Os Segredos de Colin Bridgerton

Julia Quinn · Capítulo 11 de 30

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Os Segredos de Colin Bridgerton

Capítulo 9

– Colin? – disse ela, a voz quase inaudível. – Posso lhe pedir um favor?

Pode ter sido intuição masculina ou insanidade, mas uma voz muito insistente dentro dele gritava que, fosse lá o que ela quisesse, só poderia ser má ideia.

Ele era, no entanto, um idiota.

Tinha de ser, pois sentiu os lábios se entreabrirem e, em seguida, ouviu uma voz muito parecida com a sua dizer:

– É claro.

Ela contraiu os lábios e, por um instante, Colin achou que fosse beijá-lo, mas então se deu conta de que só fizera isso para formar uma palavra:

– Poderia...

Apenas uma palavra. Nada além de uma palavra começando com po. A sílaba po sempre se assemelhava a um beijo.

– Poderia me dar um beijo?

CAPÍTULO 9

Toda semana parece haver um convite mais cobiçado que todos os outros, e o desta semana é, sem dúvida, o da condessa de Macclesfield, que irá oferecer um grande baile na segunda-feira à noite. Lady Macclesfield não é uma anfitriã frequente em Londres, mas é muito popular, assim como o seu marido, e espera-se que muitos solteiros compareçam, incluindo o Sr. Colin Bridgerton (supondo que não sucumba à exaustão após quatro dias passados com os dez netos dos Bridgertons), o visconde de Burwick e o Sr. Michael Anstruther-Wetherby.

Esta autora imagina que um grande número de senhoritas jovens e solteiras também confirmará presença depois da publicação desta coluna.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,

16 DE ABRIL DE 1824

A vida como ele a conhecia chegara ao fim.

– O quê? – perguntou, ciente de que piscava sem parar.

O rosto de Penelope assumiu um tom de rubro mais profundo do que ele jamais imaginara ser possível, e ela se virou.

– Deixe para lá – murmurou. – Esqueça que eu disse qualquer coisa.

Colin achou aquilo uma ótima ideia.

Mas então, quando pensou que seu mundo talvez tivesse retomado o curso normal (ou pelo menos um que ele pudesse fingir ser o normal), Penelope subitamente virou-se, os olhos brilhando com uma luz apaixonada que o espantou.

– Não, não vou deixar para lá – bradou ela. – Passei a vida inteira deixando as coisas para lá, sem dizer às pessoas o que quero de verdade.

Colin tentou falar alguma coisa, mas o bolo que se formou em sua garganta o impediu. Ele poderia cair morto a qualquer instante. Tinha certeza disso.

– Não vai significar nada, eu prometo – continuou ela. – Eu jamais esperaria

alguma coisa de você, mas é que eu poderia morrer amanhã e...

– O quê?

Os olhos dela estavam imensos, liquefeitos em seu castanho profundo, suplicantes e...

Ele sentiu sua certeza se dissolver.

– Eu tenho 28 anos – disse Penelope, com a voz baixa e triste. – Sou uma solteirona e nunca fui beijada.

– Hã... err... b-bem...

Colin tinha certeza que sabia falar: apenas alguns minutos antes, fora uma pessoa perfeitamente articulada. Mas, agora, não conseguia formar uma única palavra.

E Penelope continuava a falar, as faces de um encantador tom rosado, os lábios se movendo tão rápido que ele não pôde evitar imaginar qual seria a sensação de tê-los sobre a sua pele. Em seu pescoço, em seu ombro, em seu...

Em outras partes.

– Vou ser uma solteirona aos 29 anos – continuou ela –, e uma solteirona aos 30. E poderia morrer amanhã, e...

– Você não vai morrer amanhã! – conseguiu exclamar ele, de alguma forma.

– Mas poderia! E isso me mataria, porque...

– Você já estaria morta – argumentou ele, pensando que sua voz soava um tanto estranha e incorpórea.

– Não quero morrer sem ter sido beijada – concluiu ela.

Colin podia pensar em cem razões pelas quais beijar Penelope Featherington era uma péssima ideia, e a primeira delas era o fato de que ele queria beijá-la.

Abriu a boca na esperança de que algum som emergisse e que talvez fosse um argumento inteligível, mas nada saiu, apenas o som de sua respiração.

