O Ponto de Equilíbrio

Christine Carter · Capítulo 3 de 21

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O Ponto de Equilíbrio

Capítulo 1

Das horas extras ao relaxam ento “Todos vam os m orrer; alguns m ais cedo, outros

m ais tarde. O im portante é viver verdadeiram ente.”

– Lee Lipsenthal, Aproveite cada sanduíche Um m édico am igo m eu, Lee

Lipsenthal, estava m orrendo de câncer, deixando para trás filhos e um a

esposa am ada. Ele veio ao nosso grupo de estudos sobre budism o e

neurociência um a últim a vez, para com partilhar o que sua m orte im inente

havia lhe ensinado. Im agine ouvir do seu m édico que você tem m enos de

seis m eses de vida, disse Lee. O que você precisa fazer? Com quem precisa

falar? Que lugar precisa visitar? Como aproveitará o tempo que lhe resta?

Quando visualizei a m im m esm a com um a doença term inal, encarando m eu próprio fim , fiquei assustada ao perceber com o m inha vida estava fora de controle. A reação principal à m editação da m orte de Lee foi que eu m e sentiria aliviada por estar m orrendo.

Esta percepção foi chocante e constrangedora. Lee com preendeu, m as pense quão ofensivo isso deve ter soado para ele. Ele teria dado qualquer coisa para ser tão saudável quanto eu. Eu não estava infeliz com m inha vida, apenas m e sentia sobrecarregada. Im aginar que iria m orrer em breve m e libertou do estresse da vida cotidiana. Hoj e vej o com clareza que eu precisava de um descanso – um intervalo m etafórico e literal, durante o qual pudesse recarregar as m inhas baterias.

O problem a era (e para m uitos ainda é) que eu não via com o fazer aquela pausa sem ser obrigada a desistir de algum a coisa. Não enxergava form as de liberar tem po para repouso e reflexão, nem m aneiras de sim plificar ou reorganizar m eu cotidiano para ter m enos estresse e m ais tranquilidade. Mas agora eu vej o.

A prim eira parte da “equação do ponto de equilíbrio” – Faça um Intervalo – consiste em se perm itir pequenos m om entos, no decorrer do dia, para recarregar as baterias. Eu sei, você está ocupado dem ais para fazer um a pausa, que dirá um “intervalo”. Mas m e acom panhe.

PRATO CHEIO, VIDA VAZIA A pergunta “Com o você está?” costum a ser

respondida por todo m undo da m esm a form a: “Ando ocupado dem ais.”

“Dizem os isso uns para os outros com orgulho”, escreveu Way ne Muller em seu tratado sobre o repouso, “com o se nossa exaustão fosse um troféu e nossa capacidade de tolerar o estresse fosse um a verdadeira m arca de caráter. Quanto m ais ocupados estam os, m ais im portantes parecem os para nós m esm os e, supom os, para os outros.” Você j á caiu nessa profecia autorrealizável? Quando com eçam os a nos sentir im portantes porque estam os ocupados, tam bém com eçam os a acreditar que, se não estam os ocupados, não som os im portantes.

O especialista em coaching executivo, autor e m inistro Way ne Muller ensina

que o sím bolo chinês para “ocupado” é com posto por dois caracteres:

coração e m orte. Em outras palavras, o trabalho é devastador para nossa

alm a.

A m aior parte das nossas funções m odernas são o que pesquisadores cham am de “instrum entais”. Não são divertidas, são produtivas. Coisas que “devem os” fazer, tarefas a serem riscadas de um a lista. O problem a com eça quando elim inam os das nossas vidas as coisas divertidas; quando brincar e descansar são descartados e só pensam os naquilo que “tem os que dar conta”. Esta questão fica m ais clara num estudo fam oso de Mihaly Csikszentm ihaly i, autor de A descoberta do fluxo.

Csikszentm ihaly i induziu, inadvertidam ente, casos de transtorno de ansiedade generalizada em pessoas apenas por instruí-las da seguinte form a: “Do m om ento em que você acordar até as 9 da noite, faça tudo com o de costum e, m as nada que sej a ‘diversão’ ou ‘não instrum ental’.”

