Os Segredos de Colin Bridgerton

Julia Quinn · Capítulo 12 de 30

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Os Segredos de Colin Bridgerton

Capítulo 10

Essa ironia possivelmente era, refletiu ele, o único vestígio de luz num dia que estava sendo um desastre completo.

CAPÍTULO 10

Caro leitor,

É com o coração surpreendentemente comovido que escrevo estas palavras. Após onze anos narrando os acontecimentos na vida da alta sociedade, esta autora está deixando de lado a sua pena.

Muito embora o desafio de Lady Danbury tenha, sem dúvida, contribuído para a aposentadoria, a culpa não pode recair (por completo) sobre os ombros da condessa. A coluna vem se tornando maçante nos últimos tempos, gerando menos satisfação em escrever e, talvez, ficando menos divertida de ler. Esta autora precisa de uma mudança. Não é algo tão difícil assim de imaginar. Onze anos é muito tempo.

E, na verdade, a recente renovação de interesse pela identidade desta autora tem se mostrado perturbadora. Amigos se viram contra amigos, irmãos contra irmãs, tudo isso numa tentativa fútil de desvendar um segredo insolúvel. Além do mais, essa brincadeira de detetive promovida pela alta sociedade está se tornando claramente perigosa.

Na semana passada foi o tornozelo torcido de Lady Blackwood; esta semana a lesão, ao que parece, acometeu Hyacinth Bridgerton, que sofreu um ferimento leve na festa de sábado, realizada na residência londrina dos Riverdales. (Não escapou à atenção desta autora que lorde Riverdale venha a ser sobrinho de Lady Danbury.) A Srta. Hyacinth deve ter suspeitado de algum presente, pois se machucou ao cair para dentro da biblioteca quando a porta foi aberta, sendo que ela se encontrava com o ouvido colado à madeira.

Conversas sendo escutadas atrás de portas, perseguição a entregadores... E esses são apenas os detalhes que alcançaram os ouvidos desta autora! A que ponto chegou a sociedade londrina? Esta autora pode lhe assegurar, caro leitor, que jamais ouviu atrás de porta alguma ao longo de seus onze anos de carreira. Todos os boatos desta coluna foram de proveniência legítima, sem ferramentas ou artimanhas além dos olhos e dos ouvidos.

Au revoir, Londres! Foi um prazer servi-la.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN, 19 DE ABRIL DE 1824

Não foi surpresa alguma o fato de a coluna ter sido o assunto do baile Macclesfield.

– Lady Whistledown se aposentou!

– Dá para acreditar?

– O que vou ler no desjejum?

– Como vou saber o que aconteceu se eu perder uma festa?

– Agora nunca mais saberemos quem ela é!

– Lady Whistledown se aposentou!

Uma mulher desmaiou, quase batendo a cabeça na quina de uma mesa em seu caminho deselegante até o chão. Ao que parecia, não lera a coluna daquela manhã, ouvindo a notícia pela primeira vez bem ali, no baile. Foi reanimada com sais aromáticos, mas logo perdeu os sentidos outra vez.

– É uma fingida – murmurou Hyacinth Bridgerton para Felicity Featherington no pequeno grupo formado, além delas, pela viúva Lady Bridgerton e Penelope.

Esta última comparecera ao baile, oficialmente, como acompanhante de Felicity devido à decisão da mãe de permanecer em casa por um problema de estômago.

– O primeiro desmaio foi verdadeiro – continuou Hyacinth. – Qualquer um pode ver isso pela maneira desajeitada como ela caiu. Mas isto... – Fez um movimento rápido com a mão em direção à moça no chão, numa demonstração de repulsa. – Ninguém desmaia como uma bailarina. Nem mesmo as bailarinas.

Penelope ouviu a conversa inteira, uma vez que Hyacinth se encontrava a seu lado, à esquerda. Mantendo os olhos o tempo todo na pobre mulher, que agora voltava a si agitando os cílios delicadamente enquanto alguém passava, mais uma vez, os sais aromáticos abaixo de suas narinas, Penelope murmurou:

– Você já desmaiou alguma vez?

– De forma alguma! – exclamou Hyacinth com muito orgulho. – Desmaios são para os fracos de coração e para os tolos – acrescentou. – E se Lady Whistledown ainda estivesse na ativa, podem escrever o que digo, afirmaria exatamente a mesma coisa na próxima coluna.

