O Poder dos Quietos
Apresentação - Max Gehringer
Apresentação
Max Gehringer
Um livro nos atrai por sua capa, por seu título, por sua chamada, ou por tudo isso ao mesmo tempo. Este livro me atraiu, como imagino que tenha atraído a maior parte de seus leitores, devido a uma pergunta inquietante: De que lado do espectro social eu estou? Sou um introvertido? Um extrovertido? Ou é possível ser uma média das duas coisas? Certo, não é uma pergunta, são quatro. Elas vêm rondando as mentes de muitos de nós, e talvez há bastante tempo, sem que o passar dos anos e as experiências nos tenham fornecido uma resposta definitiva e convincente. Até agora.
Foi por isso que li este livro não como se mascasse um chiclete, mas tentando digerir cada
frase. Interrompi a leitura em vários momentos para pesquisar nomes, lugares e fatos. Ao terminar, descobri aliviado que a grande questão — estou lendo este livro para tentar mudar o que sou ou para me sentir melhor sendo o que sou? — me dava como resposta a segunda opção. A proposta do livro é mostrar que a introversão não é uma doença, nem um pecado social, nem uma falha grave na formação. É uma característica inata que, para render bons frutos, tanto na vida pessoal quanto na carreira profissional, não precisa ser curada, remendada ou disfarçada.
Os introvertidos raramente ouviram ou leram algo parecido antes. Pelo contrário. Crianças
caladas, que preferem ficar em seu canto, mesmo que pareçam satisfeitas, são quase sempre incentivadas a se soltar mais, a procurar amigos, a sair da toca. Tanto em casa como na escola, elas são classificadas como envergonhadas, retraídas, sem iniciativa, e comparadas negativamente com colegas que parecem já ter nascido para brilhar sob as luzes dos refletores. O introvertido foi aquele aluno que sabia a resposta a uma pergunta que a professora fez, mas não levantou a mão para responder. Foi aquele que, quando havia um teatrinho numa festa da escola e o coordenador solicitava voluntários para atuar, imediatamente decidia que seu lugar era na plateia, e não no palco.
O introvertido foi aquele pré-adolescente que, arrastado para uma festinha com colegas da
mesma idade, ficou sentado o tempo todo em sua cadeira, observando os acontecimentos, enquanto os colegas mais animados corriam, dançavam e falavam alto. Foi aquele adolescente que aprendeu a tocar um instrumento musical para exprimir sua arte, mas nunca cogitou se apresentar em público para mostrar como era talentoso. E na vida adulta foi, e continua sendo, aquele profissional incapaz de insinuar que está fazendo um excelente trabalho. Se o chefe notar, tudo bem. Se não, paciência. O mundo dos que querem e precisam se sobressair não é o mundo dele. Mas, como se verá fartamente neste livro, grandes mudanças ocorreram no mundo por obra dos introvertidos.
O introvertido é uma pessoa sensível que se sente confortável tendo a si mesmo como
companhia. Ele quer entender o que se passa a seu redor, mas não sente necessidade de alardear seus pontos de vista. Entre um filósofo em causa própria e um alienado social, ele se encaixa perfeitamente na primeira definição, mas a arbitrariedade das convenções tende a empurrá-lo para a segunda. Porque, ao buscar líderes em seus quadros, a maioria das empresas parece confundir liderança com autopromoção e exuberância. O introvertido sabe que dificilmente será o general que sai brandindo a espada à frente de suas tropas, mas tem tudo para ser o estrategista cujo plano garantirá a vitória na batalha. Se não for um novo Alexandre, o Grande, nada impede que ele seja um novo Albert Einstein, um dos muitos introvertidos célebres que não se dobraram aos requisitos que poderiam encaixá-los em uma categoria à qual eles não pertenciam, e não queriam pertencer.
O propósito deste livro é mostrar aos introvertidos e aos calados que eles estão em ótima
companhia. Não apenas em qualidade (muita gente se surpreenderá com o número de gênios cuja introversão era notória), como também em quantidade — pelo menos, um terço da população. Os que sofreram até agora com as críticas à sua atitude, ou falta dela, se sentirão reconfortados ao descobrir que sempre estiveram certos. Não importa se uma pessoa é introvertida ou extrovertida. O que importa é como essas características podem ser bem-utilizadas, e as chances de sucesso são iguais para os dois lados. Isso me fez lembrar de um fato passado há muitos anos, quando eu estava começando a carreira profissional, e que peço uma breve licença para relatar.
Eu tinha um chefe — estranhamente, um japonês chamado Benedito — que era um
introvertido de carteirinha. Ele não apenas falava pouco, como ainda falava tão baixo que eu só conseguia ouvi-lo se me inclinasse sobre a mesa. O seu Benedito contrariava tudo o que eu aprendera até então sobre liderança, porque na época o líder era medido por seus decibéis, e não por suas ideias. Os oráculos de plantão prognosticaram que o seu Benedito não teria vida longa na empresa, por sua quietude, sua falta de pulso, sua mania de contemporizar mesmo quando podia arrasar o oponente. Mas ele não somente sobreviveu, como continuou escalando o organograma até chegar ao topo. Muitos anos depois, tornei a encontrá-lo e perguntei como ele havia conseguido superar tantos obstáculos sem precisar se encaixar no clássico modelo do executivo bem-sucedido. Ele me respondeu (e eu tive que me inclinar para ouvi-lo): “Por que tanta gente acredita que precisa copiar modelos, em vez de tentar ser um modelo para si mesmo?”
Finalmente, um esclarecimento pequeno, porém importante, antes que você termine esse
aperitivo e passe ao prato principal. Timidez e introversão são palavras usualmente empregadas com sentido semelhante, mas definem coisas diferentes. Um introvertido pode eventualmente ser tímido, mas não necessariamente é. Tímidas são pessoas que gostariam de mudar seu comportamento por temerem as consequências dele (o verbo latino timere, origem da palavra, significa “ter medo”). Introvertidos não compartilham dessa necessidade. Eles não sentem falta de ser o que não são, nem qualquer receio de continuar sendo como são.
Gostou até aqui? Então gostará muito mais até a última página. Boa leitura e bom proveito.