Os participantes da pesquisa podiam arrum ar a cam a, lavar a louça, dirigir, ir ao trabalho, voltar para casa e fazer o j antar, supervisionar a lição de casa e a hora de dorm ir das crianças, pulando aqueles m om entos de prazer do dia que trazem fluxo ou repouso. Eles evitaram as coisas no trabalho que consideravam especialm ente gratificantes, não descansaram um pouco após o alm oço e se abstiveram da prazerosa, m as não produtiva, atividade sexual.

Seguir estas instruções por apenas 48 horas produziu sintom as graves de ansiedade nos participantes – inquietação, fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão m uscular. O consultor de gestão e autor Dan Pink escreve sobre o que aconteceu com os envolvidos naquela pesquisa: Os resultados foram quase im ediatos. Ao fim do prim eiro dia, os participantes “notaram um a falta acentuada de energia” e reclam aram de dores de cabeça. A m aioria relatou dificuldades para se concentrar. Alguns se sentiram sonolentos, enquanto outros ficaram agitados dem ais para dorm ir. Com o escreveu Csikszentm ihaly i, “com apenas dois dias de privação (...) a deterioração geral no hum or estava tão avançada que prolongar o experim ento teria sido im prudente”.

Quando tiram os de nossa vida o divertim ento e o fluxo – para conseguir dar conta de tudo –, nosso hum or se deteriora. Mas note que, na década de 1970, época em que o estudo de Csikszentm ihaly i foi conduzido, um a vida com posta apenas por tarefas “instrum entais” era um a anom alia experim ental para participantes de um a pesquisa. Hoj e, no entanto, essa é a norm a para m uitas pessoas. Diversão, repouso, relaxam ento e fluxo foram elim inados de nosso cotidiano pela busca por m ais. Mais esportes e lições de casa para nossos filhos (para que possam entrar nas m elhores escolas e depois conquistar os m elhores em pregos), e m ais trabalho (para poderm os m anter os nossos em pregos, ou ganhar m ais dinheiro para com prar m ais coisas). Muller diz que estam os envenenados pela crença hipnótica de que “coisas boas só vêm por m eio de determ inação im placável e esforço incansável”. Portanto, “nunca podem os descansar”.

Um exem plo: no dia 14 de m aio de 2013, um publicitário de 24 anos cham ado Gabriel Li m orreu de um ataque cardíaco fulm inante em seu escritório na Ogilvy & Mather, em Pequim . A causa oficial do óbito? Trabalho dem ais. Ao longo de praticam ente todo o m ês que antecedeu à sua m orte, ele fizera horas extras, saindo do escritório às 23 horas. Ele estava em sua m esa quando m orreu. Em bora a em presa negue que a m orte tenha sido decorrente de trabalho excessivo, o governo chinês contabilizou-o entre as estim adas 600 m il pessoas na China que m orrem por exaustão relacionada ao em prego a cada ano.

Casos com o o do publicitário são um problem a global. Os j aponeses cham am a m orte súbita decorrente de doença cardiovascular ou cerebrovascular de karoshi, que significa “m orte por excesso de trabalho”. Paradas cardíacas repentinas relacionadas ao trabalho em excesso ocorrem em todas as nações industrializadas. Funcionários estressados e exaustos têm m ais propensão a sofrer de doenças cardiovasculares. O principal culpado é o cortisol, horm ônio liberado quando nos estressam os, que causa o estreitam ento das artérias.

A ALTERNATIVA: PRODUZA – E CRESÇA – COMO AS OLIVEIRAS Os m eus bisavôs plantavam oliveiras, e aprendi m uito sobre estas árvores no

decorrer dos anos. Oliveiras são plantas com alternância de produção, o que significa que produzem m uitos frutos em um ano, e praticam ente só galhos no ano seguinte, criando o que é cham ado de “colheita curta”. Elas produzem m enos frutas em um ano de form a a produzir um a colheita grande no seguinte. Todos podem os aprender com as oliveiras. Além de ser um sím bolo de paz, a oliveira tam bém serve de m etáfora de com o o repouso e o rej uvenescim ento são essenciais à produtividade.

