Os Segredos de Colin Bridgerton
Capítulo 3
Parecia que o salão de baile inteiro mergulhara num silêncio reverente.
– Para a pessoa que desmascarar Lady Whistledown!
CAPÍTULO 3
Esta autora estaria sendo negligente se não mencionasse que o momento mais comentado da festa de aniversário de ontem à noite, na Casa Bridgerton, não foi o estimulante brinde a Lady Bridgerton (cuja idade não haverá de ser revelada), mas a impertinente oferta de Lady Danbury de mil libras para quem desmascarar...
A mim.
Façam o seu melhor, senhoras e senhores da alta sociedade. Vocês não têm a menor chance de solucionar este mistério.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
12 DE ABRIL DE 1824
Foram necessários exatamente três minutos para que a notícia do escandaloso desafio de Lady Danbury se espalhasse pelo salão de baile. Penelope sabia que era verdade porque, por acaso, estava de frente para um imenso (e, segundo Kate Bridgerton, bastante preciso) relógio de pé quando a senhora fez o anúncio. No momento em que ela pronunciou as palavras “Mil libras para a pessoa que desmascarar Lady Whistledown”, ele marcava 22h44. O ponteiro dos minutos não avançara além de 47 quando Nigel Berbrooke tropeçou de encontro a um círculo cada vez maior de pessoas que cercava Lady Danbury e elogiou a proposta dela: “Um suculento divertimento!”
E se Nigel tinha ouvido a respeito, significava que todo mundo tinha, porque o cunhado de Penelope não era conhecido pela inteligência, concentração ou capacidade de ouvir outra pessoa.
Tampouco, pensou Penelope, com sarcasmo, pela riqueza de vocabulário.
“Suculento”, francamente.
– E quem você acha que vem a ser Lady Whistledown? – perguntou Lady Danbury a ele.
– Não tenho a menor ideia – admitiu o homem. – Eu é que não sou, é só o que sei!
– Isso eu acho que todos nós sabemos – replicou Lady Danbury.
– E quem você acha que é? – indagou Penelope a Colin.
Ele deu de ombros.
– Tenho passado tempo demais fora de Londres para especular.
– Não seja tolo – reclamou Penelope. – O total do tempo que você passou na cidade sem dúvida inclui festas e confusões o bastante para formular algumas teorias.
Mas ele se limitou a balançar a cabeça.
– Eu realmente não saberia dizer.
Penelope o encarou por um instante a mais do que o necessário ou do que seria aceitável aos olhos da sociedade. Havia algo de estranho na expressão de Colin. Algo de efêmero e evasivo. A alta sociedade com frequência o via apenas como um homem encantador e sem grandes preocupações, nada mais, porém ele era muito mais inteligente do que deixava transparecer e ela apostaria a vida se ele não tinha as suas suspeitas.
Por algum motivo, no entanto, não estava disposto a compartilhá-las com ela.
– E quem você acha que é? – quis saber Colin, esquivando-se da pergunta dela. – Você frequenta os eventos da sociedade há quase tanto tempo quanto Lady Whistledown. Sem dúvida deve ter pensado a respeito.
Penelope relanceou o salão de baile à sua volta, detendo-se por um instante a mais em uma ou outra pessoa antes de retornar o olhar à pequena multidão que se formara a seu redor.
– Eu acho que poderia muito bem ser Lady Danbury – respondeu. – Não seria uma peça brilhante a se pregar em todos?
Colin fitou a velha senhora, que se divertia bastante discutindo o seu mais recente projeto. Batia a bengala no chão, tagarelava cheia de entusiasmo e sorria como uma gata feliz com um peixe inteirinho na boca.
– Faz sentido – disse ele, pensativo –, de uma forma um tanto perversa.
Penelope sentiu os cantos da boca se retorcerem.
– Perversa é exatamente o que ela é.
Colin observar Lady Danbury durante mais alguns segundos e depois falou baixinho:
– Só que você não acredita que seja ela.
