O Poder dos Quietos

Susan Cain · Capítulo 4 de 18

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O Poder dos Quietos

Introdução: O norte e o sul do temperamento

 

Introdução

O norte e o sul do temperamento

 

Montgomery, Alabama, Estados Unidos. Primeiro de dezembro de 1955. Começo da noite. Um ônibus para no ponto e uma mulher em seus quarenta anos cuidadosamente vestida sobe nele. Ela anda de coluna ereta, apesar de ter passado o dia inclinada sobre uma tábua de passar em um sombrio porão da alfaiataria da loja de departamentos da cidade. Seus pés estão inchados, seus ombros doem. Ela se senta na primeira fileira de bancos reservada aos negros e assiste quieta ao ônibus encher-se de passageiros. Até que o motorista ordena que ela ceda o lugar a um branco.

A mulher balbucia uma única palavra que deslancha um dos mais importantes protestos

pelos direitos civis do século XX, uma palavra que ajuda os Estados Unidos a se tornarem melhores.

A palavra é “não”.

O motorista ameaça mandar prendê-la.

— Você pode fazer isso — disse Rosa Parks.

Um policial chega. Ele pergunta a Rosa por que ela não se levanta. — Por que vocês nos humilham? — respondeu ela, simplesmente. — Não sei — disse ele. — Mas a lei é a lei e você está presa. Na tarde de seu julgamento e condenação por atentado à ordem pública, a Associação para

o Desenvolvimento de Montgomery promoveu um protesto a favor de Rosa na Igreja Batista de Holt Street, na parte mais pobre da cidade. Cinco mil pessoas se reuniram para apoiar o solitário ato de coragem daquela mulher. Elas se espremeram dentro da igreja até que não os bancos não fossem mais suficientes. O resto esperou pacientemente do lado de fora, ouvindo através de alto-falantes. O reverendo Martin Luther King Jr. dirigiu-se à multidão: “Chega uma hora em que as pessoas ficam cansadas de serem pisoteadas pelos pés de ferro da opressão. Chega uma hora em que as pessoas ficam cansadas de serem empurradas para fora do brilho do sol de julho e de serem abandonadas em meio ao penetrante frio de uma montanha em novembro.”

Ele elogia a coragem de Rosa e a abraça. Ela fica de pé em silêncio; apenas sua presença é o

bastante para animar a multidão. A associação lança na cidade um boicote aos ônibus que dura 381 dias. As pessoas enfrentam quilômetros para chegar ao trabalho. Elas pegam carona com estranhos. Elas mudam o curso da história dos Estados Unidos.

Sempre imaginei Rosa Parks como uma mulher imponente, com um temperamento ousado,

alguém que pudesse se impor ante um ônibus cheio de passageiros mal-encarados. Mas quando ela morreu em 2005, aos 92 anos, a enxurrada de obituários apresentavam-na como alguém de fala mansa, doce e de baixa estatura. Eles diziam que ela era “tímida e reservada”, mas tinha a “coragem de uma leoa”. Estavam cheios de frases como “humildade radical” e “bravura quieta”. O que significa ser quieto e ter bravura?, estas descrições questionavam implicitamente. Como você pode ser tímido e corajoso?

A própria Rosa parecia ciente desse paradoxo, chamando sua autobiografia de Quiet Strenght

[Força silenciosa] — um título que nos desafia a questionar nossas ideias preestabelecidas. Por que o quieto não deveria ser forte? O que mais os quietos podem fazer a que nós não damos crédito?

 

Nossas vidas são moldadas tão profundamente pela personalidade quanto pelo gênero ou

código genético. E o aspecto mais importante da personalidade — “o norte e o sul do temperamento”, como diz um cientista — é onde cada um se localiza no espectro introversão-extroversão. Nosso lugar nesse contínuo influencia como escolhemos amigos e colegas, como levamos uma conversa, resolvemos diferenças e demonstramos amor. Afeta a carreira que escolhemos e se seremos ou não bem-sucedidos nela. Governa o quanto temos tendência a nos exercitar, a cometer adultério, a funcionar bem sem dormir, a aprender com nossos erros, a fazer grandes apostas no mercado de ações, a adiar gratificações, a ser bons líderes e a

perguntar: “E se?”1 Isso se reflete nos caminhos do nosso cérebro, nos neurotransmissores e nos cantos mais remotos do nosso sistema nervoso. Atualmente, introversão e extroversão são dois dos aspectos mais pesquisados na psicologia da personalidade, despertando a curiosidade de centenas de cientistas.

