O Poder dos Quietos

Susan Cain · Capítulo 15 de 18

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O Poder dos Quietos

11. Sobre sapateiros e generais

 

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Sobre sapateiros e generais

Como educar crianças quietas em um mundo que

não consegue ouvi-las

 

Com qualquer coisa jovem e terna, a parte mais importante da

tarefa é o seu começo; pois é aí que o caráter está sendo formado e a

impressão desejada, mais prontamente absorvida.

— Platão, A República

 

Mark Twain certa vez contou a história de um homem que rodou o planeta em busca do maior general que já viveu. Quando o homem foi informado de que a pessoa que ele procurava já tinha morrido e ido para o céu, ele fez uma viagem aos Portões de Pérolas para procurá-lo. São Pedro apontou um homem qualquer.

— Esse não é o maior dos generais — protestou o homem. — Eu conhecia essa pessoa

quando ela vivia na Terra, e ele era apenas um sapateiro.

— Eu sei disso — disse São Pedro —, mas se ele tivesse sido general, teria sido o maior de

todos.

Todos devemos procurar por sapateiros que poderiam ter sido generais. Isso significa focar

em crianças introvertidas, cujos talentos são demasiadamente reprimidos, seja em casa, seja na escola, seja no parquinho.

Considere essa história como um alerta, contada a mim pelo dr. Jerry Miller, psicólogo

infantil e diretor do Centro para a Criança e a Família da Universidade de Michigan. O dr. Miller tinha um paciente chamado Ethan, cujos pais o haviam levado para tratamento em quatro ocasiões diferentes. A cada vez os pais mencionavam o mesmo medo de que algo estivesse errado com o filho. A cada vez, o dr. Miller assegurara que Ethan estava perfeitamente bem.

A razão para sua preocupação inicial era bastante simples. Ethan tinha sete anos e seu

irmão de quatro anos batera nele várias vezes. Ethan não revidava. Seus pais — ambos tipos sociáveis e proativos com empregos poderosos em empresas e uma paixão pela competição no golfe e no tênis — não viam nada de mais na agressão por parte do filho mais novo, mas preocupavam-se que a passividade de Ethan fosse “ser a história de sua vida”.

Conforme Ethan crescia, seus pais tentaram em vão inculcar o “espírito de luta” no garoto.

Eles o mandaram para o campo de beisebol e de futebol, mas Ethan só queria ir para casa ler. Ele sequer era competitivo na escola. Apesar de muito brilhante, era um aluno mediano. Ele podia ir melhor, mas preferia focar em seus hobbies, principalmente montar miniaturas de carros. Ele tinha alguns amigos próximos, mas nunca estava no centro da vida social da sala de aula. Incapazes de compreender o misterioso comportamento do filho, os pais pensaram que ele poderia estar deprimido.

Mas o problema de Ethan, diz o dr. Miller, não era depressão, mas um caso clássico de “má

combinação entre pais e filho”. Ethan era alto, magro e nada atlético; parecia o típico nerd. Seus pais eram pessoas sociáveis e assertivas que estavam “sempre sorrindo, sempre falando com as pessoas enquanto arrastavam Ethan atrás deles”.

Compare as preocupações deles a respeito de Ethan à avaliação do dr. Miller: “Ele era o

típico fã de Harry Potter — estava sempre lendo”, diz Miller, entusiasticamente. “Ele gostava de qualquer tipo de brincadeira imaginativa. Adorava construir coisas. Tinha tanto que queria compartilhar... Aceitava melhor os pais do que eles o aceitavam. Ele não os definia como um caso patológico, apenas como pessoas diferentes dele. Aquela mesma criança em um lar diferente seria uma criança-modelo.”

Mas os pais de Ethan nunca encontraram uma forma de vê-lo sob essa perspectiva. A última

coisa que o dr. Miller soube foi que os pais finalmente haviam encontrado outro psicólogo que aceitara “tratar” seu filho. E agora era o dr. Miller quem se preocupava com Ethan.

“Esse é um caso claro de um problema ‘iatrogênico’”, diz ele. “É quando o tratamento deixa

você doente. O exemplo clássico é quando se usa o tratamento para tentar transformar uma criança homossexual em heterossexual. Eu me preocupo com essa criança. Esses pais são pessoas muito cuidadosas e bem-intencionadas. Eles sentem que sem o tratamento não estarão preparando o filho para a sociedade. Que ele precisa de mais coragem. Talvez essa última parte seja verdadeira; não sei. Mas quer seja, quer não, acredito firmemente que é impossível mudar essa criança. Preocupa-me que eles estejam pegando um garoto perfeitamente saudável e danificando sua visão de si mesmo.”

É claro que não é necessariamente uma má combinação quando pais extrovertidos têm um

filho introvertido. Com um pouco de atenção e compreensão, qualquer pai pode ser uma boa combinação para qualquer filho, diz o dr. Miller. Mas os pais precisam se distanciar de suas próprias preferências e ver como o mundo é aos olhos do seu filho quieto.

 

Veja o caso de Joyce e de sua filha de sete anos, Isabel. Isabel é uma delicada aluna da

segunda série que gosta de usar sandálias brilhosas e pulseiras coloridas de borracha que serpenteiam seu braço fino. Ela tem várias melhores amigas, com quem troca confidências, e se dá bem com a maioria dos alunos de sua turma. Ela é do tipo que abraça um colega que teve um dia ruim, e até dá seus presentes de aniversário para a caridade. É por isso que sua mãe, Joyce, uma mulher bondosa e atraente, com um senso de humor inteligente e modos expansivos, estava tão confusa com os problemas de Isabel na escola.

Na primeira série, Isabel frequentemente chegava em casa preocupada com a valentona da

sala, que lançava comentários maldosos a qualquer um sensível o bastante para se sentir ferido por eles. Apesar de a valentona em geral alvejar outras crianças, Isabel passava horas dissecando o significado das palavras da garota, quais teriam sido suas verdadeiras intenções e até mesmo o que ela deveria sofrer em casa para motivar seu comportamento tão terrível na escola.

Na segunda série, Isabel começou a pedir a sua mãe para não marcar brincadeiras com

outras crianças sem consultá-la antes. Geralmente ela preferia ficar em casa. Quando Joyce a buscava na escola, ela frequentemente encontrava as outras meninas reunidas em grupos e Isabel no parquinho, lançando uma bola de basquete sozinha. “Ela não estava se enturmando. Eu tive que parar de buscá-la por um tempo”, relembra Joyce. “Era triste demais assistir àquilo.” Joyce não conseguia entender por que sua doce e amorosa filha queria passar tanto tempo sozinha. Ela se preocupava com a possibilidade de haver algo errado com Isabel. Apesar do que sempre pensara a respeito da natureza empática da filha, será que Isabel não tinha a capacidade de se relacionar com os outros?

