Os Segredos de Colin Bridgerton

Julia Quinn · Capítulo 10 de 30

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Os Segredos de Colin Bridgerton

Capítulo 8

– Não, não estou – garantiu Penelope, rindo. – Realmente não estou.

– Sabe do que você está precisando? – indagou Colin.

– Eu? – indagou Eloise.

Ele assentiu.

– De um marido.

– Você é tão mau quanto a mamãe!

– Eu poderia ser bem pior, se quisesse.

– Não tenho a menor dúvida disso – devolveu Eloise.

– Parem, parem! – pediu Penelope, rindo muito a essa altura.

Os dois olharam para ela em expectativa, como se perguntassem: e agora?

– Estou tão satisfeita por ter vindo esta noite... – disse ela, as palavras saindo da boca a despeito de sua vontade. – Não consigo me lembrar de uma noite mais agradável do que esta. Sinceramente, não consigo.

Muitas horas depois, enquanto Colin fitava o teto do quarto de seu novo apartamento em Bloomsbury, ocorreu-lhe que se sentia exatamente da mesma forma.

CAPÍTULO 8

Colin Bridgerton e Penelope Featherington foram vistos conversando no sarau Smythe-Smith, embora ninguém saiba dizer, ao certo, o que discutiam. Esta autora se arriscaria a dizer que a conversa girava em torno da identidade desta, uma vez que todos pareciam estar falando sobre isso antes, depois e (um tanto grosseiramente, na estimada opinião desta coluna) durante a apresentação.

Outras notícias: o violino de Honoria Smythe-Smith foi danificado quando Lady Danbury o atirou de cima da mesa, sem querer, enquanto agitava a bengala.

Lady Danbury insistiu em comprar outro para substituir, mas então declarou que não tem o hábito de comprar nada que não seja do melhor, assim, Honoria terá um violino Ruggieri, importado de Cremona, na Itália.

No entendimento desta autora, somando-se o tempo de fabricação, de envio, além da longa lista de espera, levará uns seis meses para que o violino chegue até nós.

CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,

16 DE ABRIL DE 1824

Há momentos na vida de uma mulher em que seu coração dá uma cambalhota no peito, em que o mundo parece atipicamente cor-de-rosa e perfeito, em que uma sinfonia pode ser ouvida no toque de uma campainha.

Penelope Featherington vivenciou esse momento dois dias após o sarau Smythe-Smith.

Só foi preciso uma batida à porta de seu quarto, seguida da voz do mordomo, lhe informando:

– O Sr. Colin Bridgerton está aqui para vê-la.

No mesmo instante, ela caiu da cama. Briarly, que trabalhava para a família Featherington havia tempo suficiente para nem mesmo piscar diante da falta de graça de Penelope, murmurou:

– Devo dizer a ele que a senhorita não está?

– Não! – Penelope praticamente guinchou, e se colocou de pé aos tropeços. –

Quer dizer, não – acrescentou num tom mais suave. – Mas vou precisar de dez minutos para me arrumar. – Ela olhou para o espelho e estremeceu diante da aparência desgrenhada. – Quinze.

– Como desejar, Srta. Penelope.

– Ah, e por favor prepare uma bandeja com quitutes. O Sr. Bridgerton deve estar com fome. Ele está sempre com fome.

O mordomo assentiu outra vez.

Penelope ficou imóvel enquanto Briarly se retirava, então, completamente incapaz de se conter, começou a dançar pulando de um pé para o outro, emitindo um som estranho que mais parecia um ganido e que tinha certeza – ou pelo menos esperava – que jamais produzira.

Também, não conseguia se lembrar da última vez em que um cavalheiro a visitara, muito menos um pelo qual estivesse tão apaixonada havia quase metade da vida.

– Acalme-se – disse ela, espalmando as mãos e fazendo um gesto muito parecido com o que usaria para conter uma pequena e ingovernável multidão. –

Você precisa permanecer calma. Calma – repetiu, como se isso fosse, de fato, resolver alguma coisa. – Calma.

Mas, por dentro, seu coração dançava.

Respirou fundo algumas vezes, foi até a penteadeira e pegou a escova. Só levaria alguns instantes para prender os cabelos outra vez. Sem dúvida Colin não iria fugir se ela o deixasse aguardando por algum tempo. Ele devia esperar que ela levasse alguns minutos para se arrumar, não?

Ainda assim, ajeitou os cabelos em tempo recorde e, ao entrar na sala de visitas, apenas cinco minutos haviam transcorrido desde o anúncio do mordomo.

– Que rapidez – observou Colin, com um sorriso maroto.

Ele estava de pé ao lado da janela, olhando para a Rua Mount, e se virou quando ela apareceu.

