O Poder dos Quietos

Susan Cain · Capítulo 9 de 18

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O Poder dos Quietos

5. Além do temperamento

 

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Além do temperamento

O papel do livre-arbítrio (e o segredo de falar em

público para introvertidos)

 

O prazer surge na fronteira entre o tédio e a ansiedade, quando os desafios estão

equilibrados com a capacidade da pessoa de agir.

— Mihaly Csikszentmihalyi

 

Nas profundezas das entranhas do Centro Athinoula A. Martinos para Imagens Biomédicas do Hospital Geral de Massachusetts, os corredores são indistintos, até mesmo sombrios. Estou do lado de fora da porta trancada de uma sala sem janelas com o dr. Carl Schwartz, diretor do Laboratório de Pesquisa de Neuroimagem e Psicopatologia Desenvolvimentais. Schwartz tem olhos brilhantes e curiosos, cabelos castanhos ficando grisalhos e modos calmamente entusiásticos. Apesar de nossos arredores pouco graciosos, ele se prepara para destrancar a porta com alguma fanfarronice.

A sala abriga o equipamento de ressonância magnética que vale milhões de dólares, que

tornou possíveis algumas das maiores inovações na neurociência moderna. Uma máquina daquelas consegue medir que partes do cérebro estão ativas quando você está pensando em determinada coisa ou realizando uma tarefa específica, permitindo que os cientistas realizem a antes impensável tarefa de mapear as funções do cérebro humano. O principal inventor da técnica, diz o dr. Schwartz, foi um brilhante porém modesto cientista chamado Kenneth Kwong, que trabalha naquele mesmo prédio. Todo aquele lugar está cheio de pessoas quietas e modestas fazendo coisas extraordinárias, acrescenta Schwartz, acenando com a mão em sinal de apreciação no corredor vazio.

Antes de abrir a porta, Schwartz me pede para retirar minhas argolas de ouro e deixar de

lado o gravador de metal que estava usando em nossa conversa. O campo magnético de um aparelho de ressonância magnética é cem mil vezes mais forte que a força gravitacional da Terra — tão forte, diz Schwartz, que poderia arrancar os brincos das minhas orelhas e fazê-los voar pela sala se eles fossem magnéticos. Fico preocupada com os fechos de metal do meu sutiã, mas tenho vergonha demais para perguntar a respeito. Em vez disso aponto para a fivela do meu sapato, que imagino ter a mesma quantidade de metal da alça do meu sutiã. Schwartz diz que tudo bem e entramos na sala.

Olhamos com reverência para o aparelho de ressonância, que parece uma nave lustrosa

tombada sobre seu lado. Schwartz diz que pede a seus objetos de pesquisa — que estão na adolescência — para deitarem com a cabeça no aparelho enquanto olham para fotos de rostos, e a máquina traça a resposta de seu cérebro. Ele está interessado principalmente na atividade da amígdala — o mesmo órgão poderoso do cérebro que Kagan descobriu que desempenhava um papel tão importante em moldar as personalidades introvertidas e extrovertidas.

Schwartz é colega e protegido de Kagan, e seu trabalho começa exatamente onde os estudos

longitudinais de personalidade de Kagan pararam. Os bebês que Kagan certa vez categorizou como de alta e baixa reatividade agora estão crescidos, e Schwartz está usando a máquina de ressonância para examinar seus cérebros. Kagan acompanhou seus objetos de estudo desde a primeira infância até a adolescência, mas Schwartz queria saber o que aconteceria com eles depois disso. Os traços do temperamento seriam detectáveis, tantos anos depois, nos cérebros adultos dos bebês de alta e baixa reatividade de Kagan? Ou teriam sido apagados por alguma combinação de ambiente e esforço consciente?

É interessante que Kagan tenha alertado Schwartz a não continuar com esse estudo. Em um

campo competitivo como o da pesquisa científica, não se quer conduzir estudos que não levem a descobertas significativas. E Kagan preocupou-se com a possibilidade de não haver resultados a serem encontrados — que a ligação entre temperamento e destino fosse rompida quando um bebê alcançasse a idade adulta.