Foi só quando sugeri que a filha de Joyce poderia ser uma introvertida e expliquei o que isso

era que Joyce começou a pensar de forma diferente sobre as experiências de Isabel na escola. Da perspectiva de Isabel, as coisas não pareciam preocupantes. “Preciso de um tempo depois da escola”, disse ela mais tarde. “A escola é difícil, pois há muitas pessoas na sala, então você fica cansada. Eu fico louca quando minha mãe planeja brincadeiras sem me dizer, pois não quero ferir os sentimentos dos meus amigos. Mas eu prefiro ficar em casa. Na casa de uma amiga você tem que fazer as coisas que as outras pessoas querem fazer. Eu gosto de ficar com a minha mãe depois da escola, pois posso aprender com ela. Ela vive há mais tempo do que eu. Podemos ter conversas profundas. Eu gosto de ter conversas profundas, pois elas deixam as

pessoas felizes.”4

Isabel está nos dizendo, com toda a sua sabedoria da segunda série, que introvertidos se

relacionam com outras pessoas. É claro que sim. Eles apenas fazem isso à sua maneira.

Agora que Joyce entende as necessidades de Isabel, mãe e filha, contentes, trocam ideias,

traçando estratégias que ajudem Isabel a passar o dia na escola. “Antes eu fazia com que Isabel saísse e visse gente o tempo todo, preenchendo seu tempo depois da escola com atividades”, diz Joyce. “Agora eu entendo que a escola é muito estressante para ela, então decidimos juntas quanta socialização faz sentido e quando isso deve acontecer.” Joyce não se importa quando Isabel quer ficar sozinha em seu quarto depois da escola ou sair de uma festa de aniversário um pouco antes das outras crianças. Ela também entende que, como Isabel não vê problema em nada disso, não há razão para ela mesma ver.

Joyce também teve algumas ideias sobre como ajudar a filha a administrar a política do

parquinho. Certa vez, Isabel estava preocupada sobre como dividir o tempo entre três amigas que não se davam bem umas com as outras. “Meu instinto inicial”, diz Joyce, “seria dizer: Não se preocupe com isso! Apenas brinque com todas elas! Mas agora entendo que Isabel é um tipo de pessoa diferente. Ela tem dificuldade em bolar estratégias para lidar com todas essas pessoas simultaneamente no parquinho. Então conversamos sobre com quem ela vai brincar e quando, e ensaiamos coisas que ela pode falar com as amigas para suavizar a situação”.

Outra vez, quando Isabel era um pouco mais velha, ela ficou chateada porque suas amigas

sentavam-se em duas mesas diferentes no refeitório. Uma mesa era povoada por suas amigas quietas e a outra, pelas extrovertidas da turma. Isabel descreveu as meninas do segundo grupo como “barulhentas, falando o tempo todo, sentando-se umas em cima das outras — argh!” Mas ela estava triste pois sua melhor amiga, Amanda, adorava sentar na “mesa maluca”, mesmo também sendo amiga das meninas que se sentavam na “mesa calma e relaxada”. Isabel sentiu-se dividida. Onde ela deveria se sentar?

O primeiro pensamento de Joyce foi que a “mesa maluca” parecia mais divertida. Mas ela

perguntou a Isabel qual ela preferia. Isabel pensou por um minuto e disse: “Talvez de vez em quando eu vá sentar com a Amanda, mas eu realmente gosto de ficar mais quieta e dar um tempo de tudo na hora do almoço.”

Por que você iria querer fazer isso?, pensou Joyce. Mas ela se segurou antes de dizer isso em

voz alta. “Parece bom para mim”, disse a Isabel. “E a Amanda ainda ama você. Só que ela realmente gosta de sentar na outra mesa. Mas isso não significa que ela não goste de você. E você deve ter o tempo de descanso de que precisa.”

Entender a introversão, diz Joyce, mudou sua forma de ser mãe — e ela não acredita que

demorou tanto. “Quando vejo Isabel sendo a pessoa maravilhosa que é, valorizo isso, mesmo que o mundo diga que ela deveria querer estar na outra mesa. Na verdade, olhar para aquela mesa com os olhos dela me ajuda a refletir sobre como sou percebida pelos outros e como preciso estar atenta e administrar meu ‘padrão’ extrovertido, para não perder a companhia de outras pessoas como a minha doce filha.”

Joyce também passou a apreciar os modos sensíveis da filha. “Isabel é uma alma velha”, diz

ela. “Você esquece que ela é só uma criança. Quando falo com ela, não me sinto tentada a usar aquele tom de voz especial que as pessoas reservam às crianças e não adapto meu vocabulário. Falo com ela como falaria com qualquer adulto. Ela é muito sensível, muito zelosa. Ela se preocupa com o bem-estar das outras pessoas. Ela fica facilmente emocionada, mas todas essas características combinam e amo isso na minha filha.”

 

Joyce é uma das mães mais zelosas que já vi, mas ela teve uma curva de aprendizado abrupta

enquanto mãe para sua filha por causa da diferença de temperamentos. Será que ela teria vivido uma combinação mãe-filha mais natural se fosse introvertida? Não necessariamente. Pais introvertidos podem enfrentar seus próprios desafios. Às vezes dolorosas memórias de infância podem atrapalhar.

Emily Miller, uma assistente social de Ann Arbor, Michigan, contou-me sobre uma

menininha que ela tratava, Ava, cuja timidez era tão extrema que impedia que ela fizesse amigos ou se concentrasse na aula. Recentemente ela chorara quando pediram que se juntasse a um grupo para cantar na frente da turma, e sua mãe, Sarah, decidiu procurar a ajuda de Miller. Quando Miller pediu a Sarah, uma bem-sucedida jornalista de negócios, para ser uma parceira no tratamento de Ava, ela se debulhou em lágrimas. Ela também fora uma criança tímida e sentia-se culpada por ter passado a Ava seu terrível fardo.

“Eu escondo isso melhor agora, mas ainda sou como minha filha”, explicou ela. “Eu posso

falar com qualquer um, mas só quando tenho o bloquinho de jornalista como escudo.”

A reação de Sarah não é rara para a mãe pseudoextrovertida de uma criança tímida, diz

Miller. Sarah não apenas está revivendo sua infância, mas também projetando em Ava suas piores memórias. No entanto, Sarah precisa entender que ela e Ava não são a mesma pessoa, mesmo que pareçam ter herdado temperamentos similares. Primeiramente, Ava também é influenciada por seu pai e por inúmeros fatores ambientais, e assim seu temperamento é destinado a se expressar de forma diferente. O sofrimento de Sarah não precisa ser o de sua filha, e é um grande desserviço a Ava presumir que ele será. Com a orientação correta, Ava pode chegar ao ponto em que sua timidez não passará de uma chateação pequena e pouco frequente.