Ele virou a cabeça devagar para encará-la, erguendo uma das sobrancelhas numa pergunta silenciosa.
– Dá para perceber pela sua expressão – explicou Penelope.
Ele ofereceu-lhe aquele sorriso aberto e fácil que dava com tanta frequência.
– E eu, aqui, pensando ser inescrutável.
– Sinto muito em lhe informar que não é – retrucou ela. – Pelo menos, não para mim.
Colin deixou escapar um suspiro.
– Acho que jamais será meu destino ser um herói misterioso e meditativo.
– Talvez você ainda se veja no papel de herói de alguém – concedeu Penelope.
– Ainda há esperança. Mas misterioso e meditativo? – Ela sorriu. – Pouco provável.
– Que pena para mim – comentou ele, com vivacidade, dando mais um de seus famosos sorrisos, desta vez do tipo enviesado e infantil. – São os misteriosos e meditativos que ganham todas as mulheres.
Penelope tossiu discretamente, um pouco surpresa por ele estar discutindo aquele assunto com ela, sem falar do fato de Colin Bridgerton jamais ter tido qualquer dificuldade em atrair as mulheres.
Ele continuava sorrindo para ela, esperando uma resposta, e ela tentava decidir se a reação correta seria o polido ultraje de uma dama ou uma gargalhada e uma risadinha que significassem eu sou muito espirituosa, não é mesmo? , quando Eloise apareceu correndo e parou na frente deles.
– Vocês souberam da novidade? – perguntou ela, sem fôlego.
– Você estava correndo? – retrucou Penelope.
Era um feito e tanto num salão de baile tão abarrotado.
– Lady Danbury ofereceu mil libras para quem desmascarar Lady Whistledown!
– Nós sabemos – disse Colin, naquele tom de ligeira superioridade exclusivo dos irmãos mais velhos.
Eloise suspirou, desapontada.
– Sabem?
Colin gesticulou em direção a Lady Danbury, ainda a poucos metros de distância.
– Estávamos bem aqui quando tudo aconteceu.
Eloise fez uma expressão irritada e Penelope soube exatamente o que ela estava pensando (e que com certeza contaria a ela na tarde seguinte). Uma coisa era perder um momento importante. Outra era descobrir que o irmão havia assistido a tudo.
– Bem, as pessoas já estão comentando – prosseguiu Eloise. – Estão arrebatadas, na verdade. Há anos não vejo tamanha excitação coletiva.
Colin se virou para Penelope e murmurou:
– É por isso que saio do país com tanta frequência.
Penelope tentou não sorrir.
– Eu sei que você está falando de mim e não me importo – continuou Eloise, mal parando para respirar. – Mas me escutem: a sociedade enlouqueceu. Todos, todos mesmo, estão especulando sobre a identidade dela, embora os mais espertos fiquem quietos. Não querem que os outros ganhem à custa de seus palpites, é claro.
– Acho que não estou tão necessitado de mil libras para me importar tanto assim com isso – anunciou Colin.
– É muito dinheiro – comentou Penelope, pensativa.
Ele se virou para ela, incrédulo.
– Não me diga que vai participar desse jogo ridículo.
Ela inclinou a cabeça para o lado e ergueu o queixo num gesto que esperava ser enigmático – ou, se não enigmático, ao menos um pouquinho misterioso.
– Não tenho tanto dinheiro que possa ignorar a oferta de mil libras – observou.
– Talvez, se nos unirmos... – sugeriu Eloise.
– Salve-me, meu bom Deus – retrucou Colin.
Eloise o ignorou e se dirigiu à amiga:
– ... poderíamos dividir o dinheiro.
Penelope ia abrindo a boca para responder quando a bengala de Lady Danbury surgiu de súbito em seu campo de visão, agitando-se alucinadamente no ar.
Colin teve que dar um passo rápido para o lado a fim de não ter a orelha decepada.
