O Ponto de Equilíbrio

Christine Carter · Capítulo 18 de 21

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O Ponto de Equilíbrio

Conclusão

Fazendo a m udança final

“Não alm ej e o sucesso. Quanto m ais o transform ar num a m eta, m ais se

afastará dele. Pois o sucesso, assim com o a felicidade, não pode ser

perseguido. Deve acontecer; e ele só acontece com o efeito colateral da

dedicação de um a pessoa por um a causa m aior que ela m esm a.”

– Viktor Frankl, Em busca de sentido

A m aioria dos ocidentais busca dinheiro, fam a, sexo, poder, felicidade e sucesso. Não nos questionam os se estam os buscando coisas que, em últim a análise, irão nos tornar m ais satisfeitos ou contentes. Não nos perguntam os se vão nos aj udar a dorm ir à noite sem preocupações ou solidão existencial. Se vão nos auxiliar a viver com tranquilidade e saúde, a partir daquele ponto em que grande poder pessoal em erge sem desgaste nem estresse. Não costum am os parar para pensar: isso vai contribuir para eu encontrar m eu equilíbrio? Todos im aginam os, em algum nível, que dinheiro e outros sinais externos de sucesso não geram felicidade – talvez por conhecerm os pessoas ricas, fam osas ou poderosas que sej am profundam ente infelizes –, m as, na verdade, não acreditam os m uito nisso. O dinheiro talvez não compre felicidade para os outros, pensam os, mas eu sei que seria mais feliz vivendo numa casa grande, numa vizinhança melhor, dirigindo um carro mais bacana.

Nossa busca talvez não sej a por fam a ou fortuna, diretam ente, m as por experiências felizes. Com pram os coisas que nos deleitam e anim am . Mas será que essas experiências agradáveis, ou divertidas, vão nos fazer sentir que a vida é, no fim das contas, significativa?

Pesquisas indicam que a busca por prazer e gratificação não nos traz m ais tranquilidade e força. Ela não nos perm ite viver e trabalhar em nosso ponto de equilíbrio. Podem os afirm ar que a “procura da felicidade” é nosso direito inalienável e o principal m otivador da raça hum ana. Mas é m elhor buscar satisfação vivendo de form a a sentir que a nossa vida tem propósito. Psicólogos sociais definem propósito, no que diz respeito à nossa existência, com o “um a avaliação cognitiva e em ocional do nível segundo o qual sentim os que as nossas vidas têm sentido, valor e im pacto”. Entre outras definições, propósito é um a crença sobre a nossa vida.

As crenças que tem os sobre nós m esm os – referentes à saúde m ental e física, ao im pacto e propósito de nossas vidas, e às nossas habilidades e intelecto – têm o potencial de m udar tudo. Inúm eras pesquisas m ostram que nossas crenças influenciam m uito nos resultados que obtem os, m esm o quando o am biente ou as circunstâncias de vida perm anecem inalterados. Considere, por exem plo, fenôm enos com o o efeito placebo, no qual a sim ples crença em um tratam ento cura o corpo e a m ente.