Mas mesmo pais que ainda precisam trabalhar a própria autoestima podem ser

enormemente úteis aos filhos, de acordo com Miller. Conselhos de um pai que compreende como a criança se sente transmitem segurança. Se seu filho está nervoso no primeiro dia de aula, ajuda lhe dizer que você se sentiu do mesmo jeito quando começou a escola e ainda se sente às vezes no trabalho, mas que melhora com o tempo. Mesmo se ele não acreditar em você, é sinal de que você o entende e aceita.

Você também pode usar sua empatia para auxiliá-lo a julgar quando deve encorajar seu

filho a enfrentar os próprios medos e quando isso seria demais para ele. Por exemplo, Sarah pode saber que cantar na frente da turma é um passo grande demais para Ava dar de uma vez só. Mas ela também pode sentir que cantar com um grupo pequeno e simpático, ou com um amigo de confiança, é um primeiro passo administrável, mesmo se Ava protestar em um primeiro momento. Em outras palavras, ela pode sentir quando incentivar Ava, e o quanto.

 

A psicóloga Elaine Aron, cujo trabalho sobre a sensibilidade descrevi no capítulo 6, oferece

ideias sobre essas questões quando escreve sobre Jim, um dos melhores pais que ela conhece. Jim é um extrovertido despreocupado com duas filhas pequenas. A primeira filha, Betsy, é igual a ele, mas a segunda, Lily, é mais sensível — uma interessada mas ansiosa observadora de seu próprio mundo. Jim é amigo de Aron, então sabia tudo sobre sensibilidade e introversão. Ele abraçou o jeito de ser de Lily, mas ao mesmo tempo não queria que ela crescesse tímida.

Então, escreve Aron, ele “tornou-se determinado a apresentá-la a qualquer possível

oportunidade de prazer na vida, desde as ondas do oceano, escalada em árvores e comidas novas a reuniões de família, futebol e variação nas roupas em vez de usar apenas um confortável uniforme. Em quase todos os casos, Lily inicialmente pensou que essas novas experiências não eram ideias tão boas, e Jim sempre respeitou sua opinião. Ele nunca a forçou, apesar de ser muito persuasivo. Ele simplesmente compartilhava sua visão da situação com ela — a segurança e os prazeres envolvidos, as similaridades com coisas de que ela já gostava. Ele esperava por aquele brilhozinho em seus olhos que dizia que queria juntar-se aos outros, mesmo que ainda não pudesse.

Jim sempre abordava essas situações com cuidado para assegurar que ela não acabasse

assustada, e em vez disso fosse capaz de experimentar o prazer e o sucesso. Às vezes ele a

segurava até que estivesse suficientemente pronta. Acima de tudo, ele mantinha aquilo

como um conflito interno, não um conflito entre ele e ela... e se ela ou outra pessoa

comentasse a respeito de sua quietude e hesitação, ele prontamente respondia: “É apenas o

seu estilo. Outras pessoas têm estilos diferentes. Mas esse é o seu. Você gosta de fazer as

coisas em seu próprio tempo e de ter segurança.” Jim também sabe que faz parte do estilo

dela ficar amiga de qualquer um que os outros importunem, fazer seu trabalho com cuidado,

perceber tudo o que acontece na família e ser a melhor estrategista em sua liga de futebol.

Uma das melhores coisas que você pode fazer por uma criança introvertida é trabalhar com

ela em suas reações a novidades. Lembre-se de que introvertidos não reagem apenas a novas pessoas, mas também a novos lugares e acontecimentos. Então não confunda a reserva de seu filho diante de situações novas com incapacidade de se relacionar com os outros. Ele está recuando diante da novidade ou da superestimulação, não diante do contato humano. Como vimos no capítulo anterior, os níveis de introversão e extroversão não estão correlacionados à disposição de ser agradável ou a gostar de intimidade. Introvertidos têm a mesma tendência de outras crianças a procurar companhia, mesmo que frequentemente em doses menores.

O segredo é expor gradualmente seu filho a novas situações e pessoas — tomando cuidado

para respeitar seus limites, mesmo quando parecem extremos. Isso produz crianças mais confiantes do que a superproteção ou superestimulação. Faça com que seu filho perceba que os sentimentos dele são normais e naturais, mas também que não há nada a temer: “Eu sei que pode ser estranho brincar com alguém que você nunca encontrou, mas aposto que aquele menino adoraria brincar de caminhãozinho com você se o convidasse.” Siga o ritmo do seu filho; não o apresse. Se ele for pequeno, faça as apresentações iniciais ao outro menino se precisar. E fique por perto nos bastidores — ou, se ele for realmente pequeno, com uma mão gentil e apoiadora em seu ombro — pelo tempo que parecer que ele se beneficia da sua presença. Quando ele correr riscos sociais, deixe-o saber que você admira seus esforços: “Vi você ir até aquelas crianças novas ontem. Eu sei que pode ser difícil, mas estou orgulhoso de você.”

O mesmo vale para novas situações. Imagine uma criança que tem mais medo do mar do

que outras da mesma idade. Pais atentos reconhecem esse medo como natural e até inteligente; o mar é de fato perigoso. Mas não permitem que ela passe o verão na segurança das dunas nem a jogam na água esperando que nade. Em vez disso, sinalizam que entendem sua aflição, enquanto a estimulam a dar pequenos passos. Talvez brinquem na areia por alguns dias com as ondas do mar batendo a uma distância segura. Um dia eles se aproximam da beira d’água, talvez com a criança encarapitada em seus ombros. Eles esperam um tempo calmo ou uma maré baixa, mergulham um dedo, depois um pé, depois um joelho. Eles não se apressam; cada pequeno passo é enorme no mundo de uma criança. Quando ela finalmente aprende a nadar como um peixe, alcançou o ponto crucial na relação, não apenas com a água, mas também com o medo.

Lentamente, seu filho verá que vale a pena derrubar o muro do desconforto para se divertir

do outro lado. Ele aprenderá a derrubá-lo sozinho. Como escreveu o dr. Kenneth Rubin, diretor do Centro para Crianças, Relacionamentos e Cultura da Universidade de Maryland: “Se você for consistente em ajudar seu filho pequeno a regular suas emoções e seus comportamentos de maneira suave e com apoio, algo mágico começará a acontecer: com o tempo, você poderá ver sua filha silenciosamente se tranquilizando: ‘Aquelas crianças estão se divertindo, eu posso ir até lá.’ Ela estará aprendendo a autorregular seu medo e precaução.”

Se você quiser que seu filho aprenda essas habilidades, não o deixe ouvir que é tímido: ele

acreditará no rótulo e perceberá seu nervosismo como um traço fixo em vez de uma emoção que pode controlar. Ele também saberá muito bem que “tímido” é uma palavra negativa na nossa sociedade. Acima de tudo, não o envergonhe por sua timidez.