No m undo superocupado de hoj e, as pessoas não dedicam m uito tem po ao repouso e ao rej uvenescim ento. Não nos perm itim os usufruir as atividades “não instrum entais” da vida. Várias pesquisas dem onstram que a prática consistente e deliberada leva ao desem penho m áxim o (vej a m ais sobre isso no Capítulo 8). Mas trabalho focado não é o m esm o que trabalho interminável. Até m esm o os atletas olím picos devem treinar e repousar, caso contrário sofrem lesões. As árvores que são forçadas a produzir por m ais de um a estação, sem receber tem po de repouso no inverno, perdem com pletam ente sua capacidade de gerar frutos.

Em nossa cultura acelerada e orientada para a tecnologia, às vezes nós (e nossos em pregadores) esquecem os que som os todos hum anos, não m áquinas. Assim com o outros anim ais, os hum anos são governados por ritm os circadianos e ultradianos. A m aioria das pessoas está fam iliarizada com o conceito de ritm os circadianos. No período de 24 horas em que o sol nasce e se põe, dorm im os e acordam os em ciclos previsíveis. Quando viaj am os para lugares com fusos horários diferentes, nossos ciclos circadianos saem de controle e, com o consequência, nossa vida tam bém parece desordenada.

Nossos cérebros e corpos tam bém têm “ritm os ultradianos” durante o dia e a noite. Um ritm o ultradiano é um período ou ciclo que se repete no decorrer de um dia circadiano de 24 horas, com o a respiração ou os batim entos cardíacos.

Mesm o durante o sono, nossa existência não se dá de form a única e estável. Alternam os entre ciclos de sonhos e outros tipos de sono sem sonhos. O ciclo de sono tem cinco estágios diferentes, e cada um apresenta padrões próprios de ondas cerebrais. Por exem plo, o Estágio 1 do sono é caracterizado por ondas teta lentas, enquanto o Estágio 4, que é profundo e sem sonhos, apresenta ondas delta ainda m ais lentas.

Nossos padrões de ondas cerebrais tam bém apresentam ciclos enquanto estam os acordados. Em cada período de um a hora e m eia a duas horas, vivenciam os um a “queda ultradiana” significativa, nossa energia cai e o sono se torna possível. Se trabalham os durante estas quedas – contando com cafeína, adrenalina e horm ônios de estresse para nos m anter alertas em vez de perm itir repouso para o corpo e o cérebro –, ficam os ansiosos e agitados, e nosso desem penho esm orece.

Quando ignoram os os ritm os naturais do corpo, criam os um estado de j et lag crônico que, com o tem po, leva a níveis clínicos de depressão e ansiedade, doenças relacionadas ao estresse e problem as concernentes ao abuso de certas substâncias (conform e nos autom edicam os para perm anecer alertas e para “descansar”). Way ne Muller, em A Life of Being, Having and Doing Enough (Um a vida sendo, tendo e fazendo o suficiente), diz que, quando nos sentim os esgotados, apressados e receosos, som os m ais facilm ente seduzidos por certos com portam entos ou m ateriais que prom etem nos dar, se não exatam ente aquilo que sonham os, algo sim ilar. E que som os atraídos, sobretudo, pelo que puderm os obter de m ais fácil, barato e rápido, nessa vida cada vez m ais acelerada – e este tipo de conforto im ediato pode se tornar irresistível.

Infelizm ente, enquanto nosso tem po e nossa energia se voltam cada vez m ais para o trabalho, nós adiam os, ou desperdiçam os, tudo o m ais que a vida nos oferece.

ENCONTRANDO A “DOSE MÍNIMA EFICAZ”

Quando nosso dia a dia parece um a sucessão de m aratonas, é inevitável que a vida pareça difícil. Sabem os que quando os corredores term inam um a m aratona, há todo um protocolo a ser seguido, voltado para sua recuperação. Eles têm diversos tipos de apoio, inclusive m édico, para restaurar qualquer dano feito ao corpo e sabem que devem repousar por sem anas, ou m eses, entre as provas. Nós, entretanto, não tem os nenhum sistem a de apoio sim ilar para nossas “m aratonas” diárias.