O PODER DO PLACEBO

Placebos são tratam entos sim ulados, com o pílulas de açúcar sem nenhum a propriedade m edicinal, usados em estudos para determ inar se rem édios verdadeiros têm efeitos adicionais. Até os anos 1940, quase toda a m edicação ocidental dependia do efeito placebo – a crença, por parte dos pacientes, de que a pílula prescrita pelo m édico iria curá-los. Na verdade os m édicos estavam prescrevendo pílulas de açúcar em diferentes form as e cores. Mesm o hoj e, com rem édios verdadeiros, que m uitas vezes têm efeitos colaterais, a crença no tratam ento e a confiança que tem os nos m édicos ainda é m uito poderosa. Atente para o fato de que 42% dos hom ens carecas tiveram crescim ento de cabelo ao usar um tônico de crescim ento falso. Ou que, quando pesquisadores esfregaram plantas inofensivas nos braços de pessoas extrem am ente alérgicas, 100% das pessoas inform adas pelos pesquisadores que as folhas eram venenosas tiveram brotoej as. Por outro lado, apenas 15% sofreram de brotoej as quando expostos à planta venenosa verdadeira, após ouvirem dos pesquisadores que era um a planta inofensiva. A m édica Lissa Rankin investigou com o poderia usar o efeito placebo para curar seus pacientes com m ais eficiência. Ela recorreu à literatura m édica para aprender m ais e revelou: Descobri que quase m etade dos pacientes com asm a tem seus sintom as reduzidos quando usam inaladores falsos ou são subm etidos à acupuntura falsa. Quase 40% das pessoas com dores de cabeça m elhoram ao receber um placebo. Metade das pessoas com colite se sentem m elhor depois de um tratam ento com placebo. Mais de 50% dos pacientes com dores de úlcera são curados ao receber um placebo. A aplicação de acupuntura falsa dim inui ondas de calor quase pela m etade. Até 40% das pacientes inférteis ficam grávidas quando tom am “drogas de fertilidade” placebos. Na verdade, se com parados à m orfina, os placebos têm quase a m esm a eficácia ao tratar a dor. E diversos estudos dem onstram que quase toda reação de alegria vivenciada por pacientes após o uso de antidepressivos pode ser atribuída ao efeito placebo. Não são apenas as pílulas e inj eções que fazem m ilagres quando se trata de alívio dos sintom as (...), cirurgias falsas podem ser ainda m ais efetivas.

O livro da Dra. Lissa, Mind Over Medicine, docum enta estes e m uitos outros achados. E deixa um a coisa bem clara: nossas crenças têm um poder trem endo. Acreditar que estam os doentes, quando não estam os, pode nos deixar doentes. Acreditar que estam os sendo curados pode ser o suficiente para estim ular um a cura real. Por quê? Em bora não se saiba precisam ente com o o efeito placebo funciona, sabem os que, quando alteram os nossas crenças sobre o futuro im ediato, o cérebro ativa um a torrente de efeitos em nosso corpo. Pesquisadores cham am a isso de “teoria da expectativa”. Independentem ente de com o isso funcione, a oportunidade m aravilhosa que tem os ao nosso alcance é: um a sim ples crença pode gerar força e tranquilidade. Cura e m elhoria podem ocorrer sem esforço nem desgaste.

Talvez você não precise ir à academ ia

O efeito placebo não ocorre apenas na m edicina. Num estudo feito com

funcionárias de hotéis, arrum adeiras que trabalhavam em sete hotéis

diferentes tiveram sua saúde fisiológica avaliada – foram m ensurados os

aspectos que eram m ais afetados pela prática de exercícios, com o pressão e

índice de m assa corporal. Metade das participantes foi inform ada que

lim par os quartos cum pria as recom endações m édicas para um estilo de

vida ativo – em outras palavras, que o seu trabalho contava com o exercício

físico. A outra m etade, que constituía o grupo de controle, não recebeu

nenhum a inform ação acerca dos benefícios do seu trabalho para a saúde.

Um m ês depois, todas passaram por um a nova avaliação de saúde. As

participantes que haviam sido inform adas que o seu trabalho contava com o

exercício apresentaram dim inuição de peso, pressão, gordura corporal,

proporção da cintura para o quadril e índice de m assa corporal. Seus

em pregos não haviam m udado, m as suas crenças acerca do trabalho que

faziam m udaram – e seus corpos tam bém !

DESENVOLVENDO A MENTALIDADE ADEQ UADA

Mas espere, não é só isso. Nossas crenças podem m odificar m ais do que apenas a fisiologia e a saúde. Elas tam bém m udam nosso desem penho e nível geral de felicidade. Às vezes a m elhor form a de desenvolver m aestria, por exem plo, é avaliando aquilo em que acreditam os – o que pensam os sobre nós m esm os e sobre nosso desem penho – em um m om ento de adversidade. Ou, m ais especificam ente, por que acham os que estam os enfrentando dificuldade?

