Os Segredos de Colin Bridgerton
Capítulo 7
Talvez, pensou ele com um suspiro, ela merecesse um pedido de desculpas.
Ele não sabia exatamente por que deveria se desculpar; não estava certo de que houvesse um motivo preciso.
Mas a situação exigia alguma coisa.
Ora, diabos. Agora teria de comparecer ao sarau dos Smythe-Smiths naquela noite. Tratava-se de um evento anual sofrido e dissonante; sempre que se acreditava que todas as meninas da família haviam crescido, alguma prima nova surgia para tomar o seu lugar, cada qual mais desafinada do que a anterior.
Mas era lá que Penelope estaria naquela noite, o que significava que era onde Colin teria de estar, também.
CAPÍTULO 7
Colin Bridgerton esteve cercado por um bom número de moças no sarau dos Smythe-Smiths na noite de quarta-feira, todas elas demonstrando uma enorme preocupação com a sua mão machucada.
Esta autora não sabe como ocorreu o ferimento – na verdade, o Sr.
Bridgerton vem se mantendo irritantemente discreto a respeito dele. E, por falar em irritação, o cavalheiro em questão pareceu bastante incomodado com tanta atenção. Na verdade, esta autora o ouviu dizer ao irmão, Anthony, que gostaria de ter deixado o (palavra irrepetível) curativo em casa.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
16 DE ABRIL DE 1824
Por que, por que, por que ela fazia aquilo consigo mesma?
Ano após ano, o convite chegava via mensageiro e ano após ano Penelope jurava que nunca, em nome de Deus, nunca mais compareceria a outro sarau dos Smythe-Smiths.
E, no entanto, ano após ano ela se via sentada na sala de música da família, tentando desesperadamente não se encolher (pelo menos não de forma perceptível) enquanto a última geração de meninas Smythe-Smiths trucidavam as composições do pobre Sr. Mozart.
Era doloroso. Horrível, pavoroso, hediondo. Na verdade, não havia outra forma de descrever a experiência.
Mais assombroso era o fato de que Penelope, de alguma forma, sempre acabava na primeira fileira, ou próxima a ela, o que era ainda mais martirizante.
E não apenas para os ouvidos. A cada poucos anos, uma das meninas Smythe-Smiths parecia se dar conta de que estava participando do que só podia ser chamado de crime contra as leis auditivas e, enquanto as outras atacavam violinos e pianos com um vigor inabalável, esse ser ímpar tocava com uma expressão de dor que Penelope conhecia muito bem.
Era a expressão que se fazia quando se desejava estar em qualquer outro lugar
que não aquele. Podia-se tentar ocultá-la, mas o desconforto sempre ficava evidente nos lábios rijos e esticados. E nos olhos, é claro.
Deus sabia que Penelope fora amaldiçoada com aquela expressão muitas vezes.
Talvez fosse por isso que jamais conseguia ficar em casa nas noites do referido sarau. Alguém tinha de sorrir de forma encorajadora e fingir estar gostando da música. Além do mais, só precisava ouvir aquilo uma vez ao ano.
Ainda assim, era impossível não pensar na fortuna que poderia ser ganha com a fabricação de discretos tampões de ouvidos.
O quarteto de meninas se preparava – uma confusão de notas dissonantes e escalas que só prometiam piorar assim que elas começassem a tocar de fato.
Penelope escolhera um lugar no meio da segunda fileira, para completa aflição da irmã, Felicity.
– Mas há dois lugares ótimos no canto, ao fundo – sibilou ela, em seu ouvido.
– Agora é tarde – devolveu Penelope, acomodando-se na cadeira levemente acolchoada.
– Que Deus me ajude – gemeu Felicity.
Penelope pegou o programa e começou a folheá-lo.
– Se não nos sentarmos aqui, outra pessoa haverá de se sentar.
– É isso que eu quero!
Penelope se aproximou da irmã de maneira que apenas ela a ouvisse.
– Podem contar conosco para sorrirmos e sermos educadas. Imagine se alguém como Cressida Twombley se sentar aqui e passar o tempo todo dando risadinhas de desdém.