“Ele estava tentando cuidar de mim”, diz Schwartz. “Foi um paradoxo interessante. Porque

aqui Jerry estava fazendo todas essas observações anteriores sobre os bebês e vendo que não era apenas seu comportamento social que era diferente nos extremos — tudo nessas crianças era diferente. Seus olhos dilatavam-se mais quando estavam resolvendo problemas, suas cordas vocais ficavam mais tensas quando falavam, suas taxas cardíacas eram únicas: havia todos esses canais que sugeriam que havia algo fisiologicamente diferente nessas crianças. E eu acho que, apesar disso, por causa de sua herança intelectual, ele sentia que fatores ambientais são tão complexos que seria realmente difícil encontrar aqueles traços do temperamento mais tarde na vida delas.”

Mas Schwartz, que acredita que ele mesmo é altamente reativo e estava sendo atraído em

parte por sua própria experiência, suspeitava que acharia tais traços ainda mais longe na linha do tempo longitudinal que o próprio Kagan.

Ele demonstra sua pesquisa ao permitir que eu aja como um de seus objetos de pesquisa,

embora sem que entre no aparelho de ressonância. Quando me sento diante da mesa, o computador começa a me mostrar fotos, uma após a outra, todas com um rosto não familiar: cabeças em preto e branco sem um corpo, flutuando sobre um fundo preto. Acho que posso sentir meu pulso acelerando quando as fotos começam a aparecer cada vez mais rápido. Também percebo que Schwartz caiu em algumas repetições e os rostos começam a me parecer mais familiares. Descrevo minhas reações a Schwartz, que assente. Ele diz que a série de fotografias é feita para imitar um ambiente que corresponda às sensações de pessoas altamente reativas quando entram em uma sala cheia de estranhos e sentem: “Meu Deus! Quem são essas pessoas?”

Pergunto-me se estou imaginando essas reações ou exagerando-as, mas Schwartz me diz que

ele adquiriu os primeiros dados de um grupo de crianças altamente reativas que Kagan estudou desde os quatro meses — e com certeza as amígdalas dessas crianças, agora crescidas, mostraram-se mais sensíveis às fotos de rostos não familiares do que as amígdalas das crianças que eram ousadas quando bebês. Ambos os grupos reagiram às fotos, mas aqueles que foram crianças tímidas reagiram mais. Em outras palavras, os traços de um temperamento de alta ou baixa reatividade nunca desapareceram na idade adulta . Alguns altamente reativos tornaram-se adolescentes com fluidez social que não se sentiam desconcertados pela novidade, mas nunca mudaram sua herança genética.

A pesquisa de Schwartz sugere algo importante: podemos modificar nossas personalidades,

mas só até certo ponto. Nosso temperamento inato nos influencia, não importa a vida que levemos. Uma importante parte do que somos é ordenada por nossos genes, nosso cérebro, nosso sistema nervoso. E, mesmo assim, a elasticidade que Schwartz encontrou em alguns adolescentes altamente reativos também sugere algo diferente: temos livre-arbítrio e podemos usá-lo para moldar nossa personalidade.

Esses parecem princípios contraditórios, mas não são. O livre-arbítrio pode nos levar longe,

sugere a pesquisa do dr. Schwartz, mas não nos leva infinitamente além de nosso limite genético. Bill Gates nunca será Bill Clinton, não importa o quanto ele melhore suas habilidades sociais, e Bill Clinton nunca será Bill Gates, não importa quanto tempo passe sozinho na frente de um computador.

Podemos chamar isso de “teoria do elástico” da personalidade. Somos como elásticos em

repouso. Podemos nos esticar, mas só até certo ponto.

 

Para entender como isso pode valer para altamente reativos, é útil ver o que acontece no

cérebro quando cumprimentamos um estranho em uma festa. Lembre-se de que a amígdala e o sistema límbico, do qual é peça-chave, é uma parte primitiva do cérebro — tão antiga que mamíferos primitivos têm suas próprias versões. Mas, à medida que os mamíferos foram se tornando mais complexos, uma área chamada neocórtex se desenvolveu ao redor do sistema límbico. O neocórtex, e particularmente o córtex frontal nos humanos, desempenha uma impressionante variedade de funções, desde decidir que pasta de dente comprar e planejar uma reunião até ponderar a natureza da realidade. Uma dessas funções é amenizar medos infundados.

