Os Segredos de Colin Bridgerton

Julia Quinn · Capítulo 19 de 30

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Os Segredos de Colin Bridgerton

Capítulo 17

– O que está acontecendo? – quis saber Lady Danbury.

Dez meninos correram salão adentro – não eram mais do que moleques, na verdade – carregando maços de papéis e atirando-os para todos os lados como imensos confetes retangulares.

– A última coluna de Lady Whistledown! – gritaram eles. – Leiam agora!

Leiam a verdade.

CAPÍTULO 17

Colin Bridgerton era famoso por muitas coisas.

Primeiro pela beleza, o que não era surpresa alguma: todos os homens da família Bridgerton eram famosos por isso.

Era conhecido também pelo sorriso enviesado, capaz de derreter o coração de uma mulher do outro lado de um salão de baile abarrotado e que, certa vez, de fato, levara uma jovem a desmaiar e cair dura no chão. Na verdade, a fizera ficar tonta e, então, bater com a cabeça numa mesa, o que acabou tendo como consequência o desmaio.

Era famoso, além disso, por seu temperamento tranquilo, pela capacidade de deixar qualquer pessoa à vontade com um sorriso afável e um comentário divertido.

Ele não era famoso por ser genioso – na realidade, muita gente teria jurado que isso era mentira.

E naquela noite, devido ao seu notável (e, até então, inexplorado) autocontrole, ninguém haveria de conhecer essa sua característica, embora sua futura esposa talvez acordasse no dia seguinte com um sério hematoma.

– Colin – arfou ela, olhando para o local em que ele segurava o seu braço.

Mas ele não conseguia soltá-lo. Sabia que a machucara, mas estava tão furioso com ela naquele momento que, se não apertasse seu braço com toda a força, perderia a compostura na frente de quinhentos dos seus mais próximos e queridos conhecidos.

No fim das contas, acreditava estar fazendo a escolha certa.

Iria matá-la. Assim que descobrisse alguma forma de tirá-la daquele maldito salão de baile iria, simplesmente, matá-la. Haviam concordado que Lady Whistledown pertencia ao passado, que deixariam o assunto morrer. Não era para aquilo acontecer. Ela estava abrindo as portas para o desastre. Para a ruína.

– Isto é fabuloso! – exclamou Eloise, agarrando um jornal no ar. –

Sensacional! Aposto que ela deixou a aposentadoria de lado só para comemorar o seu noivado.

– Não seria simpático? – comentou Colin.

Penelope não respondeu, mas estava muito, muito pálida.

– Ah, meu Deus!

Colin se virou para a irmã, que ficava cada vez mais boquiaberta enquanto lia a coluna.

– Pegue um desses para mim, Bridgerton! – ordenou Lady Danbury, batendo na perna dele com a bengala. – Não acredito que ela tenha publicado num sábado. Essa coluna deve estar ótima.

Colin se abaixou e apanhou dois jornais do chão. Em seguida, entregou um a Lady Danbury e baixou a vista para o que ainda segurava, embora tivesse quase certeza do que leria.

Estava certo.

Não há nada que eu odeie mais do que um cavalheiro que acha divertido dar um tapinha condescendente na mão de uma senhora enquanto murmura “Uma mulher tem o direito de mudar de ideia”. E, de fato, como acredito que devemos respaldar nossas palavras com ações, me empenho para manter minhas opiniões e decisões firmes e verdadeiras.

É por isso, caro leitor, que, quando escrevi minha coluna de 19 de abril, realmente tinha a intenção de que fosse a última. No entanto, acontecimentos fora de meu controle (ou, na verdade, que não contam com a minha aprovação) me forçaram a levar a caneta ao papel uma última vez.

Senhoras e senhores, esta autora NÃO É Lady Cressida Twombley. Ela nada mais é do que uma impostora intrigueira, e meu coração ficaria partido ao ver anos do trabalho árduo serem atribuídos a alguém como ela.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,

24 DE ABRIL DE 1824

– Esta é a melhor coisa que eu já vi – exclamou Eloise, num sussurro alegre. –

Talvez eu seja, no fundo, uma pessoa ruim, porque nunca me senti tão feliz diante da ruína de alguém.

– Bobagem! – retrucou Lady Danbury. – Eu sei que não sou uma pessoa ruim e achei isto delicioso.

Colin ficou em silêncio. Não confiava na própria voz. Não confiava em si mesmo.