– Ah, meu Deus! Não há mais palavras para serem escritas – comentou Felicity, com um suspiro triste.

Lady Bridgerton concordou.

– É o fim de uma era – disse. – Sinto-me um tanto perdida sem ela.

– Bem, não faz tanto tempo assim que estamos sem ela – comentou Penelope, sem conseguir resistir. – Recebemos uma coluna esta manhã. Por que se sente perdida?

– É o princípio da coisa – retrucou Lady Bridgerton com um suspiro. – Se esta fosse uma segunda-feira como outra qualquer, eu saberia que iria receber um novo relatório na quarta-feira. Mas agora...

Felicity chegou a fungar.

– Agora estamos perdidas – completou.

Penelope virou-se para a irmã, incrédula.

– Está sendo um pouco melodramática, não?

Felicity deu de ombros exageradamente, de forma teatral.

– Estou? Estou?

Hyacinth lhe deu um solidário tapinha nas costas.

– Não acho que esteja, Felicity. Sinto-me da mesma forma.

– É só uma coluna de mexericos – argumentou Penelope, olhando à volta em busca de algum sinal de sanidade entre as companheiras.

Não era possível que achassem que o mundo iria acabar só porque Lady Whistledown decidira pôr fim à sua carreira.

– Você tem razão, é claro – concordou Lady Bridgerton projetando o queixo para a frente e franzindo os lábios num gesto provavelmente destinado a transmitir um ar de praticidade. – Obrigada por ser a voz da razão em nosso pequeno grupo. – Mas, em seguida, pareceu desanimar um pouco e disse: – No entanto, tenho de admitir que já havia me acostumado a tê-la por perto. Seja lá quem for.

Penelope decidiu que já passava do momento de mudar de assunto.

– Eloise não veio?

– Estava indisposta, eu sinto dizer. Dor de cabeça – explicou Lady Bridgerton, com rugas de preocupação preenchendo o rosto que, de outra forma, tinha a pele bem lisa. – Não se sente bem há quase uma semana. Estou começando a ficar preocupada.

Penelope tinha o olhar fixo em uma arandela na parede, mas voltou a atenção imediatamente a Lady Bridgerton.

– Não é nada sério, eu espero.

– Não, não é – respondeu Hyacinth antes mesmo que a mãe conseguisse abrir a boca. – Eloise nunca adoece.

– E é por isso mesmo que estou preocupada – observou Lady Bridgerton. –

Ela não tem comido muito bem.

– Não é verdade – retrucou Hyacinth. – Esta tarde mesmo, Wickham lhe levou uma bandeja bem farta. Tinha bolinhos e ovos, e acho que senti o cheiro de presunto. – Ela lançou um olhar irônico a ninguém em especial. – E quando ela deixou a bandeja de volta no corredor, estava vazia.

Hyacinth, decidiu Penelope, tinha um olho surpreendentemente bom para detalhes.

– Ela tem andado de mau humor desde que brigou com Colin – continuou Hyacinth.

– Ela brigou com Colin? – perguntou Penelope, com uma péssima sensação começando a lhe revirar o estômago. – Quando?

– Na semana passada – respondeu Hyacinth.

EM QUE DIA? , Penelope quis gritar, mas com certeza seria estranho querer saber esse detalhe. Teria sido na sexta-feira? Será?

Ela sempre lembraria que seu primeiro, e talvez único beijo, acontecera numa sexta-feira.

Tinha esse estranho hábito. Sempre recordava os dias da semana em que as coisas tinham ocorrido.

Conhecera Colin numa segunda-feira e o beijara numa sexta. Doze anos depois.

Deixou escapar um suspiro. Aquilo lhe pareceu um tanto patético.

– Há algo de errado, Penelope? – perguntou Lady Bridgerton.

Ela olhou para a mãe de Eloise. Seus olhos azuis transmitiam gentileza e preocupação, e algo na maneira como inclinou a cabeça para o lado fez Penelope querer chorar. Andava muito emotiva. Chorando por um mero inclinar de cabeça...

– Estou bem – respondeu, esperando que seu sorriso parecesse sincero. – Só fiquei preocupada com Eloise.

Hyacinth resfolegou.

Penelope decidiu que precisava escapulir dali. Todos aqueles Bridgertons –

bem, pelos menos duas delas – estavam levando-a a pensar em Colin ininterruptamente.