Então, Penelope fez a única coisa que podia acabar com a sua convicção.

Ergueu os olhos para encará-lo e pronunciou duas únicas e simples palavras:

– Por favor.

Ele estava perdido. Havia algo de partir o coração na forma como ela o olhava, como se talvez fosse morrer se ele não a beijasse. Não de coração partido, não de vergonha – era quase como se precisasse dele para se nutrir, para lhe alimentar a alma, preencher-lhe o coração.

E Colin não conseguiu se lembrar de mais ninguém que tivesse precisado dele com tanto fervor.

Aquilo o encheu de humildade.

Também o fez desejá-la com uma intensidade de deixar as pernas bambas.

Olhou para ela e, de alguma forma, não viu a mulher que vira tantas vezes antes.

Penelope estava diferente. Ela brilhava. Era uma sereia, uma deusa, e ele se perguntou como era possível que ninguém jamais o tivesse percebido.

– Colin? – sussurrou ela.

Ele deu um passo à frente. Foi um passo pequeno, mas quando tocou o queixo dela e inclinou o seu rosto para cima, os lábios dos dois ficaram a poucos centímetros de distância.

Seus hálitos se misturaram e o ar ficou cálido e pesado. Penelope estremeceu, e Colin não pôde ter certeza de que ele mesmo não estivesse tremendo.

Imaginou-se dizendo algo insolente e cômico, como o sujeito brincalhão que tinha a reputação de ser. O que você quiser, talvez, ou Toda mulher merece ao menos um beijo. Mas, ao eliminar a distância quase inexistente entre eles, percebeu que não havia palavras que pudessem captar a intensidade do momento.

Palavras para a paixão. Palavras para a necessidade.

Não havia palavras para a epifania daquele momento.

E assim, numa sexta-feira que de outra forma teria sido como qualquer outra, no coração de Mayfair, numa silenciosa sala de estar na Rua Mount, Colin Bridgerton beijou Penelope Featherington.

E foi glorioso.

Os lábios dele tocaram os dela a princípio com delicadeza, não porque ele tentasse ser dócil, embora, se tivesse lhe ocorrido a presença de espírito para pensar em tais coisas, provavelmente ele teria lembrado que aquele era o primeiro beijo dela e que, portanto, deveria ser reverente, lindo e todas as coisas com as quais uma moça sonha.

Mas, com toda a sinceridade, nada disso passou pela cabeça de Colin. Na verdade, ele mal pensava. Seu beijo foi suave e dócil porque ele ainda estava surpreso. Ele a conhecia havia anos, e jamais pensara em fazer aquilo. Agora, porém, não poderia soltá-la nem que o mundo se acabasse. Mal conseguia acreditar no que estava fazendo – ou que desejasse tanto aquilo.

Não foi o tipo de beijo ao qual alguém dá início por estar tomado de paixão, emoção, raiva ou desejo. Foi algo mais lento, uma aprendizagem – tanto para Colin quanto para Penelope.

E ele estava aprendendo que tudo o que acreditara saber sobre o ato de beijar era bobagem.

Todo o resto havia sido apenas lábios, línguas e palavras murmuradas, mas sem o menor significado.

Aquilo, sim, era um beijo.

Havia algo no roçar dos lábios, na forma como ele podia ouvir e sentir a respiração dela ao mesmo tempo. Algo no fato de ela permanecer totalmente imóvel e, no entanto, ser possível sentir o seu coração ribombando.

Havia algo no fato de ele saber que era ela.

Colin mordiscou, de leve, o canto da boca de Penelope, e então acariciou o local exato onde os lábios dela se uniam. A língua dele mergulhava, delineava, aprendia os contornos de sua boca, saboreando a essência doce e ao mesmo tempo salgada.

Aquilo era mais do que um beijo.

As mãos dele, que estavam espalmadas nas costas dela, ficaram rijas, mais e mais tensas enquanto apalpavam o tecido do vestido. Ele podia sentir o calor do corpo dela na ponta dos dedos, brotando através da musselina.

Ele a puxou para mais perto, depois ainda mais, até seus corpos estarem colados. Podia sentir toda a extensão do corpo dela, e sentiu o seu próprio se incendiar. Percebeu seu membro enrijecer. Deus, como a desejava.