– Onde está Cressida? – perguntou Eloise, esticando o pescoço. – Alguém

consegue vê-la? Aposto que já fugiu. Deve estar morta de vergonha. Eu estaria, se fosse ela.

– Você jamais seria ela – comentou Lady Danbury. – É decente demais.

Penelope não disse nada.

– Ainda assim – acrescentou Eloise, em tom jovial –, quase dá para sentir pena dela.

– Mas só quase – completou Lady Danbury.

– Ah, sim. Um quase bem pequenininho.

Colin se limitou a ficar ali rangendo os dentes.

– E eu posso ficar com as minhas mil libras! – comemorou Lady Danbury.

– Penelope! – exclamou Eloise, cutucando-a com o cotovelo. – Você ainda não disse uma palavra. Não é maravilhoso?

Penelope fez que sim e respondeu:

– Nem acredito.

Colin apertou o seu braço ainda mais.

– Lá vem o seu irmão – sussurrou ela.

Ele olhou para a direita. Anthony caminhava em sua direção com Violet e Kate logo atrás de si.

– Bem, isso certamente nos deixa em segundo plano – disse ele, parando ao lado de Colin. Cumprimentou as senhoras com um aceno da cabeça. – Eloise, Penelope, Lady Danbury.

– Acho que ninguém vai escutar o brinde de Anthony agora – comentou Violet, olhando em volta.

O burburinho era incessante. As pessoas escorregavam nos jornais que haviam aterrissado no chão sem ninguém tê-los pegado. O falatório era quase irritante, e Colin tinha a sensação de que sua cabeça iria explodir.

Tinha de escapar dali o mais rápido possível.

Sentia o corpo inteiro arder. Parecia paixão, mas na verdade era fúria, ultraje, um sentimento horrível por ter sido traído pela única pessoa que deveria ter ficado ao seu lado sem perguntas.

Era estranho. Sabia que o segredo era de Penelope, e que era ela quem mais tinha a perder. Aquilo tinha a ver com ela, não com ele. Sabia disso racionalmente, pelo menos. Mas, de alguma forma, isso deixara de ter importância. Agora os dois formavam um time, e ela havia agido sem ele.

Não tinha o menor direito de se colocar em posição tão delicada sem consultá-lo primeiro. Colin era seu marido, ou ia ser, e tinha o dever divino de protegê-la, quer ela o desejasse ou não.

– Colin? – ouviu a mãe dizer. – Você está bem? Parece um pouco estranho.

– Faça o brinde – pediu ele, virando-se para Anthony. – Penelope não está se sentindo bem e eu preciso levá-la para casa.

– Você não está se sentindo bem? – perguntou Eloise a Penelope. – O que há?

Por que não comentou nada?

Ela conseguiu pronunciar uma desculpa bastante verossímil:

– Um pouco de dor de cabeça, eu sinto dizer.

– Isso, isso, Anthony – concordou Violet. – Vá em frente, faça o brinde para que Colin e Penelope possam dançar logo a valsa. Ela realmente não pode ir embora antes disso.

Anthony assentiu, então fez um gesto para que o irmão e a futura cunhada o seguissem até a frente do salão de baile. Um trompetista fez um guincho agudo com o instrumento, sinalizando para que os convidados fizessem silêncio. Todos obedeceram, talvez por achar que a declaração seria sobre Lady Whistledown.

– Senhoras e senhores – começou Anthony, bem alto, pegando uma taça de champanhe da bandeja de um criado. – Compreendo que todos estejam intrigados com a mais recente intrusão de Lady Whistledown em nossa festa, mas peço que se lembrem do que nos levou a nos reunir aqui esta noite.

Era para ser um momento perfeito, pensou Colin. Era para ser a noite de triunfo de Penelope, a sua noite para brilhar, para mostrar ao mundo quão linda, encantadora e inteligente era.

Devia ser a noite dele também, o momento de tornar suas intenções verdadeiramente públicas, de dizer a todos que a escolhera e, tão importante quanto, que ela o escolhera.

No entanto, a única coisa que ele queria naquele momento era pegá-la pelos ombros e chacoalhá-la até não ter mais força. Ela estava colocando tudo em risco. Estava colocando o próprio futuro em risco.

– Como o chefe da família Bridgerton – continuou Anthony –, sinto grande alegria quando um de meus irmãos escolhe uma noiva. Ou noivo – acrescentou com um sorriso, fazendo um sinal com a cabeça na direção de Daphne e Simon.