Não era nada que ela não tivesse feito a cada minuto nos últimos três dias.

Mas, pelo menos, havia sido em particular, podendo suspirar, gemer e resmungar quanto quisesse.

Aquela devia ser a sua noite de sorte, pois, bem naquele instante, ouviu Lady Danbury ladrar o seu nome.

(O que estava acontecendo com o mundo para ela se considerar uma pessoa sortuda por se ver presa num canto com a língua mais ácida de Londres?) O fato é que Lady Danbury lhe daria a desculpa perfeita para se afastar de seu grupo, e, além do mais, ela começava a se dar conta de que, de uma forma muito estranha, gostava mesmo de Lady Danbury.

– Srta. Featherington! Srta. Featherington!

Felicity imediatamente deu um passo para o lado.

– Acho que ela está se referindo a você – sussurrou, com urgência. – É claro que está se referindo a mim – disse Penelope, com um leve toque de superioridade. – Considero Lady Danbury uma amiga querida.

Felicity arregalou tanto os olhos que eles quase saltaram do rosto.

– Considera?

– Srta. Featherington! – repetiu Lady Danbury, batendo com a bengala a dois centímetros do pé de Penelope assim que a alcançou. – Não você – falou para Felicity, embora a garota não tivesse feito nada além de sorrir educadamente à aproximação da condessa. – Você – exclamou, dirigindo-se a Penelope.

– Errr... Boa noite, Lady Danbury – cumprimentou Penelope, o que considerou um admirável número de palavras, tendo em vista as circunstâncias.

– Passei a noite toda à sua procura – anunciou a velha senhora.

Penelope achou aquilo um tanto surpreendente.

– É mesmo?

– Sim, quero conversar com você sobre a última coluna da tal Lady Whistledown.

– Comigo?

– Sim, com você – resmungou Lady Danbury. – Não me importaria de conversar com outra pessoa se você me fizesse o favor de encontrar alguém com mais do que meio cérebro.

Penelope engasgou no início de uma risada enquanto fazia um sinal para suas companheiras.

– Hã... Posso lhe garantir que Lady Bridgerton...

Violet estava balançando a cabeça furiosamente.

– Ela está ocupada demais em casar aquela prole gigantesca que tem –

retrucou Lady Danbury. – Não dá para esperar que consiga ter uma conversa decente hoje em dia.

Penelope lançou um olhar rápido para Lady Bridgerton, para ver se tinha ficado ofendida com o insulto – afinal, havia uma década que tentava casar a sua prole gigantesca. Mas Violet não parecia nem um pouco incomodada. Na

verdade, parecia estar prendendo o riso.

Prendendo o riso e se afastando pouco a pouco, levando Hyacinth e Felicity consigo.

Eram traidoras e furtivas, as três!

Bem, mas Penelope não podia se queixar. Afinal, tinha mesmo desejado escapar das Bridgertons, não tinha? Só não gostava muito da sensação de Felicity e Hyacinth terem achado que haviam, de alguma forma, dado um golpe nela.

– Elas se foram! – comemorou Lady Danbury. – Ótimo. Nem juntas aquelas duas conseguem dizer algo inteligente.

– Ora, isso não é verdade – protestou Penelope. – Tanto Felicity quanto Hyacinth são muito inteligentes.

– Eu nunca falei que não são espertas – devolveu Lady Danbury, ácida. – Só comentei que não têm nada inteligente a dizer. Mas não se preocupe –

acrescentou, dando-lhe um tranquilizador (tranquilizador? Quem já tinha visto, alguma vez que fosse, Lady Danbury fazer qualquer coisa tranquilizadora?) tapinha no braço. – Elas não têm culpa. Isso há de mudar. As pessoas são como vinhos. Se começam boas, só fazem melhorar com a idade.

Na verdade, nesse momento Penelope estava olhando discretamente por cima do ombro direito de Lady Danbury na direção de um homem que achou que pudesse ser Colin (mas que não era), porém o comentário da velha senhora atraiu de novo a sua atenção.

– Bons vinhos? – ecoou Penelope.

– Humpf. E eu aqui pensando que você não estava ouvindo.

– Não, é claro que estava. – Penelope sentiu os lábios esboçarem algo que não era exatamente um sorriso. – Eu só me... distraí.

– Procurando aquele rapaz Bridgerton, sem dúvida.

Penelope arfou.

