Os Segredos de Colin Bridgerton

Julia Quinn · Capítulo 23 de 30

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Os Segredos de Colin Bridgerton

Capítulo 21

– Eu vou pagar pela viagem de lua de mel.

– Ótimo – exclamou ela, com uma expressão altiva. – Pode tirar da sua mesada trimestral.

Colin olhou para ela, chocado, depois pôs-se a gargalhar.

– Agora também vai querer deixar dinheiro em casa para as emergências do dia a dia? – indagou ele, sorrindo abertamente.

– Não, para as penas – corrigiu ela. – Para poder escrever nos seus diários.

– Hum, gostei disso – refletiu ele.

Ela sorriu e colocou uma das mãos sobre a dele.

– Eu gosto de você.

Ele apertou os dedos dela.

– Também gosto de você.

Penelope suspirou enquanto pousava a cabeça em seu ombro.

– É para a vida ser tão maravilhosa assim mesmo?

– Eu acho que sim – murmurou ele. – Acho de verdade.

CAPÍTULO 21

Uma semana depois, Penelope estava atrás da escrivaninha na sala de visitas, lendo os diários de Colin e fazendo anotações numa folha de papel à parte sempre que tinha uma pergunta ou um comentário. Ele lhe pedira ajuda para editar os textos, tarefa que ela achava emocionante.

Estava, é claro, felicíssima por ele lhe ter confiado uma função tão importante.

Significava que confiava em seu julgamento, que a achava inteligente e esperta, capaz de transformar o que escrevera em algo ainda melhor.

Mas sua felicidade não se devia apenas a isso. Penelope também estava precisando de um projeto, de algo para fazer. Nos primeiros dias depois de abrir mão do Whistledown, tinha comemorado o tempo livre recém-conquistado. Era como ter férias pela primeira vez em dez anos. Havia lido como uma louca –

todos os romances e livros que comprara e jamais tivera a oportunidade de ler.

Fizera longas caminhadas, andara a cavalo no parque, sentara-se no pequeno pátio que ficava atrás de sua casa na Rua Mount para se deliciar com o agradável clima primaveril e com o calor do sol.

A seguir, vieram o casamento e a infinidade de detalhes que consumiram o seu tempo. Assim, não tivera muitas chances de se dar conta do que talvez estivesse faltando em sua vida.

Quando redigia a coluna, a tarefa em si não levava tanto tempo, mas ela precisava ficar sempre em estado de alerta, observando, escutando. E quando não estava escrevendo, estava pensando em escrever ou tentando desesperadamente chegar a alguma maneira inteligente de formular determinada frase até poder chegar em casa e anotá-la.

Havia sido intelectualmente envolvente, e ela não percebera até aquele momento quanto sentira falta de ser desafiada.

Estava anotando uma pergunta sobre a descrição de Colin de uma villa toscana na página 143 do volume 2 de seus diários quando o mordomo deu uma batidinha discreta à porta aberta para alertá-la de sua presença.

Penelope sorriu, encabulada. Tinha a tendência de mergulhar por completo no trabalho, e Dunwoody aprendera, com a experiência, que, se quisesse chamar a sua atenção, tinha de fazer algum barulho.

– Tem uma pessoa aqui que deseja vê-la, Sra. Bridgerton.

Penelope ergueu a vista, sorrindo. Devia ser uma das irmãs ou, talvez, um dos cunhados.

– É mesmo? Quem?

Ele deu um passo à frente e lhe entregou um cartão. Quando Penelope viu o que estava escrito, sufocou um grito, primeiro devido ao choque, depois à infelicidade. Gravado em preto clássico e imponente sobre fundo creme, havia duas palavras simples: Cressida Twombley.

Cressida Twombley? Por que diabo ela iria visitá-la?

Penelope começou a se inquietar. Cressida jamais apareceria em sua casa a não ser que fosse com um objetivo desagradável. A mulher nunca fazia nada que não fosse para alcançar um objetivo desagradável.

– Quer que eu a mande embora? – indagou Dunwoody.

– Não – respondeu Penelope, com um suspiro. Não era covarde, e Cressida Twombley não iria transformá-la em uma. – Vou recebê-la. Só me dê um instante para guardar os meus papéis. Mas...

Dunwoody parou onde estava e esperou.

– Ah, deixe para lá – murmurou Penelope.

– Tem certeza, Sra. Bridgerton?

