Eleanor ainda se sentia insegura, mas começou a trabalhar para consertar os

problemas sociais que via ao seu redor. Ela se tornou uma campeã em assuntos femininos e formou alianças com outras pessoas engajadas. Em 1928, quando Franklin foi eleito governador do estado de Nova York, ela era diretora do Escritório de Atividades Femininas para o Partido Democrático e uma das mulheres mais influentes da política norte-americana. Ela e Franklin formavam agora uma parceria altamente funcional, com a experiência dele e a consciência social dela. “Eu conhecia as condições sociais, talvez mais do que ele”, lembrou Eleanor com sua modéstia característica. “Mas ele conhecia o governo e como usá-lo para melhorar as coisas. E acho que começamos a entender o trabalho em equipe.”

Franklin Roosevelt foi eleito presidente em 1933. Era o auge da Grande Depressão e

Eleanor viajou pelo país — em um período de três meses, ela percorreu mais de seis mil quilômetros — ouvindo pessoas comuns contarem suas histórias tristes. As pessoas abriam-se para ela de uma forma que não fizeram com figuras poderosas. Ela se tornou a voz dos desfavorecidos para Franklin. Quando ela voltava para casa de suas viagens, muitas vezes contava a ele o que tinha visto e pressionava-o a agir. Ela ajudou a criar programas de governo para mineiros famintos em Appalachia. Incitou Franklin a incluir as mulheres e os afro-americanos em seus programas de reinserção no mercado de trabalho. E ajudou a conseguir que Marian Anderson cantasse no Lincoln Memorial. “Ela mantinha-o atento a questões pelas quais, na pressa, ele teria desejado passar batido”, disse o historiador Geoff Ward. “Ela o mantinha em um alto padrão. Qualquer um que a tenha visto trocar olhares com ele e dizer ‘Agora, Franklin, você deve...’ nunca esqueceu disso.”

A jovem tímida que ficara apavorada por ter que falar em público cresceu e passou a adorar

a vida pública. Eleanor Roosevelt tornou-se a primeira esposa de um presidente a dar uma coletiva de imprensa, discursar em uma convenção nacional, escrever uma coluna de jornal e falar no rádio. Anos depois, ela serviu como representante dos Estados Unidos na ONU, e usou suas habilidades políticas incomuns e obstinação duramente conquistada para ajudar a fazer com que a Declaração Universal dos Direitos Humanos fosse aprovada.

Ela nunca superou sua vulnerabilidade; durante toda a vida, sofreu com os obscuros

“humores de Griselda”, como ela os chamava (referindo-se à princesa de uma lenda medieval que se recolheu ao silêncio) e lutou para “criar uma pele tão resistente quanto a de um rinoceronte”. “Acho que as pessoas que são tímidas continuam sempre tímidas, mas aprendem a superar isso”, disse ela. Mas talvez tenha sido essa sensibilidade que tornou fácil para ela relacionar-se com os desprovidos de direitos e a conscientizou o suficiente para agir em defesa deles. Franklin, eleito no início da Depressão, é lembrado por sua compaixão. Mas foi Eleanor quem assegurou que ele soubesse como se sentiam os norte-americanos sofredores.

 

A conexão entre sensibilidade e senso moral tem sido observada há muito tempo. Imagine

o seguinte experimento, criado pela psicóloga do desenvolvimento Grazyna Kochanska. Uma mulher gentil dá um brinquedo a uma criança pequena, explicando que ela deve tomar muito cuidado, pois é um de seus preferidos. A criança assente solenemente e começa a brincar com o objeto. Logo depois, ele se quebra em dois, tendo sido projetado para isso.

A mulher finge tristeza e exclama: “Ai, meu Deus!”, esperando para ver o que a criança fará

em seguida.

Algumas crianças sentem-se muito mais culpadas por sua (suposta) transgressão do que

outras. Elas desviam o olhar, passam os braços em volta do próprio corpo, balbuciam confissões e escondem o rosto. Essas são as que podemos chamar de mais sensíveis, as mais reativas, aquelas que tendem a ser introvertidas, que se sentem mais culpadas. Sendo excepcionalmente sensíveis a toda experiência, positiva ou negativa, elas parecem sentir a tristeza da mulher que teve o brinquedo quebrado e ansiedade por ter feito algo ruim. (Caso você esteja se perguntando, a mulher da experiência logo retornou à sala com o brinquedo “consertado” e assegurou à criança que ela não havia feito nada de errado.)

