O Poder dos Quietos
Uma nota sobre a dedicatória
Meu avô era um homem de fala mansa com simpáticos olhos azuis e uma paixão por livros e ideias. Ele sempre usava um terno e tinha um modo cortês de comentar qualquer coisa que merecesse ser comentada nas pessoas, principalmente nas crianças. No bairro do Brooklyn, onde ele serviu como rabino, as calçadas estavam recheadas de homens de chapéus pretos, mulheres com saias que escondiam os joelhos e crianças com um improvável bom comportamento. Em seu caminho para a sinagoga, meu avô cumprimentava o passante, gentilmente elogiando a inteligência de uma criança, a altura da outra, o conhecimento de atualidades de uma terceira. As crianças o adoravam, os homens de negócios o respeitavam, as almas perdidas apoiavam-se nele.
Mas o que ele mais adorava fazer era ler. Em seu pequeno apartamento, onde vivera sozinho
durante décadas como viúvo, todos os móveis haviam perdido sua função original para servir de base a pilhas de livros: textos hebraicos com folhas douradas misturados com Margaret Atwood e Milan Kundera. Meu avô gostava de se sentar sob a luz fluorescente em forma de halo em sua pequena mesa da cozinha, bebendo chá gelado e comendo bolo, com um livro aberto sobre a toalha branca de algodão. Em seus sermões, cada um deles uma tapeçaria de pensamentos antigos e humanistas, ele compartilhava os frutos dos estudos daquela semana com a congregação. Era uma pessoa tímida que tinha dificuldade em fazer contato visual com o público, mas era tão ousado em suas explorações espirituais e intelectuais que, quando falava, a congregação tomava-se de um sentimento tão forte que todos ficavam de pé.
O resto da família seguiu o mesmo caminho. Em nossa casa, ler era a atividade de grupo
primária. Nas tardes de sábado, nos aconchegávamos com nossos livros no escritório. Aquilo era o melhor de dois mundos: tinha-se o calor da família por perto, mas também podia-se divagar pela terra da aventura dentro da própria mente.
Mas quando pré-adolescente, comecei a me perguntar se toda aquela leitura teria me
marcado como alguém “de fora”, uma suspeita que pareceu se confirmar quando fui para o acampamento de verão aos dez anos e vi uma garota de óculos grossos e testa larga se recusar a deixar o livro que estava lendo no tão importante primeiro dia de acampamento e instantaneamente se tornar uma pária, seus dias e noites um pesadelo de exclusão social. Eu também desejava ler, mas deixei meus livros intocados na mala (apesar de me sentir culpada por isso, como se eles precisassem de mim e eu os tivesse abandonado). Vi que a garota que continuava lendo era considerada nerd e tímida, as mesmas coisas que eu também era e sabia que precisaria esconder.
Depois daquele verão, me senti menos confortável com meu desejo de ficar sozinha com um
livro. No ensino médio, na faculdade e como jovem advogada, tentei parecer mais extrovertida e menos intelectual do que realmente era.
Mas quando fiquei mais velha, me inspirei no exemplo do meu avô. Ele era um homem
quieto e um grande homem. Quando morreu, aos 94 anos, depois de 62 anos no púlpito, a polícia teve de fechar ruas do bairro para acomodar a multidão de enlutados. Ele ficaria surpreso ao saber disso. Hoje penso que uma das melhores coisas nele era a sua humildade.
Este livro é dedicado, com amor, à família da minha infância. À minha mãe, com seu
infinito entusiasmo para conversas calmas em volta da mesa da cozinha; ela deu a seus filhos o dom da intimidade. Eu tive sorte em ter uma mãe tão devotada. Ao meu pai, um médico dedicado que nos deu o exemplo da alegria de sentar-se por horas em frente à escrivaninha, buscando conhecimento, mas que também me apresentou a seus poemas e experiências científicas favoritos. A meu irmão e minha irmã, com quem compartilho até hoje a ternura e a afeição de ter crescido em nossa pequena família e nossa casa cheia de literatura. À minha avó, por sua determinação, coragem e carinho.
E à memória do meu avô, que falava tão eloquentemente a linguagem da quietude.