Devem os aprender a honrar os ritm os naturais de nossos dias e de nossa vida. Podem os viver com o as oliveiras, que produzem azeitonas por centenas de anos, e não com o nossos iPhones, que são fabricados para durar apenas um ou dois anos. Devem os adotar um a abordagem de rotina escolar para a vida, na qual trabalham os, aprendem os, produzim os e criam os em períodos previsíveis de tem po, e depois tem os períodos igualm ente previsíveis de brincadeira, repouso e recuperação.

Há outra lição que podem os aprender com m aratonistas e oliveiras: nosso ritm o m ais produtivo é sem pre o m ais constante. Quando estam os produzindo e criando, obtem os m aior sucesso se som os constantes em nossos esforços. Os corredores de longa distância têm m ais probabilidade de vencer um a prova se correrem cada quilôm etro em um ritm o constante. Os expedicionários têm m ais chances de êxito quando cam inham a m esm a distância dia após dia, faça chuva ou faça sol. Ou sej a, eles percorrem 30 quilôm etros nos dias difíceis, quando o tem po está ruim e o percurso é em aclive, e – esse é o truque – param após com pletar 30 quilôm etros nos dias fáceis, quando o tem po está am eno e o terreno é em declive. Em vez de trabalhar até tarde da noite na fase final de um proj eto grande, nós tem os resultados m elhores quando fazem os um progresso diário constante e planej ado.

Esses insights se m anifestaram em m eu trabalho de algum as form as. Em prim eiro lugar, o tipo de trabalho que faço tem ciclos, com o os da natureza. Passo algum as épocas focada em escrever. Ao term inar um livro ou artigo, descanso e exploro novas áreas, voltando m inha atenção para tarefas m enos exigentes, e tiro várias sem anas de folga sem escrever nada. Este é m eu ciclo de criação e repouso. Quando estou em um ciclo de produção, escrevo de 650 a m il palavras por dia. Tento m anter este núm ero m esm o nos dias m ais difíceis, quando viaj o, tenho m uitas reuniões ou estou com m eus filhos em casa. E nos dias fáceis, quando posso destinar seis horas ininterruptas para escrever, paro assim que atinj o a m arca de m il palavras. Para m im , é m ais difícil parar de escrever em dias fáceis do que colocar 650 palavras no papel em um dia difícil. Detalhe: descobri que, se escrevo m ais de m il palavras por dois dias seguidos, no terceiro a escrita fica m enos prazerosa. Pode até virar um torm ento. Sinto que estou tentando tirar leite de pedra. E se term ino m inhas m il palavras e ainda tenho tem po para escrever, prefiro editar ou fazer pesquisa – duas coisas que considero fáceis e agradáveis –, e isso prepara m inha condição de sucesso para o dia seguinte. E, em últim a análise, sei que não estou dim inuindo o ritm o – sou capaz de term inar um livro em cerca de seis m eses (m inha produção da prim avera e do verão) se trabalhar nesse ritm o constante e suave.

Quando adotam os a abordagem das oliveiras, dos corredores bem -sucedidos e dos expedicionários, descobrim os que podem os viver com força e tranquilidade. Liberam os tem po e energia para recarregar as baterias, para nos conectar com os outros e para encontrar propósitos reais e profundos.

Posso dizer que hoj e em dia considero m inha vida ideal. Não porque estej a rica ou tenha um a penca de assistentes. Tenho, com frequência, um a sensação de que a vida é m uito boa. Ainda m e espanta o fato de que, apesar de não estar m ais cum prindo as longas horas de trabalho com o costum ava, estou m ais segura e independente em term os financeiros. Vej a bem : todas as m anhãs dessa sem ana m e levantei sem o despertador. Fiz ótim as sessões de m editação e, em seguida, m e exercitei em casa ou saí para correr. Depois de com er, sem pressa, o café da m anhã, aqueci m eu cérebro de escritora lendo artigos que havia selecionado de diversas fontes on-line e refleti com tranquilidade sobre o que queria escrever. Assim , após levar as crianças para a escola e m e sentar diante de um a grande página em branco, as ideias sim plesm ente j orraram . Preparei o esboço deste capítulo, por exem plo, em cerca de dez m inutos.