Apesar de descobertas animadoras, esses pesquisadores, auxiliados pela tecnologia mais

avançada, fazem parte de uma longa e histórica tradição. Poetas e filósofos têm pensado sobre introvertidos e extrovertidos desde o início dos tempos. Os dois tipos de personalidade aparecem na Bíblia e nos escritos de doutores gregos e romanos, e alguns psicólogos evolucionistas dizem que a história desses comportamentos vai muito além: o reino animal também apresenta “introvertidos” e “extrovertidos”, como veremos, de moscas-das-frutas a peixes e macacos. Sem os dois estilos de personalidade, assim como sem outros pares complementares — masculinidade e feminilidade, Ocidente e Oriente, liberais e conservadores —, a humanidade seria irreconhecível, e imensamente diminuída.

Veja a parceria de Rosa Parks e Martin Luther King Jr.: um formidável orador recusando-se

a ceder seu lugar em um ônibus segregado não causaria o mesmo efeito de uma mulher modesta que claramente preferiria manter-se em silêncio, não fosse o que a situação exigia. E Parks não teria o necessário para eletrizar uma multidão se tivesse tentado se levantar e anunciar que tinha um sonho. Mas com a ajuda de Martin Luther King, ela não precisou fazê-lo.

No entanto, hoje abrimos espaço para um número notavelmente limitado de estilos de personalidade. Dizem que para sermos bem-sucedidos temos que ser ousados, que para sermos felizes temos que ser sociáveis. Vemo-nos como uma nação de extrovertidos — o que significa que perdemos de vista quem realmente somos. Dependendo de que estudo você consultar, de um terço a metade dos norte-americanos é introvertido — em outras palavras, uma em cada duas ou três pessoas que você conhece. (Considerando que os Estados Unidos estão entre as nações mais extrovertidas, o número deve ser pelo menos tão alto quanto em outras partes do mundo.) Se você não for um introvertido, certamente está criando, gerenciando, namorando ou casado com um.

Se essas estatísticas o surpreendem, provavelmente é porque muitas pessoas fingem ser

extrovertidas. Introvertidos disfarçados passam batidos em parquinhos, vestiários de escolas e corredores de empresas. Alguns enganam até a si mesmos, até que algum fato da vida — uma dispensa, a saída dos filhos de casa, uma herança que permite que passem o tempo como quiserem — os leva a avaliar sua própria natureza. Você só precisa abordar o tema deste livro com seus amigos e conhecidos para descobrir que mesmo as pessoas mais improváveis consideram-se introvertidas.

Faz sentido que tantos introvertidos escondam-se até de si mesmos. Vivemos em um

sistema de valores que chamo de Ideal da Extroversão — a crença onipresente de que o ser ideal é gregário, alfa, e sente-se confortável sob a luz dos holofotes. O típico extrovertido prefere a ação à contemplação, a tomada de riscos à cautela, a certeza à dúvida. Ele prefere as decisões rápidas, mesmo correndo o risco de estar errado. Ela trabalha bem em equipes e socializa em grupos. Gostamos de acreditar que prezamos a individualidade, mas muitas vezes admiramos um determinado tipo de indivíduo — o que fica confortável sendo o centro das atenções. É claro que permitimos que solitários com talento para a tecnologia que criam empresas em garagens tenham a personalidade que quiserem, mas esses são exceções, não a regra, e nossa tolerância estende-se principalmente àqueles que ficaram incrivelmente ricos ou que prometem fazê-lo.

Introversão — com suas companheiras sensibilidade, seriedade e timidez — é, hoje, um

traço de personalidade de segunda classe, classificada em algum lugar entre uma decepção e uma patologia. Introvertidos vivendo sob o Ideal da Extroversão são como mulheres vivendo em um mundo de homens, desprezadas por um traço que define o que são. A extroversão é um estilo de personalidade atraente ao extremo, mas a transformamos em um padrão opressivo que a maioria de nós acha que deve seguir.