Em nossa cultura, “culpa” é uma palavra condenada, mas é provavelmente um dos tijolos

formadores da nossa consciência. A ansiedade que essas criancinhas altamente sensíveis sentem por aparentemente quebrar o brinquedo lhes dá a motivação para evitar quebrar o brinquedo de alguém da próxima vez. Aos quatro anos, de acordo com Kochanska, essas mesmas crianças têm menor tendência do que outras a trapacear ou quebrar regras, mesmo quando acham que não vão ser pegas. E aos seis ou sete anos, elas têm mais tendência a serem descritas pelos pais como tendo altos níveis de traços morais, como empatia. Elas também têm menos problemas comportamentais em geral.

“Culpa moderada e funcional”, escreve Kochanska, “pode promover futuramente altruísmo,

responsabilidade pessoal, comportamento adaptativo na escola e relacionamentos harmoniosos, competentes e pró-sociais com pais, professores e amigos”. Esse é um conjunto de atributos especialmente importante em um tempo em que um estudo da Universidade de Michigan, feito em 2010, mostrou que alunos da faculdade atualmente são 40% menos empáticos do que eram trinta anos atrás, com boa parte da queda tendo ocorrido desde 2000. (Os autores do estudo especularam que o declínio da empatia está relacionado ao predomínio das mídias sociais, dos reality shows e da “hipercompetitividade”.)

É claro que possuir esses traços não significa que crianças sensíveis sejam anjinhos. Elas têm

traços egoístas como todos. Às vezes agem de forma distante e pouco amigável. E quando são tomadas por emoções negativas como vergonha ou ansiedade, diz Aron, podem esquecer as necessidades das outras pessoas.

Mas a mesma receptividade a experiências que pode tornar a vida difícil para os altamente

sensíveis também constrói suas consciências. Aron conta sobre um adolescente sensível que persuadiu a mãe a alimentar um mendigo que ele conhecera em um parque e sobre uma garota de oito anos que chorava não apenas quando sentia vergonha, mas também quando seus colegas eram provocados.

Conhecemos bem esse tipo de pessoa através da literatura, provavelmente porque muitos

autores são introvertidos sensíveis. Ele “passara pela vida com uma pele a menos que a maioria dos homens”, escreve Eric Malpass sobre seu protagonista quieto e cerebral, também um escritor, no romance The Long Long Dances [As longas, longas danças]. “Os problemas dos outros o comoviam, assim como a abundante beleza da vida: comoviam-no, incitavam-no a pegar a caneta e escrever sobre eles. [Ele se comovia ao] caminhar pelas colinas, ouvir um impromptu de Schubert, assistir à noite de sua poltrona o esmagar de ossos e carne que compunham tanto do noticiário das nove horas.”

A descrição de tais personagens como “de pele fina” é feita para ser metafórica, mas acaba

sendo bastante literal. Entre os testes que pesquisadores utilizam para medir traços da personalidade estão os testes de condutibilidade da pele, que registram o quanto as pessoas suam em resposta a sons, fortes emoções e outros estímulos. Introvertidos altamente reativos suam mais; extrovertidos de baixa reatividade suam menos. A pele desses últimos é literalmente “mais grossa”, mais impermeável a estímulos, mais fria ao toque. Na verdade, de acordo com alguns cientistas com quem falei, é daí que vem, em inglês, a noção de ser socialmente “cool” (que tanto significa “descolado” quanto “frio”); quanto menor sua reatividade, mais fria a sua pele e mais descolado você é. (Ainda a esse respeito, sociopatas estão no extremo do termômetro de frieza, com níveis extremamente baixos de estímulo, condutibilidade da pele e ansiedade. Há algumas evidências de que eles têm amígdalas danificadas.)

Detectores de mentira (polígrafos) são em parte testes de condutibilidade da pele. Eles

operam de acordo com a teoria de que mentir causa ansiedade, o que incita a pele a transpirar imperceptivelmente. Quando estava na faculdade, me candidatei a um emprego de verão como secretária de uma grande joalheria. Eu tinha que passar pelo detector de mentiras como parte do processo seletivo. O teste era administrado em uma pequena sala mal-iluminada, com chão de linóleo, por um homem magro, que dava baforadas em um cigarro, com a pele amarelada e marcada. O homem me fez uma série de perguntas de aquecimento: meu nome, endereço etc. para estabelecer o nível básico de condutibilidade da minha pele. Então as perguntas passaram a ser mais inquiridoras e os modos do examinador, mais duros. Eu já tinha sido presa? Já furtara em lojas? Já usara cocaína? Nessa última pergunta, meu interrogador olhou para mim atentamente. Acontece que eu nunca tinha experimentado cocaína. Mas ele parecia pensar que sim. O olhar acusador em seu rosto era o equivalente ao velho truque dos policiais em que eles dizem ao suspeito que têm as provas e que não vale a pena negar.

Eu sabia que o homem estava errado, mas mesmo assim me senti ruborizar. E com certeza o

teste mostraria que eu mentira na pergunta da cocaína. Minha pele é aparentemente tão fina que sua em reação a crimes imaginários.