Se você foi um bebê altamente reativo, então pode ser que pelo resto da vida sua amígdala

enlouqueça um pouco cada vez que você se apresenta a um estranho em uma festa. Mas se você se sentir relativamente apto na companhia de outras pessoas, isso ocorre em parte porque seu córtex frontal está lhe dizendo para se acalmar, oferecer um aperto de mão e sorrir. Na verdade, um estudo de ressonância magnética recente mostra que quando as pessoas falam consigo mesmas para repensar situações tensas, a atividade em seu córtex pré-frontal aumenta de acordo com a queda de atividade da amígdala.

Mas o córtex frontal não é todo-poderoso; ele não desliga totalmente a amígdala. Em um

estudo, cientistas condicionaram ratos a associar determinado som a uma descarga elétrica. Então eles tocavam esse som repetidas vezes sem administrar o choque, até que os ratos perdessem o medo.

Acontece que o “desaprendizado” não era completo como os cientistas pensaram

inicialmente. Quando cortaram as conexões cerebrais entre o córtex dos ratos e suas amígdalas, eles voltaram a ter medo do som. Isso aconteceu porque o condicionamento do medo fora suprimido pela atividade do córtex, mas ainda estava presente na amígdala. Em humanos com medos infundados, como a acrofobia, ou seja, medo de altura, é o mesmo que acontece. Repetidas viagens ao topo do edifício Empire State parecem acabar com o medo, mas ele pode ressurgir em momentos de estresse — quando o córtex tem outras coisas para fazer além de amenizar uma amígdala excitável.

Isso ajuda a explicar por que muitas crianças altamente reativas mantêm alguns aspectos do

medo em seu temperamento até a idade adulta, não importa quanta experiência social adquiram ou o quanto exerçam o livre-arbítrio. Minha colega Sally é um bom exemplo desse fenômeno. Sally é uma editora de livros talentosa e atenciosa, que descreve a si mesma como uma introvertida tímida e é uma das pessoas mais charmosas e articuladas que conheço. Se você chamá-la para uma festa e mais tarde perguntar aos outros convidados quem eles mais gostaram de conhecer, é bem provável que mencionem o nome de Sally. Eles dirão que ela é brilhante. Tão inteligente! Tão adorável!

Sally tem consciência do quanto ela é bem-vista — não é possível ser tão atraente quanto

ela sem ter noção disso. Mas isso não significa que sua amígdala saiba disso. Quando chega em uma festa, muitas vezes Sally deseja poder se esconder atrás do primeiro sofá — até que seu córtex pré-frontal assuma o controle e ela lembre que é boa de papo. Mesmo assim, sua amígdala, com uma vida de associações acumuladas entre estranhos e ansiedade, às vezes prevalece. Sally admite que por vezes dirige durante uma hora para chegar a uma festa e sai cinco minutos depois.

Quando penso em minhas próprias experiências à luz das descobertas de Schwartz, percebo

que não é verdade que eu não sou mais tímida; simplesmente aprendi a me acalmar diante da tempestade (obrigada, córtex pré-frontal!). Agora faço isso de forma tão automática que dificilmente tenho consciência de que está acontecendo. Quando falo com um estranho ou com um grupo de pessoas, meu sorriso é aberto e meus modos, diretos, mas há uma fração de segundo em que parece que estou numa corda bamba. Atualmente, já tive tantos milhares de experiências sociais que aprendi que a corda é fruto da minha imaginação, e que não vou morrer se cair. Retomo a confiança tão instantaneamente que mal tenho consciência de que estou fazendo tal coisa. Mas esse processo de me reassegurar ainda está acontecendo — e às vezes ele não funciona. A primeira palavra que Kagan utilizou para descrever pessoas altamente reativas foi “inibidas”, e é exatamente assim que ainda me sinto em algumas festas.

 

A capacidade de nos adaptarmos — dentro de limites — também se aplica aos

extrovertidos. Uma das minhas clientes, Alison, é uma consultora de negócios, mãe e esposa com uma personalidade extrovertida — amigável, direta, sempre atarefada — que faz com que as pessoas a descrevam como uma “força da natureza”. Ela tem um casamento feliz, duas filhas que adora e sua própria firma de consultoria, que construiu do zero. Ela está certa em ter orgulho do que conquistou na vida.

Mas nem sempre se sentiu tão satisfeita. No ano em que se formou no colégio, deu uma boa

olhada em si mesma e não gostou do que viu. Alison é extremamente brilhante, mas não dava para ver isso em seu boletim do ensino médio. Em seu coração, ela esperava entrar para uma universidade de prestígio, mas jogara a chance fora.

