O Poder dos Quietos
8. O soft power
Parte Três: Todas as culturas têm um Ideal da Extroversão?
Parte Três
Todas as culturas têm um Ideal da Extroversão?
8. O soft power
8
O soft power
Os norte-americanos de origem asiática e o Ideal da Extroversão
De uma forma suave, você pode sacudir o mundo.
— Mahatma Gandhi
É um ensolarado dia de primavera em 2006 e Mike Wei, um garoto de dezessete anos nascido na China que cursa o último ano do ensino médio na Lynbrook High School, perto de Cupertino, Califórnia, está me contando suas experiências como estudante norte-americano de origem asiática. Mike está vestido com um visual totalmente norte-americano, de calça cáqui, casaco esportivo e um boné de beisebol, mas seu rosto doce e sério e um fino bigode lhe dão a aura de um filósofo iniciante, e ele fala tão baixo que tenho que me inclinar para escutá-lo.
“Na escola”, diz Mike, “estou muito mais interessado em ouvir o que a professora fala e em
ser um bom aluno do que em ser o palhaço da turma ou interagir com os outros alunos. Se ser sociável, falar alto ou fazer gracinhas na aula afetará a educação que recebo, é melhor eu ir pelo caminho da educação”.
Mike relata essa visão pragmática, mas sabe como ele parece incomum para os padrões
norte-americanos. Sua atitude vem dos pais, explica ele. “Se eu tiver que escolher entre fazer algo por mim, como sair com meus amigos ou ficar em casa estudando, penso em meus pais. Isso me dá forças para continuar estudando. Meu pai me diz que o trabalho dele é ser programador de computadores e que o meu trabalho é estudar.”
A mãe de Mike ensinou-lhe a mesma lição. Uma ex-professora de matemática que
trabalhou como empregada doméstica quando a família imigrou para a América do Norte, ela memorizava palavras em inglês enquanto lavava pratos. Segundo Mike, ela é muito quieta e muito determinada. “É realmente algo bastante chinês procurar sua própria educação assim. Minha mãe tem o tipo de força que nem todos conseguem enxergar.”
Ao que tudo indica, Mike deixou os pais orgulhosos. O login de seu e-mail é “aluno nota
10” e ele acabou de ganhar uma cobiçada vaga como calouro na prestigiada Universidade de Stanford. É o tipo de aluno dedicado e atencioso que qualquer comunidade adoraria ter. E, mesmo assim, de acordo com um artigo chamado “A nova fuga branca”, publicado no Wall Street Journal apenas seis meses antes, famílias brancas estão deixando Cupertino em bandos, exatamente por causa de garotos como Mike. Elas estão fugindo das notas altíssimas e dos impressionantes hábitos de estudo de muitos estudantes ásio-americanos. O artigo dizia que pais brancos temiam que seus filhos não conseguissem atingir tal padrão acadêmico. Ele citava um aluno de uma escola de ensino médio local: “Se você fosse asiático, tinha que confirmar que era inteligente. Se você fosse branco, tinha que provar.”
Mas o artigo não explorava o que estava por trás dessa performance acadêmica estelar. A
minha curiosidade era saber se aqueles alunos com inclinações acadêmicas refletiam uma cultura isolada dos piores excessos do Ideal da Extroversão — e se refletiam, como era o ambiente. Decidi visitar a cidade e descobrir.
À primeira vista, Cupertino parece a materialização do sonho norte-americano. Muitos
imigrantes asiáticos de primeira e segunda geração moram ali e trabalham em empresas locais de alta tecnologia. A matriz da Apple fica na cidade. A matriz da Google é um pouco mais abaixo na rua. Carros muito bem-cuidados deslizam ao longo das ruas; os poucos pedestres estão vestidos com cores brilhantes ou alvas. Casas de rancho pouco atraentes são caras, mas os compradores acham que o custo é válido para que seus filhos frequentem o famoso sistema de educação pública da cidade, com suas fileiras de garotos dirigidos às melhores universidades do país. Dos 615 alunos da turma formada em 2010 na Monta Vista High School de Cupertino (77% dos quais são ásio-americanos, de acordo com o site da escola, que possui uma parte disponível em chinês), 53 foram finalistas da bolsa de mérito nacional. A média das notas dos alunos de Monta Vista no SAT — espécie de vestibular norte-americano — em 2009 foi 1.916, de um total de 2.400, 27% mais alta que a média nacional.
Alunos respeitados na Monta Vista High School não são necessariamente atletas ou
vivazes, de acordo com os estudantes que encontrei aqui. Em vez disso, eles são estudiosos e às vezes quietos. “Ser inteligente é de fato admirado, mesmo se você for estranho”, diz um aluno coreano-americano do segundo ano chamado Chris. Ele descreve a experiência de seu amigo, cuja família foi passar dois anos em uma cidade do Tennessee onde moravam poucos ásio-americanos. O amigo gostara, mas sofrera um choque cultural. No Tennessee “havia pessoas incrivelmente inteligentes, mas elas estavam sempre sozinhas. Aqui, pessoas realmente inteligentes em geral possuem muitos amigos, porque podem ajudar as pessoas em seu trabalho”.
A biblioteca é para Cupertino o que o shopping ou o campo de futebol são para outras
cidades: o centro não oficial da vida local. Alunos do ensino médio se referem alegremente a estudar como “fazer nerdice”. O futebol e a animação de torcidas não são atividades particularmente respeitadas. “Nosso time de futebol é horrível”, diz Chris, simpático. Apesar de os resultados recentes do time serem mais impressionantes do que Chris sugere, ter um mau time de futebol parece assumir um significado simbólico para ele. “Nem dá para saber que são jogadores de futebol”, explica ele. “Eles não usam jaquetas do time nem viajam em grandes grupos. Quando um dos meus amigos se formou, eles mostraram um vídeo e meu amigo disse: ‘Não acredito que estão mostrando jogadores de futebol e líderes de torcida nesse vídeo.’ Não é isso o que move esta cidade.”
Ted Shinta, professor e conselheiro da equipe de robótica da Monta Vista High School diz
algo similar: “Quando eu estava no ensino médio, éramos desencorajados a votar nas eleições estudantis a não ser que usássemos a jaqueta do time de futebol. Na maioria das escolas de ensino médio há um grupo popular que tiraniza os restantes. Mas aqui os alunos desse grupo não têm poder algum sobre os outros. O corpo discente é muito voltado ao desempenho acadêmico.”
