Os Segredos de Colin Bridgerton
Capítulo 2
Anthony baixou os olhos para o jornal que se encontrava na escrivaninha.
– Está certo, talvez não essa, mas qualquer uma do ano passado – falou Colin.
– Fui classificado como encantador mais vezes do que Lady Danbury foi chamada de intrometida, e nós dois sabemos que isso é um feito e tanto.
– Encantador não quer necessariamente dizer feliz – comentou Anthony baixinho.
– Eu não tenho tempo para isto – murmurou Colin.
A porta nunca lhe parecera tão atraente.
– Se você estivesse mesmo feliz – insistiu Anthony –, não partiria a todo momento.
Colin fez uma pausa com a mão na maçaneta.
– Anthony, eu gosto de viajar.
– Sempre?
– Devo gostar, ou então não viajaria.
– Está aí a frase mais evasiva que já ouvi.
– E isto aqui... – retrucou Colin lançando um sorriso travesso para o irmão – é uma manobra evasiva.
– Colin!
Mas ele já deixara o aposento.
CAPÍTULO 2
Sempre foi moda entre a alta sociedade queixar-se do tédio, mas sem dúvida a safra de frequentadores de festas deste ano elevou o enfado a uma nova categoria. Não se pode dar dois passos em nenhum evento da sociedade por esses dias sem ouvir as expressões “terrivelmente tedioso” ou “desesperadamente banal”. Na verdade, esta autora foi até informada que Cressida Twombley garantiu que está convencida de que perecerá de enfado eterno se for forçada a comparecer a mais um musical ruim.
(Esta autora tem que concordar com Lady Twombley desta vez.
Apesar de a seleção de debutantes deste ano ser bastante agradável, não há uma única jovem dentre elas que seja uma musicista decente.) Se existe algum antídoto para a doença do tédio, com certeza será a festa de domingo na Casa Bridgerton. A família inteira irá se reunir com cerca de cem amigos próximos para comemorar o aniversário da viscondessa viúva.
É considerado indelicado mencionar a idade de uma dama, portanto esta autora não irá revelar quantos anos Lady Bridgerton celebrará.
Mas não se preocupem! Esta autora sabe!
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
9 DE ABRIL DE 1824
Solteirona era uma palavra que costumava invocar pânico ou pena, mas Penelope começava a perceber que havia muitas vantagens em seu estado civil.
Em primeiro lugar, ninguém esperava que as solteiras dançassem nos bailes, o que significava que ela não era mais forçada a ficar à beira da pista de dança, olhando para cá e para lá, fingindo que não queria ser convidada para uma dança. Agora podia ficar sentada nas laterais com as outras solteironas e acompanhantes. Ainda queria dançar, é claro – adorava fazer isso e dançava muito bem, embora ninguém notasse –, mas era bem mais fácil fingir desinteresse quando se estava mais distante dos casais valsistas.
Em segundo lugar, o número de horas de conversas maçantes diminuiu de maneira drástica. A Sra. Featherington desistira oficialmente da esperança de que a filha algum dia fisgasse um marido, portanto parara de atirá-la no caminho de todo e qualquer solteiro disponível do terceiro escalão. Portia jamais considerava, de fato, que Penelope tivesse qualquer chance de atrair um solteiro do primeiro ou do segundo escalão, o que talvez fosse verdade, mas a maioria dos solteiros de terceiro time era assim classificada por um motivo, que infelizmente era a personalidade, ou sua ausência. O que, combinado com a timidez de Penelope na presença de estranhos, não levava a uma conversa muito espirituosa.
E, por fim, ela podia voltar a comer. Era de enlouquecer, considerando a quantidade de comida em geral exposta nas festas da alta sociedade, mas o fato era que jovens à caça de um marido deviam demonstrar o apetite no máximo de um passarinho. Essa, pensava Penelope com alegria (enquanto mordia a melhor bomba de chocolate que já tinha existido fora da França) com certeza era a maior vantagem da solteirice.
– Meu Deus – gemeu ela.
Se o pecado assumisse uma forma sólida, sem dúvida seria a de um doce. De preferência feito de chocolate.
– Está bom assim, é?
Penelope se engasgou com a bomba e tossiu, cuspindo um fino borrifo de creme confeitado.