– Srta. Featherington! – ribombou a velha senhora. – Ainda não me disse de quem suspeita.
– Não, Penelope – provocou Colin, com um sorriso bastante afetado –, não disse mesmo.
O primeiro instinto dela foi resmungar algo inaudível e esperar que a idade de Lady Danbury a tivesse deixado surda o bastante para supor que qualquer falta de compreensão fosse culpa dos próprios ouvidos, não de Penelope. Mas mesmo sem olhar para o lado podia sentir a presença de Colin, com seu sorriso sagaz e atrevido a atiçá-la, e se empertigou mais um pouco, levantando o queixo mais do que de costume.
Ele a tornava mais confiante, mais audaciosa, mais... ela mesma. Ou, pelo menos, a versão dela mesma que desejava poder ser.
– Na verdade – disse Penelope, fitando Lady Danbury quase nos olhos –, eu acho que é a senhora.
Um arquejo coletivo ecoou à sua volta.
Pela primeira vez na vida, Penelope Featherington se viu bem no centro das atenções.
Lady Danbury a encarou com os olhos azul-claros astutos e avaliadores.
Então, a coisa mais impressionante aconteceu: os lábios dela começaram a tremer nos cantos. Em seguida, foram se abrindo até Penelope se dar conta de que o sorriso não parava de crescer.
– Eu gosto de você, Penelope Featherington – afirmou a senhora, batendo com a bengala bem na ponta do pé dela. – Aposto que metade das pessoas neste salão pensa a mesma coisa, embora ninguém tenha a coragem necessária para me dizer.
– Na verdade, eu também não tenho – admitiu Penelope, grunhindo de leve enquanto Colin lhe dava uma cotovelada nas costelas.
– É claro que tem – afirmou Lady Danbury com um brilho estranho no olhar.
Penelope não soube o que responder. Olhou para Colin, que lhe sorria de forma encorajadora, depois olhou outra vez para Lady Danbury, que lhe pareceu quase... maternal.
O que era a coisa mais estranha de todas. Penelope duvidava muito que Lady Danbury já tivesse olhado para os próprios filhos com expressão maternal.
– Não é ótimo descobrirmos que não somos exatamente o que pensávamos ser? – disse a velha senhora, aproximando-se de Penelope de maneira que só ela pudesse ouvir as suas palavras.
Então ela se afastou, deixando a jovem a se perguntar se talvez ela não fosse exatamente o que pensava ser.
Talvez – só talvez – fosse um pouquinho mais.
O dia seguinte era uma segunda-feira, o que significava que Penelope deveria tomar chá com as mulheres da família Bridgerton no Número Cinco. Não sabia ao certo quando dera início a esse hábito, mas o seguia havia quase uma década e, se não aparecesse naquela tarde, imaginava que Lady Bridgerton mandaria alguém buscá-la.
Penelope gostava muito do costume das Bridgertons de tomar chá com biscoitos naquele horário. Não se tratava de um hábito comum. Na verdade, Penelope não conhecia ninguém que fizesse isso todos os dias. Mas Lady Bridgerton dizia que não conseguia se sustentar só com o almoço, sobretudo quando se seguiam os horários da cidade, segundo os quais o jantar era servido
bem tarde. Assim, todas as tardes, às quatro, ela, os filhos que estivessem presentes e, com frequência, um ou dois amigos se juntavam na sala de visitas do segundo andar para um lanche.
Chovia de leve, embora o dia estivesse um pouco quente, então Penelope levou o guarda-chuva preto para a curta caminhada até o Número Cinco. Era um caminho que já fizera centenas de vezes: passava por algumas casas até a esquina da Mount com a Rua Davies, depois pela Praça Berkeley e continuava até a Rua Bruton. Mas naquele dia estava despreocupada, com um humor talvez até um pouco infantil, e decidiu atravessar a parte norte do gramado da Praça Berkeley apenas por gostar do barulho que as botas faziam na grama molhada.