Uma conselheira universitária local chamada Purvi Modi concorda. “A introversão não é
desprezada”, diz ela. “Ela é aceita. Em alguns casos é até altamente respeitada e admirada. É legal ser um campeão de xadrez e tocar na banda.” Há um espectro introvertido-extrovertido aqui, como em qualquer lugar, mas é como se a população fosse distribuída por alguns graus a mais no lado introvertido da escala. Uma jovem sino-americana prestes a começar seu primeiro ano na elitista East Coast College percebeu esse fenômeno depois de conhecer suas futuras colegas de turma pela internet e se preocupa com o que o futuro pós-Cupertino pode lhe reservar. “Conheci algumas pessoas pelo Facebook”, diz ela, “e elas são muito diferentes. Sou realmente quieta. Não gosto tanto de festas ou de socializar, mas todo mundo parece ser muito sociável e tal. São muito diferentes dos meus amigos. Sequer tenho certeza de que terei amigos quando chegar lá”.
Uma de suas correspondentes mora perto, em Palo Alto, e pergunto o que ela responderá se
essa pessoa convidá-la para encontrá-la no verão.
“Eu provavelmente não aceitaria”, diz ela. “Seria interessante conhecê-los, mas minha mãe
não quer que eu saia muito, pois tenho que estudar.”
Fico impressionada com o senso de obrigação filial da jovem e com a conexão que isso tem
com priorizar os estudos em vez da vida social. Mas isso não é incomum em Cupertino. Muitos jovens ásio-americanos dizem-me que estudam durante todo o verão a pedido dos pais, recusando até mesmo convites para festas de aniversário em julho para poderem se adiantar para os exames de cálculo de outubro.
“Acho que é a nossa cultura”, explica Tiffany Liao, uma equilibrada aluna do último ano
prestes a ingressar na Swarthmore High School, cujos pais são de Taiwan. “Estudar, sair-se bem, não criar transtornos. É inato em nós sermos mais quietos. Quando era pequena e ia à casa de amigos dos meus pais e não queria falar, levava um livro. Era como um abrigo e eles diziam: ‘Ela é tão estudiosa!’ E isso era um elogio.”
É difícil imaginar outros pais e mães norte-americanos de fora de Cupertino sorrindo para
uma criança que lê em público enquanto todos estão reunidos para um churrasco. Mas pais que frequentaram a escola uma geração atrás em países asiáticos provavelmente aprenderam a adotar esse estilo mais quieto quando crianças. Em muitas salas de aula do Leste Asiático, o currículo tradicional enfatiza a escuta, a escrita, a leitura e a memorização. Falar simplesmente não é o foco, e chega a ser desencorajado.
“O ensino em nossos países de origem é muito diferente do daqui”, diz Hung Wei Chien,
uma mãe de Cupertino que veio de Taiwan para os Estados Unidos em 1979 para estudar na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). “Lá você aprende a matéria e eles o testam. Pelo menos quando eu cresci, eles não saíam muito da matéria e não permitiam que os alunos vagabundeassem. Se você levantasse e dissesse besteira, seria repreendido.”
Hung é uma das pessoas mais alegres e extrovertidas que já conheci, dada a gestos largos e
expansivos e frequentes risadas. Vestida com shorts de corrida, tênis e joias cor de âmbar, ela me cumprimenta com um abraço apertado e nos leva a uma padaria para o café da manhã. Comemos nossos doces, conversando sociavelmente.
Até que Hung se lembra do choque cultural quando entrou pela primeira vez em uma sala de aula no estilo norte-americano. Ela considerava rude participar da aula, pois não queria desperdiçar o tempo de seus colegas. E, com certeza, diz ela, rindo, “Eu era a pessoa quieta ali. Na UCLA, o professor começava as aulas dizendo: ‘Vamos discutir!’ Eu olhava para os meus colegas falando besteiras e os professores eram tão pacientes, apenas ouvindo a todos”. Ela assente comicamente, imitando os muito respeitosos professores.
“Lembro-me de ficar impressionada. Era uma aula de linguística e os alunos sequer estavam
falando de linguística! Eu pensei: ‘Ah, não, nos Estados Unidos, desde que você comece a falar está tudo bem.’”
Se Hung ficou atordoada com o estilo norte-americano de participação em aula, é provável
que seus professores tenham ficado igualmente perplexos com sua falta de vontade de falar. Vinte anos depois de Hung ter se mudado para os Estados Unidos, o jornal San Jose Mercury News publicou um artigo chamado “Oriente e Ocidente, tradições de ensino em colisão”, explorando o espanto dos professores com a relutância de alunos de origem asiática em participar das aulas em universidades da Califórnia. Um professor notou uma “barreira de respeito”, criada pela reverência dos alunos asiáticos pelos professores. Outro defendia tornar a participação em sala parte da nota para estimular os estudantes asiáticos a falar em aula. “Imagina-se que você deva se diminuir no ensino chinês, pois outros pensadores são muito melhores que você”, disse um terceiro. “Esse é um problema recorrente em turmas com predominância de alunos ásio-americanos.”
O artigo gerou forte reação na comunidade ásio-americana. Alguns disseram que as
universidades estavam certas ao defender que os alunos asiáticos precisavam adaptar-se às normas educacionais ocidentais. “Ásio-americanos deixaram as pessoas passarem por cima deles por causa de seu silêncio”, escreveu um leitor do site ironicamente chamado Model Minority [Minoria-modelo]. Outros sentiram que os estudantes asiáticos não deveriam ser forçados a falar para se encaixar no modelo ocidental. “Talvez, em vez de tentar mudar o jeito deles, as universidades possam aprender a ouvir o som do silêncio”, escreveu Heejung Kim, psicóloga cultural da Universidade de Stanford, em um artigo argumentando que falar nem sempre é um ato positivo.
Como é que asiáticos e ocidentais podem olhar para exatamente as mesmas interações em
sala de aula e um grupo chamá-las de “participação em aula” e o outro de “dizer besteiras”? O Journal of Research in Personality publicou uma resposta para essa pergunta na forma de um mapa-múndi desenhado pelo pesquisador em psicologia Robert McCrae. O mapa de McCrae parece com algo que veríamos em um livro de geografia, mas é baseado, diz ele, “não na quantidade de chuva ou na densidade populacional, mas em níveis de traços de personalidade”; suas nuances de cinza-claro e cinza-escuro — claro para introversão, escuro para extroversão — revelam uma imagem “que é bem clara: a Ásia (...) é introvertida e a Europa, extrovertida”. Se o mapa também incluísse os Estados Unidos, sua cor seria cinza-escuro. O povo norte-americano é um dos mais extrovertidos da Terra.