Tendemos a pensar que ser “descolado” é uma pose em que você está com um par de óculos

escuros, uma atitude casual e um drinque na mão. Mas talvez não tenhamos escolhido esses acessórios sociais aleatoriamente. Talvez tenhamos adotado os óculos escuros, uma linguagem corporal relaxada e o álcool como significantes precisamente porque eles camuflam sinais de um sistema nervoso a todo vapor. Óculos escuros evitam que os outros vejam nossas pupilas dilatadas pela surpresa ou pelo medo; sabemos pelo trabalho de Kagan que um torso relaxado é uma marca de baixa reatividade; e o álcool remove nossas inibições e diminui o grau de excitação. Quando você vai a um jogo de futebol e alguém lhe oferece uma cerveja, diz o psicólogo da personalidade Brian Little, “na verdade está dizendo ‘olá, tome um copo de extroversão’”.

Os adolescentes entendem instintivamente a fisiologia do “descolado”. No romance

Preliminar, de Curtis Sittenfeld, que explora os rituais sociais dos adolescentes em um colégio interno com inquietante precisão, a protagonista, Lee, é inesperadamente convidada a ir ao quarto da garota mais descolada da escola, Aspeth. A primeira coisa que ela percebe é o quanto o mundo de Aspeth é fisicamente estimulante. “Do lado de fora, eu podia ouvir a música reverberando”, observa ela. “Luzinhas brancas de Natal, agora ligadas, estavam coladas no alto margeando as paredes e na parede ao norte estava pendurada uma enorme tapeçaria verde e laranja... Me senti superestimulada e um pouco irritada. O quarto que eu dividia com a minha colega parecia tão calmo e simples, nossas vidas pareciam tão calmas e simples... Aspeth nascera descolada, perguntei-me, ou alguém ensinara a ela, uma irmã mais velha ou prima, talvez?”

Culturas atléticas também valorizam a fisiologia pouco reativa do descolado. Para os

primeiros astronautas dos Estados Unidos, ter uma baixa taxa cardíaca, que é associada à baixa reatividade, era um símbolo de status. O coronel-tenente John Glenn, que se tornou o primeiro norte-americano a orbitar a Terra e mais tarde se candidataria à presidência, era admirado por seus camaradas por seu pulso supercalmo durante o lançamento (apenas 110 batidas por minuto).

Mas a falta de relaxamento pode ser mais valiosa socialmente do que pensamos. O profundo

rubor quando um avaliador durão coloca o rosto a um centímetro do seu e pergunta se você já usou cocaína acaba sendo uma espécie de cola social. Em um experimento recente, uma equipe de psicólogos liderada por Corine Dijk pediu que entre sessenta e setenta participantes lessem relatos de pessoas que tinham feito algo moralmente errado, como fugir depois de uma batida de carro, ou embaraçosa, como derramar café em alguém. Mostravam aos participantes fotografias das pessoas que cometeram o erro, que tinham uma das quatro expressões faciais: vergonha ou embaraço (cabeça e olhos baixos); vergonha/embaraço mais rubor; neutra; ou neutra com rubor. Então pediram a eles para avaliar o quão simpáticos e confiáveis eram os transgressores.

Os ofensores que ruborizaram foram julgados muito mais positivamente do que os outros.

Isso aconteceu porque ruborizar significa preocupação com os outros. Como disse ao New York Times Dacher Keltner, psicólogo na Universidade da Califórnia, Berkeley, especializado em emoções positivas: “O rubor chega em dois ou três segundos e diz: eu me importo, eu sei que violei o contrato social.”

Na verdade, o que os altamente reativos mais detestam a respeito de ruborizar — o fato de

não poderem controlar isso — é o que o torna mais útil socialmente. “Como é impossível controlar o rubor intencionalmente”, especula Dijk, ruborizar é um autêntico sinal de vergonha. E a vergonha, de acordo com Keltner, é uma emoção moral. Ela demonstra humildade, modéstia e um desejo de evitar a agressão e fazer as pazes. A intenção não é isolar a pessoa que sente vergonha (que é o que às vezes pensam aqueles que ruborizam com facilidade), mas agregar as pessoas.

Keltner traçou as raízes da vergonha humana e descobriu que, depois de brigar, muitos

primatas tentam se reconciliar. Eles fazem isso em parte com gestos de embaraço do tipo que vemos em seres humanos — desviam o olhar, o que é o reconhecimento do erro e da intenção de parar; abaixam a cabeça, o que diminui o tamanho de alguém; e contraem os lábios, um sinal de inibição. Esses gestos em humanos têm sido chamados “atos de devoção”, descreve Keltner. Na verdade, Keltner, que foi treinado para ler o rosto das pessoas, analisou fotos de heróis morais como Gandhi e Dalai Lama e descobriu que eles exibem exatamente os sorrisos controlados e olhos desviados.