A culpa era de Lady Danbury. Só podia ser. Ela andava com o humor instável desde a conversa da noite anterior.
– Não sou o que eu pensava ser – cantarolava para si mesma, acrescentando uma nova palavra cada vez que as solas dos sapatos afundavam na terra. – Algo mais. Algo mais.
Chegou a um trecho especialmente encharcado e passou a andar sobre a grama como se estivesse patinando, cantando (baixinho, é claro – não havia mudado tanto assim desde a noite anterior a ponto de querer que alguém a ouvisse cantar em público) enquanto deslizava para a frente:
– Algo maaaaais.
E foi, é claro (já que ela possuía, pelo menos em sua opinião, o pior timing da história da civilização), bem nesse momento que ouviu uma voz masculina chamar o seu nome.
Parou de repente e deu graças a Deus por conseguir recuperar o equilíbrio no último instante antes que desabasse com o traseiro no gramado encharcado.
É claro que só podia ser ele.
– Colin! – exclamou, meio envergonhada, permanecendo parada enquanto ele se aproximava. – Que surpresa.
Ele parecia prender o riso.
– Estava dançando?
– Dançando? – ecoou ela.
– Você parecia estar dançando.
– Ah. Não. – Ela engoliu em seco, culpada, porque, embora não estivesse mentindo, tecnicamente, tinha a sensação de estar. – É claro que não.
Colin estreitou um pouco os olhos.
– Que pena. Eu me sentiria forçado a acompanhá-la. Nunca dancei na Praça Berkeley.
Se ele tivesse lhe dito a mesma coisa alguns dias antes, Penelope teria rido e deixado que ele fosse o espirituoso, o encantador dos dois. Mas ela deve ter ouvido a voz de Lady Danbury outra vez em algum lugar da memória, porque, de repente, decidiu que não queria ser a mesma Penelope Featherington de sempre.
Decidiu participar da brincadeira.
Abriu um sorriso de que nem se achava capaz, um do tipo travesso e misterioso, e ela sabia que não estava imaginando coisas porque Colin arregalou bastante os olhos quando ela murmurou:
– Que pena. É muito divertido.
– Penelope Featherington – disse ele, arrastando cada sílaba. – Pensei que tinha dito que não estava dançando.
Ela deu de ombros.
– Eu menti.
– Nesse caso, quero ter o prazer de conduzi-la.
De repente, Penelope se sentiu ridícula. Era por isso que não devia permitir que os sussurros de Lady Danbury lhe subissem à cabeça. Até conseguia ser audaz e sedutora por um curto período, mas não tinha a menor ideia de como sustentar essa imagem.
Ao contrário de Colin, obviamente, que tinha um sorriso diabólico nos lábios e os braços estendidos numa perfeita pose de valsa.
– Colin – arfou ela –, estamos na Praça Berkeley!
– Eu sei. Acabei de lhe dizer que eu nunca dancei aqui, se esqueceu?
– Mas...
Colin cruzou os braços.
– Tsc, tsc. Não pode lançar um desafio como este para depois se esquivar.
Além do mais, dançar aqui me parece o tipo de coisa que uma pessoa deva fazer pelo menos uma vez na vida, não acha?
– Alguém poderia ver – sussurrou ela, com desespero.
Ele deu de ombros, tentando esconder que estava se divertindo com a reação dela.
– Eu não me importo. E você?
As faces dela ficaram rosadas e, ao que pareceu, ela precisou de um grande esforço para pronunciar as palavras:
– As pessoas vão achar que você está me cortejando.
Ele a observou com atenção, sem compreender por que ela estava tão perturbada. Quem se importava com o fato de as pessoas acharem que ele a
estava cortejando? O boato logo se provaria falso e eles dariam boas risadas à custa da sociedade. Estava prestes a dizer “Que se dane a sociedade”, mas ficou em silêncio. Havia algo pairando nas profundezas daqueles olhos castanhos, uma emoção que ele não podia nem mesmo começar a identificar.