Se for possível, é melhor ensinar ao seu filho habilidades de autopersuasão enquanto ele

ainda é muito pequeno, quando há menos estigma associado à hesitação social. Seja um modelo ao cumprimentar estranhos de uma forma calma e amigável e se reunindo com amigos. Da mesma maneira, convide alguns dos colegas de turma dele para ir à sua casa. Deixe-o saber gentilmente que quando está com os outros, não é correto sussurrar ou se encolher para comunicar necessidades, que ele precisa falar em voz alta. Assegure-se de que os encontros sociais dele sejam agradáveis, selecionando crianças que não sejam excessivamente agressivas e grupos que pareçam amigáveis. Faça com que seu filho brinque com crianças menores se isso lhe der confiança, e mais velhas se elas o inspirarem.

Se ele não está se dando bem com uma criança em especial, não o force; você quer que a

maioria de suas primeiras experiências sociais seja positiva. Combine para que ele entre em novas situações sociais o mais gradualmente possível. Quando vocês forem a uma festa de aniversário, por exemplo, converse antes sobre como vai ser a festa e como a criança deve cumprimentar os colegas (“Primeiro você vai dizer ‘Feliz aniversário, Joey’, e depois ‘Oi, Sabrina’”). E garanta que cheguem cedo. É muito mais fácil ser um dos primeiros convidados, pois assim seu filho sente como se as outras pessoas estivessem entrando num espaço do qual ele é “dono”, em vez de precisar penetrar em um grupo preexistente.

Da mesma forma, se seu filho estiver nervoso antes de o ano escolar começar, levo-o para

conhecer sua sala de aula e, idealmente, para conhecer a professora sem outras pessoas em volta, assim como outros adultos de aparência amigável, como os diretores e orientadores, zeladores e funcionários da cantina. Você pode fazer isso de forma sutil: “Eu não conheço a sua sala nova, por que não vamos até lá e damos uma olhada?” Descubram juntos onde é o banheiro, quais são as regras para ir lá, o caminho da sala até a cantina e onde o ônibus da escola irá buscá-lo no fim do dia. Combine encontros durante as férias com crianças compatíveis da mesma turma.

Você também pode ensinar a seu filho estratégias sociais simples para ajudá-lo a enfrentar

momentos desconfortáveis. Encoraje-o a parecer confiante mesmo que ele não esteja. Três lembretes simples valem muito: sorria, mantenha a coluna reta e faça contato visual. Ensine-o a procurar rostos amigáveis na multidão. Bobby, de três anos, não gostava de ir ao jardim de infância porque no intervalo a turma deixava os limites seguros da sala e brincava no terraço com crianças mais velhas de outras turmas. Ele se sentia tão intimidado que só queria ir à escola em dias de chuva, quando não havia brincadeiras no terraço. Seus pais o ajudaram a descobrir com que crianças ele se sentia confortável e a entender que o barulhento grupo de alunos mais velhos não tinha que estragar sua diversão.

Se você achar que não está disposto a tudo isso, ou que seu filho precisa praticar mais, peça

a seu pediatra para ajudar a localizar um curso de habilidades sociais na sua área. Esses cursos ensinam crianças a entrar em grupos, a se apresentarem a novos colegas e a decifrar a linguagem corporal e as expressões faciais. E eles podem ajudar seu filho a passar pelo que para muitas crianças introvertidas é a parte mais complicada de suas vidas sociais: o dia na escola.

 

É a manhã de uma terça-feira de outubro e a turma da quinta série de uma escola pública de

Nova York está se preparando para uma aula sobre as três instâncias do governo norte-americano. As crianças estão sentadas de pernas cruzadas em um tapete num canto iluminado da sala de aula, enquanto a professora, empoleirada em uma cadeira com um livro no colo, leva alguns minutos para explicar os conceitos básicos. Então é hora de uma atividade de grupo aplicando a lição.

“Essa sala fica tão bagunçada depois do almoço...”, diz a professora. “Há chiclete embaixo

das carteiras, embalagens por todos os lados e salgadinhos de queijo por todo o chão. Não gostamos que nossa sala fique bagunçada, não é?” Os alunos balançam a cabeça. “Hoje vamos fazer algo para resolver juntos esse problema.”

Ela divide a sala em três grupos de sete crianças: um grupo legislativo, cuja tarefa é aprovar

uma lei para regular o comportamento da hora do almoço; um grupo executivo, que deve decidir como aplicar a lei; e um grupo judiciário, que tem que formular um sistema para julgar os comedores bagunceiros.

As crianças formam os grupos animadamente, sentando-se em três grandes conjuntos. Não

há necessidade de mudar os móveis de lugar. Como boa parte do currículo é feita para trabalho em grupo, as carteiras já estão arrumadas em grupos de sete. A sala irrompe em uma alegre algazarra. Algumas das crianças que pareciam mortas de tédio durante a lição de dez minutos agora estão conversando com seus colegas.

Mas nem todas. Quando você vê as crianças em uma grande massa, elas parecem felizes

cachorrinhos emaranhados. Mas quando nos concentramos nas crianças individualmente — como Maya, uma ruiva de rabo de cavalo, óculos de aros largos e uma expressão sonhadora no rosto —, temos uma imagem muito diferente.

No grupo de Maya, a “instância executiva”, todos falam ao mesmo tempo. Maya fica na sua.

Samantha, alta e rechonchuda em sua camiseta roxa, toma a frente. “Aquele que estiver segurando a sacola de plástico fala!” Os alunos passam a sacola, cada um contribuindo com um pensamento na sua vez. Eles me lembram as crianças de O senhor das moscas, civicamente passando a concha, pelo menos até que a confusão se instale.

Maya parece intimidada quando a sacola chega até ela.

— Eu concordo — diz ela, entregando-a como uma batata quente à pessoa seguinte. A sacola circula várias vezes pela mesa; cada vez que Maya a passa ao vizinho, não diz nada.

Finalmente a discussão acaba. Ela parece perturbada. Acredito que esteja com vergonha por não ter participado. Samantha lê em seu caderno uma lista de mecanismos de ação que o grupo definiu junto.

— Regra número 1 — diz ela —, se quebrar as leis, perde o recreio... — Espere! — interrompe Maya. — Eu tenho uma ideia! — Fale — diz Samantha, um pouco impaciente. Mas Maya, que como muitos introvertidos sensíveis parece sintonizada nas indicações mais

sutis de desaprovação, nota a malícia na voz de Samantha. Ela abre a boca para falar, mas baixa os olhos, conseguindo apenas balbuciar algo ininteligível. Ninguém consegue ouvi-la. Ninguém tenta. A menina legal do grupo — a anos-luz do restante com sua desenvoltura e suas roupas da moda — suspira dramaticamente. Maya se cala, confusa, e a garota legal diz:

— Tudo bem, Samantha, você pode continuar lendo as regras agora. A professora pede à instância executiva uma recapitulação de seu trabalho. Todos

competem pela chance de falar. Todos menos Maya. Samantha toma a frente como sempre, sua voz sobrepõe-se à de todos os outros, até que o resto do grupo fique em silêncio. Seu relato não faz muito sentido, mas ela está tão confiante e bem-intencionada que isso parece não importar.