Em seu livro Born to be good [Nascido para ser bom], Keltner diz até que se tivesse que

escolher uma parceira em um evento de speed-dating (que promove um rodízio de encontros entre desconhecidos) fazendo apenas uma pergunta, esta seria: “Qual foi sua última experiência embaraçosa?” E então observaria com cuidado lábios pressionados, rubores e olhares desviados. “Os elementos da vergonha são afirmações rápidas sobre seu respeito pelo julgamento dos outros”, escreve ele. “A vergonha revela o quanto o indivíduo importa-se com as regras que nos ligam uns aos outros.”

Em outras palavras, você quer ter certeza de que seu cônjuge se importa com o que as outras

pessoas pensam. É melhor importar-se de mais do que importar-se de menos.

Não importa quão grandes sejam os benefícios do rubor, o fenômeno da alta sensibilidade

 

levanta uma questão óbvia. Como os altamente reativos conseguiram sobreviver no duro processo da evolução? Se os ousados e agressivos geralmente prevalecem (como às vezes parece), por que os sensíveis não foram descartados da população humana milhares de anos atrás, como os sapos de árvore cor de laranja? Você pode, como o protagonista de The Long Long Dances, ficar emocionado com as notas de abertura de um impromptu de Schubert, pode sobressaltar-se mais do que outros com carne e ossos sendo esmagados e pode ter sido o tipo de criança que se contorcia terrivelmente diante do pensamento de que tinha quebrado o brinquedo de outra criança, mas a evolução não recompensa essas coisas.

Ou recompensa?

Elaine Aron tem uma ideia sobre isso. Ela acredita que a alta sensibilidade não foi

selecionada por si, mas pelo estilo cuidadoso e reflexivo que tende a acompanhá-la. “O tipo que é ‘sensível’ ou ‘reativo’ refletiria a estratégia de observar com cuidado antes de agir”, escreve ela, “evitando perigos, falhas e desperdício de energia, o que requereria um sistema nervoso especialmente feito para observar e detectar diferenças sutis. É uma estratégia de ‘apostar na coisa certa’ ou ‘olhar antes de saltar’. Em contraste, a estratégia ativa do [outro tipo] é ser o primeiro, sem informações completas e com os riscos que podem surgir — a estratégia de ‘dar um tiro no escuro’, pois é ‘o primeiro pássaro que pega a minhoca’ e ‘a oportunidade só bate na porta uma vez’”.

Na verdade, muitas pessoas que Aron considera sensíveis têm alguns dos 27 atributos

associados a esse traço, mas não todos eles. Talvez sejam sensíveis a luz e barulho, mas não a café ou dor; talvez não sejam sensíveis a nada sensorial, mas são pensadores profundos com uma rica vida interior. Talvez nem sejam introvertidas — apenas 70% das pessoas sensíveis o são, enquanto os outros 30% são extrovertidos (apesar de esse grupo tender a relatar o desejo por mais calmaria e solidão do que o extrovertido típico). Isso, especula Aron, ocorre porque a sensibilidade é despertada como um subproduto da estratégia de sobrevivência e você precisa de apenas alguns traços para empregar essa energia efetivamente, não de todos.

Há várias evidências válidas para o ponto de vista de Aron. Biólogos evolucionistas já

acreditaram que toda espécie animal evoluía para encaixar-se em um nicho ecológico, que havia um conjunto de comportamentos ideal para tal nicho e que os membros daquela espécie cujo comportamento desviava-se desse ideal acabavam morrendo. Mas acontece que não são apenas os seres humanos que se dividem entre aqueles que “olham e esperam” e aqueles que “simplesmente fazem”. Mais de uma centena de espécies do reino animal estão organizadas de modo parecido.

De moscas-das-frutas a gatos domésticos e cabras-monteses, de peixes a pequenos primatas,

passando por pássaros da Eurásia, os cientistas descobriram que 20% dos membros de muitas espécies “demoravam para aquecer”, enquanto os outros 80% eram tipos “rápidos” que se aventuravam ousadamente sem notar muito o que estava acontecendo ao seu redor. (É intrigante que a porcentagem de bebês do laboratório de Kagan que nasceram altamente reativos também fosse, você deve se lembrar, cerca de 20%.)

Se animais “rápidos” e “lentos” dessem festas, escreve o biólogo evolucionista David Sloan

Wilson, “alguns dos rápidos chateariam a todos com suas conversas barulhentas, enquanto outros murmurariam para suas cervejas que não são respeitados. Animais lentos são mais bem-descritos como tipos tímidos e sensíveis. Não são assertivos, mas são observadores e percebem coisas invisíveis aos valentões. Eles são os escritores e artistas da festa que têm conversas interessantes longe dos ouvidos dos valentões. São os inventores que desenvolvem novas maneiras de se comportar, enquanto os valentões roubam suas patentes copiando seu comportamento”.