– Ah, você acha? – disse Penelope, esperando que o calor que sentia na pele não estivesse se traduzindo num rubor.

Uma mulher devia manter um cavalheiro esperando, embora não por muito tempo. Ainda assim, não fazia sentido ter esse tipo de comportamento logo com Colin. Ele jamais se interessaria por ela de forma romântica, e, além do mais, eram amigos.

Amigos. Parecia um conceito tão estranho e, no entanto, era isso que eram.

Sempre haviam sido conhecidos que se tratavam com familiaridade, mas, desde que Colin voltara do Chipre, tinham se tornado amigos.

Era mágico.

Mesmo que ele jamais a amasse – e ela achava que isso não aconteceria –, aquilo era melhor do que o que tinham antes.

– A que devo o prazer? – perguntou Penelope, sentando-se no sofá de tecido adamascado amarelo levemente desbotado da mãe.

Colin acomodou-se de frente para ela numa cadeira de espaldar reto bastante desconfortável. Inclinou o corpo para a frente, apoiou as mãos nos joelhos e Penelope soube, no mesmo instante, que havia algo errado. Aquela não era a pose adotada por um cavalheiro numa visita social. Ele lhe pareceu perturbado demais, intenso demais.

– É bastante sério – disse ele, o rosto soturno.

Penelope quase se levantou.

– Aconteceu alguma coisa? Alguém adoeceu?

– Não, não, nada do tipo. – Colin fez uma longa pausa, expirou profundamente, então passou as mãos pelos cabelos desalinhados. – É sobre Eloise.

– O que é?

– Não sei como dizer isto... Tem algo para comer?

Penelope teve vontade de torcer o pescoço dele.

– Pelo amor de Deus, Colin!

– Me desculpe. É que não comi nada o dia todo.

– Uma novidade, estou certa – comentou Penelope, impaciente. – Já pedi a Briarly que nos trouxesse algo. Agora, poderia me contar o que há de errado ou quer que eu morra de impaciência?

– Eu acho que ela é Lady Whistledown – disse ele, atabalhoadamente.

Penelope ficou boquiaberta. Não sabia ao certo o que esperava ouvir, mas não era aquilo.

– Penelope, você me escutou?

– Eloise?

Ele fez que sim.

– Não pode ser.

Colin se levantou e começou a caminhar de um lado para outro, tão nervoso que não conseguia ficar sentado.

– Por que não?

– Porque... porque... Porque não há a menor possibilidade de ela fazer uma

coisa dessas há dez anos sem eu saber.

A expressão dele se transformou de perturbação em desdém em um instante.

– Não creio que você esteja a par de tudo o que Eloise faça.

– É claro que não – devolveu Penelope, lançando-lhe um olhar bastante irritado –, mas posso lhe dizer com absoluta certeza que Eloise jamais esconderia de mim um segredo dessa magnitude durante dez anos. Ela simplesmente não seria capaz.

– Penelope, ela é a pessoa mais enxerida que conheço.

– Bem, isso é verdade – concordou Penelope. – Com exceção de minha mãe.

Mas isso não é o suficiente para condená-la.

Colin parou de caminhar de um lado para outro e plantou as mãos nos quadris.

– Ela vive anotando coisas.

– Por que acha isso?

Ele ergueu a mão e esfregou as pontas dos dedos energicamente umas nas outras.

– Manchas de tinta. Sempre.

– Muitas pessoas usam canetas e tinta. Você, por exemplo, escreve diários.

Estou certa de que fica com os dedos sujos de tinta de vez em quando.

– Sim, mas eu não desapareço quando escrevo nos meus diários.

Penelope sentiu sua pulsação se acelerar.

– O que quer dizer com isso? – perguntou, ficando sem fôlego.

– Quero dizer que ela se tranca no quarto hora após hora e que é depois desses períodos que os dedos ficam cheios de tinta.

Penelope ficou em silêncio por um período agonizantemente longo. A “prova”

de Colin era, de fato, significativa, sobretudo somada à conhecida e bem documentada tendência de Eloise à intromissão.

Mas ela não era Lady Whistledown. Não podia ser. Penelope apostaria a própria vida.

Por fim, ela cruzou os braços e, parecendo uma criança teimosa, disse:

– Não é ela. Não é.

Colin voltou a se sentar, parecendo derrotado.

– Eu gostaria de ter essa certeza.

– Colin, você precisa...

– Droga, onde está a comida? – resmungou ele.

Ela deveria ter ficado chocada, mas de alguma forma a falta de educação dele a divertiu.

– Tenho certeza que Briarly já está chegando com ela.

Ele se esparramou numa cadeira.

– Estou com fome.

– Sim, imagino – comentou Penelope, contraindo os lábios.

Ele deixou escapar um suspiro, cansado e preocupado.