– Colin – ofegou, rezando com todas as forças para que as migalhas maiores tivessem desviado da orelha dele.
– Penelope. – Ele deu um sorriso carinhoso. – É bom vê-la.
– Igualmente.
Ele se balançou nos calcanhares para a frente e para trás uma, duas, três vezes, então disse:
– Você está com uma aparência ótima.
– Você também – retrucou ela, preocupada demais em encontrar um lugar onde pousar o doce para oferecer uma resposta mais elaborada.
– Bela roupa – elogiou ele, gesticulando em direção ao vestido de seda verde.
Ela deu um sorriso sem graça e explicou:
– Não é amarelo.
– De fato, não é.
Ele sorriu e o gelo foi quebrado. Foi estranho, pois era de se esperar que ela ficasse sem palavras com o homem que amava, mas havia algo em Colin que
deixava todo mundo à vontade.
Talvez, Penelope pensara em mais de uma ocasião, parte do motivo pelo qual ela o amava era o fato de ele a fazer sentir-se confortável consigo mesma.
– Eloise me contou que você se divertiu bastante no Chipre – comentou ela.
Ele sorriu.
– Como resistir ao local de nascimento de Afrodite, afinal?
Penelope também sorriu. O bom humor dele era contagiante, mesmo que a última coisa que desejasse fosse ter uma conversa sobre a deusa do amor.
– Faz sempre tanto sol quanto dizem? – perguntou. – Não, esqueça que lhe perguntei isso. Dá para perceber pelo seu bronzeado que sim.
– É, eu me queimei um pouco – concordou ele, assentindo com a cabeça. –
Minha mãe quase desmaiou quando me viu.
– De alegria, imagino – disse Penelope de forma enfática. – Ela morre de saudades quando você está fora.
Ele inclinou o corpo para a frente.
– Ora, Penelope, não vá começar você também. Minha mãe, Anthony, Eloise e Daphne já fazem com que eu me sinta bastante culpado.
– E Benedict, não?
Ela não conseguiu evitar o gracejo.
Ele lhe lançou um olhar divertido.
– Está viajando.
– Ah, bem, isso explica o seu silêncio.
Colin estreitou os olhos e cruzou os braços.
– Você sempre foi insolente, sabia?
– Eu disfarço bem – retrucou ela, modesta.
– É fácil perceber por que é tão próxima da minha irmã – comentou ele, seco.
– Isso deveria ser um elogio?
– Tenho quase certeza de que colocaria minha saúde em risco se a intenção tivesse sido outra.
Enquanto Penelope nutria a esperança de pensar numa resposta espirituosa, ouviu um barulho estranho de algo caindo. Olhou para baixo e descobriu que uma enorme bolota de creme despencara da bomba que ela não terminara de comer e aterrissara no imaculado chão de madeira. Ergueu a vista outra vez e deu com os olhos verdíssimos de Colin, cheios de humor, ainda que ele lutasse para manter uma expressão de seriedade.
– Nossa, que constrangedor... – disse Penelope, decidindo que a única forma de não morrer de vergonha era afirmar o óbvio.
– Eu sugiro – começou Colin, erguendo uma das sobrancelhas em um arco petulante – que deixemos a cena do crime.
Penelope olhou para a carcaça vazia da bomba, ainda em sua mão. Colin lhe respondeu acenando com a cabeça em direção a um vaso de planta próximo.
– Não! – exclamou ela, arregalando os olhos.
Ele inclinou o corpo para perto dela.
– Eu a desafio.
Penelope lançou um olhar da bomba à planta e de volta ao rosto de Colin.
– Eu não poderia.
– No que diz respeito a travessuras, essa é até leve.
Tratava-se de um desafio, e Penelope costumava ser imune a artimanhas infantis, mas era difícil resistir ao meio sorriso de Colin.
– Muito bem – retrucou ela, endireitando os ombros e enfiando o doce no vaso. Deu um passo para trás, examinou a obra, olhou à sua volta para verificar se alguém além de Colin a via, então se abaixou e girou o vaso de maneira de forma que um galho folhoso escondesse a evidência.
– Não achei que faria uma coisa dessas – brincou Colin.
– Como você mesmo disse, não é das piores travessuras.
– Não, mas é a palmeira preferida de minha mãe.
