Os Segredos de Colin Bridgerton

Julia Quinn · Capítulo 16 de 30

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Os Segredos de Colin Bridgerton

Capítulo 14

– Não, eu lhe garanto...

– E eu lhe garanto – interrompeu ele – que você será vista, sim. – Ele lambeu os dedos e então os passou pelos cabelos. – Estou apresentável?

– Está – mentiu ela.

Na verdade, estava muito corado, com os lábios inchados e os cabelos totalmente desgrenhados.

– Ótimo.

Ele desceu da carruagem de um salto e estendeu a mão para ela.

– Vai entrar, também? – perguntou Penelope.

Ele a olhou como se ela tivesse enlouquecido de repente.

– É claro.

Ela não se mexeu, perplexa demais com as ações dele para dar às pernas o comando necessário. Não havia nenhum motivo para que ele a acompanhasse até dentro de casa. As convenções sociais não o exigiam e...

– Pelo amor de Deus, Penelope – disse ele, agarrando-lhe a mão e puxando-a

para fora do veículo –, você vai ou não vai se casar comigo?

CAPÍTULO 14

Seus pés tocaram o chão.

Penelope era – ao menos na própria opinião – um pouco mais graciosa do que as pessoas costumavam reconhecer. Sabia dançar, tocava piano bem e em geral conseguia atravessar um salão sem esbarrar em um número muito grande de pessoas ou móveis.

Mas quando Colin fez a sua singela proposta, o pé dela – naquele instante apenas na metade do caminho para fora da carruagem – só encontrou o ar, o quadril esquerdo encontrou o meio-fio e a cabeça encontrou as pontas dos pés de Colin.

– Meu Deus, Penelope – exclamou ele, se abaixando. – Você está bem?

– Estou ótima – conseguiu dizer ela, procurando um buraco no qual se enfiar e morrer.

– Tem certeza?

– Não foi nada, verdade – insistiu ela, segurando o rosto certa de que agora exibia a marca perfeita da bota de Colin. – Estou apenas um pouco surpresa, só isso.

– Por quê?

– Por quê?

– Sim, por quê?

Ela piscou, aturdida. Uma, duas, três vezes.

– Err... Bem, talvez tenha a ver com você ter mencionado algo sobre casamento.

Ele a puxou sem a menor cerimônia para colocá-la de pé, quase deslocando o seu ombro enquanto o fazia.

– Bem, o que imaginou que eu diria?

Ela o fitou, incrédula. Será que ele tinha ficado louco?

– Não isso – respondeu, por fim.

– Eu não sou um selvagem completo – murmurou ele.

Penelope limpou a poeira e as pedrinhas das mangas do vestido.

– Eu nunca falei que era, só...

– Posso lhe garantir – continuou ele, mostrando-se agora mortalmente

ofendido – que jamais me comporto da forma como acabei de me comportar com uma mulher da sua estirpe sem lhe fazer uma proposta de casamento.

Isso deixou Penelope boquiaberta, com os olhos arregalados como os de uma coruja.

– Não tem uma resposta? – perguntou ele.

– Ainda estou tentando entender o que você disse.

Ele plantou as mãos nos quadris e olhou para ela com clara impaciência.

– Você tem de admitir – começou Penelope, dirigindo-lhe um olhar incerto –

que pareceu... como foi mesmo que disse... que já fez propostas de casamento antes.

Ele lhe lançou um olhar bastante irritado.

– É claro que não fiz. Agora me dê o braço antes que comece a chover.

Ela ergueu a vista para o céu azul e límpido.

– Nesse ritmo, vamos ficar aqui por dias – explicou ele, impaciente.

– Eu... bem... – Ela pigarreou. – Você certamente pode perdoar a minha confusão diante de tal surpresa.

Colin segurou o braço dela com mais força.

– Vamos logo.

– Colin! – exclamou Penelope, tropeçando nos próprios pés enquanto subia a escada. – Tem certeza...

– Não há momento melhor do que o presente – disse ele alegremente.

