O Ponto de Equilíbrio

Christine Carter · Capítulo 9 de 21

Páginas do PDF

O Ponto de Equilíbrio

Capítulo 5

Aliviando “a sobrecarga”

“Antes de questionar sua vida inteira e as decisões que tom ou, verifique:

horm ônios, privação de sono, bagunça da casa, nível de teim osia das

crianças, colegas de trabalho intoleráveis. Se nenhum destes agentes for

responsável por sua infelicidade, talvez você tenha, de fato, problem as

m aiores.”

– Kristin van Ogtrop Podem os aum entar nossa felicidade e resistência ao

estresse quando nos livrarm os de em oções negativas desnecessárias. Digo

desnecessárias porque nem todas as em oções negativas são intrinsecam ente ruins. É necessário sentirm os dor pelas nossas perdas, m edo quando estam os

em perigo ou fúria se som os inj ustiçados. Mas, às vezes, nossos sentim entos

negativos não agem com o a quilha do barco. Eles não nos aj udam a navegar

e a m anter o equilíbrio; parecem a âncora, arrastando-nos para baixo. Três circunstâncias negativas, especificam ente, são grandes âncoras para m uitas

pessoas: estafa, tem or e rum inação.

LIDANDO COM A “SOBRECARGA”

Para m im , as em oções negativas que m ais agem com o âncoras são os sentim entos de exaustão e de sobrecarga: a sensação de que é im possível dar conta de tudo. No livro Overwhelmed (Sobrecarregado), Brigid Schulte relata inúm eras pesquisas científicas que com provam que as pessoas com m ais escolaridade nos Estados Unidos – e no m undo industrializado de form a geral – sentem -se presas na cilada da estafa e da exaustão, no trabalho e em casa. Dois em cada três trabalhadores sentem , com frequência, que não têm tem po suficiente para term inar o trabalho, e 94% j á se sentiram exaustos “a ponto da incapacitação”.

A sensação de estafa nos im pede de trabalhar e viver em nosso ponto de equilíbrio. Na verdade, esta condição afeta m ais a nossa cognição do que se estivéssem os drogados ou privados de um a noite inteira de sono. E tam bém nos torna irritáveis, irracionais, ansiosos e im pulsivos. Os neurocientistas cham am o estado de estafa de “sobrecarga cognitiva”. Ela abala nossa capacidade de pensar criativam ente, planej ar, organizar, inovar, resolver problem as, tom ar decisões, resistir a tentações, aprender coisas novas, falar com fluência, lem brar-se de inform ações sociais relevantes (com o o nom e da filha do chefe) e controlar nossas em oções. Em outras palavras, a estafa prej udica praticam ente todas as habilidades necessárias para a vida cotidiana.

Em bora experim entem os a estafa individualm ente, ela é um fenômeno social e cultural. Sociólogos e outros estudiosos têm docum entado a ascensão de um a cultura m oderna superatarefada – a percepção de que as pessoas ocupadas são im portantes e poderosas, enquanto aqueles que separam um pouco de tem po para o lazer são preguiçosos, com em pregos de pouco prestígio e vidas desprovidas de significado e relevância. Esta visão é extrem am ente perniciosa. O tem po que passam os ocupados tornou-se um a indicação do nosso status social. E, com o bois seguindo o rebanho, nos conform am os com esta percepção errônea.

Ser m uito ocupado não é um indicador de inteligência, im portância ou sucesso. Levado ao extrem o, tende m ais a ser um indicador de conform idade, im potência ou m edo. Costum am os trabalhar m uitas horas porque tememos perder o em prego ou porque receamos não ter dinheiro suficiente para com prar as últim as novidades tecnológicas. Matriculam os nossos filhos em todas as atividades possíveis porque tememos que eles não desenvolvam a técnica, a inteligência e a capacidade atlética necessárias para entrar nas faculdades certas e conseguir os em pregos certos.