Você acredita que é inerentem ente falho naquilo que busca conquistar? Se for este o caso, tem o que os psicólogos cham am de um a “m entalidade fixa”, e ela está atrasando sua vida. As prim eiras pesquisas sobre m entalidade foram conduzidas 30 anos atrás, pela pioneira Carol Dweck. De acordo com Dweck, que hoj e trabalha na Universidade de Stanford, um a m entalidade é um a crença a respeito de por que um a pessoa é (ou não) bem -sucedida. Existem duas m entalidades especialm ente poderosas. As pessoas com um a m entalidade fixa acreditam que talentos e personalidades são elem entos inatos, predeterm inados. Já as pessoas com um a m entalidade de crescim ento acreditam que o sucesso se deve tanto ao esforço quanto à aptidão.

A m aioria das pessoas dem onstra um a m entalidade fixa ao descrever a própria personalidade. Talvez você sej a bom com idiom as, “que nem a sua avó”, m as é terrível em m atem ática, com o o seu pai. Jogar tênis é algo que faz naturalm ente, m as cantar bem parece im possível. Acontece que nós apresentam os um desem penho pior, e desistim os m ais rapidam ente, quando acham os que nossa inteligência (ou habilidade atlética, ou qualquer outro atributo) é inata, em vez de acreditar que o talento é algo que pode ser desenvolvido. A m entalidade fixa é venenosa. Pensam entos com o Eu sou terrível com detalhes ou Só pessoas jovens conseguem aprender novos idiomas são produtos de um a m entalidade fixa. Eles funcionam com o profecias autorrealizáveis e tam bém com o pílulas de placebo, pois nos im pedem de fazer o trabalho que levará à m aestria.

Nossa crença sobre o que gera – ou não – sucesso m uda radicalm ente o nível de engaj am ento e paixão que sentim os por nossas atividades, quanto esforço dedicam os a elas e se realizam os ou não um a prática deliberada e consistente. As crenças alteram o nosso desem penho. Em outras palavras, nossa m entalidade afeta consideravelm ente quanta determ inação terem os em certa situação, e, portanto, se vam os ou não conquistar a m aestria.

Por exem plo, a equipe de pesquisadores de Carol conduziu um experim ento em que crianças recebiam um breve teste de inteligência não verbal (quebra-cabeça) e, em seguida, um elogio. Ou elas ouviam “Nossa, esse resultado é m uito bom . Você deve ser inteligente nisso” (m entalidade fixa) ou “Nossa, esse resultado é m uito bom . Você deve ter se esforçado m uito” (m entalidade de crescim ento). Depois do prim eiro teste, as crianças puderam escolher entre um quebra-cabeça m ais difícil, com o qual poderiam aprender, ou um m ais fácil do que o original. A m aioria das crianças cuj a inteligência foi elogiada optou pelo quebra-cabeça m ais fácil. Elas não estavam dispostas a arriscar um erro e perder seu status de “inteligentes”. Por outro lado, m ais de 90% das crianças elogiadas por sua m entalidade de crescim ento escolheram o quebra-cabeça m ais difícil.

Por quê? Quando acreditam os que esforço e trabalho duro levam ao sucesso, querem os continuar engaj ados com o processo. Parecer inteligente – ou burro – deixa de ser um a preocupação.

Quando elogiam os as pessoas ao nosso redor atribuindo o seu sucesso a dons inatos, dam os a elas um a receita para ansiedade e conquistas desprovidas de alegria. No estudo de Dweck, durante o prim eiro quebra-cabeça, quase todas se divertiram . Mas, quando as crianças cham adas de “inteligentes” receberam o segundo, m ais difícil, elas relataram não estar m ais se divertindo; porque não tem graça quando o seu talento especial está em risco. Além de torná-las inseguras e acabar com a diversão de aprender algo novo, dizer às crianças com o elas são inteligentes prej udica o desem penho. Em outro estudo, elogiar a inteligência de crianças dim inuiu a sua pontuação nos testes de QI! Por outro lado, as crianças elogiadas por seus esforços continuaram se divertindo, m esm o quando seu desem penho piorava um pouco.