Colin se tornou mais exigente e fez sua língua brincar mais à frente, até Penelope entreabrir os lábios. Ele engoliu o seu suave gemido de aquiescência, então foi adiante para saborear aquela boca. Era doce, um pouco ácida devido à limonada e claramente tão inebriante quanto um bom conhaque, pois ele começava a duvidar da própria capacidade de permanecer de pé.

Percorreu as mãos pelo corpo dela – bem devagar, para não assustá-la. Ela era delicada, curvilínea e exuberante, do modo que sempre achara que uma mulher devia ser. Os quadris eram largos, o traseiro, perfeito, e os seios... por Deus, os seios eram deliciosos, pressionados de encontro ao seu peito. Ele queria muito tomá-los com as mãos, mas forçou-as a permanecer onde estavam (muito bem posicionadas em seu traseiro, de maneira que não era tanto sacrifício assim).

Além do fato de que ele, realmente, não deveria apalpar os seios de uma dama tão bem-criada no meio de sua sala de visitas, tinha a dolorosa suspeita de que, se a tocasse daquela maneira, era bastante provável que se perdesse por completo.

– Penelope, Penelope – murmurou, se perguntando por que o nome dela tinha um sabor tão delicioso em seus lábios.

Estava faminto por ela, inebriado de paixão, e queria desesperadamente que ela sentisse o mesmo. Tê-la nos braços era perfeito, mas, até o momento, ela não esboçara a menor reação. Ah, sim, havia oscilado em seus braços e aberto os lábios para acolher a sua invasão, mas, além disso, nada fizera.

E, no entanto, pelo respirar ofegante e pelas batidas aceleradas de seu coração, ele sabia que ela estava excitada.

Colin se afastou um pouco, apenas alguns centímetros, o suficiente para tocar-lhe o queixo e levantar o rosto dela para si. As pálpebras se agitaram até se abrirem, revelando olhos atordoados de paixão, em perfeita consonância com os lábios entreabertos, macios e túmidos pelos beijos dele.

Ela estava linda. Completamente linda, de tirar o fôlego. Não sabia como jamais notara isso em todos aqueles anos.

Será que o mundo estava cheio de homens cegos ou apenas estúpidos?

– Você também pode me beijar – sussurrou ele, encostando a testa, de leve, na dela.

Penelope não fez nada além de piscar.

– Um beijo envolve duas pessoas – murmurou ele, aproximando os lábios dos dela, embora apenas por um instante fugaz.

Ela correu a mão pelas costas dele.

– E o que eu devo fazer? – perguntou.

– O que quiser.

Penelope levou uma das mãos ao rosto dele bem devagar. Os dedos deslizaram de leve pela face, roçaram o queixo e então se afastaram.

– Obrigada – sussurrou ela.

Obrigada?

Ele ficou imóvel.

Não era isso que queria ouvir. Não queria receber um “obrigada” por aquele beijo.

Aquilo o fez sentir-se culpado.

E superficial.

Como se tivesse feito aquilo por piedade. E a pior parte era que, se tudo tivesse acontecido poucos meses antes, teria sido, de fato, por piedade.

O que isso dizia a seu respeito?

– Não me agradeça – disse ele, rispidamente, afastando-se de repente.

– Mas...

– Eu disse não – repetiu ele, dando-lhe as costas como se não pudesse olhá-la quando, na verdade, não podia suportar a si mesmo.

E o mais impressionante era que ele não sabia muito bem por quê. Aquela sensação desesperada e insistente – seria culpa? Porque não era para ele tê-la beijado? Porque não era para ele ter gostado?

– Colin – retrucou ela –, não fique com raiva de você mesmo.

– Não estou – vociferou ele.

– Eu lhe pedi que me beijasse. Eu quase o forcei...

Que forma eficaz de fazer um homem se sentir másculo...

– Você não me forçou – disparou ele.

– Não, mas...

– Ora, pelo amor de Deus, Penelope, já chega!

Ela recuou, com os olhos arregalados.

– Me desculpe – sussurrou.

Ele baixou os olhos para as mãos dela e viu que tremiam. Colin fechou os olhos, agoniado. Por que, por que, por que estava sendo um idiota completo?

– Penelope... – começou.

– Não, está tudo bem – disse ela, depressa. – Não precisa falar nada.