Felicity olhou à sua volta.
– Cressida Twombley não seria vista aqui nem morta.
Penelope escolheu ignorar a observação.
– A última coisa da qual elas precisam é de alguém aqui na frente que goste de fazer comentários pouco lisonjeiros. As pobres meninas ficariam tão ofendidas...
– Vão ficar ofendidas de qualquer maneira – murmurou Felicity.
– Não, não vão – discordou Penelope. – Pelo menos não aquela, aquela ou aquela – falou, apontando para as duas dos violinos e a do piano. Mas aquela –
continuou, fazendo um discreto sinal em direção à jovem sentada com um violoncelo entre os joelhos – já está se sentindo péssima. O mínimo que podemos fazer é não piorar as coisas permitindo que uma pessoa maldosa e cruel se sente aqui.
– Ela só vai ser arrasada mais para o final da semana, por Lady Whistledown
– sussurrou Felicity.
Penelope abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas naquele exato instante se deu conta de que Eloise chegara e acabara de ocupar o assento do seu outro lado.
– Eloise – exclamou Penelope, obviamente encantada. – Pensei que tivesse planejado ficar em casa.
A jovem fez uma careta.
– Não sei como explicar, mas não consigo não vir. É mais ou menos como um acidente de carruagem. É impossível não olhar.
– Ou escutar – observou Felicity –, como parece ser o caso.
Penelope sorriu. Não foi capaz de evitar.
– Será que as ouvi falar de Lady Whistledown quando cheguei? – indagou Eloise.
– Eu estava comentando com Penelope – retrucou Felicity, debruçando-se por cima da irmã sem um pingo de elegância para conversar com Eloise – que as meninas vão ser destruídas por Lady Whistledown mais para o final da semana.
– Não sei – respondeu Eloise, pensativa. – Ela não costuma implicar com as Smythe-Smiths todos os anos. Não sei por quê.
– Eu sei – cacarejou uma voz vinda de trás delas.
As três se viraram em suas cadeiras, então tiveram um pequeno sobressalto quando a bengala de Lady Danbury chegou perigosamente próxima de seus rostos.
– Lady Danbury – grunhiu Penelope, incapaz de resistir ao impulso de tocar o próprio nariz, apenas para se certificar de que continuava no lugar.
– Eu já consegui entender Lady Whistledown – afirmou a velha senhora.
– É mesmo? – provocou Felicity.
– Ela tem o coração mole – continuou a outra. – Está vendo aquela – falou, apontando a bengala na direção da violoncelista, quase furando a orelha de Eloise ao fazê-lo – bem ali?
– Sim – respondeu Eloise, esfregando a orelha –, embora eu já não ache que vá conseguir escutá-la.
– Provavelmente uma bênção – comentou Lady Danbury antes de retornar ao assunto. – Pode me agradecer mais tarde.
– Estava dizendo algo sobre a violoncelista? – perguntou Penelope com bastante habilidade, antes que Eloise fizesse algum comentário inapropriado.
– É claro que estava. Olhem só para ela – prosseguiu Lady Danbury. – Está extremamente infeliz. E tem razão. É a única que tem alguma noção de quão péssimas elas são. As outras três têm a sensibilidade musical de um mosquito.
Penelope olhou para a irmã com uma expressão de completa superioridade.
– Podem escrever o que digo – continuou Lady Danbury. – Lady Whistledown não dirá uma palavra sobre este sarau. Não vai querer magoar aquela ali. O
resto...
Felicity, Penelope e Eloise se abaixaram no instante em que a bengala passou.
– Ora, ela não dá a menor importância ao resto.
– É uma teoria interessante – comentou Penelope.
Satisfeita, Lady Danbury recostou-se em sua cadeira.
– Não é mesmo?
Penelope assentiu com a cabeça.
– E acho que tem razão.
– Humpf. Quase sempre tenho.
Ainda virada na cadeira, Penelope olhou primeiro para Felicity, em seguida para Eloise, e disse:
– É o mesmo motivo pelo qual eu venho a esses saraus infernais ano após ano.