O mapa de McCrae parece ser um grande exercício de estereotipagem. Agrupar continentes
inteiros pelo tipo de personalidade é um ato de generalização grosseira: é possível encontrar pessoas falantes na China continental com tanta facilidade quanto em Atlanta, Geórgia. O mapa também não conta as sutis diferenças culturais dentro de um país ou região. Pessoas em Pequim têm estilos diferentes daquelas em Xangai e ambas são diferentes ainda dos cidadãos de Seul ou Tóquio. Da mesma maneira, descrever asiáticos como uma “minoria-modelo” — mesmo quando isso é um elogio — é tão restritivo e condescendente quanto qualquer descrição que reduza indivíduos a um conjunto de características de grupo observadas. Talvez também seja problemático classificar Cupertino como uma incubadora de gênios acadêmicos, não importa o quanto isso possa soar lisonjeiro para alguns.
Mas apesar de eu não querer encorajar uma estereotipagem nacional ou étnica rígida, evitar
completamente o tópico da diferença cultural e da introversão seria uma pena: há muitos aspectos da cultura e personalidade asiáticas com que o resto do mundo poderia e deveria aprender. Durante décadas, acadêmicos têm estudado diferenças culturais em traços de personalidade, especialmente entre Ocidente e Oriente e especialmente na dimensão da introversão e da extroversão, o par de traços que os psicólogos, que não concordam em praticamente nada quando a questão é catalogar a personalidade humana, acreditam ser notável e mensurável em todo o mundo.
Muito dessa pesquisa produziu os mesmos resultados dos mapas de McCrae. Por exemplo,
um estudo comparando crianças entre oito e dez anos em Xangai e no sul de Ontário, no Canadá, descobriu que crianças tímidas e sensíveis eram renegadas por seus colegas no Canadá, mas tinham muitos colegas na China, onde também tendiam mais que outras crianças a serem consideradas líderes. As crianças chinesas que são sensíveis e reticentes também são chamadas de dongshi (compreensivas), um elogio comum.
Da mesma maneira, estudantes chineses de ensino médio disseram aos pesquisadores que
preferem amigos que sejam “humildes” e “altruístas”, “honestos” e “trabalhadores”, enquanto os estudantes norte-americanos procuram os “alegres”, “entusiasmados” e “sociáveis”. “O contraste é impressionante”, escreve Michael Harris Bond, psicólogo especializado em cruzamentos culturais cujo foco é a China. “Os norte-americanos enfatizam a sociabilidade e valorizam os atributos que fazem uma associação fácil e animada. Os chineses enfatizam atributos mais profundos, focando em virtudes morais e nas conquistas.”
Outro estudo pediu a alunos ásio-americanos e euro-americanos para pensar alto ao resolver
problemas de lógica e descobriu que os asiáticos se davam muito melhor quando se permitia que ficassem quietos, se comparados aos caucasianos, que se davam bem ao vocalizar a resolução de problemas.
Esses resultados não surpreendem ninguém familiarizado com as atitudes tradicionais na
Ásia em relação à palavra falada: falar é para comunicar informações que seja necessário saber; quietude e introspecção são sinais de pensamento profundo e maior verdade. Palavras são armas potencialmente perigosas que revelam coisas que seria melhor não dizer. Elas ferem outras pessoas e podem causar problemas ao seu locutor. Considere, por exemplo, estes provérbios do Oriente:
O vento uiva, mas a montanha permanece parada. — Provérbio japonês
Aqueles que sabem não falam.
Aqueles que falam não sabem.
— Lao Zi, The Way of Lao Zi [O caminho de Lao Zi]
Apesar de eu não fazer nenhuma tentativa em especial para observar a disciplina do silêncio, viver sozinho me faz automaticamente abster-me dos pecados do discurso. — Kamo No Chomei, recluso japonês do século XII
E compare com estes provérbios do Ocidente:
Seja um artesão do discurso e será forte, pois a força de alguém é a língua, e o discurso é mais poderoso do que qualquer luta.
— Máximas de Ptah-hotep, 2.400 a.C.
O discurso é a própria civilização. A palavra, até mesmo a mais contraditória, preserva o contato — é o silêncio que isola.
— Thomas Mann, A montanha mágica
Quem não chora não mama.
— Provérbio popular
O que está por trás dessas atitudes radicalmente diferentes? Uma resposta é a difundida
reverência à educação entre os asiáticos, especialmente aqueles do “Cinturão de Confúcio”, países como a China, o Japão, a Coreia e o Vietnã. Até hoje, alguns vilarejos chineses dispõem de estátuas de estudantes que passaram no penoso exame jinshi da era da dinastia Ming, centenas de anos atrás. É muito mais fácil alcançar esse tipo de distinção se — como alguns dos jovens de Cupertino — você passar o verão estudando.
Outra explicação é a identidade de grupo. Muitas culturas asiáticas são voltadas para
equipes, mas não da mesma forma que os ocidentais pensam em equipes. Os indivíduos na Ásia veem-se como parte de um grande todo — seja a família, a corporação ou a comunidade — e dão um tremendo valor à harmonia dentro do grupo. Muitas vezes subordinam seus próprios desejos aos interesses do grupo, aceitando seu lugar na hierarquia.
A cultura ocidental, ao contrário, é organizada em torno do indivíduo. Nos vemos como
unidades contidas em si mesmas; nosso destino é expressarmo-nos, seguir nossa felicidade, libertarmo-nos de restrições indevidas, conquistar algo que nós, sozinhos, fomos trazidos ao mundo para fazer. Podemos ser sociáveis, mas não nos submetemos à vontade do grupo, ou pelo menos não gostamos de pensar que fazemos isso. Amamos e respeitamos nossos pais, mas freamos diante de noções como devoção filial, com suas implicações de subordinação e restrição. Quando nos reunimos com outras pessoas, fazemos isso como unidades autônomas divertindo-se com, competindo com, destacando-se de, disputando posições com, e sim, amando outras unidades autônomas. Até o Deus ocidental é assertivo, vocal e dominante; seu filho, Jesus, é gentil e terno, mas também um carismático homem de influência que agrada ao público (pense no musical Jesus Cristo Superstar).
Dessa forma, faz sentido que os ocidentais valorizem a ousadia e as habilidades verbais,
traços que promovem a individualidade, enquanto asiáticos prezam a quietude, a humildade e a sensibilidade, que nutrem a coesão do grupo. Se você vive em grupos, então as coisas correrão muito mais tranquilamente se você agir com reserva, até mesmo submissão.