– Colin! – Penelope virou-se no mesmo instante, com a intenção de enfiar a mão no meio da planta e recuperar a bomba de chocolate. – Como pôde permitir que eu... Espere aí. – Ela se empertigou e observou melhor. – Isso não é uma palmeira.
Ele era a própria imagem da inocência.
– Não?
– É uma laranjeira em miniatura.
Ele piscou.
– É mesmo?
Ela o encarou, furiosa. Ou, pelo menos, esperava parecer furiosa. Era difícil fazer uma expressão raivosa para Colin Bridgerton. Até mesmo a mãe observara, certa vez, que era quase impossível repreendê-lo.
Ele apenas sorria com um ar de arrependimento, dizia algo engraçado e não dava mais para continuar zangado com ele. Simplesmente não dava.
– Você estava tentando fazer com que me sentisse culpada – acusou Penelope.
– Qualquer pessoa poderia confundir uma palmeira com uma laranjeira.
Ela controlou a vontade de revirar os olhos.
– A não ser pelas laranjas.
Ele mordeu o lábio inferior, com uma expressão pensativa.
– Hum, é verdade, seria de imaginar que fossem um indício revelador.
– Você é um péssimo mentiroso, sabia?
Ele endireitou o corpo e ajeitou o colete de leve enquanto erguia o queixo.
– Na verdade, sou um ótimo mentiroso. Mas sou bom mesmo em me mostrar apropriadamente envergonhado e adorável quando pego.
O que ela podia dizer depois daquilo? Porque sem dúvida não havia ninguém mais adoravelmente envergonhado (ou envergonhadamente adorável?) do que Colin Bridgerton com as mãos cruzadas para trás, os olhos vasculhando o teto e os lábios dando um assovio inocente.
– Quando você era pequeno, alguma vez foi castigado? – quis saber Penelope, mudando de assunto de repente.
Colin no mesmo instante se empertigou, prestando atenção.
– Como disse?
– Alguma vez foi castigado, quando criança? – repetiu ela. – É castigado hoje em dia?
Ele se limitou a fitá-la, imaginando se ela por acaso tinha alguma noção do que estava lhe perguntando. Era provável que não.
– Hã... – retrucou ele, em grande parte por não ter mais nada a dizer.
Ela deixou escapar um suspiro um pouco condescendente.
– Imaginei que não.
Se fosse um homem menos tolerante e aquela fosse qualquer pessoa que não Penelope Featherington, que ele sabia que não era nem um pouco maliciosa, talvez tivesse se ofendido. Mas ele era um sujeito muito tranquilo e aquela era Penelope Featherington, amiga leal de sua irmã só Deus sabia há quantos anos, então, em vez de assumir uma expressão dura e cínica (que, precisava admitir, jamais dominara), apenas sorriu e murmurou:
– O que quer dizer com isso?
– Não ache que tenho a intenção de criticar os seus pais – começou ela com ar inocente e zombeteiro ao mesmo tempo. – Eu jamais pensaria em sugerir que você foi mimado.
Ele assentiu, afável.
– É só que... – Ela inclinou o corpo para a frente, como se estivesse prestes a compartilhar um importante segredo – acredito que você poderia se safar de um homicídio se quisesse.
Ele tossiu – não para limpar a garganta ou porque não estivesse se sentindo bem, mas por ter ficado perplexo. Penelope era uma figura tão engraçada... Não,
não era exatamente isso. Ela era... surpreendente. Sim, isso parecia resumi-la.
Poucas pessoas a conheciam – sem dúvida ela não tinha a reputação de ser uma companhia agradável. Colin tinha quase certeza de que ela resistira a festas de três horas sem jamais dizer nada além de monossílabos.
Mas quando Penelope estava com alguém com quem se sentia confortável – e Colin se deu conta de que pelo jeito fazia parte desse grupo –, possuía um humor seco, um sorriso malicioso e evidências de uma inteligência admirável.
Não o surpreendia o fato de ela jamais ter atraído qualquer pretendente sério: não era nenhuma beldade, embora, analisando-a de perto, fosse mais atraente do que ele recordava. Os cabelos castanhos tinham um toque avermelhado, realçado pela luz tremeluzente das velas. E a pele era encantadora – daquele tom de pêssego e creme perfeito que muitas mulheres obtinham besuntando o rosto com arsênico.