– Para ver Lady Danbury? – indagou Eloise, piscando aturdida.
– Não. Por causa de meninas como ela – revelou Penelope, apontando para a violoncelista. – Porque eu sei exatamente como ela se sente.
– Não seja tola, Penelope – retrucou Felicity. – Você nunca tocou piano em público e, mesmo se tocasse, é muito boa pianista.
Penelope virou-se para a irmã.
– Não tem a ver com a música, Felicity.
Nesse momento uma coisa muito estranha aconteceu com Lady Danbury. Sua expressão se transformou por completo. Os olhos ficaram sem brilho, tristes. Os lábios, em geral levemente rijos nos cantos, e sarcásticos, se suavizaram.
– Eu também fui aquela menina, Srta. Featherington – confidenciou, tão baixinho que tanto Eloise quanto Felicity foram forçadas a se aproximar, Eloise proferindo um “Como disse?” e Felicity com um bem menos polido “O quê?”.
Mas Lady Danbury só tinha olhos para Penelope.
– E é por isso que eu venho, ano após ano – prosseguiu a velha senhora –, assim como você.
Por um instante, Penelope sentiu uma estranha conexão com ela. O que era uma loucura, pois não tinham nada em comum além do gênero – nem idade, posição social ou qualquer outra coisa. E, no entanto, era quase como se a condessa a tivesse escolhido – com que objetivo, Penelope jamais teria como adivinhar. O certo é que parecia decidida a atiçar um fogo sob a vida ordeira e
muitas vezes entediante da jovem.
E Penelope não podia negar que estava, de alguma forma, funcionando.
Não é ótimo descobrirmos que não somos exatamente o que pensávamos ser?
As palavras ditas por Lady Danbury poucas noites antes ainda ecoavam na cabeça de Penelope. Quase como uma litania.
Quase como um desafio.
– Sabe o que eu acho, Srta. Featherington? – indagou Lady Danbury, o seu tom enganosamente suave.
– Não faço a mais vaga ideia – retrucou Penelope com bastante franqueza, e respeito.
– Acho que você poderia ser Lady Whistledown.
Felicity e Eloise arfaram.
Penelope entreabriu os lábios, surpresa. Ninguém jamais pensara em acusá-la de tal coisa antes. Era inacreditável... impensável... e...
Bastante lisonjeiro, na verdade.
Ela sentiu a boca formar um sorriso malicioso, então se inclinou para a frente como se estivesse prestes a compartilhar novidades muito importantes.
Lady Danbury chegou para a frente. Felicity e Eloise também.
– Sabe o que eu acho, Lady Danbury? – disse Penelope, numa voz sedutoramente suave.
– Bem – retrucou Lady D., com um brilho astucioso nos olhos –, eu poderia responder que estou sem fôlego de tanta ansiedade, mas você já me falou, certa vez, que achava que eu era Lady Whistledown.
– E é?
A velha senhora abriu um sorriso ardiloso.
– Talvez.
Felicity e Eloise sufocaram outro grito, ainda mais premente desta vez.
Penelope sentiu o estômago dar uma cambalhota.
– A senhora está admitindo que é? – sussurrou Eloise.
– É claro que não! – ladrou Lady Danbury, se empertigando e batendo com a bengala no chão com força suficiente para fazer com que as quatro musicistas amadoras parassem o aquecimento. – E, mesmo que fosse verdade, e eu não estou dizendo que seja, por acaso eu seria tola o suficiente para admitir?
– Então por que disse...
– Porque, sua tolinha, estou tentando explicar um argumento.
Eloise ficou silêncio até Penelope ser forçada a perguntar:
– E que argumento seria esse?
Lady Danbury lhes lançou um olhar exasperado.
– Que qualquer pessoa poderia ser Lady Whistledown – exclamou, batendo com a bengala no chão com vigor renovado. – Qualquer uma.
– Bem, exceto eu – atalhou Felicity. – Tenho certeza absoluta que não sou eu.
Lady Danbury não se dignou nem a olhar para ela.