Essa preferência foi vividamente demonstrada por um recente estudo de ressonância
magnética no qual pesquisadores mostraram a dezessete norte-americanos e dezessete japoneses figuras de homens em posição de dominância (braços cruzados, músculos protuberantes, pés firmemente plantados no chão) e em posição de subordinação (ombros caídos, mãos entrelaçadas protegendo a virilha, pernas apertadas uma contra a outra). Eles descobriram que as imagens dominantes ativavam centros de prazer do cérebro de norte-americanos, enquanto as imagens dos submissos faziam o mesmo com os japoneses.
De uma perspectiva ocidental, pode ser difícil ver o que é tão atraente em submeter-se à
vontade dos outros. Mas o que parece submissão a um ocidental pode parecer educação básica para muitos asiáticos. Don Chen, o estudante sino-americano da Harvard Business School que você conheceu no capítulo 2, contou-me sobre a época em que dividiu um apartamento com um grupo de amigos asiáticos e com um amigo íntimo caucasiano, um cara gentil e calmo que Don achou que iria se adaptar.
Os conflitos começaram quando o amigo caucasiano percebeu os pratos empilhando-se na
pia da cozinha e pediu para seus colegas de apartamento asiáticos fazerem sua parte da limpeza. Não foi uma reclamação sem razão, diz Don, e seu amigo achou que tinha verbalizado o pedido com educação e respeito. Mas os colegas de apartamento asiáticos viam diferente. Para eles, o colega soara duro e raivoso. Um asiático naquela situação seria mais cuidadoso com seu tom de voz, disse Don. Ele verbalizaria seu desprazer na forma de uma pergunta, não como um pedido ou uma ordem. Ou sequer o verbalizaria. Não valeria a pena chatear o grupo por uma pilha de pratos sujos.
O que parece deferência asiática aos ocidentais é, na verdade, em outras palavras, uma
profunda preocupação com a sensibilidade dos outros. Como observa o psicólogo Harris Bond, “apenas aqueles que vêm de uma tradição explícita rotulariam o modo de discurso [asiático] como ‘automodéstia’. Dentro dessa tradição indireta, pode ser rotulado como ‘honra ao relacionamento’”. E a honra ao relacionamento leva a uma dinâmica social que pode parecer notável de uma perspectiva ocidental.
É por causa dessa honra ao relacionamento que, por exemplo, o transtorno da ansiedade
social no Japão, conhecido como taijin kyofusho, não tem a forma da preocupação excessiva em passar vergonha, como nos Estados Unidos, mas de envergonhar os outros. É por causa da honra ao relacionamento que monges budistas tibetanos encontram paz interior (e altíssimos níveis de felicidade, como mostram imagens escaneadas de seus cérebros) ao meditar calmamente em comiseração. E é por causa da honra ao relacionamento que as vítimas de Hiroshima pediram desculpas umas às outras por sobreviverem. “Sua civilidade foi bem noticiada, mas pouco se falou de sua humanidade”, escreve a ensaísta Lydia Millet. “‘Desculpe-me’, disse um deles, fazendo uma reverência, com a pele do braço descascando. ‘Me arrependo por estar vivo e o seu bebê não.’ ‘Sinto muito’, disse outro sinceramente, com os lábios inchados do tamanho de uma laranja, ao falar com uma criança chorando ao lado de sua mãe morta. ‘Sinto muito por não ter sido levado em vez dela.’”
Apesar de a honra ao relacionamento oriental ser bela e admirável, o respeito ocidental
pela liberdade individual, a autoexpressão e o destino pessoal também é. O ponto é que uma não é superior à outra, mas há uma profunda diferença entre os valores culturais que tem um poderoso impacto nos tipos de personalidade favorecidos por cada cultura. No Ocidente, incorremos no Ideal da Extroversão, enquanto em grande parte da Ásia (pelo menos antes da ocidentalização de várias décadas), o silêncio vale ouro. Essas perspectivas diferentes afetam detalhes como o que dizemos a nossos colegas de apartamento quando os pratos se empilham na pia — e o que não dizemos em uma aula na universidade.
Além disso, nos dizem que o Ideal da Extroversão não é tão sacrossanto quanto pensamos.
Então se, no fundo, você estiver pensando que é natural que os ousados e sociáveis dominem os reservados e sensíveis e que o Ideal da Extroversão é inato na humanidade, o mapa da personalidade de Robert McCrae sugere uma verdade diferente: que cada jeito de ser — quieto ou falante, cuidadoso ou audacioso, inibido ou desinibido — é característico de sua própria e poderosa civilização.
Ironicamente, algumas das pessoas que mais tiveram problemas em se ater a essa verdade foram os jovens ásio-americanos de Cupertino. Uma vez que emergem da adolescência e deixam sua cidade natal, encontram um mundo em que falar alto e claro são como o ingresso para a popularidade e o sucesso financeiro. Eles passam a viver com uma dupla consciência — parte asiática e parte norte-americana —, com cada lado questionando o outro. Mike Wei, o aluno do último ano do ensino médio que me disse que prefere estudar a socializar, é um perfeito exemplo dessa ambivalência. Quando nos encontramos pela primeira vez, ele ainda estava na escola, aninhado no casulo de Cupertino. “Como colocamos muita ênfase na educação”, disse Mike na época, referindo-se aos asiáticos em geral, “socializar não é uma grande parte de nossa personalidade”.
Quando encontrei com Mike no outono seguinte, em seu primeiro ano em Stanford, a
apenas vinte minutos de carro de Cupertino, mas a um mundo de distância em termos populacionais, ele pareceu inquieto. Nós nos encontramos em um café ao ar livre e nos sentamos perto de um grupo de estudantes atletas que irrompia regularmente em risadas. Mike assentiu para os atletas, todos brancos. Caucasianos, diz ele, parecem ter “menos medo de que outras pessoas digam que são barulhentos ou burros demais”. Mike ficou frustrado com a superficialidade das conversas da hora do jantar e as “besteiras” que muitas vezes substituíam a participação em seminários de calouros. Ele passava a maior parte do seu tempo livre com outros asiáticos, em parte porque tinham “o mesmo nível de sociabilidade” que ele. Os não asiáticos tendem a fazê-lo se sentir como se “precisasse estar alegre ou excitado, mesmo que isso não seja verdade”.
“Meu alojamento tem mais quatro asiáticos, entre cinquenta jovens”, diz ele. “Então me
sinto mais confortável perto deles. Tem esse garoto chamado Brian e ele é bem quieto. Posso dizer que ele é meio tímido, o que é uma qualidade asiática, e me sinto confortável perto dele por essa razão. Eu sinto que posso ser eu mesmo perto dele. Não preciso fazer algo só para parecer legal, enquanto perto de um grande grupo de pessoas que não são asiáticas ou que simplesmente são barulhentas, tenho a impressão de que é necessário interpretar um papel.”