Parecia bastante satisfeito, o que a deixou ainda mais confusa, pois teria apostado a fortuna inteira – e como Lady Whistledown havia acumulado uma boa fortuna – que ele não pensara em pedi-la em casamento até o momento em que sua carruagem parara diante da casa.

Talvez até o instante em que tinha pronunciado as palavras.

Colin se virou para ela.

– Temos de bater à porta?

– Não, eu...

Ele bateu, ou melhor, esmurrou a porta, mesmo assim.

– Briarly – falou Penelope, tentando sorrir quando o mordomo abriu a porta para eles.

– Srta. Penelope – murmurou o homem, erguendo uma das sobrancelhas em sinal de surpresa. Cumprimentou Colin com a cabeça. – Sr. Bridgerton.

– A Sra. Featherington está em casa? – perguntou Colin bruscamente.

– Está, mas...

– Ótimo. – Colin foi adentrando na casa, puxando Penelope a reboque. – Onde

ela está?

– Na sala de estar, mas devo lhe avisar...

No entanto, Colin já estava na metade do corredor, com Penelope um passo atrás de si. (Não que ela pudesse estar em qualquer outro lugar, visto que ele a segurava, com bastante força, até, pelo braço.)

– Sr. Bridgerton! – gritou o mordomo, parecendo ligeiramente em pânico.

Penelope virou a cabeça para trás enquanto continuava seguindo Colin.

Briarly nunca entrava em pânico. Por nada. Se achava que ela e Colin não deviam entrar na sala de estar, devia ter uma boa razão para isso.

Talvez até mesmo...

Ah, não.

Penelope tentou interromper o passo, enterrando os calcanhares no chão e deslizando pelo assoalho de madeira enquanto Colin a arrastava pelo braço.

– Colin – disse, engolindo em seco depois. – Colin!

– O que é? – perguntou ele, sem diminuir o ritmo.

– Eu realmente acho... Aaaaah!

Enquanto ela deslizava, tropeçou na barra de um tapete e voou para a frente.

Ele a pegou e a colocou outra vez de pé.

– O quê?

Ela olhou, nervosa, para a porta da sala de visitas. Encontrava-se entreaberta, mas talvez estivesse barulhento demais lá dentro e a mãe ainda não os tivesse ouvido se aproximar.

– Penelope – exigiu Colin, impaciente.

– Err...

Ainda podiam escapar, não? Ela olhou freneticamente à sua volta, como se fosse possível encontrar a solução para os seus problemas em algum lugar do corredor.

– Penelope – repetiu Colin, já batendo com o pé no chão –, que diabo está acontecendo?

Ela olhou para trás de novo, para Briarly, que se limitou a dar de ombros.

– Talvez este não seja o melhor momento para falar com a minha mãe.

Ele ergueu uma das sobrancelhas em uma expressão bastante semelhante à que o mordomo esboçara apenas alguns momentos antes.

– Não está planejando recusar o meu pedido, está?

– Não, é claro que não – disse ela, apressada, embora ainda nem tivesse aceitado realmente o fato de que ele tinha a intenção de pedi-la em casamento.

– Então este é um excelente momento – afirmou ele, o tom deixando claro que

 

não deveria haver mais nenhum protesto.

– Mas é que...

– O quê?

Terça-feira, pensou ela, infeliz. E passava um pouco do meio-dia, o que significava...

– Vamos – disse Colin, prosseguindo caminho.

E antes que ela pudesse detê-lo, ele empurrou a porta.

A primeira coisa que ocorreu a Colin ao entrar na sala de estar foi que, embora o dia não estivesse transcorrendo em absoluto como ele talvez tivesse previsto ao se levantar da cama naquela manhã, estava sendo bastante produtivo. Casar-se com Penelope era uma ideia bem sensata e também muito atraente, se a recente interação dos dois na carruagem servisse de indicativo.

A segunda coisa que lhe ocorreu foi que acabava de entrar no seu pior pesadelo.