– Deixem-me lhes dizer uma coisa – falou.
– Como se pudéssemos impedi-la – observou Penelope, com tanta doçura que pareceu um elogio.
E, na verdade, era um elogio. Ela tinha bastante admiração por Lady Danbury.
Admirava qualquer pessoa que conseguisse dizer o que pensava em público.
A velha senhora riu.
– Você é bem mais profunda do que se percebe à primeira vista, Penelope Featherington.
– É verdade – concordou Felicity, sorrindo. – Ela sabe ser bastante cruel, por exemplo. Ninguém acreditaria nisso, mas quando éramos pequenas...
Penelope lhe deu uma cotovelada nas costelas.
– Viu só? – reclamou Felicity.
– O que eu ia dizer – continuou Lady Danbury – era que todos estão agindo de maneira completamente errada com relação ao meu desafio.
– E como sugere que ajamos, então? – indagou Eloise.
A senhora acenou com a mão bem à frente do rosto de Eloise.
– Primeiro tenho de explicar o que as pessoas estão fazendo de errado –
começou. – Ficam olhando para os suspeitos óbvios. Gente como a sua mãe –
declarou, virando-se para Penelope e Felicity.
– Nossa mãe? – ecoaram ambas.
– Ora, por favor – zombou Lady Danbury. – Esta cidade jamais conheceu pessoa tão intrometida. É exatamente o tipo de pessoa de quem todo mundo desconfia.
Penelope não tinha a menor ideia do que responder. A mãe era, de fato, uma notória fofoqueira, embora fosse difícil imaginá-la como Lady Whistledown.
– É por isso – continuou Lady Danbury, com um olhar muito astuto – que não pode ser ela.
– Bem, isso – retrucou Penelope, com um toque de sarcasmo – e o fato de que Felicity e eu podemos afirmar, com certeza, que não é ela.
– Ora, se sua mãe fosse Lady Whistledown, teria encontrado uma forma de impedir que vocês soubessem.
– Minha mãe? – disse Felicity, com sérias dúvidas. – Não creio.
– O que eu estava tentando argumentar – insistiu Lady Danbury, ficando impaciente –, antes de todas essas interrupções infernais...
Penelope achou ter ouvido Eloise resfolegar.
– ... era que se, Lady Whistledown fosse alguém óbvio , já teria sido descoberta, não acham?
Todas ficaram em silêncio, até se tornar claro que a velha senhora aguardava uma resposta, então as três assentiram com um ar pensativo e o vigor esperado.
– Deve ser uma pessoa de quem ninguém suspeitaria – sugeriu Lady Danbury.
– Só pode ser.
Penelope assentiu. A teoria de Lady Danbury estranhamente fazia sentido.
– É por isso – prosseguiu a velha senhora, triunfante – que eu não sou uma candidata provável!
Penelope piscou repetidamente, aturdida, sem entender muito bem a lógica.
– Como disse?
– Ora, por favor. – Lady Danbury olhou para Penelope com o mais absoluto desdém. – Acha mesmo que foi a primeira pessoa a suspeitar de mim?
Penelope se limitou a balançar a cabeça.
– Eu continuo achando que é a senhora.
Isso lhe rendeu uma dose de respeito. Lady Danbury assentiu em sinal de aprovação enquanto dizia:
– Você é mais insolente do que parece.
Felicity se inclinou para a frente e falou, numa voz conspiratória:
– Isso é verdade.
Penelope deu um tapa na mão da irmã.
– Felicity!
– Acho que o sarau vai começar – avisou Eloise.
– Que Deus nos ajude – retrucou Lady Danbury. – Não sei por que... Sr.
Bridgerton!
Penelope tinha se virado de frente para o pequeno palco, mas tornou a se voltar para trás a tempo de ver Colin percorrer a fileira e se sentar ao lado de Lady Danbury, pedindo desculpas ao esbarrar nos joelhos das pessoas pelas quais ia passando.
Os pedidos de desculpa eram acompanhados, é claro, por um de seus sorrisos fatais, e nada menos do que três senhoras simplesmente ficaram completamente derretidas em suas cadeiras.