– Não, eu preciso, sim.

– Eu realmente preferiria que não falasse.

E então ela lhe pareceu tão digna... O que o fez sentir-se ainda pior. Ela estava parada, ali, com as mãos cruzadas de forma recatada à sua frente, olhando para baixo – não exatamente para o chão, mas tampouco para o rosto dele.

Penelope achava que ele a beijara por piedade.

E ele era um patife, porque uma pequena parte de si queria que ela pensasse isso. Porque dessa forma talvez ele pudesse se convencer de que era verdade, que não passara de pena, que não havia possibilidade de ser mais do que isso.

– É melhor eu ir – disse ele bem baixo, e, no entanto, sua voz ainda soou alta demais na sala silenciosa.

Penelope não tentou impedi-lo.

Ele fez um gesto em direção à porta.

– É melhor eu ir – repetiu, apesar de os pés se recusarem a se mexer.

Ela assentiu.

– Eu não... – começou a dizer Colin, e então, horrorizado com as palavras que quase saíram de sua boca, se dirigiu à porta.

Mas Penelope, é claro, perguntou:

– Não o quê?

E ele não soube o que responder, porque o que começara a dizer fora: Eu não a beijei por pena. Se ele quisesse que ela soubesse, se quisesse se convencer, isso só poderia significar que ansiava pela sua boa opinião, o que só poderia querer dizer...

– Eu preciso ir – falou atabalhoadamente, já em desespero, como se deixar aquela sala fosse a única forma de impedir que seus pensamentos percorressem

 

uma estrada tão perigosa.

Atravessou a distância que ainda restava até a porta, esperando que ela falasse algo, que chamasse o seu nome.

Mas ela não o fez.

E ele se foi.

E nunca se odiou tanto na vida.

Colin estava de péssimo humor antes de o lacaio surgir à sua porta com uma convocação de sua mãe. Depois, seu humor piorou.

Maldição. Ela ia voltar àquela conversa sobre ele ter de se casar. As convocações dela eram sempre sobre isso. E ele não estava com o menor ânimo para tal assunto.

Mas era sua mãe. E ele a amava. Isso significava que não poderia ignorá-la.

Assim, resmungando sem parar e praguejando bastante durante o processo, calçou as botas, vestiu o casaco e se dirigiu à porta.

Estava morando em Bloomsbury, que não era a parte mais elegante da cidade para um membro da aristocracia, embora a Praça Bedford, onde alugara uma pequena, porém elegante, casa com varanda, fosse sem dúvida um endereço caro e respeitável.

Colin gostava bastante de morar ali, onde os vizinhos eram médicos, advogados, intelectuais e gente que realizava mais do que comparecer a festa após festa. Não estava pronto para trocar sua herança por um trabalho – era ótimo ser um Bridgerton, afinal –, mas havia algo de estimulante em observar profissionais com seus afazeres, advogados rumando para o leste em direção ao Palácio de Justiça e médicos para noroeste, no sentido de Portland Place.

Teria sido fácil atravessar a cidade em sua pequena carruagem: retornara à cavalariça apenas uma hora antes, após voltar da casa das Featheringtons. Mas estava sentindo a necessidade de um pouco de ar puro, sem falar em sua teimosia, que o levava a querer demorar o máximo possível para chegar à casa da mãe.

Se a intenção de Violet era lhe dar mais um sermão sobre as virtudes do matrimônio, seguido de um longo discurso sobre os atributos de cada senhorita solteira de Londres, maldição!, então ela podia perfeitamente esperar por ele.

Colin fechou os olhos e gemeu. Seu humor devia estar até pior do que imaginava, para amaldiçoar a própria mãe, que ele (e todos os Bridgertons, na

verdade) tinha em mais alta estima e afeição.

A culpa era de Penelope.

Não, a culpa era de Eloise, pensou, cerrando os dentes. Melhor culpar uma irmã.

Não, a culpa era dele mesmo, admitiu, atirando-se de volta na cadeira da escrivaninha. Se estava de mau humor, pronto para arrancar a cabeça de alguém com as próprias mãos, a culpa era só dele.

Não devia ter beijado Penelope. Não importava o fato de ter desejado isso, embora ele nem ao menos tivesse se dado conta de sua vontade até um pouco antes de ela o mencionar. Ainda assim, não devia ter feito isso. Embora, quando de fato pensava a respeito, não soubesse ao certo por que não deveria tê-la beijado.