De vez em quando, um jornal ou programa de TV passa uma história sobre personalidades

dos animais, mostrando o comportamento tímido como impróprio e o comportamento ousado como atraente e admirável. (Esse é o nosso tipo de mosca-das-frutas!) Mas Wilson, assim como Aron, acredita que os dois tipos de animais existem porque têm estratégias de sobrevivência radicalmente diferentes, cada uma das quais compensa de forma diferente e em momentos diferentes. Isso é conhecido como o trade-off da teoria da evolução, no qual um traço em particular não é nem totalmente bom, nem totalmente ruim, mas uma mistura de prós e contras cujo valor para a sobrevivência varia de acordo com as circunstâncias.

Animais “tímidos” procuram comida com menor frequência e por mais tempo, conservando

energia, mantendo-se à margem e sobrevivendo quando os predadores aparecem. Animais ousados atacam com mais frequência, sendo muitas vezes engolidos por aqueles acima deles na cadeia alimentar, mas sobrevivendo quando a comida é escassa e eles precisam assumir mais riscos. Quando Wilson jogou armadilhas de metal em uma lagoa cheia de peixinhos, um evento que ele diz ter sido provavelmente tão perturbador para os peixes quanto um disco voador aterrissando na Terra, os peixes ousados não resistiram e foram investigar — e se moveram rapidamente em direção às armadilhas. Os peixes tímidos sensatamente pairaram às margens da lagoa, tornando impossível para Wilson os pegar.

Por outro lado, depois de Wilson conseguir pegar os dois tipos de peixe com um elaborado

sistema de redes e levá-los de volta ao seu laboratório, os peixes ousados aclimataram-se rapidamente ao novo ambiente e começaram a se alimentar cinco dias antes que os espécimes tímidos. “Não há uma personalidade [animal] melhor”, escreve Wilson, “mas uma diversidade de personalidades mantida pela seleção natural”.

Outro exemplo do trade-off da teoria da evolução é uma espécie de peixe conhecida como

guppy . Esses peixinhos desenvolvem personalidades — com uma velocidade impressionante em termos evolucionários — para se adaptar aos microclimas em que vivem. Seus predadores naturais são peixes chamados lúcios. Mas em algumas vizinhanças habitadas por esses peixinhos, acima de uma cachoeira, por exemplo, não existem lúcios. Se você for um desses peixinhos que cresceram em tal local encantado, então é provável que tenha uma personalidade ousada e despreocupada, bem adaptada à dolce vita. Mas, ao contrário, se a sua família tiver vindo de um “bairro ruim”, abaixo de uma cachoeira, onde lúcios cruzam as águas ameaçadoramente, então você provavelmente terá um estilo muito mais cauteloso, adequado para evitar os caras malvados.

O interessante nisso é que essas diferenças são hereditárias, e não aprendidas, de modo que

os filhos de peixinhos ousados que se mudarem para bairros ruins herdarão a ousadia de seus pais — apesar de isso deixá-los em grande desvantagem se comparados aos seus colegas precavidos. No entanto, não demora muito para seus genes se modificarem, e os descendentes que sobrevivem tendem a ser tipos cuidadosos. O mesmo acontece com peixinhos vigilantes quando os lúcios repentinamente desaparecem; demora cerca de vinte anos para que seus descendentes evoluam para peixes que agem como se não tivessem qualquer preocupação no mundo.

 

A teoria do trade-off parece aplicar-se igualmente a seres humanos. Cientistas descobriram

que nômades que herdaram a forma de um gene em particular ligado à extroversão (especificamente à procura de novidades) são mais bem-alimentados do que aqueles sem essa versão do gene. Mas em populações sedentárias, as pessoas com esse mesmo gene possuem uma nutrição pior. Os mesmos traços que tornam o nômade violento o suficiente para caçar e defender seus animais de saqueadores podem atrapalhar atividades mais sedentárias como cuidar de fazendas, vender bens no mercado ou concentrar-se na escola.

Ou considere este trade-off: seres humanos extrovertidos têm mais parceiros sexuais do que

os introvertidos — uma bênção para qualquer espécie que queira se reproduzir —, mas cometem mais adultérios e divorciam-se com mais frequência, o que não é bom para os filhos de todos esses casais. Extrovertidos exercitam-se mais, mas introvertidos sofrem menos acidentes e ferimentos traumáticos. Extrovertidos possuem maiores redes de apoio social, mas cometem mais crimes. Como Jung especulou quase um século atrás sobre os dois tipos, “um deles [o da extroversão] consiste em uma alta taxa de fertilidade, com baixos poderes de defesa e curta duração de vida para o indivíduo, enquanto o outro [o da introversão] consiste em equipar o indivíduo com numerosos meios de autopreservação e uma baixa taxa de fertilidade”.