Maya, por sua vez, senta-se encolhida às margens do grupo, escrevendo seu nome

repetidamente em seu caderno, em grandes letras de forma, como se para reassegurar sua identidade. Pelo menos para ela mesma.

Mais cedo, a professora de Maya havia me contado que ela é uma aluna intelectualmente

vivaz que brilha ao escrever redações. É uma talentosa jogadora de softbol. E é gentil com os outros, se oferecendo para ser tutora de outras crianças com dificuldade nos estudos. Mas nenhum dos atributos positivos de Maya parece evidente naquela manhã.

 

Qualquer pai ou mãe ficaria consternado ao pensar que essa foi a experiência de seu filho ao

aprender, socializar e ser ele mesmo. Maya é introvertida; ela está fora de seu ambiente em uma sala barulhenta e superestimulante onde as lições são ensinadas em grandes grupos. Sua professora me contou que ela se sairia muito melhor em uma escola com uma atmosfera calma onde pudesse trabalhar com outras crianças que “dessem tão duro e tivessem tanta atenção aos detalhes” e onde boa parte do dia envolvesse trabalho independente. Maya precisa aprender a ser mais assertiva em grupos, é claro, mas será que experiências como a que eu testemunhei lhe ensinarão essa habilidade?

A verdade é que muitas escolas são idealizadas para extrovertidos. Introvertidos precisam

de tipos de instrução diferentes dos extrovertidos, escrevem Jill Burruss e Lisa Kaenzig, especialistas em educação da College of William and Mary. E, com grande frequência, “muito pouco é disponibilizado para esse estudante, exceto conselhos constantes sobre como ser mais sociável e gregário”.

Costumamos esquecer que não há nada sagrado em aprender em salas de aula com grandes

grupos e que organizamos os alunos dessa maneira não por ser a melhor forma de aprender, mas porque é mais vantajoso financeiramente, e o que mais faríamos com nossos filhos enquanto os adultos estão no trabalho? Se seu filho preferir trabalho autônomo e socializar com uma pessoa de cada vez, não há nada de errado com ele; ele apenas não se ajusta ao modelo dominante. O objetivo da escola deve ser preparar as crianças para o resto de suas vidas, mas, com bastante frequência, as crianças precisam estar preparadas é para sobreviver à própria escola.

O ambiente escolar pode ser altamente antinatural, em especial da perspectiva de uma

criança introvertida que ama trabalhar de forma intensiva em projetos com os quais se importa e socializar com um ou dois amigos de cada vez. De manhã, o ônibus abre sua porta e despeja seus ocupantes em uma massa barulhenta e agitada. As aulas são dominadas por discussões em grupo nas quais um professor provoca o aluno introvertido a falar. Ele almoça na algazarra cacofônica da cantina, onde tem que disputar um lugar na mesa lotada. O pior de tudo é que ele tem pouco tempo para criar. O dia é estruturado de uma forma que quase garante que sua energia será sugada em vez de estimulada.

Por que aceitamos essa situação uniformizadora como algo inescapável quando sabemos

perfeitamente que adultos não se organizam assim? Muitas vezes nos maravilhamos com a forma pela qual crianças introvertidas e nerds “desabrocham” em adultos seguros e felizes. Comparamos isso a uma metamorfose. No entanto, talvez não sejam nossos filhos que mudam, mas seus ambientes. Quando adultos, eles podem escolher carreiras, cônjuges e círculos sociais que combinam com eles. Não precisam viver em qualquer cultura na qual sejam mergulhados. Pesquisas de um campo conhecido como “combinação pessoa-ambiente” mostram que as pessoas florescem quando, nas palavras do psicólogo Brian Little, estão “engajadas em ocupações, papéis e cenários que estejam de acordo com suas personalidades”. O oposto também é verdade: crianças param de aprender quando se sentem emocionalmente ameaçadas.

Ninguém sabe disso melhor do que LouAnne Johnson, uma ex-fuzileira naval de fala dura e

professora amplamente reconhecida por educar alguns dos adolescentes mais problemáticos no sistema de educação pública da Califórnia (Michelle Pfeiffer interpretou-a no filme Mentes perigosas). Visitei Johnson em sua casa em Truth or Consequences, Novo México, para descobrir mais sobre sua experiência ensinando crianças de todos os tipos.

Johnson tem facilidade em trabalhar com crianças muito tímidas — o que não é por acaso.

Uma de suas técnicas é compartilhar com seus alunos o quanto ela mesma costumava ser tímida. Sua memória mais antiga da escola é de ser obrigada a ficar de pé num banquinho no jardim de infância porque preferia sentar-se num canto e ler livros e a professora queria que ela “interagisse”. “Muitas crianças tímidas ficam fascinadas ao descobrir que sua professora foi tão tímida quanto elas”, disse ela. “Lembro-me de uma garota muito tímida da minha aula de inglês no ensino médio, cuja mãe me agradeceu por dizer a sua filha que eu acreditava que seu auge seria mais tarde na vida, e que ela não devia se preocupar por não brilhar na escola. Ela disse que aquele comentário mudara a forma como sua filha via a vida. Pense nisso — um comentário desatento causou tanto impacto em uma criança terna.”

Quando estamos encorajando crianças tímidas a falar, diz Johnson, ajuda tornar o assunto

tão atrativo que elas esqueçam suas inibições. Ela aconselha pedir aos alunos que discutam temas quentes como “A vida dos meninos é muitos mais fácil que a das meninas”. Johnson, que frequentemente fala em público sobre educação, apesar de sempre ter tido uma fobia em relação a isso, sabe em primeira mão como isso funciona bem. “Eu não superei minha timidez”, disse ela. “Ela está sentada no cantinho me chamando. Mas sou apaixonada pela ideia de mudar nossas escolas, por isso minha paixão supera minha timidez quando começo a falar. Se você encontra algo que desperte sua paixão ou que gere um desafio saudável, você esquece de si mesmo por um momento. É como férias emocionais.”

Mas não arrisque colocar crianças para fazer um discurso para a turma a não ser que você

tenha dado a elas as ferramentas para saber com razoável confiança que tudo dará certo. Faça as crianças praticarem com um colega ou em grupos pequenos, e se elas ficarem assustadas demais, não as force. Especialistas acreditam que experiências negativas relacionadas a falar em público na infância podem deixar as crianças com um medo eterno do palco.

Então, que tipo de ambiente escolar funcionaria melhor para as Mayas do mundo? Primeiro,

alguns pensamentos para os professores:

• Não pense na introversão como algo que precisa ser curado. Se uma criança introvertida

precisar de ajuda com habilidades sociais, ensine a ela ou recomende treinamento fora do horário de aula, exatamente como você faria com um aluno que precisa de atenção extra em matemática ou leitura. Mas valorize essas crianças pelo que elas são. “O comentário típico nos boletins de muitas crianças é ‘Eu gostaria que Molly falasse mais em aula’”, disse Pat Adams, o ex-diretor da Emerson School, escola para alunos dotados em Ann Arbor, Michigan. “Mas aqui nós entendemos que muitas crianças são introspectivas. Tentamos estimulá-las a se abrir, mas não fazemos disso um grande problema. Acreditamos que crianças introvertidas têm um estilo de aprendizado diferente.”