– Ora, não fique tão chocada – falou Lady Danbury. – Está estampado no seu rosto. Só me surpreende o fato de ele não ter notado.

– Imagino que tenha, sim – murmurou Penelope.

– Será? Humpf. – Lady Danbury franziu a testa, os cantos da boca virados para baixo, formando duas longas rugas que desciam até as laterais do queixo. –

Se não fez nada a respeito, isso não diz boa coisa sobre ele.

Penelope sentiu um aperto no coração. Havia algo estranhamente doce na fé que a velha senhora depositava nela, como se homens como Colin se apaixonassem por mulheres como ela com frequência. Por Deus, Penelope tivera

de lhe implorar para beijá-la. E veja só como aquilo havia terminado. Ele deixara a casa dela furioso e não se falavam havia três dias.

– Bem, não se preocupe com ele – disse Lady Danbury de repente. – Vamos encontrar outro para você.

Penelope pigarreou com delicadeza.

– Lady Danbury, a senhora fez de mim o seu projeto?

A senhorinha ficou radiante, abrindo um sorriso brilhante e fulguroso em meio ao rosto enrugado.

– É claro! Fico surpresa por ter levado tanto tempo para descobrir.

– Mas por quê? – perguntou Penelope, verdadeiramente incapaz de compreender.

Lady Danbury deixou escapar um suspiro. O som não era triste; estava mais para pensativo.

– Importa-se de nos sentarmos um pouco? Estes velhos ossos já não são o que foram um dia.

– É claro que não – retrucou Penelope depressa, sentindo-se péssima por não levado em consideração a idade de Lady Danbury nem mesmo uma vez enquanto estavam naquele salão de baile abafado.

Mas a condessa era tão vibrante que era difícil imaginá-la adoentada ou fraca.

– Pronto – disse Penelope, tomando-a pelo braço e conduzindo-a até uma poltrona próxima. Quando a velha senhora estava acomodada, Penelope sentou-se ao seu lado. – Está mais confortável agora? Quer alguma coisa para beber?

Lady Danbury assentiu, grata, e Penelope fez um sinal para que um criado lhes trouxesse dois copos de limonada, uma vez que não queria deixar a condessa sozinha parecendo tão pálida.

– Já não sou mais tão jovem como fui um dia – comentou Lady Danbury assim que o lacaio partiu apressado em direção à mesa de bebidas.

– Nenhum de nós é – respondeu Penelope.

Poderia ter soado como um comentário insolente, mas foi pronunciado com ternura e, de alguma forma, a jovem imaginou que Lady Danbury apreciaria o sentimento.

E estava certa. A velha senhora riu baixinho e lançou um olhar de admiração para Penelope antes de dizer:

– Quanto mais velha eu fico, mais me dou conta de quão tola é a maioria das pessoas.

– A senhora só está descobrindo isto agora? – retrucou Penelope, não com a intenção de zombar, mas porque, considerando o comportamento usual de Lady

Danbury, era difícil crer que não tivesse chegado a essa conclusão anos antes.

Lady Danbury gargalhou.

– Não, às vezes acho que já sabia disso antes mesmo de nascer. O que estou percebendo agora é que é hora de fazer algo a esse respeito.

– Como assim?

– Não me importo com o que aconteça com os tolos deste mundo, mas pessoas como você... – Na falta de um lenço, ela secou os olhos com os dedos. – Bem, eu gostaria de vê-la encaminhada.

Por vários segundos, Penelope se limitou a fitá-la.

– Lady Danbury – falou enfim, com cautela –, aprecio muito o seu gesto... e o sentimento... mas a senhora sabe que não sou de sua responsabilidade.

– É claro que sei – zombou Lady Danbury. – Não tenha medo, não me sinto responsável por você. Se sentisse, isso não seria tão divertido.

Penelope sabia que estava parecendo uma tola completa, mas a única coisa que conseguiu pensar em dizer foi:

– Não entendi.

Lady Danbury permaneceu em silêncio enquanto o criado retornava com a limonada, então, após tomar alguns pequenos goles, continuou:

– Gosto de você, Srta. Featherington. Não gosto de muita gente. É simples assim. E quero vê-la feliz.

– Mas eu sou feliz – retrucou Penelope, mais por reflexo do que por qualquer outra coisa.

Lady Danbury ergueu uma sobrancelha arrogante, expressão que dominava à perfeição.