O Ideal da Extroversão tem sido bem-documentado em vários estudos, apesar de essa

pesquisa nunca ter sido agrupada sob um único nome. Pessoas loquazes, por exemplo, são avaliadas como mais espertas, mais bonitas, mais interessantes e mais desejáveis como amigas. A velocidade do discurso conta tanto quanto o volume: colocamos aqueles que falam rápido como mais competentes e simpáticos que aqueles que falam devagar. A mesma dinâmica aplica-se a grupos, em que pesquisas mostram que os eloquentes são considerados mais inteligentes que os reticentes — apesar de não haver nenhuma correlação entre o dom do falatório e boas ideias. Até a palavra “introvertido” ficou estigmatizada — um estudo informal feito pela psicóloga Laurie Helgoe mostrou que os introvertidos descrevem sua própria aparência física com uma linguagem vívida (“olhos verde-azulados”, “exótico”, “maçãs do rosto salientes”), mas quando se pede para descreverem introvertidos em geral eles delineiam uma imagem insossa e desagradável (“desajeitado”, “cores neutras”, “problemas de pele”).

Mas cometemos um erro grave ao abraçar o Ideal da Extroversão tão inconsequentemente.

Algumas das nossas maiores ideias, a arte, as invenções — desde a teoria da evolução até os girassóis de Van Gogh e os computadores pessoais — vieram de pessoas quietas e cerebrais que sabiam como se comunicar com seu mundo interior e os tesouros que lá seriam encontrados. Sem introvertidos, o mundo não teria:

A teoria da gravidade

A teoria da relatividade

“O segundo advento”, de W.B. Yeats

Os noturnos de Chopin

Em busca do tempo perdido , de Proust

Peter Pan

1984 e A revolução dos bichos, de George Orwell “O Gato do Chapéu”, do Dr. Seuss

Charlie Brown

A lista de Schindler, E.T. e Contatos imediatos de terceiro grau, de

Steven Spielberg

O Google

Harry Potter2

Como escreveu o jornalista científico Winifred Gallagher: “A glória da disposição que faz

com que se pare para considerar estímulos em vez de render-se a eles é sua longa associação com conquistas intelectuais e artísticas. Nem o E=mc² de Einstein nem Paraíso perdido, de John Milton, foram produzidos por festeiros.” Mesmo em ocupações menos óbvias para os introvertidos, como finanças, política e ativismo, alguns dos grandes saltos foram dados por eles. Neste livro veremos figuras como Eleanor Roosevelt, Al Gore, Warren Buffett, Gandhi — e Rosa Parks —, que conquistaram o que conquistaram não “apesar de”, mas por causa de sua introversão.

Mesmo assim, como O poder dos quietos explorará, muitas das mais importantes instituições

da vida contemporânea são criadas para aqueles que gostam de projetos em grupo e altos níveis de estímulo. Nas turmas infantis, cada vez mais as mesas das salas de aula são arrumadas em forma de concha, a melhor para encorajar o aprendizado em grupo, e pesquisas sugerem que a grande maioria dos professores acha que o aluno ideal é um extrovertido. As crianças assistem a programas de TV em que os protagonistas não são crianças como qualquer uma, mas estrelas do rock, por exemplo, como Hannah Montana.

Quando adultos, muitos de nós trabalham para empresas que insistem em que trabalhemos

em grupo, em escritórios sem paredes, para supervisores que valorizam “um bom relacionamento interpessoal” acima de tudo. Para avançarmos em nossas carreiras, espera-se que nos promovamos descaradamente. Os cientistas cujas pesquisas conseguem financiamento muitas vezes possuem personalidades confiantes, talvez até demais. Os artistas cujos trabalhos adornam as paredes de museus de arte contemporânea posam de forma a impressionar nos vernissages. Os autores que têm seus livros publicados — tidos no passado como uma raça reclusa — hoje são avaliados pelos editores para assegurar que possam participar de programas de entrevistas. (Você não estaria lendo este livro se eu não tivesse convencido meu editor de que sou suficientemente pseudoextrovertida para promovê-lo.)

Se você é um introvertido, também sabe que o preconceito contra os quietos pode provocar

uma profunda dor psicológica. Quando criança, pode ter ouvido seus pais se desculparem pela sua timidez. (“Por que você não pode ser mais parecido com os meninos Kennedy?”, repetiam constantemente os pais de um homem que entrevistei.) Ou na escola você pode ter sido estimulado a “sair da sua concha” — expressão nociva que não valoriza o fato de que alguns animais naturalmente carregam seu abrigo aonde quer que vão, assim como alguns humanos. “Ainda ouço todos os comentários da minha infância em minha cabeça, dizendo que eu era preguiçoso, burro, lento, chato”, escreveu um membro de uma lista de e-mail chamada Refúgio dos Introvertidos. “Quando eu tive idade suficiente para entender que eu simplesmente era introvertido, a suposição de que algo estava inerentemente errado comigo já era parte do meu ser. Queria encontrar esse vestígio de dúvida e tirá-lo de mim.”