Na verdade, am enizar a estafa em sua vida pode significar afastar-se do rebanho, e esta pode ser um a experiência aterrorizante. Sem pre que percebo que devo m e afastar dos dem ais – para desafiar um a norm a cultural –, preciso j untar coragem (leia com o fazer isso no Capítulo 9) e adm itir abertam ente que é bastante assustador agir de m aneiras que, aos olhos dos outros, podem parecer am eaçadoras, perigosas ou m esm o estúpidas. Com frequência lidam os com dois tipos de m edo: um é consciente, com o o tem or de que nossos filhos não consigam entrar na faculdade, e o outro é m ais sublim inar, enraizado em nossa m entalidade de rebanho, no desej o de não ser diferente ou deixado para trás. Quando reconheço que estou lidando com estes m edos, de algum a form a sinto-m e m ais capaz de fazer a coisa certa.

Apresento aqui m inhas estratégias para elim inar as coisas na vida que causam estafa.

ESCOLHA AS SUAS CINCO MAIORES PRIORIDADES E DIGA “NÃO” PARA

TODO O RESTO

“Dizer ‘não’ tem m ais poder criativo do que ideias, insights e talento com binados. ‘Não’ poupa tem po, que depois usarem os para tecer as nossas criações. (...) Não som os ensinados a dizer ‘não’. Som os ensinados a não dizer ‘não’. ‘Não’ é rude. ‘Não’ é contrariar, rej eitar, um pequeno ato de violência verbal. ‘Não’ é para drogas e estranhos oferecendo doces”, escreveu Kevin Ashton em um artigo da revista Medium intitulado “Pessoas Criativas Dizem Não”.

Às vezes, é necessário dizer “não”. E, para serm os capazes disso, precisam os ter um filtro eficiente para todas as solicitações que surgem . Convites para com parecer e contribuir, pedidos de aj uda, oportunidades de participar ou realizar – antes de conseguirm os j untar a força necessária para negar, precisam os saber m uito bem para o que devem os dizer “não”.

Talvez você estej a se perguntando se vai fazer um m estrado, se deve ou não m atricular seu filho no basquete, se continua no clube do livro, cuj as reuniões frequenta há m ais de um a década. São questionam entos acerca de prioridades em sua vida. Um a vez que não podemos fazer tudo, precisam os escolher. Isso significa que, na m edida do possível, precisam os dizer “não” para tudo que se distancie dos nossos m ais altos valores e prioridades.

O que nós m ais valorizam os na vida? Quais são nossas m aiores prioridades? Com o podem os usar nosso tem po da form a que m elhor reflita nossos ideais?

Responder a estas perguntas não costum a ser sim ples. Michelle Gale, um a coach excepcional e ex-executiva do Twitter, sabe com o lidar com a estafa. Michelle m e encoraj ou a fazer com o ela: escrever, todo ano, um a intenção sim ples (ou declaração de m issão pessoal) para usar com o teste decisivo ou filtro para todos os novos proj etos, tarefas e atividades. A intenção dela é “estou com prom etida a desenvolver consciência em m im m esm a e no m undo por m eio da m inha prática, da m inha com unidade e do m eu trabalho”. É um a declaração grandiosa, m as conversam os a respeito e sei que ela tem um a definição clara daquilo que “desenvolver a m inha consciência” realm ente significa para ela, de form a que as palavras a orientam bem . Antes de se com prom eter com qualquer coisa, Michelle usa este filtro (que m em orizou): pergunta a si m esm a se a atividade, tarefa ou proj eto vai aj udá-la a despertar consciência em si m esm a ou em seu m undo. Se não for, Michelle diz “não”, prontam ente e sem culpa.

Escrever um a intenção ou m issão pessoal com o essa não parece fácil. Talvez sej a difícil saber qual é o propósito da nossa vida, que princípios orientadores deveríam os usar para adm inistrar nosso tem po (se você tiver dificuldades com este ponto, sugiro que busque um coach pessoal, ou j unte-se a um grupo que explore isso em sua igrej a ou centro com unitário. Esse tipo de autodescoberta é recom pensadora).