– É mesmo? – murmurou.

Ela era? O que significava o fato de ela ter de parar para pensar na resposta?

Não era infeliz, disso tinha certeza. Tinha amigos maravilhosos, uma confidente na irmã mais nova, Felicity, e mesmo que a mãe e as irmãs mais velhas não fossem mulheres que teria escolhido como amigas íntimas... bem, ainda assim as amava. E sabia que elas também a amavam.

Sua vida não era tão ruim assim. Faltavam-lhe emoção e entusiasmo, mas estava satisfeita.

Embora satisfação não fosse o mesmo que felicidade. Penelope sentiu uma dor aguda, uma punhalada no peito, ao se dar conta de que não tinha como responder à pergunta carinhosamente feita por Lady Danbury de maneira afirmativa.

– Eu já criei a minha família – começou Lady Danbury. – Quatro filhos, todos bem casados. Já encontrei uma noiva até para o meu sobrinho, de quem, verdade

seja dita – ela inclinou o corpo para a frente e sussurrou estas três últimas palavras, dando a impressão de que iria revelar um segredo de Estado –, gosto mais do que dos meus próprios filhos.

Penelope não pôde deixar de sorrir. Lady Danbury lhe pareceu tão furtiva, tão travessa... Foi bastante gracioso, na verdade.

– Isso pode surpreendê-la – continuou a velha senhora –, mas sou um pouco intrometida por natureza.

Penelope manteve a expressão escrupulosamente séria.

– Sinto como se ainda tivesse projetos por finalizar – declarou Lady Danbury, erguendo as mãos como em sinal de rendição. – Gostaria de ver uma última pessoa feliz e bem estabelecida antes de partir.

– Não fale desse jeito, Lady Danbury – pediu Penelope, estendendo a mão num impulso para pegar a dela. Deu-lhe um pequeno apertão. – Vai sobreviver a nós todos, tenho certeza.

– Pfff, não seja boba. – Mesmo que seu tom de voz refutasse o que Penelope dissera, Lady Danbury não fez a menor menção de retirar a mão da dela. – Não estou sendo depressiva – acrescentou. – Apenas realista. Já passei dos 70 anos, e não vou lhe contar há quantos anos isso aconteceu. Não me sobra muito tempo neste mundo e isso não me incomoda nem um pouco.

Penelope esperava ser capaz de enfrentar a própria finitude com a mesma tranquilidade.

– Mas gosto de você. Você me lembra a mim mesma. Não tem medo de falar o que pensa.

Penelope só pôde olhá-la, perplexa. Passara os últimos dez anos sem dizer exatamente o que desejava. Com as pessoas que conhecia bem, era aberta, franca e até mesmo um tanto engraçada, mas entre estranhos sua língua travava.

Lembrava-se de um baile de máscaras ao qual comparecera certa vez. Na verdade, já fora a diversos bailes de máscaras, mas aquele tinha sido único porque ela encontrara uma fantasia – nada de especial, apenas um vestido do século XVII – na qual sentira que sua identidade realmente ficara oculta. Talvez fosse a máscara. Era imensa e lhe cobria quase todo o rosto.

Sentira-se transformada. Livre, de repente, do peso de ser Penelope Featherington, percebeu uma nova personalidade aflorar. Não é que tivesse adotado um ar falso; na verdade, era como se o seu verdadeiro eu – aquele que ela não sabia mostrar a ninguém que não conhecesse bem – enfim tivesse se libertado.

Ela rira, fizera piadas. Até flertara.

E jurara que, na noite seguinte, quando as fantasias fossem guardadas e ela mais uma vez colocasse o seu mais belo vestido de noite, se lembraria de como ser ela mesma.

Mas isso não acontecera. Penelope chegara ao baile, cumprimentara as pessoas com um aceno de cabeça, sorrira com educação e, mais uma vez, ficara parada às margens do salão, sem que ninguém a visse e tirasse para dançar.

Ao que parecia, ser Penelope Featherington significava alguma coisa. Seu destino fora decidido anos antes, durante aquela primeira temporada terrível em que sua mãe insistira que ela debutasse, embora a jovem tivesse implorado pelo contrário. A menina gordinha. Desajeitada. A que sempre se vestia com cores que não lhe caíam bem. Não importava que tivesse emagrecido, se tornado graciosa e enfim jogado fora todos os vestidos amarelos. Naquele mundo – a alta sociedade londrina –, ela sempre seria a antiga Penelope Featherington.