Porque a mãe de Penelope não estava sozinha na sala. Absolutamente todos os Featheringtons, jovens e velhos, encontravam-se ali, acompanhados dos cônjuges, e havia até mesmo um gato.

Era o grupo de pessoas mais assustador que Colin já vira. A família de Penelope era... bem... com exceção de Felicity (por quem sempre nutrira certa desconfiança, afinal, como confiar em alguém tão próximo de Hyacinth?), a família dela era... bem...

Ele não conseguia encontrar a palavra certa para descrevê-la. Sem dúvida nada de elogioso (embora quisesse acreditar que podia evitar um insulto direto), mas será que existia algum termo que combinasse levemente com obtusa, demasiado falante, bastante intrometida, maçante e – não se podia esquecer isto, não com o recente acréscimo de Robert Huxley ao clã – excepcionalmente ruidosa?

Então Colin apenas deu aquele seu sorriso lindo, amigável e um pouco travesso. Quase sempre funcionava, e hoje não foi exceção. Os Featheringtons todos sorriram de volta para ele e – graças a Deus – não fizeram nenhum comentário.

Pelo menos, não de imediato.

– Colin – disse a Sra. Featherington, com considerável surpresa. – Que delicadeza a sua em trazer Penelope para casa para a nossa reunião de família.

– Reunião de família? – ecoou ele.

Olhou para Penelope, que estava ao seu lado parecendo passar mal.

– Toda terça-feira – falou ela, com um sorriso fraco. – Eu não mencionei?

– Não – respondeu ele, embora estivesse óbvio que a pergunta havia sido feita em consideração à plateia que os observava. – Não mencionou.

– Bridgerton! – berrou Robert Huxley, casado com a irmã mais velha de Penelope, Prudence.

– Huxley – retrucou Colin, dando um discreto passo para trás.

Era melhor proteger os tímpanos, caso o cunhado de Penelope resolvesse deixar seu lugar perto da janela e se aproximar.

Por sorte, Huxley ficou onde estava, mas outro cunhado, o bem-intencionado porém aéreo Nigel Berbrooke, atravessou o aposento e cumprimentou Colin com um belo tapa nas costas.

– Não o estávamos esperando – comentou ele, jovial.

– Não – murmurou Colin –, não imaginei que estivessem.

– Afinal, é só a família – disse Berbrooke –, e você não faz parte da família.

Não da minha, pelo menos.

– Ainda não – falou Colin baixinho, então olhou rapidamente para Penelope, que ruborizou.

Em seguida, ele olhou outra vez para a Sra. Featherington, que lhe pareceu prestes a desmaiar de emoção. Colin gemeu. Não tinha sido sua intenção que ela escutasse este último comentário. Por algum motivo, quisera manter o elemento surpresa antes de pedir a mão de Penelope. Se Portia soubesse de sua intenção antes da hora, era capaz de distorcer a situação (ao menos na própria cabeça) de modo a fazer parecer que ela própria houvesse orquestrado tudo.

E, sem saber explicar por quê, Colin não gostaria nem um pouco disso.

– Espero não estar sendo inconveniente – disse, dirigindo-se à Sra.

Featherington.

– Não, é claro que não – retrucou ela, rápido. – Estamos encantados em tê-lo aqui, numa reunião de família.

No entanto, sua expressão era bastante estranha, não porque estivesse indecisa a respeito da presença dele ali, mas porque claramente não sabia que passo dar a seguir. Mordeu o lábio inferior, então lançou um olhar furtivo para Felicity.

Colin se virou para Felicity, que fitava Penelope com um pequeno sorriso enigmático. Já Penelope fuzilava a mãe com os olhos, a boca retorcida numa careta de irritação.

Ele alternou a visão entre as três Featheringtons. Sem dúvida havia algo acontecendo ali, e se Colin não estivesse tão ocupado tentando descobrir como se livrar de uma conversa com os parentes de Penelope enquanto tentava fazer uma proposta de casamento, ficaria bastante curioso para saber o motivo dos olhares discretos sendo trocados sem parar entre elas.