Colin olhou para Penelope. Ela estava parada com a coluna muito reta, em seu vestido de cetim azul. Não sorria, o que deve ter parecido muito estranho às centenas de convidados que a fitavam. Mas, talvez, apenas achassem que era nervosismo. Afinal, qualquer pessoa estaria nervosa com tanta gente a encarando.

Se qualquer um estivesse de pé bem ao lado dela, porém, como Colin estava, veria o pânico em seus olhos, o peito subindo e descendo rápido enquanto a

respiração se tornava mais acelerada e entrecortada.

Ela estava com medo.

Ótimo. Devia mesmo estar com medo. Com medo do que poderia acontecer com ela se seu segredo fosse revelado. Com medo do que iria acontecer assim que ela e Colin tivessem a oportunidade de conversar.

– Assim, é com grande prazer que ergo minha taça ao meu irmão Colin e sua futura esposa, Penelope Featherington. A Colin e Penelope! – concluiu Anthony.

Colin baixou os olhos para a própria mão e se deu conta de que alguém colocara uma taça de champanhe nela. Ergueu-a na direção dos lábios, mas pensou melhor e, em vez disso, levou-a aos lábios de Penelope. A multidão gritou alucinada e então ele a observou tomar um gole, depois outro, em seguida outro, sendo forçada a continuar bebendo até que ele afastasse a taça de sua boca, o que só fez quando ela terminou.

Quando Colin se deu conta de que aquela exibição infantil de poder o deixara sem bebida, da qual precisava desesperadamente, pegou a taça de Penelope de sua mão e a virou num único gole.

A multidão gritou ainda mais alto.

Ele se abaixou e sussurrou em seu ouvido:

– Agora vamos dançar até o resto dos convidados se juntar a nós e não sermos mais o centro das atenções. Então, vamos lá para fora. E aí vamos conversar.

Penelope moveu o queixo de forma quase imperceptível para assentir.

Colin pegou a mão dela e a conduziu até a pista de dança, colocando a outra mão em sua cintura enquanto a orquestra começava a tocar os primeiros acordes de uma valsa.

– Colin – sussurrou ela. – Não foi minha intenção que isso acontecesse.

Ele deu um sorriso forçado. Afinal, aquela era a primeira dança oficial com sua prometida.

– Agora não – ordenou.

– Mas...

– Daqui a dez minutos, eu terei muitas coisas para lhe dizer, mas por enquanto vamos apenas dançar.

– Eu só queria dizer...

Ele apertou ainda mais a mão dela, num inquestionável aviso. Penelope franziu os lábios e fitou o rosto dele por um breve instante, então afastou o olhar.

– Eu deveria estar sorrindo – sussurrou.

– Então faça isso.

– Você deveria estar sorrindo.

– Tem razão – disse ele. – Deveria.

Mas ele não sorriu.

Penelope teve vontade de chorar, mas de alguma forma conseguiu se manter impassível. O mundo inteiro estava olhando – o mundo inteiro dela, pelo menos

–, e ela sabia que todos examinavam cada um de seus gestos, atentos a cada expressão que seu rosto assumia.

Ela passara anos tendo a sensação de ser invisível e odiando aquilo. Agora, daria qualquer coisa por alguns instantes de anonimato outra vez.

Não, não qualquer coisa. Não teria aberto mão de Colin. Se tê-lo para si significava passar o resto da vida sob o escrutínio da alta sociedade, então tudo bem. E, se fazia parte do casamento ter de tolerar a sua raiva e o seu desdém num momento como aquele, tudo bem também.

Sabia que ele ficaria furioso com ela por publicar uma última coluna. Estivera apavorada durante todo o tempo que passara na igreja de St. Bride (assim como durante a viagem de ida e de volta), certa de que ele apareceria diante dela a qualquer instante cancelando o casamento porque não podia tolerar a ideia de se casar com uma pessoa que todos saberiam ser Lady Whistledown.

Mas Penelope fora em frente ainda assim.

Tinha consciência de que ele achava que ela estava cometendo um erro, mas simplesmente não podia permitir que Cressida Twombley levasse o crédito pela obra de sua vida. Seria pedir muito que Colin ao menos tentasse enxergar a situação de seu ponto de vista? Teria sido bastante difícil deixar que qualquer pessoa fingisse ser Lady Whistledown, mas Cressida era insuportável. Penelope aguentara desaforos demais da parte dela.