Mas os atrativos de Penelope não eram do tipo que os homens costumavam notar. E seus modos tímidos e às vezes até mesmo vacilantes não serviam para exibir a sua personalidade.
Ainda assim, era uma pena que fosse tão pouco popular. Teria sido uma esposa perfeitamente adequada para alguém.
– Então, você dizia – refletiu ele, voltando a atenção ao assunto que discutiam
– que eu deveria considerar uma carreira no crime?
– Não, nada do gênero – respondeu ela, com um sorriso recatado. – Apenas que eu desconfio que você conseguiria usar a sua lábia para sair de qualquer tipo de situação. – Então, de forma inesperada, ela ficou séria e confessou baixinho: –
Eu invejo isso.
Colin se surpreendeu ao estender a mão e convidar:
– Penelope Featherington, acho que deveria dançar comigo.
Então, ela o surpreendeu ao rir e responder:
– É muito gentil da sua parte me convidar, mas não precisa mais fazer isso.
Ele sentiu o orgulho estranhamente ferido.
– Que diabo quer dizer com isso?
Ela deu de ombros.
– Agora é oficial. Eu sou uma solteirona. Não precisa mais dançar comigo só para que eu não me sinta excluída.
– Não era por isso que eu dançava com você – protestou Colin, embora soubesse que era esse o motivo exato.
E, metade das vezes, ele a convidara apenas porque a mãe o cutucara, com força, nas costas.
Ela o olhou com certa pena, o que o irritou, porque jamais se imaginou sendo objeto da piedade de Penelope Featherington.
– Se você acha – falou Colin, se empertigando – que eu vou permitir que se esquive de dançar comigo agora, só pode estar delirando.
– Não precisa dançar comigo só para provar que não se importa em fazê-lo –
garantiu ela.
– Eu quero dançar com você – retrucou ele, quase rosnando.
– Está bem – concordou ela, após uma pausa que pareceu longa demais. –
Creio que seria rude da minha parte recusar.
– Provavelmente foi rude da sua parte duvidar das minhas intenções –
comentou ele, dando-lhe o braço –, mas estou disposto a perdoá-la se você conseguir perdoar a si mesma.
Ela tropeçou, o que o fez sorrir.
– Acho que consigo – conseguiu dizer, mesmo que em meio a um engasgo.
– Ótimo. – Ele lhe ofereceu um sorriso afável. – Eu odiaria pensar em você tendo que conviver com a culpa.
A música acabara de começar, então Penelope lhe deu a mão e fez uma reverência ao iniciarem o minueto. Era difícil conversar enquanto dançavam, o que deu a ela alguns instantes para recuperar o fôlego e colocar as ideias em ordem.
Talvez tivesse sido um pouco dura com Colin. Não devia ter ralhado com ele por convidá-la para dançar quando a verdade era que aquelas danças estavam entre as suas lembranças mais queridas. Importava, de fato, que ele tivesse feito aquilo por pura pena? Teria sido pior se jamais a tivesse convidado.
Ela fez uma careta. Pior ainda: será que isso queria dizer que ela precisava se desculpar?
– A bomba de chocolate não estava boa? – indagou Colin quando o passo de dança fez com que se aproximassem.
Dez longos segundos se passaram antes que estivessem próximos o suficiente para ela poder perguntar:
– O que disse?
– Você está com uma expressão de quem comeu e não gostou – comentou ele, bem alto dessa vez, pois estava claro que perdera a paciência de esperar cada aproximação para que pudessem conversar.
Diversas pessoas os olharam, então se afastaram discretamente, como se Penelope pudesse passar mal e vomitar bem ali, no chão do salão de baile.
– Precisa gritar isso para o mundo inteiro ouvir? – sibilou Penelope.
– Sabe – começou ele, pensativo, inclinando-se numa elegante reverência enquanto a música chegava ao fim –, acho que esse foi o sussurro mais alto que já ouvi na vida.
Ele era insuportável, mas Penelope não ia dizê-lo porque só a faria parecer um personagem de romance ruim. Lera um apenas alguns dias antes no qual a heroína usava essa palavra (ou um de seus sinônimos) a cada duas páginas.