A Sra. Featherington lançou um último olhar para Felicity e fez um pequeno gesto que Colin poderia jurar que queria dizer Sente-se direito, depois voltou a fixar a atenção nele.

– Não quer se sentar? – indagou com um sorriso amplo, dando um tapinha no assento ao seu lado no sofá.

– É claro – murmurou ele, porque realmente já não havia como sair daquela situação.

Ainda tinha de pedir a mão de Penelope, e embora não quisesse fazer isso na frente de todas as irmãs dela (e dos dois cunhados inúteis), estava preso ali, pelo menos até que surgisse uma oportunidade polida de fugir.

Ele se virou e ofereceu o braço a Penelope:

– Penelope?

– Err... sim, claro – gaguejou ela, colocando a mão no cotovelo dele.

– Ah! – exclamou a Sra. Featherington, como se tivesse se esquecido da presença da filha. – Me desculpe, Penelope. Não a vi. Que tal ir pedir à cozinheira que faça mais comida? Sem dúvida precisaremos, com a presença do Sr. Bridgerton.

– É claro – concordou Penelope, contraindo os lábios.

– Ela não pode tocar a campainha e pedir? – perguntou Colin, bem alto.

– Como? – indagou a Sra. Featherington, com o olhar distraído. – Bem, acho que poderia, mas levaria mais tempo e Penelope não se importa, não é?

Penelope balançou a cabeça bem de leve.

– Eu me importo – declarou Colin.

A Sra. Featherington deixou escapar um pequeno “Ah” de surpresa, então disse:

– Muito bem. Penelope, hã... Por que não se senta ali?

Ela fez sinal para uma cadeira que ficava meio à parte do círculo da conversa.

Felicity, que estava sentada na frente da mãe, se levantou e falou:

– Aqui, Penelope, fique com o meu lugar, por favor.

– Não – exclamou a Sra. Featherington, com firmeza. – Você não tem se sentido muito bem, Felicity. Precisa se sentar.

Colin achou que Felicity era o retrato da saúde perfeita, mas ela obedeceu à mãe.

– Penelope – chamou Prudence, bem alto, de perto da janela. – Preciso falar com você.

Penelope olhou, impotente, de Colin para Prudence, depois para Felicity, em seguida para a mãe.

Colin a puxou para mais perto ainda.

– Eu também preciso falar com ela – disse, com delicadeza.

– Certo. Bem, suponho que haja lugar para vocês dois aqui – concedeu a Sra.

Featherington, chegando para o lado, no sofá.

Colin ficou meio indeciso entre as boas maneiras que haviam sido marteladas em sua cabeça desde o nascimento e o enorme desejo de estrangular a mulher que um dia seria a sua sogra. Não tinha a menor ideia do motivo que a levava a tratar Penelope como uma enteada indesejada, mas aquilo precisava parar.

– O que o trouxe até aqui? – berrou Robert Huxley.

Colin levou a mão à orelha – não conseguiu evitar –, então disse:

– Eu ia...

– Minha nossa – interrompeu a Sra. Featherington, alvoroçada –, não queremos interrogar nosso convidado, queremos?

Colin não pensara que a pergunta de Huxley caracterizava um interrogatório, mas não queria insultar a Sra. Featherington ao dizê-lo, por isso se limitou a assentir e dizer algo completamente sem sentido:

– Sim, bem, é claro.

– É claro o quê? – indagou Philippa.

Ela era casada com Nigel Berbrooke e Colin sempre acreditara que formavam um ótimo casal.

– Como? – indagou ele.

– Você disse “É claro” – retrucou Philippa. – O que é claro?

– Não sei.

– Ué, então por que você...

– Philippa – repreendeu a Sra. Featherington, bem alto –, talvez deva ir buscar a comida, já que Penelope se esqueceu de tocar a campainha para pedi-la.