Ele se levantou, então caminhou com passos pesados até a janela e encostou a testa na vidraça. A Praça Bedford encontrava-se em silêncio, com apenas alguns homens caminhando pelas calçadas. Pareciam ser operários, provavelmente trabalhando na construção do novo museu na parte leste. (Tinha sido por isso que Colin alugara uma casa no oeste da praça: as obras eram bastante barulhentas.)

Ele olhou para o norte, na direção da estátua de Charles James Fox. Ali estava um homem com um objetivo. Liderara os Whigs, pessoas que apoiavam o Partido Liberal, durante anos. Nem sempre fora muito querido – de acordo com alguns membros da alta sociedade –, mas Colin começava a crer que ser tido em alta conta por todos era algo superestimado. Deus sabia que ninguém era mais querido do que ele, e, apesar disso, agora se sentia frustrado, descontente, mal-humorado e pronto para descontar em qualquer um que cruzasse o seu caminho.

Deixou escapar um suspiro enquanto se afastava da janela. Era melhor ir logo, sobretudo porque planejava caminhar até Mayfair. Embora, na realidade, não fosse tão longe assim. Provavelmente não mais do que trinta minutos, se mantivesse um ritmo enérgico (e sempre o fazia), a menos que as calçadas estivessem repletas de gente lenta. Meia hora era mais do que a maioria dos membros da alta sociedade gostava de ficar ao ar livre em Londres quando não estava fazendo compras ou passeando com elegância pelo parque, mas Colin sentia a necessidade de clarear a mente. E, embora a atmosfera de Londres não fosse das mais puras, ia ter de servir.

Do jeito que ia a sua sorte naquele dia, no entanto, ao chegar à esquina das ruas Oxford e Regent, os primeiros pingos de chuva começaram a cair em seu rosto. Ao virar na Praça Hanover para pegar a St. George, chovia

torrencialmente. E já estava tão próximo da Rua Bruton que teria sido ridículo tentar parar um carro de aluguel para o resto do caminho.

Então, foi em frente.

Depois do primeiro instante de irritação, porém, teve uma sensação estranha em relação à chuva. Estava quente o bastante para que ele não se sentisse gelado até os ossos, mas ainda assim os pingos grossos lhe pareceram uma espécie de penitência.

Tinha a impressão de que talvez fosse o que merecia.

A porta da casa da mãe se abriu antes mesmo que Colin pisasse no primeiro degrau. Wickham devia estar à sua espera.

– O senhor aceitaria uma toalha? – entoou o mordomo, entregando-lhe um enorme tecido branco.

Colin aceitou, perguntando-se como Wickham tivera tempo de ir pegar aquela toalha. Não podia ter adivinhado que Colin seria tolo o bastante para caminhar na chuva.

Não foi a primeira vez que lhe ocorreu que os mordomos deviam possuir poderes estranhos e místicos. Talvez fosse uma exigência da posição. Colin secou os cabelos, causando grande consternação em Wickham, que exalava dignidade e provavelmente esperara que Colin se retirasse para algum aposento privado e levasse pelo menos meia hora para recompor a aparência.

– Onde está minha mãe? – perguntou ele.

Wickham contraiu os lábios de tensão e olhou direto para os pés de Colin, que agora criavam pequenas poças.

– No escritório – respondeu –, mas está conversando com a sua irmã.

– Qual delas? – perguntou Colin, dando um ensolarado sorriso só para irritar Wickham, que sem dúvida também tentara irritá-lo ao omitir o nome da irmã.

Como se fosse possível dizer apenas “sua irmã” a um Bridgerton e esperar que ele soubesse de quem se tratava.

– Francesca.

– Ah, sim. Ela voltará à Escócia em breve, não?

– Amanhã.

Colin devolveu a toalha a Wickham, que a olhou como se fosse um imenso inseto.

– Não a incomodarei, então. Quando ela terminar a conversa com Francesca, apenas lhe avise que estou aqui.

Wickham assentiu.

– Gostaria de trocar de roupa, Sr. Bridgerton? Creio que temos alguns trajes

de seu irmão Gregory no quarto dele.