Mike parecia indiferente aos estilos de comunicação ocidentais, mas admitia que às vezes
desejava ser barulhento e desinibido. “Eles ficam mais confortáveis com seu próprio caráter”, diz ele sobre seus colegas de turma caucasianos. Asiáticos “não ficam desconfortáveis com quem são, mas ficam desconfortáveis em expressar quem são. Em um grupo, sempre há pressão para ser sociável. Quando eles não alcançam isso, é possível ver em seus rostos”.
Mike contou-me sobre um trote de integração de calouros de que ele participara, uma caça
ao tesouro em San Francisco, que deveria encorajar os estudantes a sair de sua zona de conforto. Mike era o único asiático colocado em um grupo arruaceiro, em que alguns dos participantes andaram nus por uma rua de San Francisco e se vestiram de mulher em uma loja de departamentos durante a caça. Uma garota entrou na vitrine da loja de lingerie Victoria’s Secret e tirou a roupa até ficar de calcinha e sutiã. Quando Mike contava esses detalhes, pensei que ele fosse me dizer que seu grupo tivesse sido excessivo, inapropriado. Mas ele não criticava os outros alunos. Ele criticava a si mesmo.
“Quando as pessoas fazem coisas assim, há um momento em que me sinto desconfortável.
Isso mostra os meus limites. Às vezes sinto que eles são melhores que eu.”
Mike recebia mensagens similares de seus professores. Poucas semanas após o evento de
orientação, seu conselheiro de calouros — um professor da faculdade de medicina de Stanford — convidou um grupo de alunos a sua casa. Mike esperava causar uma boa impressão, mas não conseguia pensar em nada para dizer. Os outros alunos pareciam não ter problemas em brincar e fazer perguntas inteligentes. “Mike, você falou muito hoje”, brincou seu professor na hora de se despedirem. “Você me impressionou.” Ele deixou a casa sentindo-se mal consigo mesmo. “As pessoas que não falam são vistas como fracas ou deficientes”, concluiu ele, com pesar.
Para dizer a verdade, esses sentimentos não eram totalmente novos para Mike. Ele
experimentara seus lampejos no ensino médio. Cupertino pode ter a ética mais confuciana de quietude, estudo e honra ao relacionamento, mas também está sujeita aos costumes do Ideal da Extroversão. Numa tarde de semana, no shopping local, garotos ásio-americanos arrogantes com cabelos espetados provocam garotas de blusas de alcinha, entediadas e sarcásticas. Num sábado de manhã, na biblioteca, alguns adolescentes estudam atenciosamente nos cantos, mas outros reúnem-se em mesas barulhentas. Poucos dos jovens ásio-americanos com quem falei em Cupertino queriam identificar-se com a palavra “introvertido”, mesmo se de fato se descrevessem dessa forma. Enquanto são profundamente comprometidos com os valores de seus pais, eles parecem dividir o mundo entre asiáticos “tradicionais” e “celebridades”. Os tradicionais mantêm a cabeça baixa e fazem seu dever de casa. As celebridades vão bem academicamente, mas também brincam na aula, desafiam os professores e se fazem notar.
Muitos estudantes tentam deliberadamente ser mais sociáveis que seus pais, diz Mike. “Eles
acham que seus pais são quietos demais e tentam compensar exageradamente sendo sociáveis e exibidos.” Alguns dos pais também começaram a mudar seus valores. “Os pais asiáticos estão começando a ver que não compensa ser quieto, então encorajam seus filhos a tomar parte no discurso e debater”, diz Mike. “Nosso programa de discursos e debates era o segundo maior da Califórnia, dando aos jovens a exposição necessária para falar alto e convincentemente.”
Ainda assim, quando encontrei Mike pela primeira vez em Cupertino, sua impressão de si
mesmo e seus valores estava intacta. Ele sabia que não era uma das celebridades asiáticas — ele se dava nota 4 em uma escala de popularidade de 1 a 10 —, mas parecia confortável consigo mesmo. “Eu prefiro estar com pessoas cujas personalidades sejam mais autênticas”, disse ele na época, “e isso me leva ao encontro de pessoas mais quietas. É difícil ser animado quando estamos ao mesmo tempo tentando ser inteligentes”.
De fato, provavelmente Mike teve sorte em desfrutar do casulo de Cupertino por tanto
tempo. Jovens ásio-americanos que crescem em comunidades mais tipicamente norte-americanas muitas vezes enfrentam questões com as quais Mike se deparou como calouro em Stanford bem mais cedo na vida. Um estudo comparando euro-americanos e jovens sino-americanos da segunda geração de imigrantes durante um período de cinco anos descobriu que os últimos eram significativamente mais introvertidos do que seus colegas norte-americanos ao longo da adolescência. Enquanto sino-americanos introvertidos de doze anos sentiam-se perfeitamente bem em relação a si mesmos — provavelmente eles ainda se mediam de acordo com os sistemas de valores tradicionais de seus pais —, ao chegar aos dezessete anos e serem mais expostos ao Ideal da Extroversão norte-americano, sua visão de si mesmos afundara.
Para os jovens ásio-americanos, o custo de falhar ao se adaptar é a inquietação social. Mas
quando crescem, eles podem pagar o preço com seus contracheques. O jornalista Nicholas Lemann certa vez entrevistou um grupo de ásio-americanos sobre o tema da meritocracia para seu livro The Big Test [O grande teste]. “Um sentimento que emerge com consistência”, escreveu ele, “é que a meritocracia acaba no dia da formatura e que depois os asiáticos começam a ficar para trás porque não têm o estilo cultural correto para seguir adiante: são passivos demais, reservados demais”.
Conheci muitos profissionais em Cupertino que estavam enfrentando essa questão. Uma
dona de casa abastada confidenciou que todos os maridos de seu círculo social tinham aceitado empregos na China recentemente e que agora estavam na ponte aérea Cupertino-Xangai, em parte porque seus estilos quietos impediram que avançassem localmente. As empresas norte-americanas “pensam que eles não conseguem lidar com os negócios”, disse ela, “por causa da apresentação. Nos negócios, você tem que juntar um monte de besteiras e apresentá-las. Meu marido sempre fala o necessário e para por aí. Quando olhamos para grandes empresas, quase nenhum dos principais executivos é asiático. Eles contratam alguém que não sabe nada sobre negócios, mas que pode fazer uma boa apresentação”.