– Tenho. Não. – Ela gemeu. Sentia-se perturbada, e esta era mais uma coisa desagradável a ser acrescentada à já longa lista de inconveniências de Cressida: ela estava transformando Penelope numa imbecil gaguejante. – O que quero dizer é que se ela ainda não tiver ido embora depois de dez minutos, poderia inventar alguma emergência que exija a minha presença? A minha presença imediata?

– Creio que posso atendê-la.

– Ótimo, Dunwoody – exclamou Penelope, com um sorriso débil.

Aquela podia ser a saída mais fácil, mas Penelope achava que não conseguiria reconhecer o momento perfeito para insistir que Cressida fosse embora, e a última coisa que desejava era ficar presa na sala com ela a tarde inteira. Logo, precisava da ajuda de Dunwoody.

O mordomo assentiu e se retirou. Penelope juntou os papéis em uma pilha, fechou o diário de Colin e colocou-o sobre ela de maneira que a brisa que entrava pela janela não fizesse as folhas voarem de cima da mesa. Então se levantou e foi se sentar no sofá, esperando parecer relaxada e tranquila.

Como se uma visita de Cressida Twombley pudesse ser relaxante.

Um instante depois, Cressida entrou na sala após ser anunciada pelo

mordomo. Como sempre, estava linda, com cada fio de cabelo dourado no lugar perfeito. A pele era impecável, os olhos, brilhantes, as roupas seguiam a última moda e a bolsa combinava perfeitamente com elas.

– Cressida, que surpresa! – disse Penelope.

“Surpresa” era a palavra mais educada que ela conseguiu pronunciar, dadas as circunstâncias.

Os lábios de Cressida se curvaram num sorriso misterioso e quase felino.

– Tenho certeza que sim – murmurou.

– Não quer se sentar? – perguntou Penelope, em grande parte porque tinha de fazê-lo.

Passara a vida toda sendo educada; era difícil deixar de sê-lo agora. Fez sinal para uma cadeira próxima, a mais desconfortável da sala.

Cressida sentou-se na beirada. Sua postura era elegante, o sorriso, firme, e ela aparentava uma serenidade impressionante.

– Sem dúvida, está se perguntando o que vim fazer aqui – falou.

Penelope não viu motivo para negar, então assentiu.

– O que está achando da vida de casada? – perguntou Cressida de forma abrupta.

Penelope piscou, aturdida.

– O que disse?

– Deve ser uma mudança de ritmo impressionante.

– Sim, mas uma mudança muito bem-vinda – retrucou Penelope, cautelosamente.

– Claro, claro. Deve ter muito tempo livre agora. Imagino que mal saiba o que fazer com o tempo livre.

Penelope começou a sentir um formigamento se espalhar pelo corpo.

– Não entendi o que quer dizer – falou.

– Não?

Ao ver que Cressida esperava uma resposta, Penelope disse, um tanto irritada:

– Não, não entendi.

Cressida ficou em silêncio por um instante, mas seu ar de gata perigosa era bastante expressivo. Varreu a sala com os olhos e se deteu na escrivaninha à qual Penelope estivera sentada.

– O que são aqueles papéis? – indagou.

Penelope olhou no mesmo instante para as folhas empilhadas debaixo do diário de Colin. Não havia nenhuma forma de Cressida saber que se tratava de algo especial. Penelope já estava sentada no sofá quando ela entrara no aposento.

– Não vejo como os meus documentos pessoais poderiam ser da sua conta –

disse.

– Ora, não se ofenda – retrucou Cressida, com uma risadinha que Penelope achou apavorante. – Estava apenas puxando conversa. Tentando saber das coisas que lhe interessam, por educação.

– Compreendo – falou Penelope, apenas para preencher o silêncio que se seguiu.

– Sou muito observadora – continuou Cressida.

Penelope ergueu as sobrancelhas interrogativamente.

– Na verdade, meus aguçados poderes de observação são muito famosos entre os melhores membros da alta sociedade.

– Eu não devo fazer parte desse grupo, então – murmurou Penelope.

Mas Cressida estava envolvida demais com o próprio discurso para ouvir o comentário de Penelope.

– E foi por isso – prosseguiu, com uma expressão pensativa – que achei que talvez fosse capaz de convencer a alta sociedade de que eu era Lady Whistledown.

O coração de Penelope batia forte.

– Então você admite que não é ela? – indagou, com cautela.

– Ora, eu acho que você sabe que não sou.

