O Poder dos Quietos

Susan Cain · Capítulo 18 de 18

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O Poder dos Quietos

Uma nota sobre as palavras "introvertido" e "extrovertido"

 

Uma nota sobre as palavras

“introvertido” e “extrovertido”

 

Este livro é sobre a introversão vista de um ponto de vista cultural. Sua primeira preocupação é com a antiga dicotomia entre o “homem de ação” e o “homem de contemplação” e como poderíamos melhorar o mundo se existisse maior equilíbrio entre os dois tipos de poder. Ele foca na pessoa que se reconhece em algum lugar desta constelação de atributos: reflexivo, cerebral, nerd, despretensioso, sensível, pensativo, sério, contemplativo, sutil, introspectivo, interiorizado, gentil, calmo, modesto, solitário, tímido, avesso a riscos, suscetível. O poder dos quietos é sobre o oposto dessa pessoa: o homem de ação que é entusiástico, expansivo, sociável, gregário, excitável, dominante, assertivo, ativo, destemido, duro, extrovertido, relaxado, ousado e confortável sob os holofotes.

Essas são categorias amplas, é claro. Poucos indivíduos identificam-se completamente com

apenas um ou outro. Mas a maioria de nós reconhece esses tipos imediatamente, pois desempenham um papel significativo em nossa cultura.

Psicólogos da personalidade contemporâneos podem ter uma concepção da introversão e da

extroversão que difere da que usei neste livro. Os que aderem à taxonomia dos Cinco Grandes Traços geralmente veem tais características como a tendência a ter uma natureza cerebral, uma vida interior rica, uma consciência forte, algum grau de ansiedade (especialmente timidez) e uma natureza avessa a riscos como pertencentes a categorias bem diferentes da introversão. Para eles, esses traços podem corresponder tanto a “abertura à experiência” quanto a “consciência” e “neurose”.

Meu uso da palavra “introvertido” é deliberadamente mais amplo, recorrendo às ideias da

psicologia dos Cinco Grandes, mas também abarcando o pensamento junguiano sobre o mundo interior dos introvertidos de “encanto inexaurível” e experiência subjetiva; a pesquisa de Jerome Kagan sobre alta reatividade e ansiedade (ver capítulos 4 e 5); o trabalho de Elaine Aron sobre o processamento sensorial da sensibilidade e sua relação com a consciência, a intensidade do sentimento e a interiorização (ver capítulo 6); e várias pesquisas sobre persistência e concentração que os introvertidos trazem para a resolução de problemas, muito do que foi resumido maravilhosamente no trabalho de Gerald Matthews (ver capítulo 7).

Na verdade, há mais de três mil anos a cultura ocidental conecta as qualidades na

constelação de adjetivos acima. Como o antropólogo C.A. Valentine certa vez escreveu:

As tradições culturais ocidentais incluem um conceito de variabilidade individual que

parece ser antigo, disseminado e persistente. Na forma popular, esta é a noção familiar do

homem de ação, homem prático, realista ou pessoa sociável oposta ao indivíduo pensador,

sonhador, idealista ou tímido. Os rótulos mais utilizados associados a essa tradição são as

designações dos tipos extrovertido e introvertido.

O conceito de Valentine de introversão inclui traços que a psicologia contemporânea

classificaria como abertura à experiência (pensador, sonhador), consciência (idealista) e neurose (indivíduo tímido).

Uma longa linhagem de poetas, cientistas e filósofos também tendeu a agrupar esses traços.

Voltando ao Gênesis, o livro mais antigo da Bíblia, tínhamos o cerebral Jacó (um “homem quieto vivendo em tendas”, que mais tarde se torna Israel, cujo significado é aquele que luta intimamente com Deus), caindo em uma rivalidade fraterna com seu irmão, o aventuroso Esaú (um “habilidoso caçador” e “homem do campo”). Na antiguidade clássica, os médicos Hipócrates e Galeno fizeram a famosa proposição de que nosso temperamento — e destino — era diretamente ligado a nossos fluidos corporais, com o sangue extra e a “bile amarela” tornando-nos sanguíneos ou coléricos (extroversão estável ou neurótica), e com o excesso de fleuma e a “bile preta” tornando-nos calmos ou melancólicos (introversão estável ou neurótica). Aristóteles notou que o temperamento melancólico estava associado à superioridade na filosofia, na poesia e nas artes (hoje podemos classificar isso como abertura à experiência). O poeta inglês do século XVII John Milton escreveu “Il Penseroso” [O pensador] e “L’Allegro” [O alegre], comparando “a pessoa alegre” que saltita pelo campo e deleita-se na cidade com “o pensativo” que caminha meditativamente pelo bosque à noite e estuda em uma “torre solitária”. (Mais uma vez, hoje a descrição do “Il Penseroso” se aplicaria não apenas à introversão, mas também à abertura à experiência e à neurose.) O filósofo alemão do século XIX Schopenhauer contrastou as pessoas de “bom espírito” (enérgicas, ativas e facilmente entediadas) com seu tipo preferido, as “pessoas inteligentes” (sensíveis, imaginativas e melancólicas). “Guardem bem isso, orgulhosos homens de ação!”, declarou seu compatriota Heinrich Heine. “Vocês são, afinal, nada mais do que instrumentos inconscientes dos homens de pensamento.”

Por causa da complexidade dessa definição, eu originalmente planejei inventar meus

próprios termos para essa constelação de traços. Decidi não fazer isso, mais uma vez, por questões culturais: as palavras “introvertido” e “extrovertido” têm a vantagem de serem bem conhecidas e altamente evocativas. Cada vez que as pronunciei em um jantar ou para a pessoa ao lado no avião, eles jorraram uma torrente de confissões e reflexões.

 

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