A culpa era tão sua quanto de qualquer outra pessoa. Um círculo vicioso, na verdade. Cada vez que entrava num salão de baile e via aquelas pessoas que a conheciam havia tanto tempo, tinha a sensação de encolher, transformando-se na menina tímida e desajeitada de tantos anos antes, em vez de ser a mulher confiante na qual gostava de achar que tinha se transformado – pelo menos no coração.

– Srta. Featherington? – chamou Lady Danbury em uma voz baixa e surpreendentemente gentil. – Há algo errado?

Penelope teve consciência de que levou mais tempo do que devia para responder, mas precisou daqueles segundos a mais para encontrar a voz.

– Acho que não sei falar o que penso – confessou, por fim, virando-se para fitar Lady Danbury apenas ao pronunciar as últimas palavras: – Nunca sei o que dizer às pessoas.

– Você sabe o que dizer a mim.

– A senhora é diferente.

Lady Danbury atirou a cabeça para trás e gargalhou.

– Isso que é eufemismo... Ah, Penelope... Espero que não se importe que eu a chame pelo primeiro nome... Se você é capaz de dizer o que pensa para mim, é capaz de fazer isso com qualquer pessoa. Metade dos homens adultos que se encontram neste salão sai correndo para se esconder pelos cantos no instante em que me vê chegar.

– Eles só não a conhecem – retrucou Penelope, dando um tapinha carinhoso em sua mão.

– E tampouco conhecem você – observou Lady Danbury, sem rodeios.

– Não – concordou Penelope, com um toque de resignação na voz –, não conhecem.

– Eu diria que não sabem o que estão perdendo, mas isso seria muito arrogante da minha parte – disse a velha senhora. – Não em relação a eles, mas a você, porque, por mais que eu os chame de tolos, o que faço com bastante frequência, alguns são decentes, e é um crime que ainda não a conheçam... Hum, o que será que está acontecendo?

Sem saber por quê, Penelope se sentou com as costas um pouco mais eretas.

Perguntou a Lady Danbury:

– Como assim?

Mas estava claro que havia algo no ar. As pessoas sussurravam e faziam gestos em direção ao pequeno palco onde os músicos estavam sentados.

– Ei, você! – exclamou Lady Danbury, enfiando a bengala no quadril de um cavalheiro próximo. – O que está acontecendo?

– Cressida Twombley deseja anunciar alguma coisa – retrucou ele, afastando-se logo em seguida, presumivelmente para evitar qualquer outro diálogo com Lady Danbury ou com a bengala.

– Detesto Cressida Twombley – murmurou Penelope.

Lady Danbury se engasgou com uma risada.

– E você alega que não sabe dizer o que pensa. Não me deixe curiosa. Por que a detesta?

Penelope deu de ombros.

– Sempre se portou muito mal comigo.

Lady Danbury assentiu, com conhecimento de causa.

– Todo valentão tem uma vítima preferida.

– Hoje em dia não é mais tão ruim – disse Penelope. – Mas na época em que éramos debutantes, quando ela ainda era Cressida Cowper, não resistia a nenhuma chance de me atormentar. E as pessoas... bem... – Ela balançou a cabeça. – Deixe para lá.

– Não, por favor, continue – pediu Lady Danbury.

Penelope suspirou.

– Não é nada, sério. É só que eu já notei que muitas vezes as pessoas não fazem questão de defender as outras. Cressida era popular, pelo menos com um determinado grupo, e era temível para as outras meninas da nossa idade.

Ninguém ousava ir contra ela. Bem, quase ninguém.

Isso chamou a atenção de Lady Danbury e ela sorriu.

– Quem foi a sua protetora, Penelope?

– Pretetores, na verdade. Os Bridgertons sempre saíam em minha defesa.

Certa vez, Anthony lhe deu um corte e me levou para jantar. – A voz dela foi ficando mais aguda enquanto recordava o entusiasmo da ocasião. – Ele realmente não deveria ter feito aquilo. Era um jantar formal, e ele deveria ter servido de companhia para alguma marquesa, creio eu. – Ela suspirou, relembrando o momento com carinho. – Foi encantador.

– Ele é um bom homem.

Penelope assentiu com a cabeça.

– A esposa dele me disse que foi o dia em que se apaixonou por ele. Quando o viu ser o meu herói.