Um engenheiro de softwares disse-me quão negligenciado sentia-se no trabalho em
comparação com outras pessoas, “especialmente as de origem europeia, que falavam sem pensar”. Na China, disse ele, “se você for quieto, é visto como inteligente. Aqui é completamente diferente. Aqui as pessoas gostam de falar. Mesmo quando têm uma ideia não completamente madura, as pessoas falam. Se eu fosse mais comunicativo, meu trabalho seria muito mais reconhecido. Mesmo que o diretor goste de mim, ele ainda não sabe que fiz um trabalho tão maravilhoso”.
O engenheiro confidenciou-me que passou por um treinamento em extroversão no estilo
norte-americano com um professor taiwanês chamado Preston Ni. Na Foothill College, perto de Cupertino, Ni conduz um seminário de um dia chamado “Sucesso na comunicação para profissionais estrangeiros”. A aula é anunciada on-line através de um grupo local chamado Silicon Valley SpeakUp Association, cuja missão é “ajudar profissionais estrangeiros a serem bem-sucedidos na vida através do desenvolvimento de habilidades sutis”. (“Fale o que está na sua cabeça!”, diz o site da organização. “Juntos todos conseguem conquistar mais na SVSpeakup.”)
Curiosa em saber o que significa “falar o que está na sua cabeça” da perspectiva asiática,
matriculei-me na aula, e algumas manhãs de sábado mais tarde me peguei sentada em uma sala de aula moderna e austera, com o sol do norte da Califórnia fluindo através de suas janelas envidraçadas. Havia cerca de quinze alunos ao todo, muitos de países asiáticos, mas também alguns do Leste Europeu e da América do Sul.
O professor Ni, um homem de aparência amigável vestindo um terno de estilo ocidental e
uma gravata dourada com o desenho de uma cachoeira chinesa, e dono de um sorriso tímido, começou a aula com uma visão geral da cultura de negócios norte-americana. Nos Estados Unidos, alertou ele, você precisa tanto de estilo como de substância se quiser ser bem-sucedido. Isso pode não ser justo, e pode não ser a melhor forma de julgar a contribuição de uma pessoa com relação ao que realmente importa, “mas se você não tiver carisma, pode ser a pessoa mais brilhante do mundo e ainda assim será desrespeitado”.
Isso é diferente de muitas outras culturas, disse Ni. Quando um líder comunista chinês faz
um discurso, ele o lê, e não é num teleprompter, mas num papel. “Se ele é o líder, todos têm que escutar.”
Ni pediu voluntários e trouxe Raj, um engenheiro de softwares indiano de vinte e poucos
anos de uma das quinhentas empresas da lista da Fortune, à frente da sala. Raj vestia o uniforme casual do Vale do Silício, camisa de botão e calças de linho, mas sua linguagem corporal era defensiva. Ele estava de pé com os braços protetoramente cruzados diante do peito, batendo os pés no chão com suas botas de caminhada. Antes, naquele mesmo dia, quando fomos andando pela sala nos apresentando, ele nos disse, com uma voz trêmula de seu lugar na última fileira, que queria aprender “como conversar mais” e como “ser mais aberto”.
Ni pediu a Raj para dizer à sala seus planos para o resto do fim de semana. — Vou jantar com um amigo — respondeu Raj olhando fixamente para Ni, sua voz quase
inaudível —, e talvez amanhã eu vá dar uma caminhada.
Ni pediu para ele tentar de novo.
— Vou jantar com um amigo — obedeceu Raj —, e depois (murmúrio, murmúrio,
murmúrio), eu vou dar uma caminhada.
— Minha impressão sobre você — obedeceu gentilmente o professor Ni a Raj —, é que
posso lhe dar muito trabalho para fazer, mas não tenho que prestar muita atenção em você. Lembre-se: no Vale do Silício, você pode ser a pessoa mais inteligente e mais capaz, mas se não souber se expressar além de mostrar seu trabalho, você não será devidamente apreciado. Muitos profissionais estrangeiros passam por isso: você é um trabalhador glorificado em vez de um líder.
A turma assentiu com empatia.
— Mas há um jeito de ser você mesmo — continuou Ni — e de deixar mais de você mesmo
sair pela sua voz. Muitos asiáticos usam apenas poucos músculos ao falar. Então vamos começar respirando.
Com isso, ele orientou Raj a se deitar e vocalizar as cinco vogais. “A...E...U...O...I”, entoou
Raj, sua voz flutuando pela sala de aula. “A...E...U...O...I...A...E...U...O...I...”
Finalmente o professor Ni considerou Raj pronto para se levantar novamente. — Agora, que coisas interessantes você planejou para depois da aula? — perguntou ele,
batendo palmas para o encorajar.
— Hoje à noite vou jantar na casa de um amigo e amanhã vou caminhar com outro amigo.
— A voz de Raj estava mais alta do que antes, e a turma aplaudiu com prazer.
O próprio professor é um modelo do que pode acontecer quando você trabalha naquilo.
Depois da aula, visitei-o em seu escritório e ele me disse o quanto era tímido quando chegou aos Estados Unidos — como se colocava nas situações, como num acampamento de verão ou na escola de negócios, onde ele pôde praticar a extroversão até que ela viesse naturalmente. Hoje em dia ele é um bem-sucedido consultor com clientes que incluem o Yahoo!, a Visa e a Microsoft, ensinando algumas das habilidades que ele mesmo trabalhou para adquirir.
Mas quando ele começou a falar sobre conceitos asiáticos de “soft power” — o que Ni chama
de liderança “pela água em vez de pelo fogo” —, comecei a ver um lado dele que ficava menos impressionado com os estilos ocidentais de comunicação. “Em culturas asiáticas”, disse Ni, “muitas vezes há uma maneira sutil de conseguir o que você quer. Nem sempre é agressiva, mas pode ser muito determinada e habilidosa. No final, muito é conquistado por causa disso. O poder agressivo o abate, o poder suave, o soft power, faz você vencer”.
Pedi ao professor exemplos da vida real desse poder suave e seus olhos brilharam enquanto
ele me contava sobre clientes cuja força ficava em suas ideias e em seus corações. Muitas dessas pessoas eram organizadoras de grupos de funcionários — grupos de mulheres, grupos pela diversidade — que haviam conseguido reunir pessoas para sua causa através da convicção em vez de através do dinamismo. Ele falou também de grupos como o Mães contra o Álcool no Volante — conjuntos de pessoas que mudam vidas através do poder não do seu carisma, mas de seu cuidado. Suas habilidades de comunicação são suficientes para transmitir a mensagem que desejam, mas sua real força vem do conteúdo.