Agora que você é um adulto, talvez ainda sinta uma ponta de culpa quando recusa um

convite para jantar a fim de ler um bom livro. Ou talvez você goste de comer sozinho em restaurantes, podendo passar sem os olhares de pena dos outros clientes. Ou lhe dizem que você “fica muito na sua cabeça”, uma frase muitas vezes utilizada contra os quietos e cerebrais.

É claro que há outro nome para pessoas assim: pensadores.

 

Eu vi em primeira mão o quanto é difícil para os introvertidos avaliarem seus próprios

talentos e o quanto é magnífico quando eles finalmente conseguem. Durante anos treinei pessoas de todos os tipos — de advogados de empresas a estudantes universitários, de gerentes financeiros a casais — em habilidades de negociação. Nós cobríamos o básico, é claro: como se preparar para uma negociação, quando fazer a primeira oferta, e o que fazer quando alguém diz “é pegar ou largar”. Mas também ajudei clientes a entender suas personalidades naturais e como tirar o máximo proveito delas.

Minha primeira cliente foi uma jovem chamada Laura. Ela era uma advogada de Wall

Street, mas era quieta e sonhadora, tinha pavor dos holofotes e não gostava de agressividade. De alguma forma ela conseguira passar pelo calvário da faculdade de direito de Harvard — um lugar onde as aulas acontecem em enormes anfiteatros e onde certa vez ela ficou tão nervosa que vomitou no caminho para a aula. Agora que estava no mundo real, ela não tinha certeza de poder representar seus clientes com a força que eles esperavam dela.

Em seus primeiros três anos no emprego, Laura era tão inexperiente que nunca precisou

testar essa capacidade. Mas um dia o advogado com quem ela trabalhava tirou férias, deixando-a encarregada de uma importante negociação. O cliente era uma fábrica sul-americana que estava a ponto de dar o calote em um empréstimo bancário e esperava renegociar seus termos; um sindicato de banqueiros que assegurara o empréstimo de risco sentava-se do outro lado da mesa de negociação.

Laura preferiria se esconder embaixo da tal mesa, mas estava acostumada a lutar contra tais

impulsos. Corajosa, mas tensa, ela tomou seu lugar na cadeira principal, ladeada por seus clientes: o consultor jurídico de um lado e a diretora financeira do outro. Eram os clientes favoritos de Laura: corteses e de fala mansa, muito diferentes dos tipos que se achavam os donos do mundo que sua firma normalmente representava. No passado, Laura levara o consultor jurídico a um jogo de beisebol e a diretora financeira para comprar uma bolsa para sua irmã. Mas agora essas saídas confortáveis — o tipo de programa de que Laura gostava — pareciam estar em outro mundo. Em volta da mesa, estavam sentados nove banqueiros insatisfeitos, com seus ternos feitos sob medida e sapatos caros, acompanhados da advogada, uma mulher com um rosto quadrado e modos enérgicos. Claramente não pertencendo ao grupo dos inseguros, essa mulher lançou um discurso impressivo sobre como os clientes de Laura teriam sorte em simplesmente aceitar os termos dos banqueiros. Era, disse ela, uma oferta magnânima.

Todos esperaram que Laura respondesse, mas ela não conseguia pensar em nada para dizer.

Então ela simplesmente ficou sentada ali. Piscando. Todos os olhares sobre ela. Seus clientes mexendo-se desconfortáveis em suas cadeiras. Seus pensamentos rondando em um círculo familiar: Eu sou quieta demais para esse tipo de coisa, modesta demais, cerebral demais. Ela imaginou a pessoa que seria mais adequada para salvar a situação: alguém ousado, fluente, pronto para bater na mesa. No colégio, diferentemente de Laura, essa pessoa teria sido chamada de “sociável”, o maior elogio que seus colegas de sétima série podiam fazer, maior até que “bonita” para uma menina ou “atlético” para um garoto. Laura prometeu a si mesma que tinha apenas que vencer aquele dia. Amanhã ela procuraria outra carreira.