– Ah, me desculpem – disse Penelope rapidamente, começando a se levantar.

– Não se preocupe – falou Colin com um sorriso sereno, agarrando a mão dela e a puxando outra vez para baixo. – Sua mãe disse que Prudence podia ir.

– Philippa – corrigiu Penelope.

– O que tem Philippa?

– Ela disse que Philippa podia ir, não Prudence.

Ele se perguntou o que teria acontecido com o cérebro dela, porque em algum

momento entre a carruagem e aquele sofá, ele havia claramente desaparecido.

– Isso tem alguma importância? – perguntou.

– Na verdade, não, mas...

– Felicity – interrompeu a Sra. Featherington –, por que não conta ao Sr.

Bridgerton sobre suas aquarelas?

Colin não conseguia imaginar um assunto menos interessante (exceto, talvez, pelas aquarelas de Philippa), mas ainda assim virou-se para a mais nova das Featheringtons com um sorriso simpático e perguntou:

– Como vão as suas aquarelas?

Mas graças a Deus a garota apenas sorriu para ele de maneira igualmente simpática e limitou-se a dizer:

– Acho que vão bem, obrigada.

A Sra. Featherington fez uma expressão de quem acabara de engolir uma enguia viva e exclamou:

– Felicity!

– Sim? – respondeu Felicity, solícita.

– Você não contou a ele que venceu um prêmio. – Ela se virou para Colin. –

As aquarelas de Felicity são bastante exclusivas. – Voltou-se outra vez para a filha. – Conte ao Sr. Bridgerton sobre o prêmio.

– Ah, eu acho que ele não está interessado.

– É claro que está – retrucou a Sra. Featherington com algum esforço.

Em uma situação normal, Colin teria dito É claro que estou, já que era, afinal de contas, um sujeito muito afável, mas fazer isso seria validar a afirmação da Sra. Featherington e, talvez o mais grave de tudo, estragar o divertimento de Felicity.

E a garota parecia estar se divertindo a valer.

– Philippa – disse a Sra. Featherington –, você não ia atrás da comida?

– Ah, é mesmo! Esqueci completamente. Vamos, Nigel, assim você me faz companhia.

– É para já! – exclamou o homem, exultante.

Com isso, ele e Philippa deixaram a sala, rindo o caminho todo.

Colin reafirmou, então, a certeza de que o casamento dos dois tinha sido uma ótima decisão.

– Acho que vou até o jardim – anunciou Prudence de repente, tomando o braço do marido. – Penelope, por que não vem comigo?

Penelope abriu a boca por alguns segundos antes de decidir o que dizer, o que lhe conferiu uma aparência um pouco parecida com a de um peixe confuso (mas,

na opinião de Colin, um peixe bastante cativante, se isso fosse possível). Por fim, empinou o queixo com uma expressão decidida e falou:

– Agora não, Prudence.

– Penelope! – exclamou a Sra. Featherington.

– Preciso que me mostre uma coisa – insistiu Prudence, falando entre os dentes.

– Eu realmente acho que sou necessária aqui – devolveu Penelope. – Posso me juntar a você logo mais, à tarde, se desejar.

– Preciso de você agora.

Penelope olhou para a irmã, surpresa, claramente sem esperar tal resistência.

– Me desculpe, Prudence – falou. – Creio ser necessária aqui.

– Bobagem – disse a Sra. Featherington, em um tom muito jovial. – Felicity e eu podemos fazer companhia para o Sr. Bridgerton.

Felicity se levantou de repente.

– Ah, não! – exclamou, os olhos muito redondos e inocentes. – Esqueci uma coisa.

– O que você poderia ter esquecido? – perguntou a Sra. Featherington entre os dentes.

– Err... as minhas aquarelas. – Ela se virou para Colin com um sorriso ao mesmo tempo doce e travesso. – Você queria vê-las, não queria?

– É claro – murmurou ele, decidindo que gostava muito da irmã caçula de Penelope. – Considerando que são tão exclusivas.