Penelope arqueou as sobrancelhas. Era lamentável.
– Penelope – sussurrou Felicity –, por acaso você acabou de rosnar?
– Colin – disse Eloise –, eu não sabia que vinha.
Ele deu de ombros, o rosto iluminado por um sorriso de lado.
– Mudei de ideia no último instante. Afinal, sempre fui um grande amante de música.
– Isso explica a sua presença aqui – comentou Eloise num tom bastante irônico.
Em resposta, Colin se limitou a arquear a sobrancelha. Em seguida se virou para Penelope e disse:
– Boa noite, Srta. Featherington. – Depois acenou com a cabeça para Felicity e cumprimentou: – Srta. Featherington.
Penelope levou um instante para encontrar a voz. Os dois haviam se despedido de forma bastante estranha naquela tarde, e agora, ali estava ele com um sorriso simpático.
– Boa noite, Sr. Bridgerton – conseguiu dizer, por fim.
– Alguém sabe qual é o programa desta noite? – indagou ele, mostrando-se muito interessado.
Penelope foi obrigada a admirar aquilo. Colin tinha a capacidade de olhar para uma pessoa como se nada no mundo pudesse ser mais importante do que aquilo que ela fosse dizer. Era um talento e tanto. Sobretudo naquele momento, em que todos sabiam que ele não dava a menor importância para o que as meninas Smythe-Smiths teriam escolhido tocar.
– Acredito que seja Mozart – opinou Felicity. – Elas quase sempre tocam Mozart.
– Encantador – retrucou Colin, recostando-se na cadeira, como se tivesse acabado de comer uma excelente refeição. – Sou um grande fã do Sr. Mozart.
– Nesse caso – falou Lady Danbury, acotovelando-o nas costelas –, talvez queira fugir daqui enquanto a possibilidade ainda existe.
– Não seja tola – disse ele. – Estou certo de que as meninas darão o melhor de si.
– Ah, não há dúvida de que as meninas darão o melhor de si – atalhou Eloise, em um tom de mau agouro.
– Shhh – fez Penelope. – Acho que vão começar.
Ela não estava particularmente ansiosa para ouvir a versão Smythe-Smith de Eine Kleine Nachtmusik, admitiu para si mesma . Mas se sentiu muito pouco à vontade com Colin. Não sabia ao certo o que dizer a ele, e o que quer que devesse dizer não devia ser dito na frente de Eloise, Felicity e, sobretudo, Lady Danbury.
Um mordomo surgiu e apagou algumas velas de forma a sinalizar que as meninas estavam prontas para começar. Penelope se preparou e engoliu em seco para tentar entupir os canais auditivos (não funcionou), então a tortura começou.
E continuou... e continuou... e continuou.
Penelope não sabia o que era pior: a música ou a consciência de que Colin estava sentado bem atrás dela. Sentiu um arrepio na nuca ao pensar nisso e começou a se remexer como uma louca, os dedos tamborilando, implacáveis, sobre o veludo azul-escuro do vestido.
Quando o quarteto Smythe-Smith finalmente terminou de tocar, três das meninas se mostraram radiantes com o aplauso educado e a quarta – a violoncelista – parecia querer se esconder.
Penelope deixou escapar um suspiro. Pelo menos ela, em todas as suas temporadas fracassadas, jamais havia sido forçada a exibir as suas deficiências diante de toda a alta sociedade como aquelas meninas. Sempre lhe havia sido permitido se ocultar nas sombras, ficando em silêncio nos limites do salão, observando as outras moças se alternarem na pista de dança. Sim, a mãe a carregava para lá e para cá, tentando colocá-la no caminho desse ou daquele cavalheiro disponível, mas isso não era nada – nada – comparado ao que as meninas Smythe-Smith eram forçadas a enfrentar.
Embora, para ser sincera, três das quatro parecessem ignorar alegremente sua inépcia musical. Penelope limitou-se a sorrir e a bater palmas. Sem dúvida ela não ia acabar com a festa das moças.