Uma emoção que ele suspeitava jamais ter experimentado.
Então, Colin se deu conta de que a última coisa que queria fazer era magoar Penelope. Ela era a melhor amiga de sua irmã e, além do mais, era, pura e simplesmente, uma menina muito amável.
Ele fez uma careta. Supunha que não devia mais chamá-la de menina. Aos 28
anos, ela já tinha passado dessa fase, assim como ele, aos 33.
Por fim, de forma bastante cuidadosa e com uma boa dose de sensibilidade, Colin perguntou:
– Há algum motivo pelo qual devamos nos preocupar se as pessoas acharem que eu a estou cortejando?
Penelope fechou os olhos e, por um instante, Colin achou que ela talvez estivesse sofrendo. Quando os abriu, seu olhar era quase agridoce.
– Na verdade, seria muito engraçado – falou. – A princípio.
Ele ficou em silêncio, esperando que ela continuasse.
– Por fim, se tornaria óbvio que não é verdade e ficaria... – Ela parou, engoliu em seco, e Colin se deu conta de que ela não estava tão tranquila quanto queria transparecer – ... ficaria subentendido que foi você que terminou tudo, porque...
bem, simplesmente ficaria.
Ele não discutiu. Sabia que suas palavras eram verdadeiras.
Penelope deu um suspiro triste.
– Eu não quero me sujeitar a isso. Até mesmo Lady Whistledown escreveria a respeito. E como haveria de não escrever? Seria um boato delicioso demais para que ela resistisse.
– Peço desculpas, Penelope – disse Colin.
Não sabia ao certo por que se desculpava, mas, ainda assim, lhe pareceu a coisa certa a fazer.
Ela deu um aceno breve com a cabeça, assentindo.
– Eu sei que não deveria me importar com o que os outros pensam, mas me importo.
Ele se afastou um pouco dela enquanto pesava suas palavras. Ou talvez estivesse pesando o seu tom de voz. Ou, quem sabe, ambos.
Colin sempre pensara que estivesse acima da sociedade. Não fora dela, visto que frequentava as festas e costumava se divertir bastante nelas. Mas sempre
partira do princípio de que a sua felicidade não dependia da opinião dos outros.
No entanto, talvez não estivesse pensando no assunto da forma correta. É fácil achar que não nos importamos com a opinião dos outros quando elas nos são sempre favoráveis. Será que ele ignoraria com tanta facilidade o que os membros da sociedade achavam se eles o tratassem da maneira como tratavam Penelope?
Ela nunca fora vítima de ostracismo, jamais fora sujeitada a algum escândalo.
Apenas não era... popular.
Sim, as pessoas a tratavam com educação e os Bridgertons a haviam acolhido, mas a maior parte das recordações que Colin tinha de Penelope eram de sua figura nas margens dos salões de baile, tentando não olhar para os casais que dançavam, claramente fingindo que não desejava estar em seu lugar. Em geral era nesse momento que ele mesmo se aproximava e a convidava. Ela sempre lhe parecia grata pelo pedido, mas também um pouco envergonhada, porque os dois sabiam que ele o fazia, pelo menos em parte, por sentir um pouco de pena.
Colin tentou se colocar no lugar dela. Não era fácil. Ele sempre havia sido popular. Na escola, os amigos o viam como um modelo a ser seguido e as mulheres se aglomeraram à sua volta quando ele ingressara na sociedade. E, por mais que ele dissesse que não se importava com o que os outros pensavam, no final das contas...
Gostava muito de ser admirado.
De repente, não sabia o que dizer, o que era estranho, porque ele sempre sabia o que dizer. Na verdade, era até um pouco famoso por isso. Talvez essa fosse uma das razões pelas quais gostavam tanto dele, refletiu.
Teve a sensação de que os sentimentos de Penelope dependiam de suas próximas palavras e, em algum momento dos últimos dez minutos, os sentimentos dela haviam adquirido grande importância para ele.