Então ela se lembrou do que eu dissera várias vezes: ela era introvertida, e assim tinha

poderes de negociação únicos — talvez menos óbvios, mas não menos formidáveis. Provavelmente se preparara mais do que qualquer um ali. Ela tinha uma fala mansa, mas firme. Raramente falava sem pensar. Com seus modos suaves, poderia tomar posições firmes, até mesmo agressivas, soando perfeitamente razoável. E tendia a fazer perguntas — muitas — e realmente ouvir as respostas, o que, não importa qual seja o tipo de personalidade, é crucial para grandes negociações.

Então Laura começou a falar o que lhe vinha naturalmente: “Vamos dar um passo atrás. Em que se baseiam seus números?”

“E se nós estruturarmos o empréstimo dessa maneira, você acha que pode funcionar?”

“Dessa maneira?”

“Há alguma outra maneira?”

Em um primeiro momento, suas perguntas foram hesitantes. Ela ganhou gás enquanto

continuava, colocando-as de forma mais firme e deixando claro que havia feito seu dever de casa e não baixaria a cabeça. Mas também permaneceu leal ao seu estilo, nunca levantando a voz ou perdendo o decoro. Todas as vezes que os banqueiros faziam uma asserção que parecia inflexível, Laura tentava ser construtiva. “Você está dizendo que esse é o único jeito? E se tentarmos uma outra abordagem?”

No fim das contas, aquelas perguntas simples mudaram o humor da sala, como os livros

sobre negociações dizem que acontece. Os banqueiros pararam de discursar e desceram de sua posição dominante — algo que, antes, Laura sentia não ter de modo algum capacidade de provocar — e começaram a ter uma conversa normal.

Mais discussão. Nenhum acordo ainda. Um dos banqueiros acelerou novamente, jogando

seus papéis e saindo bruscamente da sala. Laura ignorou aquela atitude, principalmente porque não sabia mais o que fazer. Mais tarde, alguém contou a ela que naquele momento crítico, ela se saíra bem num processo chamado “jiu-jítsu da negociação”; mas ela sabia que só estava fazendo o que você aprende naturalmente se é uma pessoa quieta em um mundo de vozes altas.

Finalmente os dois lados firmaram um acordo. Os banqueiros deixaram o prédio, os clientes

favoritos de Laura foram para o aeroporto e Laura foi para casa, deitou na cama com um livro e tentou esquecer as tensões do dia.

No dia seguinte, a advogada dos banqueiros — a mulher vigorosa e de rosto forte — ligou

para oferecer-lhe um emprego. “Nunca vi alguém tão cordial e tão durona ao mesmo tempo”, disse ela. E no dia após aquele, o principal banqueiro do grupo ligou para ela perguntando se seu escritório de advocacia representaria sua empresa no futuro. “Precisamos de alguém que possa nos ajudar a firmar acordos sem que o ego atrapalhe”, disse ele.

Mantendo sua forma suave de fazer as coisas, Laura acertara um novo negócio para seu

escritório e uma oferta de emprego para si. Levantar a voz e bater na mesa era desnecessário.

Hoje Laura entende que a introversão é uma parte essencial de quem ela é, e aceita sua

personalidade reflexiva. As constantes vozes em sua cabeça que a acusavam de ser quieta e modesta demais surgem com muito menos frequência. Laura sabe que pode confiar em si quando necessário.

 

O que exatamente quero dizer quando falo que Laura é introvertida? Quando comecei a

escrever este livro, a primeira coisa que quis foi descobrir exatamente como os pesquisadores definem introversão e extroversão. Eu sabia que, em 1921, o influente psicólogo Carl Jung publicara um livro bombástico, Tipos psicológicos, popularizando os termos “introvertido” e “extrovertido” como os pilares centrais da personalidade. Introvertidos são atraídos pelo mundo interior do pensamento e do sentimento, disse Jung, extrovertidos pela vida externa de pessoas e atividades. Introvertidos focam no significado que tiram dos eventos ao seu redor; extrovertidos mergulham nos próprios acontecimentos. Introvertidos recarregam suas baterias ficando sozinhos; extrovertidos precisam recarregar quando não socializam o suficiente. Se você já fez o teste de personalidade de Myers-Briggs, que é baseado no pensamento de Jung e é usado pela maioria das universidades e grandes empresas, já deve estar familiarizado com essas ideias.