Às vezes, pessoas esforçadas e com petentes sentem culpa quando as coisas ficam m uito fáceis, exatam ente com o m inha vida m e parece agora. Se não está difícil, será que estou m esm o trabalhando? Se não estou trabalhando, eu valho algum a coisa? Quando digo que esbocei este capítulo em dez m inutos, você sente que isso dim inui seu valor, ou im agina que algum as das coisas que abordam os com o sendo as m ais difíceis podem , na verdade, tornar-se as m ais fáceis?

Com eçar o dia m editando, fazendo exercícios em vez de trabalhando e vendo e-m ails eram coisas quase im possíveis para m im . Eu costum ava acionar a função soneca do despertador duas ou três vezes pela m anhã. Era penoso pensar em fazer ginástica e eu raram ente m editava, em bora desej asse m uito fazer isso. E, distraída por tantos e-m ails e por tantas supostas urgências que dem andavam m inha atenção, era um a batalha priorizar o trabalho que de fato im portava para m im .

Na verdade, eu costum ava tornar as coisas m ais com plicadas do que elas eram . Hoj e de m anhã corri só nove m inutos – enquanto m eus filhos ainda estavam na cam a. Para um a ex-m aratonista, correr m enos de dois quilôm etros por dia é tão pouco am bicioso que beira o patético. Mas vej a bem : agora consigo correr, com consistência, 30 quilôm etros a m ais por m ês do que conseguia antes de reduzir de m aneira drástica m inhas expectativas. É que eu costum ava passar um longo tem po planej ando o exercício – escolhendo algum a m eia m aratona para a qual treinar ou um treino de 12 sem anas –, m as pouco tem po m e exercitando de fato. Que m ãe solteira que trabalha consegue m alhar por um a hora antes de levar os filhos para a escola? Sei que algum as pessoas o fazem , m as arriscaria dizer que elas não se sentem tão descansadas quanto eu m e sinto atualm ente.

E descobri o que os m édicos cham am de “dose m ínim a eficaz” de exercício. Hoj e estou m ais forte do que j á estive em qualquer outra época da m inha vida – e tenho feito um circuito de treinam ento ridiculam ente pouco am bicioso três dias por sem ana.

Meu corpo está diferente. Visto o m esm o tam anho que usava antes de ter filhos, quando corria m aratonas. Não sinto m ais dor nem tenho os problem as no quadril e no j oelho que m e perturbavam aos 20 e poucos anos, quando treinava cinco horas ou m ais por sem ana, m as não fazia alongam entos nem exercícios de fortalecim ento. E j á não adoeço o tem po todo, apesar de ter alcançado a idade em que as pessoas com eçam a reclam ar que o corpo não é m ais o que costum ava ser.

REAPRENDENDO A BRINCAR

Quando Lee conduziu sua m editação da m orte, m e dei conta de que estava tornando m inha existência m uito m ais difícil do que precisava ser, pois tinha perdido contato com as partes divertidas e relaxante da vida. Senti alívio por estar “m orrendo”, porque aquela parecia a perm issão definitiva para priorizar os aspectos significativos, as coisas que eu realm ente tinha vontade de fazer. Isso despertou um a questão m uito boa: o que eu gostaria de fazer nos m eus últim os seis m eses de vida?