E, se a teoria de Lady Danbury estivesse correta, Lady Whistledown não haveria de escrever uma única palavra sobre o sarau.
Os aplausos logo diminuíram e em poucos instantes todos circulavam pelo salão, puxando conversa uns com os outros, de olho na mesa de petiscos escassos no fundo do aposento.
– Limonada – murmurou Penelope para si mesma.
Perfeito. Estava sentindo muito calor – ora, no que estava pensando ao usar veludo numa noite tão quente? –, e uma bebida gelada era exatamente o que precisava. Além disso, Colin estava entretido numa conversa com Lady Danbury, fazendo daquele o momento ideal para ela fugir dali.
Mas, assim que pegou um copo com a bebida, ouviu a voz dolorosamente familiar dele às suas costas, murmurando o seu nome.
Ela se virou e, antes de ter a menor ideia do que fazia, disse:
– Eu sinto muito.
– Sente?
– Sinto – garantiu ela. – Pelo menos, acho que sim.
Ele estreitou os olhos, e pequenas rugas se formaram nos cantos.
– Esta conversa só faz ficar mais intrigante a cada segundo.
– Colin...
Ele lhe estendeu o braço.
– Não quer dar uma volta comigo pelo salão?
– Eu não acho...
Colin aproximou o braço ainda mais dela – só 2 ou 3 centímetros, mas a mensagem era clara.
– Por favor – insistiu.
Ela fez que sim e pousou o copo na mesa.
– Está bem.
Caminharam em silêncio por quase um minuto, então Colin disse:
– Eu gostaria de me desculpar com você.
– Fui eu que saí da sala de forma tempestuosa – observou Penelope.
Colin inclinou a cabeça de leve e ela percebeu o sorriso indulgente que brincava nos lábios dele.
– Eu não diria que foi “tempestuosa” – retrucou ele.
Penelope franziu a testa. Não deveria ter ido embora mostrando-se tão ofendida, mas agora que o fizera, sentia-se estranhamente orgulhosa. Não era todos os dias que uma mulher como ela tinha a oportunidade de fazer uma saída tão dramática.
– Bem, eu não deveria ter sido tão grosseira – murmurou ela, sem muita sinceridade dessa vez.
Ele arqueou uma das sobrancelhas, obviamente decidido a continuar o que tinha a dizer.
– Eu gostaria de me desculpar por ser um fedelho mimado e chorão.
Penelope chegou a tropeçar nos próprios pés.
Ele a ajudou a recuperar o equilíbrio, então continuou:
– Sei que há muitas coisas na minha vida pelas quais eu deveria ser grato.
Pelas quais eu sou grato – corrigiu-se, um pouco acanhado. – Fui imperdoavelmente grosseiro ao me queixar com você.
– Não – insistiu ela –, passei a noite toda pensando no que disse, e embora eu... – Ela engoliu em seco, então passou a língua pelos lábios.
Passara o dia todo procurando as palavras adequadas e acreditava que as tivesse encontrado, mas agora que ele estava ali ao seu lado, não conseguia pensar em nada.
– Está precisando de mais um copo de limonada? – perguntou Colin, educadamente.
Ela fez que não.
– Você tem todo o direito de sentir o que quiser – disse de forma atabalhoada.
– Pode não ser o que eu sentiria se estivesse no seu lugar, mas todos os seus sentimentos são legítimos. No entanto...
Ela se deteve e Colin se viu desesperado para saber o que ela estava prestes a falar.
– No entanto o quê, Penelope? – encorajou-a.
– Não é nada.
– Para mim, é.
A mão dele estava sobre o braço dela, então ele o apertou de leve para que ela soubesse que ele falava sério.
Por um longo momento, Colin não achou que Penelope fosse de fato responder, então, quando pensou que o rosto fosse rachar com o sorriso fingido que abriu – estavam em público, afinal, e não seria de bom tom gerar comentários e especulações demonstrando ansiedade e agitação –, ela suspirou.
Foi um som encantador, estranhamente reconfortante, suave e sábio. E fez com que ele desejasse olhá-la com mais atenção, olhar dentro de sua mente, escutar os ritmos de sua alma.