Penelope começou a ficar sem ar. De alguma forma – ela jamais saberia como

–, conseguiu manter a compostura e perguntar:

– Como disse?

Cressida sorriu, mas de maneira sonsa e cruel.

– Quando inventei essa história, pensei que não tinha nada a perder. Ou convenceria todo mundo de que era Lady Whistledown ou ninguém iria acreditar em mim e eu pareceria muito astuta quando dissesse que só estava fingindo ser ela para fazer o verdadeiro culpado se revelar.

Penelope não movia um só músculo.

– Mas as coisas não aconteceram como eu planejei. Lady Whistledown acabou sendo bem mais perversa e cruel do que eu teria imaginado. – Cressida estreitou os olhos até que o seu rosto, sempre tão encantador, assumisse uma expressão sinistra. – A última coluna que ela escreveu me transformou em alvo do ridículo.

Penelope ficou em silêncio, mal conseguindo respirar.

– Então... – continuou Cressida, baixando a voz até que ela se tornasse um sussurro. – Então você... você teve a desfaçatez de me insultar na frente de toda a

alta sociedade .

Penelope deixou escapar um pequeno suspiro de alívio. Talvez Cressida não soubesse o seu segredo. Talvez tudo aquilo tivesse relação com o fato de ela ter sido insultada por Penelope em público, que a acusara de mentir e dissera... Por Deus, o que fora mesmo que dissera? Algo muito cruel, disso tinha certeza, mas sem dúvida merecido.

– Talvez eu tivesse conseguido tolerar o insulto se tivesse vindo de outra pessoa – prosseguiu Cressida. – Mas de alguém como você... Bem, isso não podia ficar sem resposta.

– Você deveria pensar duas vezes antes de me ofender dentro da minha casa –

avisou Penelope, em voz baixa. Então acrescentou, embora detestasse usar o nome do marido para se proteger: – E eu sou uma Bridgerton agora. Carrego o peso de sua proteção.

A advertência de Penelope não teve o menor efeito sobre a máscara de satisfação que moldava o lindo rosto de Cressida.

– Eu acho melhor você ouvir o que eu tenho a dizer antes de fazer ameaças.

Penelope sabia que tinha de escutar. Era mais importante descobrir o que Cressida sabia do que fingir que estava tudo bem.

– Continue – falou.

– Você cometeu um erro essencial – afirmou Cressida, balançando o indicador na direção de Penelope. – Esqueceu que eu jamais perdoo um insulto, não foi?

– O que está tentando dizer, Cressida?

Penelope queria que as palavras saíssem num tom forte e decidido, mas elas foram apenas sussurros.

Cressida se levantou e se afastou bem devagar de Penelope, os quadris num leve balanço, quase um rebolado.

– Deixe-me ver se consigo lembrar as suas palavras exatas – continuou ela, batendo com um dos dedos na face. – Ah, não, não precisa me ajudar. Tenho certeza de que recordarei. Ah, sim! – Ela se virou para encarar Penelope. – Creio que tenha dito que sempre gostara de Lady Whistledown. Então, e aqui eu devo lhe dar o crédito devido, pois foi uma frase evocativa e memorável, você falou que o seu coração ficaria partido se ela acabasse sendo alguém como eu –

concluiu Cressida, sorrindo.

Penelope sentiu a boca ficar seca, seus dedos começarem a tremer e seu corpo ficar gelado.

Porque, embora não se lembrasse exatamente do que dissera ao desmascarar Cressida, recordava muito bem o que escrevera naquela última e derradeira

coluna – a que fora distribuída, por engano, no seu baile de noivado. A que... a que Cressida agora estendia bem à sua frente.

Senhoras e senhores, esta autora NÃO É Lady Cressida Twombley. Ela nada mais é do que uma impostora intrigueira, e meu coração ficaria partido ao ver anos do trabalho árduo serem atribuídos a alguém como ela.

Penelope olhou fixamente para as palavras, embora soubesse cada uma delas de cor.

– O que quer dizer? – perguntou, apesar de ter plena consciência de que a tentativa de fingir inocência seria inútil.

– Você é mais inteligente do que isso, Penelope Featherington – respondeu Cressida. – Você sabe que eu sei.

Penelope fitou a folha de papel incriminadora, incapaz de desviar os olhos daquelas palavras fatais:

Meu coração ficaria partido.

Meu coração ficaria partido.