Colin sorriu. Gregory estava terminando o último período letivo em Cambridge. Era onze anos mais novo que Colin e era difícil acreditar que pudessem usar as mesmas roupas, mas talvez fosse chegada a hora de aceitar o fato de seu irmão mais novo ter finalmente crescido.

– É uma excelente ideia – respondeu. Lançou um olhar pesaroso para a manga encharcada. – Deixarei estas roupas aqui para serem lavadas e as buscarei mais tarde.

Wickham assentiu outra vez.

– Como desejar.

Em seguida, desapareceu pelo corredor até alguma parte desconhecida da casa.

Colin subiu a escada de dois em dois degraus até os aposentos da família.

Enquanto ia ensopando o corredor com seus passou, ouviu uma porta se abrir.

Virou-se e deu de cara com Eloise.

Não era a pessoa que queria ver. Ela imediatamente trouxe de volta todas as recordações de sua tarde com Penelope. De sua conversa. Do beijo.

Sobretudo do beijo.

E, pior, da culpa que sentira depois.

Da culpa que ainda sentia.

– Colin – disse Eloise, alegremente –, eu não sabia que... O que aconteceu?

Você veio andando?

Ele deu de ombros.

– Gosto de chuva.

Ela o encarou, curiosa, inclinando a cabeça para o lado como sempre fazia quando tentava decifrar alguma coisa.

– Está com um humor estranho hoje.

– Estou ensopado, Eloise.

– Não precisa ser grosseiro por causa disso – resmungou ela, fungando. – Eu não o forcei a atravessar a cidade debaixo de chuva.

– Não estava chovendo quando saí – sentiu-se obrigado a dizer. Irmãos são capazes de fazer aflorar a criança de 8 anos que vive em nós.

– Com certeza o céu estava nublado – devolveu ela.

Pelo jeito, Eloise também estava com a criança de 8 anos aflorada.

– Podemos continuar esta discussão quando eu estiver seco? – perguntou ele, impaciente.

– É claro – respondeu ela, mostrando-se bastante compreensiva. – Esperarei

bem aqui.

Colin vestiu as roupas de Gregory sem pressa, levando mais tempo no nó da gravata do que levava há anos. Por fim, quando se convenceu de que Eloise devia estar rangendo os dentes, despontou no corredor.

– Soube que foi ver Penelope esta tarde – disse ela, sem preâmbulos.

Ele não esperava ouvir isso.

– Como você sabe? – perguntou ele, cautelosamente.

Sabia que a irmã e Penelope eram próximas, mas Penelope sem dúvida não teria contado a Eloise sobre aquilo.

– Felicity contou a Hyacinth.

– E Hyacinth contou a você.

– É claro.

– Algo precisa ser feito a respeito das fofocas que correm nesta cidade –

murmurou Colin.

– Não acho que isto conte como fofoca, Colin – retrucou Eloise. – Afinal, você não está interessado na Penelope.

Se ela estivesse falando de qualquer outra mulher, Colin teria esperado que finalizasse com um afetado Está? e um olhar de soslaio.

Mas se tratava de Penelope, e, embora Eloise fosse a sua melhor amiga e, portanto, a sua maior defensora, nem mesmo ela conseguia imaginar que um homem da reputação e popularidade de Colin pudesse se interessar por uma mulher da reputação e (falta de) popularidade de Penelope.

O humor dele mudou de ruim para péssimo.

– De qualquer forma – continuou Eloise, ignorando por completo o estado de espírito sombrio do irmão, em geral tão alegre e jovial –, Felicity disse a Hyacinth que Briarly lhe contou que você havia feito uma visita. Fiquei me perguntando sobre o que seria.

– Não é da sua conta – retrucou Colin, bruscamente, esperando que ela deixasse o assunto por isso mesmo, sem acreditar de fato que o faria.

De qualquer forma, deu um passo em direção às escadas, preservando um pouco do otimismo de sempre.

– É sobre o meu aniversário, não é? – sugeriu Eloise, correndo à frente dele de forma tão repentina que a ponta do sapato dele se chocou com o dela.

Ela fez uma careta de dor, mas Colin não demonstrou qualquer solidariedade.

– Não, não é sobre o seu aniversário – respondeu ele, de maneira áspera. – O

seu aniversário só é...

Ele se deteve. Droga!