Eu nunca havia pensado num a lista de desej os para realizar antes de m orrer. Conseguia im aginar várias coisas divertidas, e, supondo que teria um a vida longa, talvez pudesse concretizá-las algum dia. Mas e se tivesse apenas seis m eses de vida? Desej aria um retorno às coisas sim ples que m e trazem alegria, com o preparar um j antar para m inha fam ília ou fazer um a trilha com os am igos e o cachorro. Desej aria passar horas com m eus filhos – lendo para eles ou vendo-os brincar com os am igos – e ir ao cinem a com m eu m arido. Conversaria por horas a fio com colegas escritores sobre suas teorias e seus livros e leria m ais revistas de culinária. Iria passar m ais tem po com m eu irm ão e sua fam ília. Teria conversas sobre espiritualidade com m eu pai. Eu ficaria m uito tem po ao lado das m inhas am igas m ais próxim as e casais de am igos favoritos, de preferência na praia.

Em sum a, tudo que eu j á fazia, m as com m uito m enos frequência do que gostaria. São atividades cotidianas, não coisas para se fazer antes de m orrer. Não que eu não tenha vontade de m e aventurar pelo m undo; eu tenho. Mas no m om ento em que im aginei ter apenas seis m eses de vida, só queria desfrutar m ais a m inha própria existência. Queria um pouco m ais de tem po livre.

Percebi que estava sem pre partindo do pressuposto que a vida tem necessariam ente um lado difícil e estressante. Eu acreditava que a vida precisava ser dura – que era assim que o m undo funcionava. Experim entava um estado constante de luta ou fuga, criado por um a ideia nociva e im placável de que eu não fazia o suficiente. Meu organism o reagia com o se m inha vida estivesse sendo am eaçada, quando na realidade não estava. Eu vivia alarm ada e exausta, e aquilo não era necessário.

Im aginar a m orte m e chocou de um a m aneira que Lee detalharia em seu livro Aproveite cada sanduíche, ao dizer que algum as curas exigem um a intervenção radical da alm a: um a m udança em nossa m entalidade e nossa form a de ser. E isso exige um fim à correria da vida ocupada; exige a possibilidade de parar e desfrutar cada sanduíche.

Tão sim ples e tão óbvio. E, ao m esm o tem po, tão transform ador para m im . Claro, eu estivera tentando desfrutar todos os sanduíches antes. Mas, naquele m om ento, a sensação era de estar tentando ler num quarto m al ilum inado. A presença m ágica de Lee m e aj udou a aplicar na m inha vida insights que eu estivera ensinando havia anos. Para m im , a existência dele – e sua m orte – foram nada m enos do que um a “intervenção radical da alm a”.

Todos nós tem os sonhos, valores e prioridades. Am am os e som os am ados. Nosso trabalho e nossa presença são im portantes para o m undo. Fazem os arte e apreciam os a natureza: um pôr do sol espetacular ou um a canção, um a refeição excepcional ou um a am ora bem suculenta, o desenho de um a criança ou a lam bida de um cão. Estas coisas “não instrum entais” exigem de nós tem po e energia. Em troca, elas nos trazem alegria e, ironicam ente, aum entam nossa produtividade.

O ser hum ano tem necessidade de diversão. Precisa rir e tirar prazer das pequenas coisas. E com o nós possuím os um a criatividade ilim itada, estam os sem pre inventando tecnologias incríveis, ferram entas que nos poupam tem po e esforço. A questão-chave, no entanto, é: o que decidirem os fazer com todo o tem po e energia que fom os capazes de inventar para nós m esm os?

FAÇA UM INTERVALO

Faça um bom intervalo hoj e, no m eio do dia. Adiante suas tarefas m ais difíceis ou incôm odas e, depois de 60 a 90 m inutos de atenção focada, respeite os ritm os do seu corpo e faça um a pausa. Descanse.

O que você considera relaxante ou rej uvenescedor? Ler algo apenas pelo entretenim ento? Tirar um a soneca? Talvez o seu desej o sej a ficar ao ar livre (ou ir à praça em frente ao escritório) e tom ar um pouco de sol. Faça isso. A única regra é que a atividade durante o seu intervalo deve ser relaxante ou divertida; não pode ser “instrum ental”. Coisas que você precisa fazer (banho, alm oço) não contam e tam bém não vale escolher itens da sua lista de tarefas.

Divirta-se!