– Você tem razão – respondeu, por fim, decidindo que era sempre uma boa ideia dizer a uma pessoa que ela estava certa. – Foi muito insensível da minha parte. Que tal começarmos de novo?
Ela piscou, aturdida.
– Como?
Ele fez um gesto largo, como se isso pudesse explicar tudo.
– Começar do zero.
Ela lhe pareceu adorável e confusa, o que o confundiu, porque jamais achara Penelope adorável.
– Mas nos conhecemos há doze anos – observou ela.
– Faz mesmo tanto tempo? – Ele vasculhou a memória, mas não conseguia recordar a primeira vez que os dois se encontraram. – Isso não importa. Eu quis dizer apenas por esta tarde, sua boba.
Ela conseguiu sorrir, apesar do que sentia, e ele soube que chamá-la de boba fora a coisa certa a fazer, embora não tivesse a menor ideia do porquê.
– Então, lá vamos nós – começou ele, alongando as palavras enquanto fazia um imenso floreio dos braços. – Você está passando pela Praça Berkeley e me vê ao longe. Eu a chamo e você responde dizendo...
Penelope mordeu o lábio inferior, tentando, por algum motivo desconhecido, conter o sorriso. Sob que estrela mágica nascera Colin, para sempre saber o que dizer? Ele parecia o flautista mágico, deixando corações felizes e rostos sorridentes por onde passava. Penelope poderia apostar bem mais do que as mil libras que Lady Danbury oferecera que não era a única mulher em Londres perdidamente apaixonada pelo terceiro dos irmãos Bridgertons.
Ele inclinou a cabeça para um lado e, em seguida, ergueu-a num gesto de encorajamento.
– Eu respondo dizendo... – repetiu Penelope, devagar. – Respondo dizendo...
Colin aguardou dois segundos, então falou:
– Sério, quaisquer palavras servem.
Penelope planejara cravar um sorriso luminoso nos lábios, mas descobriu que já estava sorrindo, e que o gesto era verdadeiro.
– Colin! – exclamou, fingindo estar surpresa com a sua chegada. – O que está fazendo aqui?
– Excelente resposta – elogiou ele.
Ela balançou o dedo em sua direção.
– Está saindo do personagem.
– Sim, sim, é claro, me desculpe. – Ele fez uma pausa, piscou duas vezes e disse: – Pronto. Que tal isto: o mesmo que você, eu imagino. Indo ao Número Cinco para o chá.
Penelope entrou no ritmo da conversa:
– Do jeito que falou, parece que é só uma visita. Não mora mais lá?
Ele fez uma careta.
– Espero que em uma semana ou duas, no máximo, não more mais. Estou procurando outro lugar. Tive que abrir mão do meu antigo alojamento quando parti para o Chipre e ainda não encontrei um substituto à altura. Tinha assuntos para resolver em Piccadilly e senti vontade de voltar caminhando.
– Na chuva?
Ele deu de ombros.
– Não estava chovendo quando saí hoje de manhã. E, agora, é só um chuvisco.
Só um chuvisco, pensou Penelope. Chuvisco que grudava naqueles cílios obscenamente longos, que emolduravam olhos de um verde tão perfeito que inspirara mais de uma jovem a fazer (péssima) poesia sobre eles. Até mesmo Penelope, ajuizada como gostava de pensar ser, passara muitas noites na cama, fitando o teto, sem ver nada além daqueles olhos.
Só um chuvisco, de fato.
– Penelope?
Ela acordou de seu devaneio.
– Certo. Também estou indo tomar chá com a sua mãe. Faço isso toda segunda-feira. E, com frequência, em outros dias também – admitiu. – Quando não... hã... quando não há nada de interessante acontecendo na minha casa.
– Não precisa ficar tão culpada a respeito disso. Minha mãe é uma mulher encantadora. Se quer que você vá tomar chá com ela, deve ir.