– ... na semana que vem – continuou, rosnando.

Eloise deu um sorriso malicioso. Em seguida, como se tivesse se dado conta de que chegara à conclusão errada, ela entreabriu os lábios, consternada, enquanto voltava um pouco o raciocínio e seguia em outra direção.

– Então – prosseguiu ela, deslocando o corpo de leve, de maneira a obstruir melhor o caminho dele –, se você não foi até lá para falar sobre o meu aniversário e não há nada que possa dizer agora para me convencer do contrário, por que foi ver Penelope?

– Não se pode mais ter um assunto particular nesta vida?

– Não nesta família.

Colin decidiu que o melhor a fazer era adotar sua personalidade amistosa, embora não estivesse se sentindo nem um pouco bem-humorado em relação à irmã naquele momento. Assim, abriu seu sorriso mais afável, inclinou a cabeça e perguntou:

– Estou ouvindo nossa mãe me chamar?

– Eu não escutei nada – retrucou Eloise, atrevidamente. – E o que há de errado com você? Está com uma expressão muito estranha.

– Estou ótimo.

– Você não está ótimo. Está com um ar de quem acabou de sair do dentista.

– É sempre ótimo receber elogios da família – murmurou ele.

– Se você não pode confiar que a sua família seja franca com você – devolveu ela –, então em quem poderá confiar?

Com um movimento suave, ele se recostou na parede e cruzou os braços.

– Prefiro a lisonja à franqueza.

– Não prefere, não.

Por Deus, que vontade ele tinha de lhe dar um tapa. Era algo que não fazia desde os 12 anos. E fora castigado por isso. Que se lembrasse, tinha sido a única vez que o pai batera nele.

– O que eu quero – falou, arqueando uma das sobrancelhas – é o fim imediato desta conversa.

– O que você quer é que eu pare de lhe perguntar por que foi ver Penelope Featherington – alfinetou Eloise –, mas nós dois sabemos que não é muito provável que isso aconteça.

E foi então que ele soube. Soube, no fundo do coração, que sua irmã era Lady Whistledown. Todas as peças se encaixavam. Não havia pessoa mais teimosa e obstinada, ninguém que podia – e iria – utilizar o seu tempo para ir a fundo em todo e qualquer pequeno boato e insinuação.

Quando Eloise queria uma coisa, não sossegava até consegui-la. Não tinha a ver com dinheiro, ganância ou bens materiais. No que dizia respeito a ela, tinha a ver com conhecimento. Gostava de saber das coisas e alfinetava, alfinetava e alfinetava até que a pessoa lhe dissesse exatamente o que ela queria ouvir.

Era um milagre que ninguém tivesse descoberto antes.

Do nada, ele disse:

– Preciso conversar com você.

Agarrou-a pelo braço e a arrastou até o quarto mais próximo, que por acaso era o dela.

– Colin! – guinchou Eloise, tentando se desvencilhar dele, em vão. – O que está fazendo?

Ele bateu a porta, soltou-a e cruzou os braços, com uma expressão ameaçadora.

– Colin? – repetiu ela, muito desconfiada.

– Eu sei o que você tem aprontado.

– O que eu tenho...

E então, maldita fosse, ela começou a rir.

– Eloise! – trovejou ele. – Estou falando com você!

– Claramente – retrucou ela, com dificuldade.

Ele não recuou, continuou fuzilando-a com o olhar.

Ela olhava para o outro lado, quase dobrada ao meio de tanto rir. Por fim, disse:

– O que você...

Mas ao olhar para ele outra vez, apesar de sua tentativa de ficar séria, explodiu na gargalhada outra vez.

Se a irmã estivesse bebendo alguma coisa, pensou Colin sem achar a menor graça, o líquido teria saído pelas suas narinas.

– Que diabo se apossou de você?! – vociferou ele.

Isso finalmente chamou a atenção dela. Ele não soube dizer se foi o tom de voz ou o fato de ter praguejado, mas Eloise voltou a si no mesmo instante.

– Minha Nossa, como você está sério – observou ela, baixinho.

– Por acaso pareço estar brincando?

– Não – respondeu Eloise. – Embora no início estivesse. Me desculpe, Colin, mas esse olhar raivoso, esses berros e tudo o mais não fazem muito o seu estilo.

Você parecia o Anthony.