Além disso, sabia que Colin jamais romperia o noivado quando este se tornasse público. Essa era parte da razão pela qual ela instruíra o tipógrafo a distribuir os jornais na segunda-feira, no baile dos Mottrams. Bem, isso e o fato de lhe parecer muito errado fazê-lo durante o próprio baile de noivado, sobretudo quando Colin tinha se oposto de forma tão veemente à ideia.

Maldito Sr. Lacey! Sem dúvida ele fizera aquilo para maximizar a circulação e a exposição. Aprendera bastante sobre a alta sociedade lendo o Whistledown para saber que o baile de noivado de um Bridgerton seria o evento mais cobiçado da temporada. Por que aquilo seria importante, Penelope não sabia, já que o interesse pelo jornal não significaria mais dinheiro em seu bolso. A coluna estava terminada de verdade, e nem Penelope nem o Sr. Lacey receberiam um único centavo pela sua publicação.

A não ser...

Penelope franziu a testa e deixou escapar um suspiro. O Sr. Lacey devia ter esperança de que ela mudasse de ideia.

Sentiu a mão de Colin apertar ainda mais a sua cintura e ergueu a vista outra vez. Ele a encarou com os olhos surpreendentemente verdes mesmo à luz de velas. Ou talvez fosse o fato de ela saber que eram tão verdes. Devia ter pensado que na penumbra eles seriam cor de esmeralda.

Ele fez um gesto na direção dos outros convidados na pista de dança, agora repleta.

– Hora de fugirmos – disse ele.

Penelope assentiu. Já haviam dito à família dele que ela não se sentia bem e que queria ir para casa, então ninguém desconfiaria por terem partido tão cedo.

E, embora não fosse exatamente aconselhável que os dois ficassem sozinhos na carruagem dele, às vezes as regras eram mais flexíveis quando se tratava de casais já noivos, sobretudo em noites tão românticas.

Ela deixou escapar uma risada ridícula e cheia de pânico. A noite ia acabar por ser a menos romântica de toda a sua vida.

Colin olhou para ela com uma sobrancelha erguida em uma expressão de dúvida.

– Não é nada – disse Penelope.

Ele apertou a sua mão, embora de forma nada afetuosa.

– Eu quero saber – falou.

Ela deu de ombros, resignada. Não havia nada que pudesse fazer ou dizer que tornasse a noite pior.

– Só estava pensando que era para ter sido uma noite romântica.

– Podia ter sido – disse ele, cruelmente.

Ele soltou a cintura dela, mas continuou segurando a outra mão, tomando-lhe os dedos com delicadeza de forma a avançar com ela por entre a multidão até atravessarem as portas francesas que levavam ao terraço.

– Aqui, não – sussurrou Penelope, olhando com ansiedade em direção ao salão de baile.

Ele nem se deu o trabalho de responder, e puxou-a cada vez mais para dentro da escuridão. Depois de um rápido olhar para se certificar de que não havia ninguém por perto, Colin abriu uma pequena e discreta porta lateral.

– O que é isto? – perguntou Penelope.

Ele continuou em silêncio, limitando-se a conduzi-la para o interior do corredor escuro.

– Suba – falou finalmente, indicando-lhe os degraus.

Penelope não sabia se devia ficar assustada ou entusiasmada, mas subiu as escadas ainda assim, ciente da impetuosa presença de Colin às suas costas.

Depois de vários lanços, ele passou à sua frente, abriu uma porta e olhou para dentro do corredor que levava aos aposentos particulares da família, como agora Penelope se dava conta. Estava vazio, então ele a puxou atrás de si até chegarem a um quarto onde ela jamais entrara.

O quarto dele. Penelope sempre soubera onde ficava. Durante todos os anos em que visitara Eloise, nunca fizera mais do que correr os dedos pela madeira pesada da porta. Já fazia anos que Colin se mudara, mas a mãe insistira em manter o quarto. Segundo Violet, nunca se sabia quando o filho poderia precisar dele, e ela provara ter razão no começo daquela temporada, quando Colin voltara do Chipre sem ter uma casa alugada.

Ele abriu a porta com um empurrão e a puxou para dentro depois de entrar. O

quarto estava escuro e ela não via por onde andava, até que de repente percebeu que ele se encontrava bem à sua frente e parou.

Colin tocou os seus braços para ajudá-la a firmar o corpo. Em seguida, em vez de soltá-la, a abraçou no escuro. Na verdade, não foi exatamente um abraço, mas o corpo dele estava encostado por inteiro no dela. Penelope não via nada, mas podia senti-lo, assim como a seu perfume, e ouvir a sua respiração acariciando-lhe a face de leve.