E ela sabia por quê. Passara o ensino médio socializando — Alison estava envolvida em

praticamente todas as atividades extracurriculares que sua escola oferecia —, e isso não deixava muito tempo para atividades acadêmicas. Em parte ela culpava os pais, que tinham tanto orgulho do traquejo social de sua filha que não insistiram para que estudasse mais. Mas acima de tudo ela culpava a si mesma.

Quando adulta, Alison ficou determinada a não cometer os mesmos erros. Ela sabe como é

fácil se perder num furacão de reuniões de pais e professores e na formação de contatos de negócios. Assim, a solução de Alison é olhar para a família em busca de estratégias adaptativas. Ela é a filha única de pais introvertidos, é casada com um introvertido e sua filha caçula também é bastante introvertida.

Alison encontrou maneiras de entrar em sintonia com os tipos quietos à sua volta. Quando

visita os pais, ela se pega meditando e escrevendo em seu diário, exatamente como faz sua mãe. Em casa, ela passa noites tranquilas com o marido caseiro. E sua filha caçula, que gosta de conversas íntimas com a mãe, passa as tardes com Alison em conversas atenciosas.

Alison chegou a criar uma rede de amigos quietos e reflexivos. Apesar de sua melhor amiga,

Amy, ser altamente extrovertida como ela, a maioria dos seus amigos é introvertida. “Aprecio muito os bons ouvintes”, diz Alison. “Eles são os amigos com os quais vou tomar um café. Eles fazem as observações mais precisas. Às vezes, eu nem percebo que tenho feito algo contraprodutivo, e a maioria dos meus amigos introvertidos dirá: ‘Aqui está o que você está fazendo de errado e aqui estão quinze exemplos de quando você fez a mesma coisa’, enquanto minha amiga Amy nem notaria. Mas meus amigos introvertidos estão sentados observando, e conseguimos realmente nos conectar nesse ponto.”

Alison continua sendo barulhenta, mas descobriu como ser quieta e beneficiar-se disso.

 

Apesar de alcançarmos limites exteriores a nossos temperamentos, muitas vezes pode ser

melhor situarmo-nos direito em nossa zona de conforto.

Considere a história da minha cliente, Esther, uma advogada fiscal em um grande

escritório. Morena, baixinha, com andar gingado, olhos azuis brilhantes como lâmpadas, Esther não era e nunca tinha sido tímida. Mas ela era decididamente introvertida. Sua parte favorita do dia eram os calmos dez minutos em que andava pelas ruas arborizadas do bairro até o ônibus. Sua segunda parte favorita era quando chegava perto da porta de seu escritório e mergulhava no trabalho.

Esther escolhera bem sua carreira. Filha de um matemático, ela amava pensar sobre

problemas fiscais intimidadoramente complexos e podia discuti-los com facilidade. (No capítulo 7, examinaremos por que introvertidos são bons na solução de problemas complexos e que exigem foco.) Ela era o mais jovem membro de um duradouro grupo de trabalho operando dentro de um escritório de advocacia muito maior. Esse grupo continha cinco outros advogados fiscais, e todos apoiavam a carreira uns dos outros. O trabalho de Esther consistia em pensar profundamente sobre questões que a fascinavam, trabalhando de perto com colegas em quem confiava.

Mas o pequeno grupo de advogados fiscais de Esther tinha que fazer apresentações

periódicas para o resto da firma. Essas apresentações eram uma fonte de sofrimento para Esther, não porque ela tivesse medo de falar em público, mas porque ela não se sentia à vontade falando de improviso. Os colegas de Esther, ao contrário — todos extrovertidos — eram falantes espontâneos que decidiam o que falar no caminho para a apresentação e que de alguma forma conseguiam transmitir seus pensamentos de forma inteligível e cativante quando chegava a hora.

Esther ficava bem se tivesse a chance de se preparar, mas às vezes seus colegas não

mencionavam que fariam um discurso até que chegassem ao trabalho pela manhã. Ela presumiu que a capacidade deles de falar de improviso era uma função de sua compreensão superior da lei fiscal e que, ao ganhar mais experiência, ela também seria capaz de se dar bem. Mas Esther tornou-se mais antiga e com maior conhecimento, e mesmo assim não conseguia fazer aquilo.