– Você...

– Na verdade – corrigiu-se ela, olhando-o de forma menos cautelosa que o

apropriado –, parecia você mesmo tentando imitar o Anthony.

Ele ia matá-la. Bem ali no quarto dela, na casa da mãe, ia cometer um sororicídio.

– Colin? – disse ela, hesitante, como se só então tivesse notado que ele agora, em vez de apenas zangado, estava furioso.

– Sente-se. – Ele fez um gesto brusco com a cabeça em direção a uma cadeira.

– Já.

– Você está bem?

– SENTE-SE! – rugiu ele.

Eloise obedeceu. Rápido.

– Não consigo me lembrar da última vez em que você levantou a voz –

sussurrou ela.

– E eu não consigo me lembrar da última vez em que tive motivo para fazê-lo.

– O que foi?

Ele decidiu que era melhor ser direto.

– Colin? – disse ela.

– Eu sei que você é Lady Whistledown.

– O quêêêêêê?

– Não adianta negar. Eu vi...

Eloise se levantou de um salto.

– Exceto pelo fato de que não é verdade!

De repente, ele já não estava mais tão furioso. Em vez disso, sentiu-se cansado, velho.

– Eloise, eu vi a prova.

– Que prova? – perguntou ela, a voz ficando aguda pela incredulidade. –

Como pode haver prova de algo que não é verdadeiro?

Ele agarrou uma de suas mãos.

– Olhe para os seus dedos.

Ela fez o que o irmão pediu.

– Qual é o problema com eles?

– Manchas de tinta.

Eloise ficou boquiaberta.

– Daí você deduziu que sou Lady Whistledown?

– Por que seus dedos estão sujos, então?

– Você nunca usou uma pena?

– Eloise... – Havia um aviso bem claro na voz dele.

– Eu não tenho de lhe explicar por que meus dedos estão manchados de tinta.

Colin repetiu o seu nome.

– Eu não... – começou a protestar a garota. – Eu não lhe devo... Ah, está bem.

– Ela cruzou os braços, contrafeita. – Eu escrevo cartas.

Ele a olhou com extrema desconfiança.

– Escrevo, sim! – exclamou ela. – Todos os dias. Às vezes duas vezes por dia, quando Francesca está longe. Sou uma correspondente muito leal. Você devia saber disso. Já escrevi muitas cartas com o seu nome no envelope, embora duvide muito que metade delas tenha chegado às suas mãos.

– Cartas? – indagou ele, a voz cheia de dúvida... e escárnio. – Pelo amor de Deus, Eloise, acha mesmo que isso é crível? E para quem é que você anda escrevendo tanto?

Ela ruborizou. Profundamente.

– Não é da sua conta.

Ele teria ficado intrigado com a reação dela se não continuasse tão certo de que mentia sobre ser Lady Whistledown.

– Pelo amor de Deus, Eloise – cuspiu ele –, quem vai acreditar que você anda escrevendo cartas todos os dias? Eu, sem dúvida, não acredito.

Ela o fuzilou com os olhos cinza-escuros cintilando de fúria.

– Não me importa o que você acha – disse ela, numa voz bem baixa. – Não, isso não é verdade. Estou furiosa por não acreditar em mim.

– Você não está me ajudando muito a acreditar – retrucou ele, cansado.

Ela se levantou, se aproximou dele e lhe deu um cutucão no peito. Com força.

– Você é meu irmão – vociferou ela. – Deveria acreditar em mim sem questionamentos. Me amar incondicionalmente. É isso que significa fazer parte de uma família.

– Eloise – disse ele, em um suspiro.

– Não tente inventar desculpas agora.

– Eu não ia.

– Isso é até pior! – Ela se dirigiu com passos firmes em direção à porta. –

Devia estar ajoelhado implorando o meu perdão.

Ele não achou que conseguiria sorrir, mas, de alguma forma, aquilo bastou.

– Bem, isso não seria muito o meu estilo, seria?

Ela abriu a boca para dizer algo, mas a única coisa que conseguiu emitir foi algo como “Aaaahhhh” com uma voz irada. Em seguida, deixou o quarto de forma bastante tempestuosa, batendo a porta ao sair.

Colin afundou numa poltrona, perguntando-se quando ela se daria conta de que se retirara do próprio quarto.