Mas o que os pesquisadores contemporâneos têm a dizer? Logo descobri que não há uma definição geral para introversão ou extroversão; estas não são categorias unitárias como “cabelos cacheados” ou “dezesseis anos”, com as quais todos podem concordar em quem se enquadra em uma delas. Por exemplo, os partidários do modelo dos cinco grandes tipos de personalidade psicológica definem introversão não em termos de uma rica vida interior, mas pela falta de qualidades como autoconfiança e sociabilidade. Há quase tantas definições de “introvertido” e “extrovertido” quanto há psicólogos da personalidade, que passam um bom tempo discutindo qual significado é o mais acertado. Alguns acham que as ideias de Jung são datadas; outros juram que ele foi o único a entender.

Ainda assim, os psicólogos de hoje tendem a concordar em vários pontos importantes: por

exemplo, que introvertidos e extrovertidos diferem quanto ao nível de estímulo externo que precisam para funcionar bem. Introvertidos sentem-se “bem” com menos estímulo, como quando tomam uma taça de vinho com um amigo próximo, fazem palavras cruzadas ou leem um livro. Extrovertidos gostam da vibração extra de atividades como conhecer pessoas novas, esquiar em montanhas perigosas ou colocar música alta. “Outras pessoas são estimulantes demais”, diz o psicólogo da personalidade David Winter, explicando por que introvertidos preferem passar as férias lendo na praia em vez de fazer a festa em um cruzeiro. “Elas despertam sensações de ameaça, medo, escape e amor. Cem pessoas são muito estimulantes se comparadas a cem livros ou cem grãos de areia.”

Muitos psicólogos também concordam que introvertidos e extrovertidos trabalham de

forma diferente. Extrovertidos tendem a terminar tarefas rapidamente. Eles tomam decisões rápidas (e às vezes drásticas) e sentem-se confortáveis com muitas tarefas ao mesmo tempo e ao correr riscos. Gostam da “excitação da caça” por recompensas como dinheiro e status.

Introvertidos muitas vezes trabalham de forma mais lenta e ponderada. Eles gostam de se

focar em uma tarefa de cada vez e podem ter um grande poder de concentração. São relativamente imunes às tentações da fama e fortuna.

Nossas personalidades também moldam nossos estilos sociais. Extrovertidos são pessoas que

darão vida ao seu jantar entre amigos e rirão generosamente de suas piadas. Eles tendem a ser assertivos, dominantes e necessitam muito de companhia. Extrovertidos pensam em voz alta e rapidamente; preferem falar a escutar, raramente se encontram sem palavras e ocasionalmente vomitam palavras que nunca quiseram dizer. Sentem-se confortáveis em conflitos, mas não com a solidão.

Os introvertidos, por outro lado, podem ter várias habilidades sociais e gostar de festas e

reuniões de negócios, mas depois de um tempo desejam estar em casa de pijamas. Eles preferem devotar suas energias sociais aos amigos íntimos, colegas e família. Ouvem mais do que falam e muitas vezes sentem que se exprimem melhor escrevendo do que falando. Tendem a não gostar de conflitos. Muitos têm horror a jogar conversa fora, mas gostam de discussões profundas.

Algumas coisas que os introvertidos não são: a palavra “introvertido” não significa eremita

ou misantropo. Introvertidos podem ser assim, mas a maioria é perfeitamente amigável. Uma das frases mais humanas — “Apenas conecte-se!” — foi escrita pelo distintamente introvertido E.M. Forster em um romance explorando a questão de como conquistar “o amor humano em seu auge”.

Os introvertidos também não são necessariamente tímidos. Timidez é o medo da

desaprovação social e da humilhação, enquanto a introversão é a preferência por ambientes que não sejam estimulantes demais. A timidez é inerentemente dolorosa; a introversão, não. Uma das razões pelas quais as pessoas confundem os dois conceitos é que muitas vezes eles se sobrepõem (apesar de psicólogos discutirem até que ponto). Alguns psicólogos mapeiam essas duas tendências em eixos verticais e horizontais, com o espectro introvertido-extrovertido no eixo horizontal e o espectro ansioso-estável no vertical. Com esse modelo, fica-se com quatro quadrantes de tipos de personalidade: extrovertidos calmos, extrovertidos ansiosos (ou impulsivos), introvertidos calmos e introvertidos ansiosos. Em outras palavras, você pode ser um extrovertido tímido, como a cantora Barbra Streisand, que tem uma grande personalidade, mas um medo do palco paralisante; ou um introvertido não tímido, como Bill Gates, que sempre fica na dele mas não é perturbado pelas opiniões dos outros.