Para resolver o problema de Esther, vamos primeiro focar em outra diferença entre

introvertidos e extrovertidos: sua preferência por estímulos.

Por várias décadas, começando no fim dos anos 1960, o influente psicólogo e pesquisador

Hans Eysenck lançou a hipótese de que os seres humanos procuravam graus “certos” de estímulo — nada a mais nem a menos. Estímulo é a quantidade de informação que nos é dada a partir do mundo exterior. Ele pode assumir inúmeras formas, do barulho à vida social e a luzes piscantes. Eysenck acreditava que extrovertidos preferem mais estímulo do que introvertidos e isso explica muitas de suas diferenças: introvertidos gostam de fechar a porta de seu escritório e mergulhar em seu trabalho, pois para eles esse é o tipo de atividade intelectual que tem o nível ideal de estímulo, enquanto extrovertidos funcionam melhor quando envolvidos em atividades de alta voltagem, como organizar seminários de construção de equipes e reuniões de cúpula.

Eysenck também pensou que a base dessas diferenças pode ser encontrada em uma estrutura

cerebral chamada Sistema de Ativação Reticular Ascendente (ARAS, na sigla em inglês). O ARAS é uma parte do tronco cerebral que tem conexões que levam ao córtex cerebral e outras partes do cérebro. O cérebro possui mecanismos de excitação que fazem com que nos sintamos acordados, alertas e cheios de energia — “despertos”, na linguagem dos psicólogos. Ele também possui mecanismos calmantes que fazem o contrário. Eysenck especulou que o ARAS regula o equilíbrio entre excesso e falta de excitação ao controlar a quantidade de estímulo sensorial que flui para o cérebro; às vezes os canais estão bem abertos, então bastante excitação consegue entrar, e às vezes estão contraídos, então o cérebro é menos estimulado. Eysenck pensou que o ARAS funcionava de forma diferente em introvertidos e extrovertidos: introvertidos teriam canais de informação muito abertos, o que faz com que sejam inundados por estímulos e excessivamente estimulados, enquanto extrovertidos possuem canais mais fechados, fazendo com que tenham tendência a uma subestimulação. O excesso de estímulos não produz tanta ansiedade quanto a sensação de que você não consegue pensar direito — de que você já teve o bastante e gostaria de ir para casa. A subestimulação é algo como uma espécie de claustrofobia. Não estão acontecendo coisas suficientes: você sente coceira, inquietação e falta de energia, como se precisasse sair rapidamente de casa.

Hoje sabemos que a realidade é muito mais complexa. Para começar, o ARAS não liga e

desliga o estímulo como a mangueira de um caminhão de bombeiros, inundando todo o cérebro de uma só vez; diferentes partes do cérebro são estimuladas mais do que outras em ocasiões diferentes. Além disso, altos níveis de estímulo no cérebro nem sempre se correlacionam com o quanto nos sentimos estimulados. E há muitos tipos diferentes de estímulos: aqueles que ocorrem por causa de uma música alta não são os mesmos que acontecem com a explosão de um morteiro, que não são os mesmos de se presidir uma reunião; você pode ser mais sensível a uma forma de estímulo do que a outra. Também é simples demais dizer que sempre procuramos níveis moderados de estímulos: torcedores agitados em um jogo de futebol desejam a hiperestimulação, enquanto pessoas que visitam spas para tratamentos relaxantes procuram níveis baixos.

Ainda assim, mais de mil estudos conduzidos por cientistas pelo mundo testaram a teoria de

Eysenck de que os níveis de estimulação cortical são uma importante pista da natureza da introversão e da extroversão, e parece que são o que o psicólogo especializado em personalidade David Funder chamou de “meio certo” — de várias maneiras importantes. Qualquer que seja a causa subjacente, há muitas evidências de que introvertidos são mais sensíveis do que extrovertidos a vários tipos de estímulo, da cafeína até um barulho alto e o ruído desgastante de um evento social — e que introvertidos e extrovertidos muitas vezes precisam de níveis muito diferentes de estímulo para alcançar sua melhor performance.

Em um conhecido experimento que data de 1967 e ainda é um dos favoritos nas aulas de

psicologia, Eysenck colocou suco de limão na língua de adultos introvertidos e extrovertidos para descobrir quem salivava mais. Com certeza, os introvertidos, sendo mais suscetíveis a estímulos sensoriais, eram aqueles com a boca cheia d’água.