– Pode-se dizer que são exclusivamente comuns – afirmou Felicity com um aceno de cabeça muito convicto.

– Penelope – começou a Sra. Featherington, e era claro que tentava esconder a irritação –, poderia me fazer a gentileza de ir buscar as aquarelas de Felicity?

– Ela não sabe onde estão – retrucou Felicity, apressada.

– Por que não lhe diz?

– Pelo amor de Deus – explodiu Colin, finalmente –, deixe que Felicity vá. De qualquer forma, preciso de um momento a sós com a senhora.

O silêncio reinou. Era a primeira vez que Colin Bridgerton perdia a paciência em público. Ao seu lado, ele ouviu Penelope sufocar um pequeno grito, mas, quando olhou para ela, viu que escondia um minúsculo sorriso por trás da mão.

E isso o fez sentir-se muito bem.

– Um momento a sós? – ecoou a Sra. Featherington, levando a mão trêmula até o peito.

Olhou para Prudence e Robert, que continuavam de pé ao lado da janela.

Imediatamente os dois deixaram o aposento, ainda que com um bocado de resmungos da parte de Prudence.

– Penelope – chamou a Sra, Featherington –, talvez deva acompanhar Felicity.

– Penelope fica – retrucou Colin, com convicção.

– Penelope? – repetiu a Sra. Featherington, indecisa.

– Sim – confirmou Colin, bem devagar, caso ela continuasse sem compreender o que ele queria dizer. – Penelope.

– Mas...

Colin a olhou com tal ferocidade que ela chegou a se encolher e colocar as mãos sobre o colo.

– Já estou indooo! – cantarolou Felicity, deixando o aposento.

Antes que a garota fechasse a porta às suas costas, porém, Colin a viu dar uma rápida piscadela para Penelope.

E Penelope sorriu, o amor pela irmã mais nova ficando muito evidente em seu olhar.

Colin relaxou. Não se dera conta de como a infelicidade de Penelope o deixara tenso. E ela estava, sem dúvida, sentindo-se a última das criaturas. Por Deus, mal podia esperar para tirá-la do seio daquela família terrível.

A Sra. Featherington esticou os lábios numa débil tentativa de sorrir. Olhou de Colin para Penelope, depois de volta para ele e, por fim, indagou:

– Queria falar comigo?

– Queria – respondeu ele, ansioso por dar logo um fim àquilo. – Eu ficaria imensamente honrado se a senhora me concedesse a mão de sua filha em casamento.

Por um instante, a Sra. Featherington não esboçou reação alguma. Depois ela arregalou os olhos, que ficaram bem redondos, abriu a boca, que ficou bem redonda, inflou o corpo, que ficou... bom, o corpo já era bem redondo. Então começou a bater palmas, incapaz de dizer qualquer coisa além de:

– Ah! Ah! – Em seguida: – Felicity! Felicity!

Felicity?

Portia se levantou de um salto, correu até a porta e gritou feito uma vendedora de peixe:

– Felicity! Felicity!

– Ah, mamãe – gemeu Penelope, fechando os olhos.

– Por que está chamando Felicity? – indagou Colin, pondo-se de pé.

A Sra. Featherington virou-se para ele, confusa.

– O senhor não quer se casar com Felicity?

Colin achou que ia passar mal.

– Não, pelo amor de Deus, eu não quero me casar com Felicity! – vociferou. –

Se quisesse me casar com ela, por acaso a teria mandado buscar as malditas aquarelas?

A Sra. Featherington engoliu em seco desconfortavelmente.

– Sr. Bridgerton – falou, retorcendo as mãos. – Eu não compreendo.

Ele a fitou horrorizado, sensação que logo se transformou em repulsa.

– Penelope – disse, agarrando a mão da jovem e puxando-a para si até que estivesse bem colada a ele. – Eu quero me casar com Penelope.

– Penelope – ecoou a Sra. Featherington. – Mas…

– Mas o quê? – interrompeu ele, com a voz muito ameaçadora.