Penelope tinha o péssimo hábito de tentar ler nas entrelinhas do que as pessoas diziam e achava que o que Colin queria dizer, na verdade, era que não a culpava se o que ela desejava era fugir da própria mãe de vez em quando. O que, de alguma forma, a fez sentir-se triste.
Ele ficou se balançando sobre os calcanhares por alguns instantes, então disse:
– Bem, eu não deveria mantê-la aqui na chuva.
Ela sorriu, porque já estavam ali ao ar livre havia pelo menos quinze minutos.
Ainda assim, se ele tivesse desejado dar continuidade à brincadeira, ela teria feito o mesmo.
– Quem está segurando o guarda-chuva sou eu – observou.
Ele sorriu.
– Isso é verdade. Mas eu não seria muito cavalheiro se não a conduzisse a um ambiente mais hospitaleiro. E falando nisso...
Ele franziu a testa, olhando à sua volta.
– Falando em quê?
– Em ser cavalheiro. Acredito que seja nossa responsabilidade cuidar do bem-estar das senhoras.
– E...?
Ele cruzou os braços.
– Você não deveria estar com uma dama de companhia?
– Eu moro no mesmo quarteirão, dobrando a esquina – retrucou ela, um pouco desapontada por ele não se lembrar disso. Ela e a irmã eram as melhores amigas de duas de suas irmãs, afinal. Ele até a levara em casa algumas vezes. – Na Rua
Mount – acrescentou, quando a testa franzida dele não voltou ao normal.
Ele estreitou um pouco os olhos em direção à Rua Mount, embora Penelope não tivesse a menor ideia do que ele esperava conseguir com isso.
– Ora, pelo amor de Deus, Colin. Fica quase na esquina da Rua Davies. Fica a cinco minutos, no máximo, da casa de sua mãe. Quatro se eu andar rápido.
– Eu só estava vendo se havia locais escuros ou recuados na rua. – Ele se virou para encará-la. – Onde um criminoso talvez pudesse ficar à espreita.
– Em Mayfair?
– Em Mayfair – repetiu ele, soturno. – Eu realmente acho que você deveria ter uma dama de companhia para caminhar com você em seus passeios. Eu detestaria que algo lhe acontecesse.
Ela ficou estranhamente comovida com a preocupação dele, embora soubesse que Colin teria demonstrado igual atenção para com qualquer dama conhecida sua. Fazia parte de seu caráter.
– Posso lhe garantir que sigo todas as convenções quando percorro distâncias mais longas – disse ela. – Mas lá de fato é perto demais. São apenas alguns quarteirões. Nem a minha mãe se importa.
Colin pareceu travar o maxilar de repente.
– Sem contar que eu tenho 28 anos – acrescentou Penelope.
– E o que isso tem a ver com a questão? Eu tenho 33, se lhe interessa saber.
Ela sabia, é claro, já que sabia quase tudo a seu respeito.
– Colin – retrucou Penelope, transparecendo alguma irritação.
– Penelope – devolveu ele, exatamente no mesmo tom.
Ela deixou escapar um longo suspiro antes de falar:
– Meu status de solteirona já está bastante consolidado a esta altura, Colin.
Não preciso me preocupar com todas as regras que me atormentavam aos 17
anos.
– Eu não acho...
Penelope plantou uma das mãos no quadril.
– Se não acredita em mim, pergunte à sua irmã.
Colin de repente adquiriu a expressão mais séria que Penelope já o vira fazer.
– Eu faço questão de não perguntar à minha irmã assuntos relacionados ao bom senso.
– Colin! – exclamou Penelope. – Mas que coisa horrível de se dizer.
– Eu não falei que não a amo. Não falei nem mesmo que não gosto dela. Eu adoro Eloise, você sabe muito bem. Mas...
– Qualquer frase que comece com mas só pode terminar mal – murmurou
Penelope.
– Eloise já deveria estar casada a esta altura – continuou ele, com uma arrogância atípica.