As crenças sobre sucesso tam bém influenciam o desem penho e o prazer de adultos – no trabalho e em casa. Por exem plo, gestores com um a m entalidade fixa têm m ais dificuldade para buscar e receber feedback de seus funcionários do que os que têm um a m entalidade de crescim ento. E, por acreditarem que as pessoas não são capazes de m udar, eles tam bém são m enos propensos a orientar seus funcionários. (Mas, quando aprendem sobre a m entalidade de crescim ento, estes gestores tendem a dar conselhos m ais úteis e a orientar m ais os funcionários.)

De form a sim ilar, nossa m entalidade influencia a qualidade e a longevidade de nossos relacionam entos rom ânticos e am izades. Pessoas com um a m entalidade de crescim ento são m ais propensas a abordar os problem as em suas relações e tentar resolvê-los. Já aquelas com m entalidade fixa costum am acreditar que os indivíduos não crescem nem m udam de form a m uito significativa, então não acham m uito útil confrontar as preocupações em suas interações. Elas são m enos propensas a buscar a aj uda de um terapeuta, e term inam os seus relacionam entos com m ais frequência.

Saiba que é possível ter diferentes m entalidades em cam pos diferentes. Talvez você possua um a m entalidade de crescim ento no em prego, sabendo que, com dedicação, pode encontrar soluções para praticam ente qualquer problem a. Mas, em casa, sua m ulher tenta convencê-lo a correr 10 quilôm etros com ela, e você dem onstra um a m entalidade fixa ao dizer coisas com o “Não tenho um bom corpo para correr”.

Mentalidades fixas, especialm ente quando utilizadas para classificar a nós m esm os ou a outros (“não sou do tipo que corre”), podem nos aprisionar, tornando-se um a desculpa para desistir. Então, se querem os ser coraj osos, autênticos e determ inados, se desej am os desenvolver m aestria e encontrar tranquilidade, precisam os acreditar que, com estratégias corretas, orientação adequada e prática deliberada, vam os m elhorar.

Apesar de operarem com o fatos, as “m entalidades” são avaliações cognitivas e em ocionais – opiniões subj etivas, não fatos –, e dependem de com o vem os a nossa habilidade: se ela é inata ou construída por m eio de esforço. Nós não tem os com o saber se som os bons num quebra-cabeça, ou se um relacionam ento pode ser salvo, até tentarm os.

BUSCANDO SIG NIFICADO

A felicidade e a produtividade no trabalho são profundam ente afetadas pelo significado social – a crença sobre com o algo beneficia outras pessoas – que atribuím os às nossas atividades. Num a série surpreendente de estudos, Adam Grant provou que m ostrar às pessoas com o o seu em prego aj uda a outros não só aum enta a satisfação das pessoas com o próprio trabalho, com o tam bém faz com que elas trabalhem e conquistem m ais. O estudo m ais fam oso de Grant foi conduzido num call center, com voluntários cuj a função era entrar em contato com potenciais doadores para um a universidade pública. Com o bem sabe qualquer pessoa que j á tenha feito isso, trabalhar num call center não é fácil. As pessoas que recebem as ligações costum am ficar incom odadas e m uitas vezes são grossas. Os funcionários precisam tolerar rej eições frequentes pelo telefone e m oral baixa no escritório – tudo em troca de um salário relativam ente baixo. Não é de causar espanto que os em pregos em call centers tenham um nível alto de dem issões.