A teoria do trade-off pode aplicar-se a espécies inteiras. Entre biólogos evolucionistas, que

tendem a defender a visão de indivíduos solitários resolvidos a reproduzir seu próprio DNA, a ideia de que a espécie inclui indivíduos cujos traços promovem a sobrevivência do grupo é calorosamente debatida e, não há muito tempo, poderia praticamente fazer com que você fosse expulso da academia. Mas essa visão está lentamente ganhando aceitação. Alguns cientistas especulam até que a base evolutiva para traços como a sensibilidade é a grande compaixão pelo sofrimento de outros membros da própria espécie, principalmente da mesma família.

Mas você não precisa ir muito longe. Como Aron explica, faz sentido que grupos de animais

dependam dos seus membros sensíveis para sobreviver. “Imagine uma manada de antílopes (...) que tem alguns membros que estão constantemente parando de pastar a fim de usar seus sentidos afiados para procurar predadores”, escreve ela. “Manadas com indivíduos tão sensíveis e observadores sobreviveriam melhor e continuariam a cruzar, gerando mais membros sensíveis no grupo.”

E por que deveria ser diferente para seres humanos? Precisamos tanto de nossas Eleanors

quanto manadas precisam de antílopes sensíveis.

Além de animais “tímidos” e “ousados”, “rápidos” e “lentos”, os biólogos também falam de

membros “gaviões” e “pombos” de determinadas espécies. Os pássaros da espécie chapim-real, por exemplo, alguns dos quais muito mais agressivos do que outros, frequentemente são objetos de estudos de caso em uma aula de relações internacionais. Esses pássaros alimentam-se de nozes e nos anos em que elas estão escassas as fêmeas “gaviões” se dão melhor, exatamente como era de se esperar, porque são rápidas em desafiar outros comedores de nozes para um duelo. Mas em estações em que há muitas nozes, as fêmeas “pombos” — que tendem a ser mães mais atentas — se dão melhor que as “gaviões”, pois estas desperdiçam tempo e saúde entrando em brigas sem motivo.

Os machos dessa espécie, por outro lado, têm o padrão oposto. Isso acontece porque seu

principal papel na vida não é encontrar comida, mas defender o território. Em anos em que a comida é escassa, muitos de seus companheiros morrem de fome, e assim há espaço para todos. Os machos “gaviões” então caem na mesma armadilha que suas camaradas fêmeas em épocas de muitas nozes — eles brigam, desperdiçando preciosos recursos a cada batalha sangrenta. Mas em anos bons, quando a competição por território para ninhos se acirra, a agressão é válida para o chapim-real macho do tipo “gavião”.

 

Em tempos de guerra ou medo — o equivalente humano de uma má estação de nozes para as

fêmeas do chapim-real —, pode parecer que o que mais precisamos são tipos agressivos e heroicos. Mas se toda a nossa população fosse de guerreiros, não haveria ninguém para notar — quanto mais para lutar contra — ameaças mais silenciosas e potencialmente mortais, como doenças virais e mudanças no clima.

Considere a cruzada de décadas do ex-vice presidente norte americano Al Gore para

aumentar a conscientização sobre o aquecimento global. Gore é, em muitos relatos, um introvertido. “Se você mandar um introvertido a uma recepção ou evento com uma centena de outras pessoas, ele sairá com menos energia do que tinha ao entrar”, diz um ex-ajudante. “Gore precisa descansar depois de um evento.” Ele reconhece que suas habilidades não são úteis no palanque e nos discursos. “A maioria das pessoas na política tira energia de tapinhas nas costas, apertos de mão, esse tipo de coisa”, disse ele. “Eu tiro energia de discutir ideias.”

Mas combine essa paixão pelo pensamento com a atenção a sutilezas — ambas

características comuns dos introvertidos — e você terá uma mistura muito poderosa. Em 1968, quando Gore era um estudante de Harvard, ele assistiu às aulas de um influente oceanógrafo que apresentou as primeiras evidências de que a queima de combustíveis fósseis causava o efeito estufa. Os ouvidos de Gore aguçaram-se.

Ele tentou dizer aos outros o que sabia. Mas descobriu que as pessoas não escutavam. Era

como se elas não pudessem ouvir os sinais de alarme que soavam tão alto nos ouvidos dele.