• Estudos mostram que entre um terço e metade de nós somos introvertidos. Isso significa

que você tem mais crianças introvertidas em sua turma do que pensa. Mesmo quando pequenos, alguns introvertidos passam a agir como extrovertidos, dificultando sua identificação. Equilibre seus métodos de ensino para servir a todas as crianças da turma. Extrovertidos tendem a gostar de movimento, estímulo, trabalho colaborativo. Introvertidos preferem palestras, tempo de descanso e projetos independentes. Faça uma mistura justa.

• Introvertidos muitas vezes têm um ou dois grandes interesses que não são necessariamente

compartilhados por seus colegas. Às vezes eles são influenciados a se sentirem estranhos por conta da força dessas paixões, quando na verdade estudos mostram que esse tipo de intensidade é um pré-requisito para o desenvolvimento de talentos. Elogie essas crianças por seus interesses, encoraje-as e as ajude a encontrar amigos que pensem de forma

parecida, se não na sala de aula, então fora dela.

• Um pouco de trabalho colaborativo é bom para introvertidos, e até mesmo benéfico. Mas

ele deve acontecer em grupos pequenos — pares ou trios — e ser cuidadosamente estruturado para que cada criança saiba seu papel. Roger Johnson, codiretor do Centro de Aprendizado Cooperativo da Universidade de Minnesota, diz que crianças tímidas ou introvertidas se beneficiam especialmente de trabalho bem-administrado em grupos pequenos, pois “geralmente ficam muito confortáveis com um ou dois colegas para responder a uma questão ou completar uma tarefa, mas jamais pensariam em levantar a mão e se dirigir a toda a turma. É muito importante que esses alunos tenham a chance de traduzir seus pensamentos em linguagem.” Imagine o quanto a experiência de Maya teria sido diferente se estivesse em um grupo menor e alguém tivesse se preocupado em dizer: “Samantha, você está encarregada de organizar a discussão. Maya, seu trabalho é tomar notas e lê-las para o grupo.”

• Por outro lado, lembre-se da pesquisa de Anders Ericsson sobre a Prática Deliberada no

capítulo 3. Em muitos campos, é impossível ganhar perícia sem saber trabalhar sozinho. Faça com que os alunos extrovertidos aprendam com seus colegas introvertidos. Ensine a todas as crianças como trabalhar de forma independente.

• Não coloque crianças quietas em lugares próximos às áreas de “alta interação” da sala de

aula, diz o professor de comunicação James McCroskey. Elas não vão falar mais nessas áreas; apenas vão se sentir mais ameaçadas e terão problemas para se concentrar. Facilite a participação em aula para os introvertidos, mas não insista. “Forçar jovens altamente apreensivos a se expressarem oralmente é danoso”, escreve McCroskey. “Isso aumentará a apreensão e reduzirá a autoestima.”

• Se a sua escola tem uma política de admissão seletiva, pense duas vezes antes de basear

suas decisões de admissão na performance de crianças em um cenário de brincadeiras de grupo. Muitas crianças introvertidas fecham-se em grupos de estranhos, e você não terá sequer um vislumbre de como elas são quando estão relaxadas e confortáveis.

E aqui vão alguns pensamentos para os pais. Se você tem a sorte de poder escolher a escola

de seu filho, seja pública, seja privada, você deve procurar um lugar que:

• valorize interesses independentes e enfatize a autonomia • conduza atividades de grupo com moderação e em grupos pequenos e cuidadosamente

administrados

• valorize a gentileza, o acolhimento, a empatia e a cidadania • insista em salas de aula e corredores ordenados • seja organizada em turmas quietas e pequenas • escolha professores que pareçam entender temperamentos tímidos/ sérios/ introvertidos/

sensíveis

• foque as atividades acadêmicas/ esportivas/ extracurriculares em matérias que sejam

particularmente interessantes para seu filho

• insista bastante em um programa antibullying • enfatize uma cultura tolerante e realista

• atraia colegas de mentalidade parecida, por exemplo, crianças intelectuais, artísticas ou

atléticas, dependendo da preferência de seu filho.

Escolher a dedo uma escola pode parecer pouco realista para muitas famílias. Mas qualquer

que seja a escola, há muito que você pode fazer para ajudar seu filho introvertido a se desenvolver. Descubra que matérias mais lhe dão energia e deixe-o livre com elas, seja com tutores externos, seja com programas extras como feiras de ciências e aulas de escrita criativa. Quanto a atividades em grupo, treine-o para procurar por papéis confortáveis em conjuntos maiores. Uma das vantagens do trabalho em grupo, mesmo para introvertidos, é que com frequência ele oferece muitos nichos diferentes. Incentive seu filho a tomar a iniciativa e a pedir para si a responsabilidade de tomar notas, desenhar ou o que quer que lhe interesse mais. A participação parecerá mais confortável quando ele souber qual deve ser sua contribuição.

Você também pode ajudá-lo na prática de falar em voz alta. Deixe-o saber que está tudo

bem em demorar um pouco para reunir os pensamentos antes de falar, mesmo que todo mundo pareça estar agitado. Ao mesmo tempo, lhe dê o conselho de que contribuir mais cedo para a discussão é muito mais fácil do que esperar até que todo mundo tenha falado, pois a tensão aumentará enquanto ele espera sua vez. Se ele não tiver certeza do que dizer, ou se estiver se sentindo desconfortável para fazer afirmações, ajude-o a jogar com seus pontos fortes. Ele tende a fazer perguntas inteligentes? Elogie essa qualidade e ensine-o que boas perguntas são muitas vezes mais úteis do que propor respostas. Ele tende a ver as coisas de um ponto de vista único? Ensine a ele o quanto isso é valioso e converse sobre como pode compartilhar essa visão com os outros.

Explore cenários da vida real: por exemplo, os pais de Maya poderiam sentar com ela e

descobrir como a filha poderia ter lidado com o exercício do grupo executivo de maneira diferente. Tente interpretar, nas situações mais específicas possíveis. Maya poderia ensaiar com suas próprias palavras como seria dizer “Eu tomarei notas!” ou “E se fizermos uma regra em que todos os que jogarem embalagens no chão terão que passar os últimos dez minutos do almoço recolhendo lixo?”.