Em outro famoso experimento, pedia-se que introvertidos e extrovertidos jogassem um

desafiador jogo de palavras no qual tinham que aprender, através de tentativa e erro, o princípio do jogo. Enquanto jogavam, eles usavam fones de ouvido que emitiam sons aleatórios. Pedia-se que ajustassem o volume desses fones ao nível que lhes parecesse “certo”. Em média, os extrovertidos escolheram um nível de som de 72 decibéis enquanto os introvertidos optaram por apenas 55 decibéis. Quando trabalhavam no volume que tinham selecionado — alto para os extrovertidos, baixo para os introvertidos —, os dois tipos eram estimulados praticamente no mesmo nível (como foi medido por suas taxas cardíacas e outros indicadores). Eles também jogaram igualmente bem.

Quando se pediu que os introvertidos trabalhassem no nível de som dos extrovertidos e

vice-versa, tudo mudou. Os introvertidos não só foram superestimulados pelo som alto, como também tiveram uma performance inferior — com uma média de 9,1 tentativas em vez de 5,8 para aprender o jogo. O oposto valeu para os extrovertidos — eles ficaram subestimulados (e possivelmente entediados) por condições mais tranquilas e tiveram uma média de 7,3 tentativas, comparada à de 5,4 sob condições mais agitadas.

 

Quando combinada com as descobertas de Kagan sobre a alta reatividade, essa linha de

estudo oferece uma poderosa lente através da qual podemos ver nossas personalidades. Uma vez que você entende a introversão e a extroversão como preferências por certos níveis de estímulo, você pode começar a tentar conscientemente se situar em ambientes favoráveis à sua própria personalidade — nem superestimulante, nem subestimulante, nem entediante, nem causador de ansiedade. Você pode organizar sua vida de acordo com o que psicólogos da personalidade chamam de “níveis ótimos de estimulação” e do que eu chamo de “pontos doces”, sentindo-se assim mais vivo e cheio de energia do que antes.

Seu ponto doce é o lugar em que você está otimamente estimulado. Você provavelmente já

o procura sem ter consciência de que está fazendo isso. Imagine que você está deitado satisfeito em uma rede lendo um excelente livro. Esse é um ponto doce. Mas depois de meia hora, você percebe que leu a mesma frase cinco vezes; agora você está subestimulado. Então você liga para um amigo para chamá-lo para um lanche — em outras palavras, você aumentou seu nível de estímulo —, e enquanto você ri e fofoca comendo, você volta, finalmente, ao seu ponto doce. Mas esse estado agradável só dura até que seu amigo — um extrovertido que precisa de muito mais estímulo do que você — o persuada a acompanhá-lo a uma festa no seu bairro, onde você é confrontado com música alta e com um mar de estranhos.

Os vizinhos do seu amigo parecem gentis, mas você se sente pressionado a conversar,

mesmo com a barulheira da música. E agora — bang! — você saiu do seu ponto doce, só que dessa vez você está superestimulado. E você provavelmente se sentirá desse jeito até arrumar alguém num canto distante da festa para ter uma conversa profunda, ou simplesmente irá embora e voltará ao seu livro.

Imagine o quanto você pode ser melhor nesse jogo do ponto doce se tiver consciência de

que o está jogando. Você pode organizar seu trabalho, seus hobbies e sua vida social para passar o máximo de tempo possível em seu ponto doce. Pessoas que estão cientes de seu ponto doce têm o poder de deixar um emprego que as exaure e começar um negócio novo e satisfatório. Elas podem procurar um lar baseadas no temperamento dos membros de sua família — com lugares aconchegantes perto da janela e outros cantinhos para os introvertidos e grandes salões abertos para os extrovertidos.

Conhecer o seu ponto doce pode aumentar sua satisfação em todas as áreas da vida, mas vai

além disso. Evidências sugerem que pontos doces podem ter consequências de vida ou morte. De acordo com um estudo recente entre militares conduzido pelo Instituto Walter Reed de Pesquisa do Exército, introvertidos funcionam melhor do que extrovertidos quando privados do sono, que é uma condição de desestímulo do córtex (porque sem sono nos tornamos menos alertas, ativos e enérgicos). Extrovertidos sonolentos atrás do volante devem ser especialmente cuidadosos — pelo menos até intensificarem seu nível de excitação bebendo café ou aumentando o volume do rádio. Da mesma forma, introvertidos dirigindo com o barulho excessivamente estimulante do tráfego devem trabalhar para continuar concentrados, já que o ruído pode atrapalhar seu pensamento.