Em um esforço para ver se podia m otivar angariadores de fundos de um call center a perm anecer m ais tem po no em prego, Adam levou estudantes bolsistas (que, supostam ente, tinham sido beneficiados pelo trabalho de angariadores de fundos) para um a reunião de cinco m inutos com os funcionários, na qual eles podiam perguntar sobre suas aulas e experiências na universidade. No m ês seguinte, aquela breve conversa gerou resultados inacreditáveis. Os funcionários que se encontraram com os bolsistas passaram duas vezes m ais tem po no telefone do que seus colegas. Eles conquistaram m uito m ais, angariando um valor, em m édia, 171% m aior em doações. Em outro estudo, Grant pediu que os angariadores lessem um relato dos bolsistas sobre com o haviam sido aj udados pelo trabalho dos funcionários. Isso aum entou de form a significativa a som a de dinheiro que eles levantaram . Mas ler relatos de outros funcionários sobre com o eles mesmos haviam se beneficiado com seu trabalho angariando fundos não gerou mudanças. A diferença? Um a m udança nas crenças dos funcionários sobre o significado social de seu trabalho e um m aior senso de propósito, valor e im pacto.

Grant replicou este estudo com salva-vidas de piscina – um em prego tão tedioso que é difícil reter os funcionários. Ele deu algo para os salva-vidas lerem . O prim eiro grupo recebeu um parágrafo escrito por um antecessor, explicando com o havia se beneficiado, com o pessoa, da experiência com o salva-vidas. O segundo, leu sobre casos em que os salva-vidas realm ente salvaram vidas. O trabalho do prim eiro grupo não m udou – eles ficaram no em prego tanto tem po quanto aqueles que os precederam . Já o segundo, que leu sobre os profissionais que conseguiram evitar fatalidades, aum entou em 40% o núm ero de horas trabalhadas em relação aos colegas. Além disso, eles relataram sentir-se m ais dedicados à sua função, e seus supervisores declararam que eles haviam se tornado m ais atenciosos. O que os m otivou? A percepção do im pacto que tinham sobre os outros e um senso aum entado de valor social.

Esses estudos são bem interessantes. Costum a-se supor que os ocidentais sej am m ais m otivados, no trabalho, por seus próprios interesses – dinheiro, prestígio, vantagens, aquilo que recebem e não o que dão. Mas, na realidade, esses estudos m ostram com clareza que nós, hum anos, som os m ais m otivados pelo significado que temos para outras pessoas. Trabalham os m elhor, com m ais afinco e por m ais tem po – e nos sentim os m ais felizes com a função que exercem os –, quando sabem os que alguém está sendo beneficiado pelo nosso esforço. Um cam inho garantido para a tranquilidade é encontrar o significado social de suas atividades cotidianas.

Estudos de longo prazo com avós m ostram resultados sim ilares. Aqueles que aj udam os netos adultos de form a prática – com tarefas, transporte, conselho ou dinheiro – exibem m enos sintom as de depressão do que os que recebem qualquer auxílio dos netos.

Para citar novam ente Gregory Boy le, a m udança final, portanto, é um a “m udança do m undo lim itado da preocupação por si m esm o para um lugar de expansão de com panheirism o, de verdadeira afinidade”. É um a m udança no significado da vida, nas crenças que tem os sobre nós m esm os. O significado que encontram os em nossa existência vem dos relacionam entos que construím os e da form a com o aj udam os os outros. Com o escreve o professor de liderança e gestão Satinder Dhim an, em Seven Habits of Highly Fulfilled People (Sete hábitos das pessoas altam ente realizadas): “Sucesso consiste em receber, significado consiste em dar.” E cita Churchill: “Vivem os daquilo que recebem os; m as construím os um a vida com aquilo que dam os.” No fim das contas, encontrar o nosso ponto de equilíbrio é encontrar significado – propósito, im pacto e valores – naquilo que fazem os.

SIGNIFICADO É UM TRABALHO INTERNO

A m elhor m aneira de fazer a m udança final do “m undo lim itado da preocupação por si m esm o” é, ironicam ente, voltando-se para dentro. Deixe-m e explicar.