O desafio é que isso depende de fazer Maya se abrir e contar o que aconteceu em seu dia na

escola. Mesmo que geralmente sejam expansivas, muitas crianças não compartilham experiências que as tenham feito sentir-se envergonhadas. Quanto mais nova for a criança, mais ela tenderá a se abrir, então você deve começar esse processo o mais cedo possível em sua vida escolar. Peça informações ao seu filho de uma maneira gentil e sem fazer julgamentos, com perguntas específicas e claras. Em vez de perguntar “Como foi seu dia?”, tente perguntar “Do que você gosta na sua professora?”, ou “Do que você não gosta muito?”. Deixe-o responder em seu tempo. Tente evitar questionamentos, com a voz excessivamente animada que muitos pais costumam usar: “Você se divertiu na escola hoje?!” Ele sentirá o quanto é importante responder que sim.

Se mesmo assim ele não quiser falar, espere. Às vezes ele precisará relaxar por algumas

horas antes de estar pronto. Você pode perceber que ele se abre apenas em momentos aconchegantes e relaxados, como na hora do banho ou na hora de dormir. Se esse for o caso, assegure-se de construir essas situações ao longo do dia. E se ele falar com outros, como uma babá em quem confia, uma tia ou um irmão mais velho, mas não com você, engula seu orgulho e peça ajuda.

Finalmente, tente não se preocupar se seu filho introvertido não for a criança mais popular

da escola. É de fundamental importância para seu desenvolvimento que ele tenha uma ou duas amizades sólidas, dizem os especialistas em desenvolvimento infantil, mas ser popular não é necessário. Muitas crianças introvertidas desenvolvem excelentes habilidades sociais quando crescem, mesmo que tendam a entrar em grupos de sua própria maneira — esperam um pouco antes de tomarem a iniciativa ou participam apenas por períodos curtos. Não tem problema. Seu filho precisa adquirir habilidades sociais e fazer amigos, não se tornar o aluno mais sociável da escola. Isso não significa que a popularidade não seja divertida. Provavelmente você deseja isso para ele, assim como pode desejar que ele seja bonito, esperto ou talentoso nos esportes. Mas certifique-se de que você não está impondo seus desejos, e lembre-se de que há muitos caminhos para uma vida satisfatória.

 

Muitos desses caminhos serão encontrados em interesses fora da escola. Enquanto

extrovertidos têm mais tendência a passar de um hobby ou atividade para outro, os introvertidos geralmente são fiéis ao que os entusiasma. Isso lhes dá uma maior vantagem quando crescem, pois a verdadeira autoestima vem da competência, e não o contrário. Pesquisadores descobriram que o engajamento e o compromisso intensos em uma atividade são uma rota comprovada para a felicidade e o bem-estar. Talentos e interesses bem-desenvolvidos podem ser uma ótima fonte de confiança para seu filho, não importa o quanto ele possa se sentir diferente dos colegas.

Por exemplo, Maya, a menina que era um membro tão quieto da “instância executiva”,

adora ir para casa depois de um dia na escola e ler. Mas ela também ama softbol, com todas as pressões sociais e de performance. Ela ainda se lembra do dia em que entrou no time depois de passar por testes. Maya ficou paralisada de medo, mas também se sentiu forte — capaz de bater na bola com um bom e poderoso golpe. “Acho que todos aqueles treinos finalmente compensaram”, refletiu ela mais tarde. “Eu apenas continuei sorrindo. Estava tão feliz e orgulhosa — e aquela sensação nunca foi embora.”

Para os pais, no entanto, nem sempre é fácil orquestrar situações que provocam sentimentos

profundos de satisfação. Por exemplo, você pode sentir que deve encorajar seu filho a praticar qualquer esporte que seja a porta de entrada para a amizade e a admiração em sua cidade. E não há problema, se ele gostar desse esporte e for bom nele, como Maya no softbol. Esportes de equipe podem ser um grande benefício para qualquer um, especialmente crianças que de outra maneira se sentiriam desconfortáveis ao participar de um grupo. Mas deixe seu filho tomar a dianteira em escolher as atividades de que mais gosta. Tudo bem se ele não gostar de nenhum esporte de equipe. Ajude-o a procurar atividades em que ele conhecerá outras crianças, mas nas quais também tenha bastante espaço próprio. Cultive os pontos fortes de que ele dispõe. Se suas paixões forem solitárias demais para o seu gosto, lembre-se de que atividades solo como pintura, engenharia ou escrita criativa podem levar a comunidades de colegas entusiastas.

“Conheci crianças que encontraram outras”, diz o dr. Miller, “ao compartilhar interesses

importantes: xadrez, RPGs elaborados, e até discutindo interesses profundos como matemática ou história”. Rebecca Wallace-Segall, diretora do Writopia Lab, em Nova York, que dá oficinas de escrita criativa para adolescentes, diz que estudantes que se matriculam em suas aulas “frequentemente não são garotos e garotas que gostariam de falar durante horas sobre moda e celebridades. Esses adolescentes têm menos tendência a vir, talvez porque estejam menos inclinados a analisar e mergulhar fundo — não é a zona de conforto deles. As ditas crianças tímidas geralmente estão famintas para discutir ideias, desconstruí-las e executá-las, e, paradoxalmente, quando se permite que interajam assim, elas não são nada tímidas. Elas se conectam com os outros, mas em uma zona mais profunda, em um lugar que é considerado chato ou cansativo por alguns de seus colegas.” Essas crianças “desabrocham” quando estão prontas; a maioria dos garotos e garotas da Writopia lê seus trabalhos em livrarias locais e um espantoso número ganha prêmios de grande prestígio em competições de escrita nacionais.

Se seu filho tende à superestimulação, então também é uma boa ideia que ele escolha

atividades como arte ou corrida de longa distância, que dependem menos da performance sob pressão. Se ele se sentir atraído por atividades que requeiram performance, você pode ajudá-lo a se desenvolver.

Quando eu era criança, adorava patinação artística. Podia passar horas no rinque traçando

oitos, girando alegremente ou voando pelo ar. Mas no dia das minhas competições, eu ficava um caco. Não dormia na noite anterior e muitas vezes caía durante movimentos que executara com facilidade nos treinos. Primeiro, eu acreditei no que as pessoas me diziam — que eu ficava nervosa, como todo mundo. Mas então vi uma entrevista na TV com Katarina Witt, medalha de ouro nas Olimpíadas. Ela disse que a tensão antes das competições dava-lhe a adrenalina que ela precisava para ganhar o ouro.

Então eu soube que Katarina e eu éramos criaturas completamente diferentes, mas levei

décadas para descobrir por quê. Seus nervos eram tão brandos que simplesmente a energizavam, enquanto os meus eram opressores o bastante para me sufocar. Na época, minha mãe, que me dava muito apoio, perguntou a outras mães de patinadoras como suas filhas lidavam com a ansiedade pré-competição, e voltou com ideias que ela esperava que fizessem com que me sentisse melhor. “A Kristen também fica nervosa”, relatou ela. “A mãe da Rebecca disse que ela fica apavorada na noite anterior a uma competição.” Mas eu conhecia bem Kristen e Rebecca, e tinha certeza de que elas não tinham tanto medo quanto eu.