Era agonia.

Era êxtase.

Colin deslizou as mãos devagar pelos seus braços nus, provocando-a, e então, de repente, se afastou.

Em seguida... silêncio.

Penelope não soube ao certo o que esperar. Que ele gritasse com ela, que a repreendesse, que a mandasse se explicar.

Mas ele não fez nada disso. Só ficou ali em pé, no escuro, forçando-a, com seu silêncio, a dizer alguma coisa.

– Você poderia... poderia acender uma vela? – pediu ela, por fim.

– Não gosta da escuridão? – perguntou ele, demorando-se em casa sílaba.

– Não agora. Não desta forma.

– Compreendo – murmurou ele. – Está dizendo, então, que talvez gostasse se fosse assim?

De repente os dedos dele estavam sobre a sua pele, percorrendo a beirada do corpete.

No momento seguinte, não estavam mais.

– Não faça isso – pediu ela, com a voz trêmula.

– Não quer que eu a toque? – A voz dele era zombeteira, e Penelope ficou satisfeita por não poder ver seu rosto. – Mas você é minha, não é?

– Ainda não.

– Ah, é, sim. Você se certificou disso. O timing foi bastante inteligente, na verdade. Esperar até o nosso baile de noivado para fazer o seu comunicado final.

Você sabia que eu não queria que publicasse aquela última coluna. Eu proibi!

Nós concordamos...

– Nós nunca concordamos!

Ele ignorou a explosão dela.

– Você esperou até...

– Nós nunca concordamos! – bradou Penelope outra vez, precisando deixar claro que jamais voltara atrás na sua palavra. Não importava o que tivesse feito, ela não mentira para ele. Bem, era verdade que tinha mantido o Whistledown em segredo por mais de dez anos, mas sem dúvida Colin não fora o único a ser enganado nessa farsa. – E, sim – admitiu ela, porque não lhe pareceu certo começar a mentir agora. – Eu sabia que você não terminaria o noivado. Mas eu esperava...

A voz ficou embargada e ela não conseguiu prosseguir.

– Esperava o quê? – indagou Colin.

– Que você me perdoasse – sussurrou ela. – Ou, ao menos, que compreendesse. Sempre achei que fosse o tipo de homem que...

– Que tipo de homem? – perguntou ele.

– A culpa foi minha, na verdade – disse ela, soando cansada e triste. –

Coloquei-o num pedestal. Sempre foi tão bondoso durante todos esses anos...

Acho que eu o imaginava incapaz de agir de outra forma.

– E que diabo eu fiz que não tenha sido bondoso? – exigiu ele. – Eu a protegi, pedi a sua mão em casamento, eu...

– Você não tentou enxergar a situação do meu ponto de vista – interrompeu ela.

– Porque você está agindo como uma idiota! – exclamou ele, quase rugindo.

Fez-se silêncio depois disso, o tipo de silêncio que irrita os ouvidos, que corrói a alma.

– Não consigo imaginar o que mais possa ser dito – retrucou Penelope, finalmente.

Colin desviou o olhar, sem saber por quê – não conseguia enxergá-la no escuro, de qualquer forma. Mas havia algo no tom de voz dela que o inquietava.

Soava vulnerável, cansada. Desejosa e de coração partido. Fazia com que ele quisesse compreendê-la, ou que ao menos tentasse, embora soubesse que ela cometera um erro terrível. Cada vez que a voz dela embargava, a fúria dele se dissipava mais um pouco. Continuava zangado, mas, de alguma forma, perdera o ímpeto de demonstrá-lo.

– Você vai ser descoberta, sabia? – falou, com a voz baixa e controlada. –

Humilhou Cressida, e sem dúvida ela está furiosa neste momento. Não sossegará até desmascarar a verdadeira Lady Whistledown.

Penelope se afastou; ele ouviu o farfalhar de seu vestido.

– Cressida não é inteligente o suficiente para me descobrir. Além do mais, não vou escrever nenhuma outra coluna, então não haverá outra oportunidade de cometer algum erro e revelar alguma coisa. – Depois de um instante em silêncio, ela acrescentou: – Eu lhe prometo isso.

– É tarde demais – disse ele.

– Não é tarde – protestou ela. – Ninguém sabe! Ninguém além de você, que tem tanta vergonha de mim que eu não consigo suportar.

– Ora, pelo amor de Deus, Penelope. Não sinto vergonha alguma de você.

– Poderia acender uma vela, por favor?