– Obrigada pela dança – falou ela, ao saírem da pista de baile.
Quase acrescentou: Agora pode dizer à sua mãe que cumpriu sua obrigação, mas logo refreou o impulso. Colin não fizera nada para merecer tanto sarcasmo.
Não era culpado do fato de os homens só a convidarem para dançar quando eram forçados pelas mães. Pelo menos ele sempre sorrira e fora agradável enquanto cumpria o seu dever, o que era bem mais do que se podia dizer sobre o resto da população masculina.
Ele assentiu educadamente e murmurou um agradecimento. Estavam prestes a se separar quando ouviram uma voz feminina:
– Sr. Bridgerton!
Ambos ficaram paralisados. Era uma voz que os dois conheciam. Que todos conheciam.
– Salve-me – gemeu Colin.
Penelope olhou por cima do ombro e viu a infame Lady Danbury abrindo caminho em meio aos convidados, que iam fazendo caretas de dor cada vez que sua onipresente bengala aterrissava sobre o pé de alguma mocinha infeliz.
– Quem sabe ela esteja se referindo a outro Sr. Bridgerton? – sugeriu Penelope. – Há vários de vocês presentes, afinal, e é possível...
– Eu lhe dou dez libras para não sair do meu lado – sugeriu Colin.
Penelope se engasgou com o ar.
– Não seja tolo, eu...
– Vinte.
– Feito! – concordou ela com um sorriso, não porque precisasse daquela quantia, mas por ser estranhamente divertido extorquir dinheiro de Colin. – Lady Danbury! – chamou, correndo para o lado da velha senhora. – Que prazer em vê-la.
– Ninguém jamais acha que é um prazer me ver – retrucou ela de forma brusca
–, a não ser, talvez, pelo meu sobrinho, e metade das vezes não estou bem certa disso. Mas obrigada por mentir.
Colin não disse nada, mas ela se virou em sua direção e bateu em sua perna com a bengala.
– Fez bem em escolher essa aqui para dançar – comentou. – Sempre gostei dela. É mais inteligente do que o restante da família todo junto.
Penelope abriu a boca para defender ao menos a irmã mais nova quando Lady Danbury latiu:
– Rá! – Depois de uma pausa de menos de um segundo, acrescentou: – Notei que nenhum dos dois me contradisse.
– É sempre um deleite vê-la, Lady Danbury – comentou Colin, dando-lhe o tipo de sorriso que talvez tivesse oferecido a uma cantora de ópera.
– Muito eloquente, este rapaz – disse Lady Danbury para Penelope. – Cuidado com ele.
– Isso quase nunca é necessário – retorquiu Penelope –, pois ele passa a maior parte do tempo fora do país.
– Viu só? – comemorou Lady Danbury. – Eu disse que ela era esperta.
– Note que eu não a contradisse – retrucou Colin, habilmente.
A velha senhora sorriu em aprovação.
– Não, mesmo. O senhor está ficando esperto na velhice, Sr. Bridgerton.
– Já foi dito que eu possuía alguma inteligência na juventude, também.
– Humpf. A palavra mais importante da frase sendo alguma, é claro.
Colin fitou Penelope pelos olhos estreitados. Ela parecia se segurar para não rir.
– Nós, mulheres, precisamos cuidar umas das outras – declarou Lady Danbury a ninguém em especial –, já que está muito claro que ninguém o fará por nós.
Colin decidiu que era, definitivamente, hora de partir.
– Acho que vi minha mãe – comentou.
– É impossível escapar – avisou Lady Danbury. – Nem se dê o trabalho. Além do mais, eu sei que você não viu sua mãe coisíssima alguma. Ela está ajudando uma desmiolada que rasgou a bainha do vestido. – Ela se virou para Penelope, que se esforçava tanto para controlar o riso que os olhos brilhavam com lágrimas não vertidas. – Quanto foi que ele lhe pagou para não deixá-lo a sós comigo?
Penelope simplesmente explodiu.
– Como? – arfou ela, tapando a boca com a mão, horrorizada.
– Não, não, pode falar – autorizou Colin, muito expansivo –, você já me foi tão útil mesmo...
– Não precisa me dar as vinte libras – disse ela.
– Eu não ia mesmo lhe dar.