Acho que teria ajudado se eu me entendesse melhor naquela época. Se você for pai ou mãe

de uma aspirante a patinadora artística, ajude-a a aceitar que ela fica nervosa por causa de deveres pesados, sem lhe dar a ideia de que isso é fatal para o seu sucesso. O que ela mais tem medo é de falhar publicamente. Ela precisa perder a sensibilidade a esse medo habituando-se a competir e até mesmo a fracassar. Encoraje-a a entrar em competições de nível mais baixo longe de casa, onde ela se sentirá anônima e ninguém vai saber se ela cair. Certifique-se de que ela ensaiou bastante. Se ela planejar competir em um rinque que não conheça, tente fazer com que pratique nele algumas vezes. Fale sobre o que pode dar errado e sobre como lidar com isso: “Ok, e daí se você cair e ficar em último lugar? A vida continua!” E ajude-a a vislumbrar a sensação de fazer seus movimentos suavemente.

 

Despertar uma paixão pode transformar uma vida, não apenas pelo tempo em que seu filho

estiver na escola, mas muito além. Considere a história de David Weiss, baterista e jornalista musical. David é um bom exemplo de alguém que cresceu tímido como Charlie Brown, mas que construiu uma vida de criatividade, produtividade e propósito. Ele ama a esposa e seu filhinho. Gosta do trabalho que tem. Possui um grande e interessante círculo de amizades e mora em Nova York, que ele considera o lugar mais vibrante do mundo para um entusiasta da música. Se você medir a vida pelos termômetros do amor e do trabalho, então David é um enorme sucesso.

Mas nem sempre ficou claro, pelo menos para ele, que sua vida se desenrolaria tão bem.

Quando criança, ele era tímido e estranho. As coisas de que gostava, a música e a escrita, não tinham valor para as pessoas que mais lhe importavam naquela época: seus colegas. “As pessoas sempre me diziam: ‘Esses são os melhores anos da sua vida’”, lembra ele. “E eu pensava comigo mesmo: Espero que não! Eu odiava a escola. Lembro-me de pensar: Eu tenho que sair daqui. Eu estava na sexta série quando o filme A vingança dos nerds foi lançado e parecia que eu tinha saído do elenco. Eu sabia que era inteligente, mas cresci no subúrbio de Detroit, que é como 99% do resto do país: se você for bonito e atleta, não será importunado. Mas os outros não o respeitam se você parecer inteligente demais. Eles provavelmente tentarão aborrecê-lo por isso. Esse era meu melhor atributo, e eu definitivamente gostava de usá-lo, mas também era algo que eu precisava manter sob controle.”

Então, como ele passou de um ponto a outro? A chave para David foi tocar bateria. “Em um

certo ponto”, diz David, “eu superei totalmente meus problemas da infância. E sei exatamente como: comecei a tocar bateria. A bateria é a minha musa. É o meu Yoda. Quando eu estava no colégio, a banda de jazz do ensino médio veio e tocou para a gente e eu pensei que o mais legal era, de longe, o garoto que tocava bateria. Para mim, os bateristas eram como atletas, mas atletas musicais, e eu adorava música”.

Em um primeiro momento, para David, tocar bateria era mais uma questão de afirmação

social: ele parou de ser expulso de festas por atletas que tinham o dobro de seu tamanho. Mas logo se tornou algo muito mais profundo: “De repente reparei que aquela era uma forma de expressão criativa, e isso transformou por completo minha mente. Eu tinha quinze anos. Foi quando me comprometi a continuar com aquilo. Minha vida inteira mudou por causa da bateria, e isso não parou até hoje.”

David ainda se lembra bem como era ser ele mesmo aos nove anos. “Sinto que estou em

contato com aquela pessoa hoje em dia”, diz ele. “Quando faço algo que ache legal, como estar em numa sala cheia de gente em Nova York entrevistando a cantora Alicia Keys ou coisa do gênero, mando uma mensagem para aquela pessoa para que ela saiba que tudo terminou bem. Eu me sinto como se tivesse nove anos e estivesse recebendo um sinal do futuro, o que é uma das coisas que me deu força para continuar. Eu consegui criar essa dinâmica entre quem sou agora e quem eu era no passado.”

A outra coisa que deu força a David foram seus pais. Eles focaram menos em desenvolver

sua confiança e mais em assegurar que encontrasse maneiras de ser produtivo. Não importava no que ele estivesse interessado, desde que se dedicasse àquilo e se divertisse. David lembra-se de que seu pai era um grande fã de futebol americano, mas “a última pessoa a dizer ‘como é que você não está no campo de futebol?’”. Por um tempo, David tocou piano, depois violoncelo. Quando anunciou que queria trocar para a bateria, seus pais ficaram surpresos, mas nunca relutaram. Eles aceitaram sua nova paixão. Foi a maneira de eles acolherem o filho.

 

Se a história de transformação de David Weiss diz algo a você, é por uma boa razão. Ela é

um exemplo perfeito do que o psicólogo Dan McAdams chama de história de vida de redenção — e um sinal de saúde mental e bem-estar.

No Centro para o Estudo de Vidas Foley da Universidade Northwestern, McAdams estuda

as histórias que as pessoas contam sobre elas mesmas. Ele acredita que todos escrevemos nossas histórias de vida como se fôssemos autores, com inícios, conflitos, reviravoltas e fins. E o modo como caracterizamos nossos reveses passados influencia profundamente o quanto estamos satisfeitos com nossa vida atual. Pessoas infelizes tendem a ver reveses como contaminadores que arruinaram algo que de outra maneira seria bom (“Nunca mais fui o mesmo depois que minha esposa me deixou”), enquanto adultos produtivos os veem como bênçãos disfarçadas (“O divórcio foi a coisa mais dolorosa que já me aconteceu, mas estou muito mais feliz com a minha nova esposa”). Aqueles que vivem as vidas mais realizadas — recompensando suas famílias, sociedades e, finalmente, a si próprios — tendem a encontrar significado em seus obstáculos. Em certo sentido, McAdams deu nova vida a uma das grandes ideias da mitologia ocidental: é onde tropeçamos que se encontram nossos tesouros.

Para muitos introvertidos como David, a adolescência é o grande local de tropeços, o

matagal escuro e emaranhado da baixa autoestima e da inquietação social. No final do ensino fundamental e no ensino médio, a moeda principal é a vivacidade e a sociabilidade; atributos como profundidade e sensibilidade não contam muito. Mas muitos introvertidos têm sucesso compondo histórias de vida parecidas com a de David. Nossos momentos de Charlie Brown são o preço que temos que pagar para tocar felizes nossas baterias por décadas.

4 Algumas pessoas que leram este livro antes da publicação comentaram que a citação de Isabel não poderia estar correta — “Nenhuma criança da segunda série fala assim!” Mas foi isso o que ela disse.

 

 

Notas do capítulo 11