Ora, aquilo já era um pouco demais, sobretudo naquele tom de voz.
– Alguns poderiam dizer – respondeu Penelope, inclinando o queixo de leve em um gesto de superioridade – que você também deveria estar casado a esta altura.
– Ora, por...
– Afinal você tem, como me informou com tanto orgulho, 33 anos.
Um vislumbre de divertimento perpassou o rosto de Colin, apesar de seu ligeiro ar de irritação sugerir que ele não acharia graça por muito tempo.
– Penelope, nem pense...
– Ancião! – trinou ela.
Ele praguejou baixinho, o que a surpreendeu, porque não se lembrava de já tê-lo visto fazer isso na presença de uma dama. Devia ter interpretado aquilo como um aviso, mas estava exasperada demais. Imaginava que o velho ditado fosse verdadeiro: coragem gera coragem.
Ou, em seu caso, talvez a imprudência gerasse imprudência, porque Penelope simplesmente olhou para ele com ar malicioso e disse:
– Os seus dois irmãos mais velhos já não estavam casados aos 30 anos?
Para a própria surpresa, Colin sorriu e cruzou os braços enquanto encostava um dos ombros na árvore sob a qual se encontravam.
– Meus irmãos e eu somos muito diferentes.
Aquela era, Penelope percebeu, uma afirmação muito reveladora, pois diversos membros da alta sociedade, incluindo a lendária Lady Whistledown, sempre faziam grande alarde da semelhança dos irmãos Bridgertons. Alguns haviam chegado a ponto de dizer que eram intercambiáveis. Penelope nunca achara que algum deles se incomodasse com isso – na verdade, supunha que ficassem envaidecidos com a comparação, uma vez que se amavam tanto. Mas talvez estivesse enganada.
Ou talvez nunca tivesse olhado com atenção suficiente.
O que era bastante estranho, pois tinha a sensação de que passara metade da vida observando Colin.
No entanto, se Colin tinha ficado irritado, não a deixara perceber. Penelope sem dúvida ficara bastante satisfeita ao pensar que poderia atingi-lo com sua pequena provocação, dizendo que os irmãos haviam se casado antes dos 30 anos.
Mas não: o método de ataque dele era um sorriso preguiçoso e uma piada
perfeitamente colocada. Se Colin algum dia perdesse a compostura...
Penelope balançou a cabeça de leve, incapaz até mesmo de imaginar isso.
Colin jamais perderia a paciência. Pelo menos não na frente dela. Teria que estar muito transtornado para se descontrolar. E esse tipo de fúria só podia ser causado por alguém por quem a pessoa tivesse uma afeição real, verdadeira, profunda.
Colin gostava dela – talvez até mais do que da maioria das pessoas –, mas não tinha nenhuma grande afeição por ela. Não daquele jeito.
– Talvez devamos, apenas, concordar em discordar – propôs ela.
– Sobre o quê?
– Hã... – Ela já não lembrava direito. – Hã... sobre o que uma solteirona pode ou não pode fazer?
Ele parecia se divertir com a sua hesitação.
– Isso provavelmente exigiria que eu acatasse em alguma medida a opinião de minha irmã mais nova, o que seria, como pode imaginar, muito difícil para mim.
– Mas não se importa em acatar a minha opinião?
O sorriso que ele lhe deu foi preguiçoso e muito travesso.
– Não, se prometer não contar isto a mais ninguém.
Ele não falava sério, é claro. E ela sabia que ele sabia que ela sabia que ele não falava sério. Mas assim era Colin. O senso de humor e um sorriso facilitavam qualquer coisa. E – maldito fosse! – aquilo funcionou, pois ela suspirou, sorriu e, antes de se dar conta, disse:
– Já chega! Sigamos para a casa da sua mãe.
Ele deu um largo sorriso.
– Acha que ela vai servir biscoitos?
Penelope revirou os olhos.
– Eu sei que ela vai servir biscoitos.