De m odo geral, o significado que atribuím os a qualquer pensam ento, sentim ento, ação, experiência ou am biente é um a escolha nossa. O m undo em que vivem os m uda rápido, e isso pode produzir um a sensação de falta de controle (m esm o que você tente desesperadam ente controlar tudo ao seu redor). Viktor Frankl escreve no livro Em busca de sentido:

O hom em pode preservar um vestígio de liberdade espiritual, de

independência da m ente, m esm o em condições terríveis de estresse m ental

e físico. Nós, que vivem os em cam pos de concentração, lem bram os dos

hom ens que andavam pelas cabanas reconfortando os outros, dando o últim o

pedaço de pão que tinham . Eles eram poucos, m as sua existência fornece

evidência suficiente de que tudo pode ser tirado de um hom em , m enos a

últim a das liberdades hum anas – escolher a sua própria atitude em qualquer

circunstância, escolher o seu próprio cam inho.

A realidade é que podem os controlar apenas os pensam entos e crenças que povoam nossa m ente. Som os capazes de influenciar as pessoas à nossa volta, as situações em que vivem os e nas quais trabalham os, m as, em últim a análise, não podem os ter controle real sobre nada disso. O que podemos controlar, no entanto, é o significado que atribuím os a qualquer pensam ento, sentim ento ou situação. E as crenças que escolhem os têm o poder de nos transform ar – da doença para a saúde, da obesidade para a boa form a física, do estresse para a coragem , da derrota para a determ inação, do tédio para o engaj am ento.

Sucesso, poder, sexo, prestígio, fam a, dinheiro, aparência j ovem (quando estam os velhos), beleza com prada em loj as – estas são recom pensas externas. E m uitas pesquisas m ostram que a procura por recom pensas externas nos torna m ais ansiosos, deprim idos, dependentes de drogas e fisicam ente doentes do que a busca por m etas com significado intrínseco (com o, por exem plo, relacionam entos profundos e duradouros).

Significado é um trabalho interno. Para encontrá-lo, devem os nos voltar para dentro, silenciar a m ente verbal e tagarela e dar ouvidos ao coração, à pequena voz interna que orienta, que aponta para a verdade de nossa própria im portância.

Em outras palavras, a form a de buscar significado é dando um fim à busca. Precisam os parar de focar em nosso terrível am biente de trabalho, nos colegas irritantes, no cônj uge frustrante, nos filhos reclam ões, no tem po estressante que passam os dirigindo, e com eçar a focar em nós m esm os. Não de um a form a egoísta, m as da m aneira com que tanto as grandes tradições quanto as pesquisas científicas sugerem : em contem plação, reza, m editação ou sim ples atenção à nossa própria vivência sensorial do m om ento presente.

SILENCIANDO A TAG ARELICE

Apesar de j á saber há m uito tem po dos benefícios neurológicos da m editação e de outras práticas contem plativas, foi só depois de ler A cientista que curou seu próprio cérebro, da neurocientista Jill Bolte Tay lor, que m e dei conta de que a m elhor form a de vivenciar significado – um a conexão profunda com algo m aior que nós m esm os – é silenciando a parte verbal do nosso cérebro.

Pesquisadores são capazes de ver este fenôm eno dentro do laboratório. Monges tibetanos e freiras franciscanas, m editando ou rezando enquanto um a m áquina analisa sua atividade cerebral, apresentam um a m udança quando “abandonam a percepção individual e sentem -se em união com o universo (Deus, Nirvana, euforia)”. Os pesquisadores identificaram m udanças em sua atividade neurológica. A atividade nos centros de linguagem (no lado esquerdo do cérebro) dim inuiu até quase parar; e a atividade cessou em outra área do cérebro, tam bém no hem isfério esquerdo, que nos aj uda a identificar as fronteiras pessoais, criando a sensação de serm os indivíduos separados.

Sentim entos de significado profundo, conexão intensa e paz interior são criados quando circuitos neuronais localizados no hem isfério direito do cérebro são ativados. Infelizm ente, a atividade nesta área costum a ser anulada pela atividade barulhenta do hem isfério esquerdo. Então, para descobrirm os propósito, paixão intrínseca e significado com o parte de algo m aior que nós m esm os, devem os decidir silenciar a tagarelice constante do hem isfério esquerdo – ao m enos por um tem po. Felizm ente, assim com o podem os m udar nossas crenças para trazer m ais tranquilidade à nossa vida – pense no efeito placebo e na m entalidade de crescim ento –, tam bém podem os m udar a atividade cerebral de form a a vivenciar o mais elevado ponto de equilíbrio: a paz interior transcendente.