“Quando fui ao Congresso, em meados dos anos 1970, ajudei a organizar as primeiras

audiências sobre o aquecimento global”, lembra-se ele no documentário vencedor do Oscar Uma verdade inconveniente — filme cujas cenas de maior ação mostram a figura solitária de Gore puxando uma mala de rodinhas de madrugada num aeroporto. Gore parece genuinamente surpreso que ninguém tenha prestado atenção. “Eu realmente pensei e acreditei que a história seria persuasiva o suficiente para causar uma mudança real na maneira como o Congresso reagia a este assunto. Pensei que eles também ficariam alarmados. Mas não ficaram.”

Se Gore soubesse na época o que sabemos agora sobre a pesquisa de Kagan e Aron, ele teria

ficado menos surpreso com a reação de seus colegas. Poderia até ter usado suas ideias sobre a psicologia da personalidade para fazê-los ouvir. Poderia presumir com segurança que o Congresso é feito de algumas das pessoas menos sensíveis do país — pessoas que, quando crianças, se tivessem participado de uma das experiências de Kagan, teriam caminhado em direção a palhaços estranhos e mulheres desconhecidas usando máscaras de gás sem fazer nada além de dar uma breve olhada para suas mães. Lembra o introvertido Tom e o extrovertido Ralph de Kagan? Bem, o Congresso está cheio de Ralphs — ele foi feito para pessoas como Ralph. A maioria dos Toms do mundo não quer passar seus dias planejando campanhas e batendo papo com lobistas.

Esses congressistas do tipo Ralph podem ser pessoas maravilhosas — exuberantes,

destemidas, persuasivas —, mas é improvável que fiquem alarmadas por uma fotografia de uma pequena rachadura em uma distante geleira. Eles precisam de estímulos mais intensos para escutarem. É por isso que Gore finalmente conseguiu espalhar sua mensagem quando se juntou a tipos barulhentos de Hollywood que podiam empacotar seu alerta no show de efeitos especiais que se tornou Uma verdade inconveniente.

Gore também apostou em suas próprias forças usando seu foco e diligência naturais para

promover incansavelmente o filme. Ele visitou dezenas de cinemas pelo país para encontrar espectadores e deu inúmeras entrevistas para o rádio e para a TV. Quando fala do aquecimento global, Gore tem uma clareza na voz que lhe escapava como político. Para ele, imergir em um complicado quebra-cabeça científico é natural. Focar em apenas uma paixão em vez de sapatear de assunto em assunto é natural. Até falar para multidões é natural quando o tema é a mudança climática. O Gore que fala sobre o aquecimento global tem um carisma fácil e uma conexão com membros do público que lhe fugiram quando foi candidato político. É por isso que, para ele, sua missão não é questão de política ou de personalidade. É o que ele chama de sua consciência. “É sobre a sobrevivência do planeta”, diz ele. “Ninguém vai se importar com quem ganhou ou perdeu uma eleição quando a Terra for inabitável.”

Se você é do tipo sensível, pode ser que tenha o hábito de fingir ser mais político e menos

cauteloso ou focado do que realmente é. Mas neste capítulo estou pedindo que você repense essa visão. Sem pessoas como você, nós vamos afundar.

De volta ao rancho Walker Creek e ao encontro de pessoas sensíveis, o Ideal da Extroversão

 

e a primazia do “descolado” são virados de cabeça para baixo. Se ser “descolado” é ter a baixa reatividade que predispõe uma pessoa à ousadia e à indiferença, então a multidão que veio encontrar Elaine Aron não tem nada de descolada.

A atmosfera é inquietante simplesmente porque é muito incomum. É algo que você

encontraria numa aula de ioga ou em um monastério budista, a não ser pelo fato de que aqui não há uma religião ou visão de mundo única, apenas um temperamento compartilhado. É fácil ver isso enquanto Aron está dando sua palestra. Ela observou há muito tempo que quando fala para grupos de pessoas altamente sensíveis, a sala é mais silenciosa e respeitosa do que seria em uma reunião pública comum, e isso vale para toda a sua apresentação. E continua ao longo do fim de semana.

Nunca ouvi tantos “depois de você” e “obrigado” quanto aqui. Durante as refeições, que são

feitas em grandes mesas comunais como em um acampamento de verão, em um refeitório a céu aberto, as pessoas mergulham famintas na busca de conversas. Há muitas discussões em dupla sobre tópicos íntimos como experiências de infância e vida amorosa, e temas sociais como a saúde pública e a mudança climática; não há muitas histórias para puro entretenimento. As pessoas ouvem atentamente umas às outras e respondem de forma pensada; Aron notou que pessoas sensíveis tendem a falar de forma mansa, pois preferem que os outros se comuniquem com elas dessa maneira.

“No resto do mundo”, observa Michelle, uma web designer que se inclina para a frente

como se se protegesse de uma rajada de vento imaginária, “você afirma algo e as pessoas podem ou não discutir o assunto. Aqui você afirma algo e alguém diz: ‘O que isso significa?’ E se você fizer essa pergunta a outra pessoa, ela vai responder”.