– Se ela for Lady Whistledown, vai ser um desastre. Simplesmente um desastre.

– Não seria tão ruim assim – retrucou Penelope, com cuidado. – Não que eu ache que ela seja, porque não acho! Mas, se fosse, seria tão terrível assim? Eu, particularmente, gosto bastante de Lady Whistledown.

– Sim, Penelope – respondeu Colin, de forma um tanto ríspida –, seria terrível.

Ela estaria arruinada.

– Não acho que estaria arruinada...

– É claro que estaria. Tem ideia de quantas pessoas aquela mulher já insultou ao longo dos anos?

– Não sabia que você detestava Lady Whistledown tanto assim – observou Penelope.

– Eu não a detesto – contestou Colin, com impaciência. – Mas isso não importa. Todo mundo a detesta.

– Não creio que isso seja verdade. Todos compram o seu jornal.

– É claro que compram! Todos compram o seu maldito jornal.

– Colin!

– Desculpe – murmurou ele, embora não parecesse estar sendo sincero.

Mesmo assim, Penelope assentiu.

– Seja lá quem for Lady Whistledown – disse Colin, balançando o dedo em sua direção com tanta veemência que ela chegou o corpo para trás –, quando ela for desmascarada, não poderá mostrar o rosto em Londres.

Penelope pigarreou com discrição.

– Não tinha me dado conta de que você se importava tanto com as opiniões da sociedade.

– E não me importo. Bem, não muito, pelo menos. Qualquer um que lhe disser que não se importa é um mentiroso e um hipócrita.

Penelope achou que Colin estava certo, embora tenha ficado surpresa por ele admiti-lo. Ao que parecia, os homens gostavam de fingir ser totalmente independentes, não afetados pelos caprichos e opiniões da sociedade.

Ele inclinou o corpo para a frente, os olhos verdes queimando de intensidade.

– Isto não tem a ver comigo, Penelope. Tem a ver com Eloise. E, se ela for execrada pela sociedade, ficará arrasada. – Ele se recostou na cadeira, mas seu

corpo inteiro irradiava tensão. – Sem falar do que aconteceria com minha mãe.

Penelope deu um suspiro lento.

– Eu realmente acho que você está se indispondo a troco de nada – falou.

– Espero que tenha razão – retrucou Colin, fechando os olhos.

Não sabia ao certo quando começara a desconfiar da irmã. Talvez depois que Lady Danbury lançara seu agora famoso desafio. Ao contrário de grande parte de Londres, Colin jamais se interessara pela verdadeira identidade de Lady Whistledown. A coluna era divertida e ele sem dúvida a lia, assim como todo mundo, mas, a seu ver, Lady Whistledown era apenas... Lady Whistledown, e isso era só o que ela precisava ser.

Mas o desafio de Lady Danbury o fizera começar a pensar, e, como todos os Bridgertons, sempre que enfiava uma ideia na cabeça, era incapaz de esquecê-la.

De alguma forma, lhe ocorrera que a irmã possuía o temperamento e as habilidades perfeitos para escrever uma coluna como aquela, então, antes de conseguir se convencer de que estava delirando, notara as manchas de tinta em seus dedos. Desde então, fora praticamente à loucura, sem conseguir pensar em mais nada que não fosse a possibilidade de Eloise ter uma vida secreta.

Ele não sabia o que o irritava mais: que Eloise pudesse ser Lady Whistledown ou que tivesse conseguido esconder isso dele por mais de uma década.

Que coisa mais enervante, ser enganado pela própria irmã. Gostava de pensar que era mais esperto do que isso.

Mas precisava se concentrar no presente. Porque, se as suas suspeitas estivessem corretas, como a família iria lidar com o escândalo quando Eloise fosse descoberta?

E ela seria, sim, descoberta. Com toda Londres ansiando pelo prêmio de mil libras, Lady Whistledown não tinha a menor chance.

– Colin! Colin!

Ele abriu os olhos, perguntando-se quanto tempo fazia que Penelope o estava chamando.

– Eu realmente acho que você deveria parar de se preocupar com Eloise –

disse ela. – Há muitas pessoas em Londres, e Lady Whistledown poderia ser qualquer uma delas. Ora, considerando sua atenção aos detalhes – ela fez um gesto com a mão para lhe lembrar das pontas dos dedos sujos de tinta de Eloise

–, você poderia ser Lady Whistledown.

Ele lhe lançou um olhar bastante condescendente.

– A não ser pelo pequeno detalhe de eu ter estado fora do país metade do tempo.

Penelope decidiu ignorar o sarcasmo.

– Sem dúvida você escreve bem o bastante para ser ela.