Com o? Praticam ente todas as tradições religiosas oferecem práticas para silenciar a m ente verbal: reza, ioga, m editação, j ej um , prostração. Para ser honesta, nenhum a destas práticas m e atrai m uito porque silêncio não é um estado que eu busque. Sou extrovertida. Prefiro estar com pessoas, de preferência falando. E, com o leitora ávida e escritora profissional, tendo a tem er – e não a cultivar – a perda de palavras. Mas conheço há m uito tem po os incríveis benefícios que, segundo as pesquisas, vêm de silenciar os pensam entos na m ente, e este conhecim ento m otivou a acadêm ica em m im a querer utilizar com m ais eficácia o lado direito do m eu cérebro.

Para silenciar m eu “cérebro verbal barulhento”, costum o buscar a aj uda de Martha Beck, que, por hum ildade, cham a a si m esm a de coach (quando, na realidade, é um a xam ã m oderna). Ela ensina práticas para o que cham a de “profunda ausência de palavras”. Em Finding Your Way in a Wild New World (Encontrando seu cam inho num m undo selvagem ), ela escreve que, “para conquistar a ausência de palavras, você deve desaprender quase tudo que lhe foi ensinado na escola sobre o que significa ser inteligente. O enfoque que você instruído a m anter é, na verdade, um cam po de atenção lim itante, estressante e restrito – algo que os anim ais usam no m om ento de ‘lutar ou fugir’. Voltar-se para a ausência de palavras m uda o cérebro para um estado de ‘repouso e relaxam ento’”.

Um a das form as de praticar a ausência de palavras que funciona bem para m im é seguir o sentim ento em m inha corrente sanguínea. Você pode tentar isso concentrando a atenção no coração e na respiração. Depois de soltar o ar, retenha a respiração e ouça o seu batim ento cardíaco. Quando estiver seguindo as batidas de seu coração, procure sentir o sangue chegando em seus ouvidos, m ãos, cabeça, dedos – no corpo inteiro. Perm aneça um tem po neste estado m editativo.

Caso isso não pareça m uito interessante para você, não se preocupe. Existem , literalm ente, centenas de form as para silenciar a sua m ente verbal. Brincar funciona, e m úsica tam bém pode aj udar. Tente entrar num estado de fluxo enquanto estiver no trabalho, brincando com o cachorro ou até m esm o dançando ou cantando.

TRABALHE EM SEU EPITÁFIO, NÃO NO SEU CURRÍCULO

Na Wisdom 2.0, um a conferência onde algum as das pessoas m ais sábias da atualidade dão seus m elhores conselhos para se viver bem , Arianna Huffington ofereceu à audiência um conselho incrível e inesperado para encontrar m ais significado e realização na vida: com ece a escrever o seu epitáfio e pare de trabalhar no seu currículo.

Ela explicou que era m uito revelador pensar naquilo que não é dito quando alguém m orre. Não se costum a ouvir coisas com o: “A m aior conquista de sua vida foi quando ele se tornou vice-presidente” ou “Ele aum entou m uito a participação da em presa no m ercado enquanto esteve encarregado dela” ou “Ela não teve nenhum am igo de verdade, m as tinha 600 am igos no Facebook e respondia a cada um de seus e-m ails todas as noites”.

Depois que m orrerm os, as pessoas vão falar de com o fizem os diferença em suas vidas e no m undo. Contarão histórias acerca do tem po que passaram conosco. Falarão, essencialm ente, sobre o significado que encontram os nesta vida, sobre nossos valores, propósito e im pacto. Quando com eçam os a trabalhar em nosso epitáfio, deixam os de focar em conquistas e passam os a pensar em significado. Afastam os nossa atenção do brilho das recom pensas externas – os sapatos de grife, as plásticas, o contracheque, o título m ais prestigioso – e olham os para dentro, buscando aquilo que realm ente acende a nossa paixão e nos traz paz.