Colin atravessou o quarto e tateou dentro de uma gaveta em busca de uma vela.

– Eu não sinto vergonha de você – reiterou –, mas acho, sim, que está agindo como uma tola.

– Talvez você tenha razão, mas preciso fazer o que acho certo.

– Você não está pensando direito – disse ele, ignorando o argumento dela.

Então se virou para olhá-la enquanto acendia uma vela. – Esqueça, se puder, embora eu não consiga, o que acontecerá com a sua reputação se descobrirem sua outra identidade. Esqueça que as pessoas a destruirão, que falarão mal de você pelas costas.

– Não vale a pena se preocupar com gente assim – retrucou Penelope com as costas completamente eretas.

– Talvez não – concedeu ele, cruzando os braços e a fitando. – Mas haverá de doer. Você não vai gostar, Penelope. E eu também não vou.

Ela começou a engolir em seco sem parar. Ótimo. Talvez aquilo tudo estivesse começando a entrar em sua cabeça.

– Mas esqueça isso tudo – continuou ele. – Você passou a última década insultando as pessoas. Ofendendo-as.

– Eu escrevi muitas coisas agradáveis, também – protestou ela, os olhos

escuros brilhando com lágrimas não vertidas.

– Sim, mas não são essas as pessoas com as quais terá de se preocupar. Estou falando das que estão furiosas, das que foram insultadas. – Ele deu um passo à frente e a segurou pelos braços. – Penelope, haverá gente desejando machucá-la.

As palavras eram para ela, mas acabaram ferindo o coração dele.

Colin tentou imaginar a vida sem ela. Era impossível.

Apenas algumas semanas antes ela fora... O quê? Uma amiga? Uma conhecida? Alguém que ele via, mas que nunca notara de verdade?

E, agora, era sua noiva. Em breve seria sua esposa. Talvez... talvez fosse algo mais do que isso. Algo mais profundo. Algo ainda mais precioso.

– O que eu quero saber – recomeçou ele, forçando-se a se concentrar no tema principal de modo que a própria mente não divagasse por caminhos tão perigosos – é por que você não aproveitou o álibi perfeito se o objetivo é permanecer anônima.

– Porque o objetivo não é permanecer anônima! – exclamou ela, quase gritando.

– Você quer ser descoberta? – indagou ele, perplexo.

– Não, é claro que não – respondeu ela. – Mas esse é o meu trabalho. É a obra da minha vida. É o que tenho como símbolo de toda uma existência, e se não posso levar o crédito por isso, ninguém mais vai.

Colin abriu a boca para retrucar, mas, para a própria surpresa, não tinha nada a dizer. Obra da minha vida. Penelope tinha uma obra.

Ele, não.

Talvez ela não pudesse assinar a obra, mas, sozinha em seu quarto, podia olhar os exemplares antigos do jornal, apontar para eles e dizer a si mesma: É

isto. É assim que tem sido a minha vida.

– Colin? – sussurrou ela, claramente alarmada com o silêncio dele.

Ela era maravilhosa. Ele não sabia como não havia se dado conta disso antes, quando já sabia que era inteligente, encantadora, espirituosa e talentosa. Mas todos esses adjetivos, assim como um monte de outros nos quais ainda nem havia pensado, não davam a verdadeira medida do que ela era.

Era maravilhosa.

E ele estava... Por Deus, estava com inveja dela.

– Vou embora – disse Penelope, baixinho, virando-se e se dirigindo à porta.

Por um instante, ele não reagiu. A mente continuava girando em meio a tantas revelações. Mas, quando viu a mão dela na maçaneta, soube que não podia deixá-la partir. Não naquela noite, nem em nenhuma outra.

– Não – pediu, com a voz rouca, aproximando-se dela em três passos largos. –

Não – repetiu. – Quero que fique.

Ela ergueu a vista para olhá-lo, confusa.

– Mas você disse...

Ele tomou o seu rosto ternamente nas mãos.

– Esqueça o que eu disse.

E foi então que ele se deu conta de que Daphne estava certa. O seu amor não tinha sido como um raio caído do céu. Começara com um sorriso, com uma palavra, com um olhar zombeteiro. A cada segundo que passara na companhia dela, crescera até chegarem àquele momento, e de repente ele soube.

Ele a amava.

Ainda estava furioso com ela por ter publicado aquela última coluna e tinha vergonha de si mesmo por estar com inveja dela por ter encontrado sua obra e seu objetivo de vida, mas, mesmo com tudo isso, ele a amava.