– Apenas vinte libras? – indagou Lady Danbury. – Humpf. Imaginei valer pelo menos 25.
Colin deu de ombros.
– Sou o terceiro filho. Não tenho muito dinheiro, sinto informar.
– Ora! Os seus bolsos vivem sempre tão recheados quanto os de três condes, no mínimo – afirmou Lady Danbury. – Bem, talvez não condes – acrescentou, depois de pensar um pouco. – Mas alguns viscondes e a maioria dos barões, sem dúvida.
Colin deu um sorriso afável.
– Não é considerado indelicado falar sobre dinheiro na companhia de damas?
Lady Danbury deixou escapar um som que podia ser tanto uma respiração asmática quanto uma risada – Colin ficou sem saber qual –, então retrucou:
– É sempre indelicado perguntar sobre dinheiro, quer estejamos na companhia de damas ou de cavalheiros, mas, quando se tem a minha idade, pode-se fazer quase tudo o que se quer.
– Eu me pergunto o que uma pessoa não pode fazer na sua idade – refletiu Penelope.
Lady Danbury virou-se para ela.
– Como disse?
– A senhora comentou que se pode fazer quase tudo o que se quer.
Lady Danbury a fitou, incrédula, depois sorriu. Colin se deu conta de que também sorria.
– Gosto dela – observou a velha senhora dirigindo-se a ele, apontando para Penelope como se fosse alguma espécie de estátua à venda. – Eu já lhe falei que gosto dela?
– Creio que sim – murmurou ele.
Lady Danbury virou-se para Penelope e afirmou, com a expressão bastante séria:
– Creio que não seria capaz de evitar as consequências caso cometesse um homicídio, mas é tudo.
No mesmo instante, tanto Penelope quando Colin explodiram em ruidosas gargalhadas.
– O que foi? – indagou Lady Danbury. – O que há de tão engraçado?
– Nada – arfou Penelope.
Já Colin não conseguia dizer nem isso.
– Tem que ser alguma coisa – insistiu Lady Danbury. – E vou ficar aqui e azucrinar os dois a noite toda até me contarem o que foi. Podem acreditar quando lhes digo que não é o seu melhor plano de ação.
Penelope secou as lágrimas.
– É que eu acabo de dizer – começou a explicar, acenando com a cabeça na direção de Colin – que ele provavelmente conseguiria matar alguém e se safar.
– Foi mesmo? – Lady Danbury refletiu sobre aquilo, batendo com a bengala no chão de leve, da mesma forma que outra pessoa talvez coçasse o queixo ao pensar sobre uma questão de grande profundidade. – Acho que talvez esteja certa. Acho que Londres nunca conheceu um homem tão encantador.
Colin ergueu uma das sobrancelhas.
– Por que tenho a impressão de que a senhora não diz isso em tom de elogio, Lady Danbury?
– Mas é claro que é um elogio, seu cabeça de vento.
Colin se virou para Penelope
– Ao contrário disso, que foi, sem dúvida, um elogio.
Lady Danbury estava radiante.
– Preciso admitir – comentou (na verdade, garantiu com veemência) – que não me divirto tanto assim desde o início da temporada.
– É um prazer servi-la – disse Colin, com um sorriso sincero.
– Este ano tem sido especialmente sem graça, não acha? – perguntou ela a Penelope.
A jovem assentiu.
– O ano passado também foi um pouco entediante – completou.
– Mas não tanto quanto este – insistiu Lady Danbury.
– Não perguntem minha opinião – disse Colin com amabilidade. – Eu estava fora.
– Humpf. Suponho que vá afirmar que a sua ausência é o motivo pelo qual estivemos, todos, tão enfadados.
– Eu nem sonharia com uma coisa dessas – respondeu Colin, com um sorriso desconcertante. – Mas sem dúvida, se a ideia lhe passou pela cabeça, deve ter algum mérito.
– Humpf. Seja qual for o caso, estou entediada.
Colin olhou para Penelope, que parecia muito quieta – presumivelmente prendendo o riso.
– Haywood! – gritou Lady Danbury de repente, acenando para que um cavalheiro de meia-idade se aproximasse. – Não concorda comigo?