“A longo prazo”, disse Ni, “se a ideia for boa, as pessoas mudam. Se a causa for justa e você
puser seu coração nela, é quase uma lei universal: irá atrair pessoas que querem compartilhar sua causa. O soft power é a persistência silenciosa. As pessoas em que estou pensando são muito persistentes em suas interações no dia a dia, cara a cara. No devido tempo, acabam construindo uma equipe”. O soft power, disse Ni, é exercido por pessoas que admiramos na história: Madre Teresa, Buda, Gandhi.
Fiquei impressionada quando Ni mencionou Gandhi. Eu pedira a quase todos os estudantes
de Cupertino que encontrei para dizer o nome de um líder que admiravam e muitos citaram Gandhi. O que há nele que tanto os inspira?
De acordo com sua biografia, Gandhi era um homem essencialmente tímido e quieto.
Quando criança, tinha medo de tudo: ladrões, fantasmas, cobras, escuro e, principalmente, outras pessoas. Ele se enterrava nos livros e corria da escola para casa assim que as aulas acabavam, por medo de ter que falar com alguém. Mesmo quando jovem, eleito pela primeira vez para uma posição de liderança como membro do comitê executivo da Sociedade Vegetariana, ele ia a todas as reuniões, mas era tímido demais para falar.
“Você fala comigo bastante bem”, perguntou um dos membros, confuso, “mas por que nunca
abre a boca em uma reunião do comitê? Você é um vagabundo”. Quando ocorria uma disputa política no comitê, Gandhi tinha opiniões firmes, mas sentia medo demais de verbalizá-las. Ele escrevia seus pensamentos, com a intenção de lê-los em voz alta na reunião. Mas no fim das contas, ele sentia medo demais até para fazer isso.
Com o tempo, Gandhi aprendeu a administrar sua timidez, mas nunca a superou
totalmente. Ele não conseguia falar de improviso; evitava fazer discursos sempre que possível. Mesmo em seus últimos anos, ele escreveu: “Eu não acho que conseguiria ou sequer estaria inclinado a manter um grupo de amigos engajado em uma conversa.”
Mas junto com sua timidez, veio seu tipo único de força — uma forma de controle mais
bem-compreendida ao se examinar partes pouco conhecidas da história de vida de Gandhi. Quando jovem, ele decidiu viajar para a Inglaterra para estudar direito contra os desejos dos líderes de sua casta, a Modhi Bania. Os membros da casta eram proibidos de comer carne, e os líderes acreditavam que o vegetarianismo era impossível na Inglaterra. Mas Gandhi já havia jurado a sua querida mãe que se absteria da carne, e não via perigo na viagem. Ele disse isso a Sheth, o chefe da comunidade.
— Você desprezará as ordens da casta? — perguntou Sheth. — Não tenho escolha — respondeu Gandhi. — Acho que a casta não deveria interferir no
assunto.
Boom! Ele fora excomungado — um julgamento que continuou válido até mesmo quando
ele retornou da Inglaterra vários anos depois com a promessa de sucesso que acompanhava um jovem advogado fluente em inglês. A comunidade dividira-se sobre como lidar com ele. Um lado o acolhia, o outro queria expulsá-lo da casta. Isso significava que Gandhi não era autorizado a comer ou beber na casa de outros membros da casta, inclusive de sua própria irmã e de seus sogros.
Gandhi sabia que outro homem protestaria por readmissão. Mas ele não conseguia ver o
porquê. Sabia que lutar apenas geraria retaliação. Em vez disso, ele seguiu os desejos de Sheth e manteve-se distante, até mesmo de sua família. Sua irmã e outros parentes estavam preparados para abrigá-lo em segredo, mas ele recusou a oferta.
O resultado dessa condescendência? A casta não apenas parou de incomodá-lo, como seus
membros — incluindo aqueles que o haviam excomungado — ajudaram-no mais tarde em seu trabalho político, sem esperar nada em troca. Eles o trataram com afeição e generosidade. “Essa é a minha convicção”, escreveu Gandhi mais tarde, “de que todas essas coisas boas se devem à minha não resistência. Se eu tivesse promovido agitação para ser admitido na casta, se eu tivesse tentado dividi-la, se eu tivesse provocado os homens da casta, eles certamente teriam retaliado, e em vez de sair da tempestade eu teria, ao chegar da Inglaterra, me encontrado em um redemoinho de agitação”.
Esse padrão — a decisão de aceitar o que outros homens desafiariam — ocorreu repetidas
vezes na vida de Gandhi. Quando era um jovem advogado na África do Sul, ele se inscreveu para admissão na associação de advogados local. A Sociedade de Direito não queria membros indianos e tentou impedir sua inscrição pedindo-lhe o original de um certificado que estava arquivado na Suprema Corte de Bombaim, portanto inacessível. Gandhi ficou irado; ele sabia bem que a verdadeira razão para essas barreiras era a discriminação. Mas ele não demonstrou seus sentimentos. Em vez disso, negociou pacientemente até que a Sociedade de Direito concordou em aceitar um depoimento juramentado de um dignitário local.
Chegou o dia em que ele deveria prestar juramento, e a Justiça ordenou que ele retirasse o
turbante. Foi aí que Gandhi viu suas verdadeiras limitações. Ele sabia que resistir naquele momento seria justificável, mas acreditava em escolher suas batalhas, então retirou o turbante. Seus amigos ficaram chateados. Disseram que ele era fraco, que deveria ter defendido suas crenças. Mas Gandhi sentiu que ele havia aprendido a “apreciar a beleza da concessão”.
Se eu contasse essas histórias sem mencionar o nome de Gandhi e suas conquistas
posteriores, você poderia enxergá-lo como um homem profundamente passivo. E no Ocidente, passividade é transgressão. Ser “passivo”, de acordo com o dicionário, significa “ser subordinado a agentes externos”. Também significa “submisso”. O próprio Gandhi rejeitava o termo “resistência passiva”, que ele associava à fraqueza, preferindo o termo satyagraha, que ele cunhou para expressar “firmeza na busca pela verdade”.
Mas como sugere a palavra satyagraha, a passividade de Gandhi não significava fraqueza de
forma alguma. Ela significava focar no principal objetivo e recusar-se a desperdiçar energia em conflitos desnecessários no processo. Gandhi acreditava que o controle era um de seus maiores patrimônios. E ele nascera de sua timidez:
Formei naturalmente o hábito de controlar meus pensamentos. Uma palavra impensada
dificilmente escapou da minha língua ou caneta. A experiência ensinou-me que o silêncio é
parte da disciplina espiritual de um devoto da verdade. Encontramos várias pessoas
impacientes para falar. Toda essa falação dificilmente pode trazer qualquer benefício para o
mundo. É muita perda de tempo. Minha timidez tem sido na verdade meu abrigo e escudo.