Meu coração ficaria partido.

Meu coração...

– Não vai dizer nada? – provocou Cressida, e apesar de Penelope não estar olhando para ela, pôde sentir o sorriso rancoroso e arrogante.

– Ninguém vai acreditar em você.

– Eu mesma mal posso acreditar – retrucou Cressida. – Você, dentre todas as pessoas. Mas, pelo visto, você era um pouco mais esperta e profunda do que deixava transparecer. Esperta o suficiente – acrescentou enfaticamente – para saber que, uma vez que eu acender a fagulha desse boato, a notícia vai se espalhar como fogo em palha.

Penelope sentiu a mente rodar de forma vertiginosa e desagradável. Ah, Deus, o que diria a Colin? Como haveria de lhe contar? Sabia que tinha de fazê-lo, mas onde encontraria as palavras?

– No início ninguém vai acreditar – falou Cressida. – Quanto a isso, você tem razão. Mas logo todos começarão a pensar e aos poucos as peças do quebra-cabeça se encaixarão. Alguém lembrará que lhe disse alguma coisa que foi parar na coluna. Ou que você esteve em determinada festa na casa de tal pessoa. Ou que viram Eloise Bridgerton xeretando por aí, e será que todos não sabem que vocês contam tudo uma para a outra?

– O que você quer? – perguntou Penelope, a voz baixa e assustada, quando finalmente ergueu a cabeça para enfrentar a inimiga.

– Ah, eis a pergunta que eu estava esperando. – Cressida juntou as mãos atrás das costas e começou a caminhar de um lado para outro. – Venho pensando muito no assunto. Na verdade, protelei a minha visita em quase uma semana até tomar uma decisão.

Penelope engoliu em seco, desconfortável com a ideia de Cressida saber seu segredo mais íntimo havia quase uma semana enquanto ela continuava vivendo alegremente sua vida, sem saber que o céu estava prestes a desabar sobre sua cabeça.

– Eu sabia desde o início, é claro, que queria dinheiro – continuou Cressida. –

Mas a questão era: quanto? Seu marido é um Bridgerton, então é evidente que tem recursos suficientes, mas, por outro lado, é um dos filhos mais novos, de modo que não tem os bolsos tão cheios quanto o visconde.

– Quanto, Cressida? – disse Penelope, entre os dentes.

Sabia que Cressida estava estendendo o assunto só para torturá-la e tinha pouca esperança de que ela falasse um valor antes de estar pronta para fazê-lo.

– Aí, eu me dei conta – prosseguiu Cressida, ignorando a pergunta (e provando o que Penelope imaginara) – que você também deve ser bastante rica.

A não ser que seja uma tola completa, e considerando o seu sucesso em esconder esse segredinho por tanto tempo, repensei minha opinião a seu respeito e agora acho que você não é nenhuma idiota. Portanto, só pode ter ganhado uma fortuna escrevendo a coluna por todos esses anos. E, levando em conta as aparências –

ela olhou com deboche para o vestido vespertino de Penelope –, não a vem gastando. Assim, só posso deduzir que todo o dinheiro esteja escondido numa discreta continha bancária, apenas aguardando ser sacado.

– Quanto, Cressida?

– Dez mil libras.

Penelope sufocou um grito.

– Você é louca!

– Não. – Cressida sorriu. – Apenas muito, muito esperta.

– Eu não tenho dez mil libras.

– Acho que está mentindo.

– Posso lhe assegurar que não estou!

E, de fato, não estava. A última vez que Penelope verificara o seu saldo bancário, tinha 8.246 libras, embora imaginasse que, com os juros, essa quantia tivesse aumentado um pouco desde então. Era uma soma enorme, sem dúvida, o suficiente para qualquer pessoa viver com conforto por várias gerações, mas não eram dez mil libras, e não era nada que ela desejasse entregar de mão beijada a

Cressida Twombley.

Cressida sorriu serenamente.

– Tenho certeza que descobrirá o que fazer. Entre o dinheiro que tem guardado e o do seu marido, dez mil libras são uma soma insignificante.

– Dez mil libras nunca são uma soma insignificante.

– De quanto tempo precisa para juntar os recursos? – perguntou Cressida, ignorando a explosão de Penelope. – De um dia? Dois?

– Dois dias? – ecoou Penelope, boquiaberta. – Não conseguiria nem mesmo em duas semanas!

– Arrá! Então tem o dinheiro.