Lady Danbury sorriu.

– E o Sr. Bridgerton mais jovem, alguma vez ele já correu em seu socorro?

– Colin? – Penelope nem mesmo esperou que Lady Danbury assentisse antes de acrescentar: – Já, embora nunca de maneira tão dramática. Mas devo dizer que, por mais agradável que seja o fato de os Bridgertons estarem sempre ao meu lado...

– Sim, Penelope?

A jovem suspirou outra vez. Aquela parecia ser uma noite para suspiros.

– Eu gostaria que não tivessem de me defender com tanta frequência. Eu deveria ser capaz de fazer isso sozinha. Ou, pelo menos, me comportar de maneira que não fosse necessária defesa alguma.

Lady Danbury deu um tapinha em sua mão.

– Acho que você se defende bem melhor do que imagina. E quanto a Cressida Twombley... – Lady Danbury fez uma careta de aversão. – Bem, ela teve o que mereceu, se você quer saber. Embora – acrescentou rispidamente – nunca ninguém tenha me perguntado nada.

Penelope não conseguiu conter a risadinha de desdém.

– Veja só a situação dela agora – continuou Lady Danbury, ácida. – Viúva e sem fortuna. Se casou com aquele devasso do Horace Twombley, que conseguiu fazer todo mundo acreditar que tinha dinheiro. Agora só restou a ela essa beleza desgastada.

A sinceridade fez Penelope comentar:

– Mas ainda é bastante atraente.

– Humpf. Para quem gosta de mulheres espalhafatosas. – Lady Danbury estreitou os olhos. – Eu a acho óbvia demais.

Penelope olhou em direção ao palco, onde Cressida aguardava, com enorme paciência, enquanto o salão se aquietava.

– Fico imaginando o que ela vai dizer.

– Nada que possa me interessar – retorquiu Lady Danbury. – Eu... Ah.

Ela parou e seus lábios se curvaram em uma estranha mistura de desaprovação e um meio sorriso.

– O que foi? – indagou Penelope.

Esticou o pescoço para seguir a linha de visão de Lady Danbury, mas um cavalheiro bastante corpulento bloqueava o caminho.

– O seu Sr. Bridgerton está se aproximando – falou Lady Danbury, o sorriso vencendo a carranca de desaprovação. – E parece bastante decidido.

Penelope imediatamente virou a cabeça.

– Pelo amor de Deus, menina, não olhe! – exclamou Lady Danbury, dando-lhe uma cotovelada no braço. – Ele vai saber que você está interessada.

– É provável que já saiba – murmurou Penelope.

E então ali estava ele, esplêndido, parado diante dela, mais parecendo um deus que tivesse se dignado a agraciar a terra com a sua presença.

– Lady Danbury – cumprimentou, fazendo uma reverência suave e graciosa. –

Srta. Featherington.

– Sr. Bridgerton – disse Lady Danbury –, que prazer em vê-lo.

Colin olhou para Penelope.

– Sr. Bridgerton – murmurou ela, sem saber o que mais acrescentar.

O que se dizia a um homem que se beijara recentemente? Penelope não tinha a menor experiência no assunto, disso não havia dúvida. Sem mencionar a complicação a mais de ele ter deixado a casa dela enfurecido depois do beijo.

– Eu gostaria de... – começou Colin, antes de parar e franzir a testa, olhando em direção ao tablado. – O que todos estão olhando?

– Cressida Twombley tem alguma declaração a fazer.

A expressão de Colin se transformou em uma careta de reprovação.

– Não consigo pensar em nada que ela tenha a dizer que me interesse ouvir –

murmurou.

Penelope não pôde deixar de sorrir. Cressida Twombley era considerada uma líder na sociedade, ou pelo menos o fora quando jovem e solteira, mas os Bridgertons jamais haviam gostado dela e, de alguma forma, isso sempre fizera Penelope se sentir melhor.

Naquele momento uma trombeta soou e o salão foi ficando em silêncio à medida que todos voltavam a atenção para o conde de Macclesfield, de pé no tablado ao lado de Cressida, mostrando-se levemente desconfortável com tanta atenção.

Penelope sorriu. Haviam lhe contado que o conde fora um verdadeiro devasso, mas hoje era um tipo intelectual e dedicado à família. No entanto, ainda era bonito o bastante para ser um devasso. Quase tão bonito quanto Colin.