É claro que você também pode ser tímido e introvertido: T.S. Eliot era uma famosa alma

reservada que escreveu em “A terra desolada” que ele podia “mostrar-lhe medo em um punhado de poeira”. Muitas pessoas tímidas voltam-se para dentro, em parte como um refúgio da socialização que lhes causa ansiedade. E muitos introvertidos são tímidos, em parte como resultado do recebimento da mensagem de que há algo errado com sua preferência pela reflexão, e em parte porque sua fisiologia, como veremos, os compele a se distanciar de ambientes muito estimulantes.

Mas com todas as diferenças, timidez e introversão têm algo profundo em comum. O estado

mental de um extrovertido tímido sentado quieto em uma reunião de negócios pode ser muito diferente daquele de um introvertido calmo — a pessoa tímida tem medo de falar, enquanto o introvertido está simplesmente superestimulado —, mas para o mundo externo os dois parecem iguais. Isso pode dar aos dois tipos ideias sobre como nossa reverência ao status alfa nos cega para coisas que são boas, inteligentes e sábias. Por razões muito distintas, pessoas tímidas e introvertidas podem escolher passar seus dias nos bastidores, fazendo coisas como invenções, pesquisa ou segurando a mão de doentes graves — ou em posições de liderança que executam com uma competência quieta. Esses não são papéis alfa, mas as pessoas que os têm também são modelos.

 

Se você ainda não tem certeza de onde se encaixa no espectro introvertido-extrovertido,

pode descobrir aqui. Responda a cada questão com “V” (verdadeiro) ou “F” (falso), escolhendo

a resposta que lhe é mais frequente.3

1. ___ Prefiro conversas individuais a atividades em grupo. 2. ___ Geralmente prefiro me expressar por escrito. 3. ___ Gosto da solidão.

4. ___ Pareço me importar menos que meus colegas com fama, fortuna e status.

5. ___ Não gosto de jogar conversa fora, mas gosto de tópicos profundos que importam

para mim.

6. ___ As pessoas dizem que sou um bom ouvinte. 7. ___ Não gosto muito de correr riscos.

8. ___ Gosto de trabalhos que me permitam “mergulhar” com poucas interrupções. 9. ___ Gosto de celebrar aniversários de maneira reservada, com apenas um ou dois

amigos ou familiares.

10. ___ As pessoas me definem como alguém “de fala mansa” ou “meigo”. 11. ___ Prefiro não mostrar meu trabalho ou discutir sobre ele com os outros até ter

terminado.

12. ___ Não gosto de conflitos.

13. ___ Trabalho melhor sozinho.

14. ___ Tendo a pensar antes de falar.

15. ___ Sinto-me exaurido depois de estar em público, mesmo que tenha me divertido. 16. ___ Às vezes deixo ligações caírem na caixa postal. 17. ___ Se tivesse que escolher, preferiria passar um fim de semana com absolutamente

nada para fazer a um com muitas coisas programadas.

18. ___ Não gosto de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. 19. ___ Consigo me concentrar com facilidade. 20. ___ Em situações de sala de aula, prefiro palestras a seminários.

Quanto mais tiver respondido “verdadeiro”, mais introvertido você provavelmente é. Se

tiver um número parecido de “verdadeiros” e “falsos”, provavelmente você é um ambivertido — sim, essa palavra existe.

Mas mesmo que tenha respondido cada questão como um introvertido ou extrovertido, isso

não significa que seu comportamento é previsível em todas as circunstâncias. Não se pode dizer que todo introvertido é um leitor voraz ou que todo extrovertido atrai os holofotes em uma festa, não mais do que se pode dizer que toda mulher é uma construtora natural de consenso e que todos os homens amam esportes de contato. Como Jung acertadamente colocou, “não existe introvertido ou extrovertido puro. Um homem assim estaria em um sanatório para lunáticos”.