Talvez você sej a um conceituado advogado, proprietário de um a casa grande num bairro elegante, tenha um a esposa que cuida do lar, três filhos, um a em pregada e férias anuais em Aspen, m as estej a m uito insatisfeito. Deveria desistir de tudo isso para se tornar o professor de m atem ática da sétim a série que você achou que seria quando estava na sétim a série?

Eu sou grande fã de m udanças im portantes, quando elas são apropriadas e necessárias. Às vezes, a m elhor form a de encontrar nosso ponto de equilíbrio é m odificar com pletam ente algum a coisa – um casam ento, um a carreira, um lar – e com eçar de novo. Mas, na m aior parte dos casos, não acho que focar em nosso epitáfio requeira m udanças expressivas. Trata-se apenas de encontrar significado onde j á estam os. Se você for o advogado insatisfeito, m eu conselho é que encontre um a form a de liberar seu professor de m atem ática interno em seu trabalho atual. Você pode orientar um colega m ais novo que não é m uito bom com as contas ou com eçar um program a letivo em parceria com um a escola local. Tente não enxergar estas possibilidades com o tarefas adicionais em sua lista de afazeres. Em vez disso, pense nelas com o m aneiras de viver e trabalhar a partir do seu ponto de equilíbrio, explorando algo que produza alegria e significado.

O ser hum ano pode encontrar vocação em todos os tipos de trabalho – com o faxineiro ou m inistro, executivo ou cabeleireiro, artista ou pai, carteiro ou fazendeiro. Um estudo m ostrou que, entre assistentes adm inistrativos, um terço considerava sua ocupação com o um em prego (eles focavam no contracheque, não no significado ou prazer que tiravam do trabalho), um terço considerava um a carreira (um a série de conquistas crescentes), e outro terço considerava um a verdadeira vocação (eles sentiam que a função era interessante, socialm ente útil e digna de seu tem po e energia). Os pesquisadores encontraram os m esm os resultados em outras ocupações.

Isso significa que não é a descrição do cargo, ou o título, que determ ina significado – se vam os considerá-lo com o um em prego, um a carreira ou um a vocação. É a pessoa. Não se trata de prestígio nem da natureza beneficente do trabalho. O que im porta é o significado que cada um de nós encontra e expressa por m eio de sua ocupação, e o esforço e o com prom etim ento investidos.

Então pergunte a si m esm o que significado você vê em seu trabalho e em sua vida. Pelo que você é apaixonado? O que acha m ais interessante, im portante e digno de seu tem po e energia? Com o você está acrescentando valor? Que im pacto positivo você está tendo sobre o m undo e as outras pessoas? O que você está produzindo de m aterial para com por o seu epitáfio? Seu tem po e esforço refletem seu com prom isso com o trabalho que você m ais valoriza? Parafraseando Kierkegaard: A eternidade não vai perguntar a respeito da vida de sua esposa. Vai perguntar sobre você.

As pessoas vão se lem brar de com o você dem onstrava, ao m esm o tem po, força e serenidade. Elas vão se lem brar de com o você se desprendia das garras da tecnologia para cuidar das pessoas reais. Elas vão falar dos seus hábitos peculiares, das coisas que m ais o tornavam você. Elas vão se lem brar das ocasiões em que você decidiu consertar relacionam entos que estavam desm oronando e das vezes em que assum iu responsabilidade pelos seus erros. Elas vão se lem brar dos m uitos presentes im ateriais que você distribuiu para am igos, fam ília e com unidade – enfim , para o m undo.

Elas vão se lem brar de você pela sua paixão e pela sua coragem . Elas vão falar da sua m aestria. E certam ente vão falar das vezes em que você tolerou desconforto ou se separou do rebanho para servir a algo m aior do que si m esm o. Enfim , elas vão se lem brar de seu encanto, otim ism o, gratidão, generosidade e, especialm ente, do seu am or e com paixão.

Do que você quer que elas se lem brem ?