Agora que sabemos sobre níveis ótimos de estímulo, o problema de Esther — de discursar

em público — também faz sentido. O excesso de estímulo interfere na atenção e na memória de curto prazo — componentes-chave ao se falar em público. E como falar em público é uma atividade estimulante por natureza — mesmo para aqueles que, como Esther, não sofrem de medo do palco —, introvertidos podem ter sua atenção prejudicada exatamente quando mais precisam dela. Esther poderia viver o suficiente para ser uma advogada de cem anos, em outras palavras, aquela com maior conhecimento em sua área, e poderia nunca se sentir confortável para falar de improviso. Ela pode ser perpetuamente incapaz de, na hora do discurso, recorrer ao enorme conjunto de dados dentro de sua memória de longo prazo.

Mas uma vez que Esther entenda a si mesma, ela pode insistir que seus colegas avisem sobre

tais eventos com antecedência. Ela pode praticar seus discursos e encontrar-se bem em seu ponto doce quando chegar ao palco. Ela pode fazer a mesma preparação para reuniões com clientes, eventos de formação de redes de contatos e até reuniões informais com seus colegas — qualquer situação de alta intensidade na qual sua memória de curto prazo e a habilidade para pensar rápido possam ser um pouco mais comprometidas que o usual.

 

Esther conseguiu resolver seu problema a partir do conforto de seu ponto doce. Ainda

assim, às vezes superá-lo é nossa única escolha. Alguns anos atrás decidi que queria vencer meu medo de falar em público. Depois de muito pensar, inscrevi-me em um workshop no Centro para a Ansiedade Social de Falar em Público de Nova York. Eu tinha minhas dúvidas: me sentia uma pessoa tímida comum e não gostava da sonoridade patológica do termo “ansiedade social”. Mas a aula era baseada no treinamento para a perda da sensibilidade, uma abordagem que fazia sentido. Muitas vezes usado como um meio para superar fobias, esse método envolve expor-se (e a sua amígdala) repetidas vezes ao que você tem medo, em doses administráveis. Isso é muito diferente do bem-intencionado mas inútil conselho de que você deve mergulhar de cabeça e tentar nadar — uma abordagem que pode funcionar, mas é mais provável que provoque pânico, engendrando ainda mais seu cérebro em um ciclo de terror, medo e vergonha.

Encontrei-me em boa companhia. Havia cerca de quinze pessoas na turma, que era liderada

por Charles di Cagno, um homem pequeno e musculoso com calorosos olhos castanhos e um sofisticado senso de humor. O próprio Charles é um veterano da terapia da exposição. A ansiedade de falar em público não o deixa mais acordado durante a noite, diz ele, mas o medo é um inimigo astuto e Charles está sempre trabalhando para tirar o maior proveito dele.

O workshop começara algumas semanas antes de eu entrar, mas Charles me garantiu que

novatos eram bem-vindos. O grupo era mais diversificado do que eu esperava. Havia uma estilista de cabelos longos e cacheados, batom de cor forte e pontudas botas de couro de cobra; uma secretária com óculos grossos e modos cortantes e diretos, que falava muito da Mensa, associação de pessoas de QI alto da qual fazia parte; um casal de banqueiros de investimentos, altos e atléticos; um ator de cabelos negros e olhos azuis vívidos que saltitava alegremente pela sala com seus tênis Puma, mas dizia estar aterrorizado o tempo todo; um designer de softwares chinês com um sorriso doce e uma risada nervosa. Um verdadeiro cruzamento de nova-iorquinos. Poderia ser uma turma de fotografia digital ou de culinária italiana.

Mas não era. Charles explicou que cada um de nós falaria diante do grupo, mas em um nível

de ansiedade que poderíamos administrar.

Uma instrutora de artes marciais chamada Lateesha foi a primeira a levantar naquela noite.

A tarefa de Lateesha era ler em voz alta para a turma um poema de Robert Frost. Com seus dreads e sorriso largo, Lateesha parecia não ter medo de nada. Mas quando se aprontou para falar com seu livro aberto sobre o púlpito, Charles perguntou o quanto ela estava ansiosa, em uma escala de 1 a 10.