– Colin – começou ela –, se você se sente frustrado com a sua situação atual, deveria fazer algo para mudá-la. Na verdade, é simples assim.
– É o que faço – disse ele, encolhendo o ombro mais distante dela com indiferença. – Minha mãe me acusa de fazer minhas malas e deixar o país apenas por capricho, mas a verdade é que...
– Você faz isso quando se sente frustrado – completou ela.
Ele fez que sim. Ela o compreendia. Colin não sabia ao certo como aquilo acontecera, ou mesmo se fazia algum sentido, mas Penelope Featherington o compreendia.
– Eu acho que você deveria publicar os seus diários – opinou ela.
– Eu não posso.
– Por quê?
Ele parou e soltou o braço dela. Na verdade, não tinha resposta além do estranho ribombar de seu coração.
– Quem iria querer ler? – perguntou, por fim.
– Eu iria – respondeu ela, com sinceridade. – Eloise, Felicity... Sua mãe, Lady Whistledown, sem dúvida – acrescentou, com um sorriso travesso. – Ela escreve
um bocado a seu respeito.
O bom humor dela era contagiante, e Colin não conseguiu conter um sorriso.
– Penelope, se as únicas pessoas que comprarem o livro forem as que eu conheço, não conta.
– Por que não? Você conhece muitas pessoas. Ora, se considerar só os Bridgertons...
Ele agarrou a mão dela. Não soube por quê, mas agarrou.
– Penelope, pare.
Ela riu.
– Acho que Eloise comentou que vocês também têm montes e montes de primos e...
– Já chega – advertiu ele, embora estivesse sorrindo ao dizê-lo.
Penelope olhou para a mão dele segurando a sua e falou:
– Muita gente vai querer ler sobre suas viagens. Talvez, no início, seja apenas por você ser uma figura conhecida em Londres, mas não vai demorar até todos se darem conta de que é um ótimo escritor. Então, vão clamar por mais.
– Não quero ser um sucesso por causa do nome Bridgerton – retrucou ele.
Ela soltou a mão da dele e a pousou no quadril.
– Você ouviu tudo o que eu disse? Eu acabei de falar...
– Do que vocês dois estão falando?
Era Eloise, com uma expressão muito, muito curiosa.
– De nada – murmuraram os dois, ao mesmo tempo.
Eloise resfolegou.
– Não me insultem. Não pode não ser de nada. Penelope está com um ar de quem vai começar a cuspir fogo a qualquer instante.
– Seu irmão está apenas sendo obtuso – disse Penelope.
– Ora, não há nada de novo nisso – brincou Eloise.
– Espere aí! – exclamou Colin.
– Mas a respeito de quê ele estava sendo obtuso – insistiu Eloise, ignorando-o por completo.
– Trata-se de um assunto particular – respondeu Colin, de má vontade.
– O que o torna ainda mais interessante – retrucou Eloise.
Ela olhou para a amiga, em expectativa.
– Eu sinto muito – disse Penelope –, realmente não posso contar.
– Não acredito que você não vai me contar! – exclamou Eloise.
– Não – respondeu Penelope, sentindo-se estranhamente satisfeita consigo mesma. – Não vou.
– Não acredito – repetiu Eloise, virando-se para o irmão. – Não acredito.
Colin deu o mais discreto dos sorrisos.
– Acredite.
– Você, guardando segredos de mim.
Ele ergueu as sobrancelhas.
– Por acaso achou que eu lhe contava tudo?
– É claro que não. – Ela fez uma careta. – Mas achei que Penelope contasse.
– Só que este segredo não é meu para que eu lhe conte – defendeu-se Penelope. – É de Colin.
– Acho que o planeta acaba de começar a girar para o outro lado – resmungou Eloise. – Ou talvez a Inglaterra tenha se chocado com a França. Só sei que este não é o mesmo mundo que eu habitava hoje de manhã.
Penelope não conseguiu se conter. Soltou uma risadinha, divertida. – E você está rindo de mim! – acrescentou Eloise.