Colin teve vontade de dizer algo cômico e levemente ríspido para refutar os argumentos fracos que ela apresentava, mas a verdade era que, em seu íntimo, tinha ficado tão encantado com o elogio à sua escrita que a única coisa que conseguiu fazer foi ficar ali parado, exibindo um sorriso torto.

– Você está bem? – perguntou Penelope.

– Perfeitamente bem – respondeu ele, voltando a si e tentando adotar um semblante mais sóbrio. – Por quê?

– Porque, de repente, me pareceu estar passando mal. Com vertigem, talvez.

– Estou bem – repetiu ele, talvez um pouco mais alto que o necessário. – Só estou pensando no escândalo.

Penelope deixou escapar um suspiro cansado que o irritou, porque ele não via motivo para ela se impacientar tanto.

– Que escândalo? – perguntou ela.

– O escândalo que irá explodir quando ela for descoberta – disse Colin, por entre os dentes.

– Ela não é Lady Whistledown! – insistiu Penelope.

De repente, Colin se empertigou na cadeira, os olhos brilhando com uma nova ideia.

– Sabe, não acho que tenha importância o fato de ela ser ou não Lady Whistledown.

Penelope o fitou, perplexa, durante três segundos inteiros antes de olhar ao redor do aposento e murmurar:

– Onde está a comida? Acho que estou zonza. Você não passou os últimos dez minutos completamente enlouquecido pela possibilidade de que seja?

Como se aquela fosse a sua deixa, Briarly entrou na sala com uma pesada bandeja. Penelope e Colin observaram em silêncio enquanto o mordomo a apoiava na mesa.

– Gostariam que eu os servisse? – indagou ele.

– Não, não é preciso – respondeu Penelope. – Nós mesmos podemos fazer isso.

Briarly assentiu e, assim que terminou de arrumar os talheres e encher dois copos com limonada, saiu.

– Ouça – começou Colin, levantando-se para empurrar a porta até que ela estivesse quase fechada (caso alguém resolvesse discutir as sutilezas das convenções sociais, tecnicamente a porta continuava aberta).

– Não quer algo para comer? – indagou Penelope, estendendo-lhe um prato que enchera com diversos petiscos.

Ele pegou um pedaço de queijo, devorou-o em apenas duas mordidas, então continuou:

– Mesmo que Eloise não seja Lady Whistledown, e, aliás, ainda acho que seja, não importa. Porque, se eu suspeito dela, então alguma outra pessoa também irá suspeitar.

– E o que isso quer dizer?

Colin esteve a ponto de chacoalhar Penelope pelos ombros, mas deteve-se bem a tempo.

– Não importa! Será que não vê? Se alguém apontar o dedo para ela, ela estará arruinada.

– Não se ela não for Lady Whistledown! – exclamou Penelope, parecendo se esforçar muito para descerrar os dentes.

– E como ela poderia provar? – devolveu Colin. – Uma vez que um boato tem início, o estrago já está feito. Cria vida própria.

– Colin, há cinco minutos não estou mais entendendo você.

– Preste atenção. – Ele se virou para encará-la e foi tomado por uma intensidade tal que não poderia ter desviado os olhos dela ainda que a casa estivesse desabando ao seu redor. – Suponhamos que eu dissesse a todo mundo que seduzi você.

Penelope ficou muito, muito quieta.

– Você estaria arruinada para sempre – continuou ele, agachando-se perto da beirada do sofá, de forma que ficassem mais ou menos da mesma altura. – Não importaria que nós nem ao menos tivéssemos nos beijado. Isso, minha cara Penelope, é o poder da palavra.

Ela pareceu estranhamente paralisada. E, ao mesmo tempo, ruborizada.

– Eu... eu não sei o que dizer – gaguejou.

E, então, algo muito estranho aconteceu. Colin se deu conta de que ele mesmo não sabia o que dizer. Porque se esqueceu de boatos, e do poder da palavra, e daquela podridão toda, e a única coisa na qual conseguia pensar era a parte que envolvia beijar e...

E...

E...

Deus do céu, ele queria beijar Penelope Featherington.

Penelope Featherington!

Era como querer beijar a própria irmã.

A não ser pelo fato – lançou-lhe um olhar discreto e ela lhe pareceu encantadora, e ele se perguntou como não o havia notado mais cedo – de que ela não era sua irmã.

Definitivamente, não era sua irmã.

– Colin?

O nome dele era um mero sussurro nos lábios dela, que piscava sem parar de forma adorável e confusa. Como era possível que jamais houvesse notado o intrigante tom de castanho dos olhos dela? Eram quase dourados próximo à pupila. Nunca vira nada parecido e, no entanto, os vira centenas de vezes.

Ele se empertigou subitamente. Era mais seguro que não estivessem naquele ângulo. De cima, era mais difícil ver os olhos dela.

Penelope se levantou.

Maldição.