Isso se deve em parte ao fato de que somos indivíduos gloriosamente complexos, mas

também ao fato de que há muitos tipos diferentes de introvertidos e extrovertidos. Introversão e extroversão interagem com nossos outros traços de personalidade e histórias pessoais, produzindo tipos de pessoas radicalmente diferentes. Então se a pessoa for um norte-americano com veia artística cujo pai queria que tivesse entrado para o time de futebol assim como seus irmãos durões, será um tipo de introvertido muito diferente de, digamos, uma executiva finlandesa cujos pais cuidavam de um farol. (A Finlândia é um país famoso por sua introversão. Piada finlandesa: como saber que um finlandês gosta de você? Se ele estiver olhando para o seu sapato em vez do dele.)

Muitos introvertidos também são “altamente sensíveis”, o que soa poético, mas na verdade

é um termo técnico da psicologia. Se você é do tipo sensível, então é mais apto que a média das pessoas a se sentir encantado pela “Sonata ao luar” de Beethoven, ou por uma frase bem-formulada ou um ato extraordinário de gentileza. Você pode se sentir enojado pela violência ou feiura com mais facilidade, e é provável que tenha uma consciência muito forte. Quando criança, provavelmente era chamado de tímido, e até hoje fica nervoso ao ser avaliado, ao fazer um discurso ou em um primeiro encontro. Mais tarde vamos examinar por que essa coleção de atributos aparentemente sem relação tende a pertencer à mesma pessoa e por que essa pessoa muitas vezes é introvertida. (Ninguém sabe ao certo quantos introvertidos são altamente sensíveis, mas sabe-se que 70% dos sensíveis são introvertidos, e os 30% restantes dizem precisar muito de uma “pausa” nas atividades de vez em quando.)

Toda essa complexidade significa que nem tudo o que você ler em O poder dos quietos irá se

aplicar a você, mesmo que você se considere um perfeito introvertido. Para começar, passaremos um tempo falando de timidez e sensibilidade, enquanto você pode não ter nenhum desses traços. Tudo bem. Pegue o que se aplica a você e use o resto para melhorar sua relação com os outros.

Dito isso, em O poder dos quietos não tentaremos nos apegar demais a definições. Definir

termos com precisão é vital para pesquisadores cujos estudos dependem de apontar exatamente onde a introversão acaba e outros traços, como a timidez, começam. Mas em O poder dos quietos, nos preocuparemos mais com os frutos dessas pesquisas. Os psicólogos de hoje, acompanhados pelos neurocientistas e suas máquinas de escanear o cérebro, desenterraram ideias reveladoras que estão mudando a forma de vermos o mundo — e nós mesmos. Eles respondem perguntas como: Por que algumas pessoas são falantes enquanto outras medem as palavras? Por que algumas pessoas se enterram no trabalho enquanto outras organizam festas no escritório? Por que algumas pessoas sentem-se confortáveis em posições de autoridade enquanto outras preferem não liderar nem serem lideradas? Introvertidos podem ser líderes? A nossa preferência pela extroversão é a ordem natural das coisas ou é socialmente determinada? De uma perspectiva evolutiva, a introversão deve ter sobrevivido como traço de personalidade por alguma razão — que razão é essa? Se você for um introvertido, deve devotar suas energias a atividades que surgem naturalmente ou deve se forçar, como fez Laura naquele dia na mesa de negociação?

As respostas podem surpreendê-lo.

Mas se houver apenas uma ideia nova que você possa tirar deste livro, no entanto, espero

que seja um novo senso de que você tem o direito de ser como é. Posso garantir pessoalmente os efeitos transformadores deste livro. Lembra-se daquele primeiro cliente de que falei, aquele que chamei de Laura para proteger sua identidade?

Aquela história era sobre mim. Eu fui minha primeira cliente.

 

1 Correlação: exercitar-se: extrovertidos; cometer adultério: extrovertidos; funcionar bem sem dormir: introvertidos; aprender com os próprios erros: introvertidos; fazer grandes apostas: extrovertidos; adiar gratificações: introvertidos; ser um bom líder: em alguns casos, introvertidos, em outros, extrovertidos, dependendo do tipo de liderança em jogo; perguntar “E se?”: introvertidos.

2 Sir Isaac Newton, Albert Einstein, W.B. Yeats, Frédéric Chopin, Marcel Proust, J.M. Barrie, George Orwell, Theodor Geisel (Dr. Seuss), Charles Schulz, Steven Spielberg, Larry Page, J.K. Rowling.

3 Este é um questionário informal, não um teste de personalidade com validade científica. As questões foram formuladas com base nas características da introversão geralmente aceitas por pesquisadores contemporâneos.

 

Notas da Introdução