Eu não tenho um a declaração de m issão pessoal com o Michelle. Sou um a pessoa m ais prolixa (e m enos evoluída). Na verdade, não fui capaz de articular m inhas prioridades até o m om ento em que nada parecia estar funcionando em m inha vida. Isto aconteceu vários anos atrás, quando eu ficava doente o tem po todo e m e sentia exausta, um a m ãe solteira com dificuldades financeiras tentando deslanchar um a nova carreira e um a fam ília ao m esm o tem po. Foi então que m e dei conta, j á no fundo do poço, de que precisava identificar m inhas prioridades e com eçar a organizar m eu tem po de acordo.

Um a vez vi na TV o guru do gerenciam ento do tem po Peter Bregm an, autor de 18 Minutes (18 Minutos), aconselhar as pessoas a escolherem as suas cinco m aiores prioridades e então passarem 95% do tem po desem penhando apenas aquelas atividades, dizendo “não” para quase todo o resto. A ideia m e im pressionou, pois eu estava convencida de que não havia como passar 95% do m eu tem po fazendo coisas que fossem m inhas m aiores prioridades. Eu estava ocupada dem ais cum prindo horários!

Mas agora faço isso. E, para dar um a ideia de com o funcionou para m im , aqui estão m inhas cinco m aiores prioridades deste ano, em ordem de im portância: (1) Manter a saúde e a felicidade. Esta é a m aior prioridade. As prim eiras coisas que agendo são as que m ais afetam m inha felicidade. Reservo tem po para dorm ir, praticar exercícios, para os am igos e a fam ília, e digo “não” para as atividades – por m ais divertidas que sej am – que interferem no sono, nos exercícios e no tem po que passo com am igos íntim os. Quando deixo de fazer exercício ou durm o m enos do que deveria, ponho a m inha prim eira prioridade – ficar saudável e feliz – em risco. E se eu ficar doente ou tão estressada que m inha energia sej a drenada? Isso tam bém prej udicará as outras prioridades. Então sem pre lem bro que levo m enos tem po praticando exercícios pela m anhã do que m e recuperando da gripe (isso não significa que nunca vou pegar outro resfriado, m as que é m enos provável de acontecer).

(2) Apoiar os outros. Prim eiro m eus filhos e m eu m arido; o restante da

fam ília em seguida; am igos e com unidade depois. Trata-se de criar seres

hum anos incríveis, saudáveis e felizes, e de cultivar a ideia de que faço parte

de algo m aior do que eu m esm a. Para honrar esta prioridade, preciso

reservar na m inha agenda um tem po considerável para estar com a fam ília.

Se está agendado, posso dizer “não” com m ais facilidade para outras coisas

que surgirem . Basta falar que tenho outro com prom isso.

(3) Escrever este livro. Am o escrever, m as com o não é algo tão

urgente quanto cuidar de um a criança doente ou exam inar um a falha no

m eu site, esta prioridade pode acabar indo para o fim da m inha lista de

tarefas. Para im pedir que isso aconteça, reservei alguns períodos diários de

“retiro” em casa, durante os quais não agendei mais nada: nenhum a reunião,

ligação, veterinário ou com pras.

(4) Trabalhar em ser um a oradora excepcional. Buscar ser

profundam ente inspiradora, im ensam ente dinâm ica e m uito bem paga.

Aprendi que consigo fazer cerca de vinte palestras por ano. Se fizer m ais do

que isso, com eço a ficar exausta e m inha m elhora é interrom pida.

(5) Manter m eu site, as newsletters e as aulas on-line com o um

m icronegócio lucrativo que dê suporte aos m eus livros e palestras. Isso

significa que preciso passar algum tem po fazendo m arketing, relações

públicas e trabalho adm inistrativo.