– Mas... mas...

– Está tudo bem, Colin – apaziguou Penelope, apressada. – Eu...

– Não, não está tudo bem – explodiu ele. – Eu jamais dei a menor indicação de estar interessado em Felicity.

Felicity surgiu à porta, levou a mão à boca e sumiu de novo no mesmo instante, sabiamente fechando a porta ao passar.

– Eu sei – retrucou Penelope de forma apaziguadora, lançando um olhar rápido para a mãe –, mas Felicity é solteira e...

– Você também é – observou ele.

– Eu sei, mas estou velha e...

– E Felicity é um bebê – cuspiu Colin. – Meu Deus, casar-me com ela seria como me casar com Hyacinth.

– É, a não ser pelo fator incesto – lembrou Penelope.

Ele a encarou como se não tivesse achado aquilo nada engraçado.

– Certo – disse ela, em grande parte para preencher o silêncio. – Foi só um grande mal-entendido, não é mesmo?

Como ninguém respondeu, Penelope olhou para Colin, suplicante.

– Não é?

– É claro – murmurou ele.

Ela se virou para a Sra. Featherington.

– Mamãe?

– Penelope? – murmurou ela.

Penelope sabia que a mãe não lhe fazia uma pergunta. Na verdade, ainda expressava incredulidade por Colin desejar se casar com ela.

E, ah, como aquilo doía, embora já devesse estar acostumada.

– Eu gostaria de me casar com o Sr. Bridgerton – falou, tentando soar o mais

digna possível. – Ele me pediu e eu aceitei.

– Ora, é claro que aceitou – retorquiu a mãe. – Teria de ser idiota para não aceitar.

– Sra. Featherington – começou Colin, irritado. – Sugiro que comece a tratar minha futura esposa com um pouco mais de respeito.

– Colin, isso não é necessário – disse Penelope, colocando uma das mãos sobre o braço dele, embora seu coração voasse naquele momento.

Talvez Colin não a amasse, mas se importava com ela. Nenhum homem defenderia uma mulher com tamanha ferocidade se não se importasse ao menos um pouquinho com ela.

– É necessário, sim – retrucou ele. – Pelo amor de Deus, Penelope, eu cheguei com você. Deixei perfeitamente claro que exigia a sua presença na sala e quase empurrei Felicity porta afora para que buscasse as aquarelas. Por que diabo alguém acharia que eu quero me casar com ela?

A Sra. Featherington abriu e fechou a boca diversas vezes antes de dizer, por fim:

– Eu amo Penelope, é claro, mas é que...

– Mas a senhora a conhece? – devolveu Colin. – É encantadora, inteligente e tem um ótimo senso de humor. Quem não gostaria de se casar com uma mulher como ela?

Penelope teria derretido no chão se não estivesse segurando a mão dele.

– Obrigada – sussurrou, sem se importar com a possibilidade de a mãe tê-la ouvido e nem mesmo ligando se Colin a escutara.

De alguma forma, precisava pronunciar a palavra para si mesma.

Ela não achava que fosse tudo aquilo.

Lembrou-se de Lady Danbury, com sua expressão amável e só um pouquinho ardilosa.

Algo mais. Talvez Penelope fosse algo mais, e talvez Colin fosse a única outra pessoa a se dar conta disso, também.

O que só fazia com que o amasse ainda mais.

A mãe pigarreou, então inclinou o corpo para a frente e abraçou Penelope. A princípio foi um gesto hesitante de parte de ambas, mas logo a Sra.

Featherington apertou os braços ao redor da filha e, com um grito engasgado, Penelope se pegou retribuindo o afeto com a mesma intensidade.

– Eu a amo, sim, Penelope – disse a Sra. Featherington –, e estou satisfeita por você. – Afastou-se e enxugou uma lágrima. – Vou me sentir solitária sem a sua presença, é claro, porque imaginei que passaríamos o resto da vida juntas, mas isto é o melhor para o seu futuro, e como mãe eu preciso aceitar.