Ela me permitiu crescer. Ela me ajudou em meu discernimento da verdade.
O soft power não se limita a exemplos morais como o de Mahatma Gandhi. Considere, por
exemplo, a tão alardeada excelência dos asiáticos em campos como a matemática e a ciência. O professor Ni define o soft power como uma “persistência silenciosa”, e esse traço está no cerne da excelência acadêmica com tanta certeza quanto está nos triunfos políticos de Gandhi. Persistência silenciosa requer atenção contínua — na verdade, limitando a reação da pessoa a estímulos externos.
O exame TIMSS — sigla em inglês para tendências nos estudos internacionais de
matemática e ciências — é um teste-padrão de matemática e ciências padrão aplicado a cada quatro anos em crianças pelo mundo todo. Após cada teste, os pesquisadores avaliam os resultados e comparam as performances de estudantes de diferentes países; países asiáticos como Coreia, Cingapura, Japão e Taiwan ficam constantemente no topo da lista. Por exemplo, em 1995, o primeiro ano em que o teste foi aplicado, Coreia, Cingapura e Japão tiveram a maior média do mundo em matemática e ficaram entre os quatro melhores em ciências entre estudantes da oitava série. Em 2007, quando pesquisadores mediram quantos estudantes em determinado país alcançaram o valor de referência internacional avançado — uma espécie de status de celebridade para estudantes de matemática —, eles descobriram que a maioria dos destaques estavam aglomerados em alguns poucos países asiáticos. Cerca de 40% dos alunos da quarta série em Cingapura e Hong Kong alcançaram ou ultrapassaram o valor de referência avançado, e cerca de 40% a 45% dos alunos de oitava série em Taiwan, Coreia e Cingapura atingiram o padrão. No mundo, a porcentagem média dos estudantes atingiram o valor de referência avançado foi de apenas 5% na quarta série e 2% na oitava série.
Como explicar esses sensacionais abismos entre a performance na Ásia e no resto do
mundo? Considere este interessante aspecto do exame TIMSS. Pede-se que os estudantes que fazem o teste também respondam a uma tediosa série de questões sobre si mesmos, que vai desde o quanto gostam de ciências até se há livros suficientes em suas casas para rechear três ou mais estantes. Leva-se um longo tempo para completar o questionário, e como ele não conta para a nota final, muitos estudantes deixam questões em branco. Você teria que ser bastante persistente para responder a todas elas. No entanto, de acordo com um estudo do professor de educação Erling Boe, as nações cujos estudantes respondem mais o questionário também tendem a ter estudantes que vão bem no TIMSS. Em outras palavras, estudantes excelentes parecem não apenas possuir a capacidade cognitiva para resolver problemas de matemática e ciências, mas também possuem uma útil característica de personalidade: persistência silenciosa.
Outros estudos descobriram níveis raros de persistência até mesmo em crianças pequenas
asiáticas. Por exemplo, a psicóloga especializada em cruzamentos culturais Priscilla Blinco deu a alunos japoneses e norte-americanos de primeira série um jogo sem solução no qual deveriam trabalhar sozinhos, sem a ajuda de outras crianças ou de um professor, e comparou quanto tempo elas tentavam até desistir. As crianças japonesas passavam uma média de 13,93 minutos no jogo antes de deixá-lo de lado, enquanto as crianças norte-americanas passavam apenas 9,47 minutos. Menos de 27% dos estudantes norte-americanos persistiam tanto quanto a média dos estudantes japoneses — e apenas 10% dos estudantes japoneses desistiam tão rápido quanto a média dos norte-americanos. Blinco atribui esses resultados à qualidade japonesa da persistência.
A persistência silenciosa mostrada por tantos asiáticos e ásio-americanos não se limita aos
campos da matemática e das ciências. Muitos anos após minha primeira viagem a Cupertino, retomei contato com Tiffany Liao, a aluna prestes a ingressar na Swarthmore cujos pais a elogiavam por amar a leitura, mesmo em público, quando era pequena. Quando nos encontramos pela primeira vez, Tiffany era uma garota de dezessete anos com carinha de criança, rumo à faculdade. Ela me disse na época que estava empolgada para viajar para a Costa Leste e conhecer pessoas novas, mas que também temia viver em um lugar em que ninguém consumia chá borbulhante, uma bebida popular inventada em Taiwan.
Agora, Tiffany é uma viajada e sofisticada aluna do último ano da faculdade. Ela fez
intercâmbio na Espanha. Assina suas mensagens com um toque europeu: “Abrazos, Tiffany”. Em sua foto de perfil do Facebook, o visual infantil foi substituído por um sorriso ainda suave e amigável, mas também mais experiente.
Tiffany está no caminho para realizar seu sonho de se tornar jornalista, tendo acabado de
ser eleita editora-chefe do jornal da faculdade. Ela ainda se descreve como tímida — sente uma onda de calor no rosto quando fala em público pela primeira vez ou atende o telefonema de um estranho —, mas fica mais confortável para falar em voz alta. Ela acredita que seus “traços quietos”, como ela os chama, ajudaram-na a tornar-se editora-chefe. Para Tiffany, o soft power significa ouvir atentamente, tomar notas detalhadas e fazer uma pesquisa profunda sobre os personagens de suas entrevistas antes de encontrá-los pessoalmente. “Esse processo contribuiu para o meu sucesso como jornalista”, escreveu ela para mim. Tiffany passara a aceitar o poder da quietude.
Quando encontrei pela primeira vez Mike Wei, o aluno de Stanford que queria ser tão
desinibido quanto seus colegas de turma, ele disse que não existiam líderes quietos. “Como você pode fazer as pessoas saberem que tem uma convicção se ficar quieto?”, perguntou ele. Eu o assegurei de que não era assim, mas Mike tinha tanta convicção a respeito da incapacidade de pessoas quietas com relação a isso que no fundo me perguntei se ele não tinha razão.
Mas isso foi antes de eu ouvir o Professor Ni falar sobre o estilo asiático de soft power, antes
de eu ler sobre a satyagraha de Gandhi, antes de contemplar o futuro brilhante de Tiffany como jornalista. Convicção é convicção, ensinaram-me os garotos de Cupertino, qualquer que seja o decibel em que ela é expressa.
Notas do capítulo 8