Uma vaga expressão de pânico atravessou o rosto de lorde Haywood e então, quando ficou claro que não tinha como escapar, ele disse:
– Eu tenho, como plano de ação, sempre concordar com a senhora.
Lady Danbury virou-se para Penelope e perguntou:
– Ando imaginando coisas ou os homens estão ficando mais sensatos?
A única resposta de Penelope foi um descompromissado dar de ombros. Colin decidiu que ela era, de fato, uma moça muito sábia.
Haywood, com seu rosto carnudo e seus olhos azuis, pigarreou e piscou sem parar.
– Hã... Com o que estou concordando, exatamente?
– Com o fato de que esta temporada está monótona – respondeu Penelope, solícita.
– Ah, Srta. Featherington – comentou Haywood, com certo gracejo na voz. –
Eu não a vi aí.
Colin a olhou de soslaio apenas o suficiente para perceber seus lábios formarem um pequeno sorriso de frustração.
– Bem aqui, ao seu lado – murmurou ela.
– Claro, claro – retrucou Hayword, de maneira jovial. – E, sim, a temporada está sendo terrivelmente enfadonha.
– Alguém disse que a temporada está chata?
Colin olhou para a direita. Outro homem e duas senhoras acabavam de se juntar ao grupo e concordavam de forma veemente.
– Um tédio – disse um dos integrantes do trio. – Um tédio completo.
– Eu nunca frequentei festas tão banais – anunciou uma das senhoras, com um suspiro afetado.
– Terei que informar o fato à minha mãe – comentou Colin, lacônico.
Estava entre os mais serenos dos homens, mas alguns insultos não dava para deixar passar.
– Ah, não esta – apressou-se em acrescentar a mulher. – Na verdade, este baile é o único raio de luz numa série de eventos escuros e desoladores. Inclusive, eu acabava de dizer a...
– Pare agora – ordenou Lady Danbury –, antes que engasgue com o próprio veneno.
A mulher obedeceu no mesmo instante.
– É estranho – murmurou Penelope.
– Ah, Srta. Featherington – comentou a mulher que acabava de discursar sobre eventos escuros e desoladores. – Eu não a tinha visto aí.
– O que é estranho? – perguntou Colin, antes que mais alguém dissesse a Penelope como a achava pouco interessante.
Ela lhe lançou um pequeno sorriso de gratidão antes de se explicar:
– É estranho que a sociedade pareça se divertir observando como anda se
divertindo pouco.
– Como? – indagou Haywood, parecendo confuso.
Penelope deu de ombros.
– Acredito que vocês todos estejam se divertindo bastante ao falar sobre quão entediados estão, só isso.
Seu comentário foi recebido com silêncio. Lorde Haywood continuou a se mostrar confuso e uma das senhoras parecia ter um grão de poeira no olho, pois não conseguia fazer mais nada além de piscar.
Colin não pôde evitar um sorriso. Não imaginara que a afirmação de Penelope fosse um conceito tão complicado assim de se entender.
– A única coisa interessante a se fazer é ler a coluna de Lady Whistledown –
observou a outra senhora, como se Penelope jamais tivesse se pronunciado.
O cavalheiro a seu lado murmurou sua concordância.
Então, Lady Danbury começou a sorrir.
Colin ficou alarmado. A velha senhora estava com um ar aterrorizante.
– Tive uma ideia – disse ela.
Alguém abafou um grito. Outra pessoa gemeu.
– Uma ideia brilhante – continuou.
– Não que suas ideias não sejam todas brilhantes – murmurou Colin em sua voz mais afável.
Lady Danbury o calou com um aceno de mão.
– Quantos grandes mistérios existem nesta vida?
Como ninguém respondeu, Colin fez uma tentativa:
– Quarenta e dois?
Ela nem se deu o trabalho de fuzilá-lo com os olhos.
– Eu lhes digo, aqui e agora...
Todos inclinaram-se para a frente. Até mesmo Colin. Era impossível não compartilhar do drama do momento.
– Vocês são minhas testemunhas...
Colin achou ter ouvido Penelope murmurar algo como “Vamos logo com isso”.
– Mil libras – declarou Lady Danbury.
A multidão que a cercava começou a crescer.
– Mil libras – repetiu ela, a voz ficando mais alta. Realmente, ela tinha um talento inato para o palco. – Mil libras.