— Pelo menos sete — disse Lateesha.

— Vá devagar — orientou ele. — Apenas algumas pessoas lá fora podem superar

completamente seus medos, e todas elas vivem no Tibete.

Lateesha leu o poema clara e calmamente, com apenas um leve tremor em sua voz. Quando

ela terminou, Charles sorriu, orgulhoso.

— Levante-se, por favor, Lisa — pediu ele, dirigindo-se a uma jovem e bela diretora de

marketing com cabelos negros brilhantes e um cintilante anel de noivado. — É a sua vez de dar uma opinião. A Lateesha parecia nervosa?

— Não — respondeu Lisa.

— Mas eu estava realmente assustada — afirmou Lateesha. — Não se preocupe, ninguém notou — assegurou Lisa. Os outros assentiram vigorosamente. Ninguém notou nada, ecoaram eles. Lateesha sentou-se

parecendo satisfeita.

Eu era a próxima. Subi no palco improvisado e encarei o grupo. Os únicos sons na sala eram

o barulho do ventilador de teto e o clamor do trânsito do lado de fora. Charles pediu para eu me apresentar. Respirei fundo.

— OLÁÁÁ! — gritei, esperando parecer dinâmica. Charles pareceu alarmado.

— Apenas seja você mesma — explicou ele.

Meu primeiro exercício era simples. Tudo o que eu precisava fazer era responder a algumas

perguntas que as pessoas faziam: “Onde você mora?”, “O que você faz da vida?”, “O que você fez esse fim de semana?”.

Respondi às perguntas do meu jeito normal, de fala mansa. O grupo ouviu atentamente.

— Alguém tem mais perguntas para a Susan? — indagou Charles. Todos do grupo

balançaram a cabeça. — Agora, Dan — disse Charles, assentindo para um robusto ruivo que parecia um jornalista falando direto da bolsa de valores de Nova York —, você é um banqueiro e possui altos padrões. Diga-me, a Susan parecia nervosa?

— Nem um pouco — falou Dan.

O resto do grupo assentiu. Nem um pouco, murmuraram eles — assim como tinham feito

com Lateesha.

Você parece tão expansiva, acrescentaram eles. Você parece realmente confiante!

Você tem sorte, pois sempre tem algo a dizer. Sentei-me, sentindo-me muito bem comigo mesma. Mas logo vi que eu e Lateesha não

éramos as únicas a ter aquele tipo de retorno. Alguns outros foram tão bem quanto nós. “Você parecia tão calmo!”, diziam a esses falantes, que ficavam visivelmente aliviados. “Ninguém nunca saberia que você é tímido se você não dissesse! O que você está fazendo nesta aula?”

Num primeiro momento, perguntei-me por que eu prezava tanto essas frases de incentivo.

Então percebi que estava participando do workshop porque queria ir além dos limites do meu temperamento. Eu queria ser a melhor e mais corajosa oradora que pudesse. Os elogios eram a prova de que estava no caminho certo para alcançar esse objetivo. Suspeitei que o retorno que eu estava recebendo era exageradamente caridoso, mas não me importei. O que importava era que eu tinha me dirigido a um público que me recebera bem, e eu me sentira bem com a experiência. Tinha começado a perder a sensibilidade para os horrores de falar em público.

Desde então, falei muitas vezes, para grupos de dez e multidões de centenas. Abracei o

poder do palco. Para mim isso envolve dar passos específicos, incluindo tratar cada discurso como um projeto criativo. Assim, quando me preparo para o grande dia, tenho a sensação de mergulhar fundo no que tanto gosto. Também falo sobre temas que importam profundamente para mim, e descobri que me sinto muito mais centrada quando realmente me importo com o tema.

É claro que nem sempre isso é possível. Às vezes os oradores precisam falar sobre assuntos

que não lhes interessam muito, principalmente no trabalho. Acredito que isso seja mais difícil para introvertidos, que têm dificuldade em projetar um entusiasmo artificial. Mas há uma vantagem escondida nessa inflexibilidade: ela pode nos encorajar a fazer mudanças duras, porém válidas, em nossa carreira se acharmos que somos compelidos a falar muito frequentemente sobre temas que nos deixam indiferentes. Não há ninguém mais corajoso do que a pessoa que fala com a coragem de suas convicções.

 

Notas do capítulo 5