Não é que não haja frivolidades, observa Strickland, a líder do encontro. É que elas não

vêm no início das conversas, mas no fim. Na maioria dos cenários as pessoas usam as trivialidades como uma forma de relaxar em uma nova relação, e quando elas se sentem confortáveis, se conectam mais seriamente. Pessoas sensíveis parecem fazer o inverso. Elas “gostam de trivialidades só depois de ter mergulhado fundo”, diz Strickland. “Quando pessoas sensíveis estão em ambientes que alimentam sua autenticidade, elas riem e fofocam como qualquer um.”

Na primeira noite nos retiramos para o quarto, localizado em um prédio-dormitório.

Preparo-me instintivamente: agora é a hora em que quero ler ou dormir, mas em vez disso serei chamada para uma guerra de travesseiros (como na colônia de férias) ou para participar de uma chata e barulhenta disputa de quem bebe mais (como na faculdade). Porém, no rancho Walker Creek, minha colega de quarto, uma secretária de 27 anos com grandes olhos de gata e a ambição de se tornar escritora, está satisfeita em passar a noite escrevendo pacificamente em seu diário. Eu faço o mesmo.

É claro que o fim de semana não passa completamente sem tensão. Algumas pessoas são reservadas a ponto de parecerem rabugentas. Às vezes a política do “cuide da sua vida” ameaça degenerar para a solidão mútua, enquanto todos seguem caminhos separados. Na verdade, há um tal déficit do comportamento social que chamamos de “descolado” que começo a achar que alguém deveria estar lançando piadas, animando as coisas, distribuindo cubas-libres. Não deveria?

A verdade é que, por mais que eu deseje espaço para tipos sensíveis respirarem, também

gosto de sociabilidade. Gosto dos “descolados” entre nós e sinto falta deles neste fim de semana. Estou começando a falar tão manso que parece que estou me colocando para dormir. Pergunto-me se lá no fundo os outros também se sentem assim.

Tom, o engenheiro de softwares e sósia de Abraham Lincoln, conta-me sobre uma ex-

namorada que estava sempre abrindo as portas de sua casa para amigos e estranhos. Ela era aventureira em todos os sentidos: amava comidas novas, novas experiências sexuais, pessoas novas. As coisas não deram certo entre eles — no fim, Tom desejava a companhia de uma parceira que focasse mais no relacionamento e menos no mundo exterior, e hoje está casado e feliz com uma mulher assim —, mas ele fica contente com o tempo passado com a ex-namorada.

Enquanto Tom fala, penso no quanto sinto falta do meu marido, Ken, que está em casa em

Nova York e também não é do tipo sensível, longe disso. Às vezes isso é frustrante: se algo me leva às lágrimas por empatia ou ansiedade, ele se sente comovido, mas fica impaciente se eu continuar assim por muito tempo. Mas também sei que sua atitude mais dura é boa para mim e acho sua companhia infinitamente agradável. Amo seu charme sem esforço. Amo o fato de ele sempre ter coisas interessantes a dizer. Amo a maneira como ele coloca o coração e a alma em tudo o que faz e em todos os que ama, especialmente em nossa família.

Mas acima de tudo amo sua maneira de demonstrar compaixão. Ken pode ser agressivo,

mais agressivo em uma semana do que eu serei em toda a vida, porém usa isso em benefício dos outros. Antes de nos conhecermos, ele trabalhava para a ONU em zonas de conflito no mundo inteiro, nas quais, entre outras coisas, conduzia negociações para a libertação de prisioneiros de guerra. Ele marchava por cadeias fétidas e encarava comandantes de campo com metralhadoras coladas ao peito até concordarem em soltar meninas que não tinham cometido crime algum exceto o de serem mulheres e vítimas de estupro. Depois de muitos anos no trabalho, ele voltou para casa e escreveu o que testemunhara em livros e artigos que arrepiavam de fúria. Ele não escreveu no estilo de uma pessoa sensível, e deixou muitas pessoas com raiva. Mas escreveu como uma pessoa que se importa desesperadamente.

Pensei que o rancho Walker Creek me faria desejar um mundo de alta sensibilidade, um

mundo em que todos tivessem a fala mansa e ninguém precisasse usar a força bruta. Mas em vez disso, reforçou meu desejo por um equilíbrio. Acho que esse equilíbrio é o que Elaine Aron diria que é nosso estado natural, pelo menos em culturas indo-europeias como a nossa, que ela observa estar dividida há muito tempo entre “reis guerreiros” e “conselheiros sacerdotais”, entre o ramo executivo e o ramo judiciário, entre os ousados e acessíveis Franklins Roosevelt e as sensíveis e conscienciosas Eleanors.

Notas do capítulo 6