Com o m encionei antes, quando com ecei a pensar nas m inhas m aiores prioridades, não estava nem perto de passar 95% do m eu tem po concentrada nelas. Trabalhava com o coach e tinha um em prego de m eio período no Greater Good Science Center. Passar 95% do m eu tem po nas m inhas cinco m aiores prioridades deixava só um as cinco horas por sem ana para outras coisas. Algo seria deixado de lado. E foi a m inha saúde. Com o m uitas m ães que trabalham , coloquei m eu bem -estar em segundo plano, deixando de praticar exercícios e dorm indo pouco. E ficava doente o tem po todo.

Mas, agora, passo cerca de 98% do m eu tem po fazendo algo que estej a dentro daqueles cinco obj etivos. As únicas coisas na m inha lista de tarefas desta sem ana que não estão na categoria de alta prioridade são: (1) Alugar um carro para a viagem a Oj ai, onde terei um a reunião; (2) Com parecer a um a reunião do Greater Good Science Center; (3) Retornar um a ligação sobre um esforço para angariar fundos. (Ao olhar agora para esta lista, percebo que poderia delegar o prim eiro item à m inha assistente ou à estagiária.) A distribuição de atenção às nossas prioridades não precisa ser inteiram ente proporcional. Talvez fam ília sej a o que m ais valorizam os, em bora passem os a m aior parte do tem po trabalhando. A chave é o alinham ento com os nossos valores. O trabalho sustenta a vida que você tem com sua fam ília? Ou você espera que a fam ília sustente sua vida profissional?

Para organizar nosso tem po e atividades, precisam os desistir das três grandes “m entiras da escassez” que nossa cultura prega. Com o delineado por Ly nne Twist em The Soul of Money (A alm a do dinheiro), as m entiras são:

 

“Não há o suficiente.”

“Mais é m elhor.”

“As coisas são com o são, e eu não tenho o poder de m udar.”

Prim eiro, precisam os desistir da ideia de que não há tempo suficiente para as coisas na vida que m ais im portam . Esta crença (ou resignação) é um cam inho que leva rapidam ente à tristeza.

Para alinhar o nosso tem po aos nossos valores, precisam os com preender que temos tempo suficiente para obter sucesso no trabalho, para encontrar felicidade e significado nas coisas, para ter relacionam entos enriquecedores e gratificantes com nossos am igos e fam iliares. Há, de fato, tem po suficiente quando agim os com base em nossas prioridades, com disciplina, e quando aceitam os que um “bom o suficiente” autêntico costum a ser m elhor do que um “ótim o em tudo” falso.

Tam bém precisam os abandonar a convicção de que mais é melhor. Mais trabalho, m ais atividades enriquecedoras para as crianças, m ais “tem po de qualidade” com nossos filhos, m ais tem po de férias, m ais bens, m ais am izades e m ais funções sociais. Hoj e, os pais passam m ais tem po com os filhos do que em qualquer outra época; m esm o se com pararm os as m ães m odernas com as que trabalhavam apenas em casa nos anos 1950. E ainda assim sentim os que m ais tem po j untos seria m elhor. Quando nos dam os conta de que m ais nem sem pre é m elhor, podem os reconhecer que j á tem os o bastante.

Igualm ente im portante é questionar a crença de que “as coisas são como são” – por exem plo, que não há tem po para encontrarm os os am igos; que tem os que deixar as férias com a fam ília para o ano que vem ou o seguinte. Não som os im potentes em relação às forças de m ercado e à cultura consum ista que nos pressionam para que dem os prioridade a trabalho e dinheiro. Mas quando acreditam os que som os, e agim os com o se fôssem os, não conseguim os fazer com que nosso tem po reflita nossos valores. Lem bre-se de que, na m aior parte das vezes, a decisão de com o usam os nosso tem po é nossa. Há tem po suficiente quando sabem os priorizar.