Os Segredos de Colin Bridgerton
Capítulo 16
Ele tomou a mão dela e a apertou.
– Estou muito desmazelada?
Ele fez que sim.
– Mas é a minha desmazelada – sussurrou ele.
E se sentiu muito satisfeito por aquilo.
CAPÍTULO 16
Como Colin gostava de caminhar e costumava fazer isso com frequência para desanuviar a mente, não foi nenhuma surpresa ter passado tanto tempo do dia seguinte atravessando Bloomsbury, Fitzrovia, Marylbone e diversos outros bairros londrinos até erguer a vista e perceber que estava bem no coração de Mayfair, na Grosvenor Square, para ser mais exato, na frente da Casa Hastings, residência na cidade do duque de Hastings, que por acaso era casado com sua irmã Daphne.
Já fazia algum tempo que os dois irmãos não dialogavam sobre nada além da corriqueira conversa de família. Daphne era a irmã que tinha a idade mais próxima da sua e os dois sempre haviam tido uma ligação especial, embora não se vissem mais com muita frequência, tanto por causa das viagens frequentes de Colin quanto da atribulada vida familiar de Daphne.
A Casa Hastings era uma das enormes mansões que pontilhavam Mayfair e St.
James. Construída com pedras de Portland, era grande, quadrada e muito imponente em seu esplendor ducal.
O que só fazia com que fosse ainda mais divertido que a atual duquesa fosse a sua irmã, pensou Colin, com um sorriso irônico. Não conseguia pensar em ninguém menos altiva ou imponente. Na realidade, Daphne tinha tido dificuldade em encontrar um marido exatamente por ser tão simpática e afável.
Os cavalheiros costumavam vê-la apenas como uma amiga, e não como uma noiva em potencial.
Mas tudo isso mudou quando ela conheceu Simon Bassett, o duque de Hastings, e agora Daphne era uma respeitável senhora da alta sociedade, com quatro filhos de 10, 9, 8 e 7 anos. Colin às vezes ainda achava estranho que a irmã fosse uma mãe de família enquanto ele continuava a ter a vida livre e desimpedida de um homem solteiro. Com apenas um ano de diferença entre eles, os dois irmãos tinham passado pelas diversas fases da vida juntos. Mesmo depois de casada, as coisas não ficaram tão diferentes: ela e Simon continuaram frequentando as mesmas festas que ele e tinham muitos dos mesmos interesses e atividades.
Mas então ela começara a ter filhos, e embora Colin sempre ficasse encantado
em ganhar mais uma nova sobrinha ou sobrinho, cada nascimento destacava o fato de que Daphne dera continuidade à sua vida de uma forma muito distinta da dele.
No entanto, ele pensou, sorrindo enquanto o rosto de Penelope invadia os seus pensamentos, em breve isso mudaria.
Filhos. Era uma ideia bastante agradável, na verdade.
Não tinha pensado em visitar Daphne, mas agora que estava ali achou que poderia entrar para cumprimentá-la, então subiu as escadas e bateu à porta com a aldrava de latão. Jeffries, o mordomo, abriu quase de imediato.
– Sr. Bridgerton – disse ele. – Sua irmã não o esperava.
– Não, decidi lhe fazer uma surpresa. Ela está em casa?
– Vou ver – respondeu o homem com um aceno da cabeça, embora ambos soubessem que Daphne jamais se recusaria a receber um membro da própria família.
Enquanto Jeffries informava a Daphne sobre sua presença, Colin aguardou na sala de estar, vagando pelo aposento, inquieto demais para se sentar ou mesmo para ficar parado. Alguns minutos depois, Daphne surgiu à porta parecendo um pouco desarrumada, mas feliz, como sempre.
E por que não deveria estar? Tudo o que ela sempre desejara na vida fora se casar e ter filhos, e ao que parecia a realidade conseguira superar os seus sonhos.
– Olá, minha irmã – cumprimentou Colin, com um sorriso, enquanto atravessava a sala para lhe dar um abraço rápido. – Seu ombro está com...
Ela olhou para o próprio ombro, então sorriu envergonhada ao perceber que havia um enorme borrão cinza-escuro sobre o rosa-pálido do vestido.
– Carvão – explicou, pesarosa. – Estava tentando ensinar Caroline a desenhar.
– Você? – indagou Colin, em tom de dúvida.
– Eu sei, eu sei – respondeu ela. – Ela realmente não poderia ter escolhido professora pior, mas só decidiu ontem que adora arte, então eu sou tudo o que ela tem, assim, de uma hora para outra.
– Porque você não arruma as malas dela e a manda passar uma temporada com Benedict? – sugeriu Colin. – Tenho certeza que ele adoraria lhe dar uma ou duas aulas.
– A ideia já me passou pela cabeça, mas não tenho nenhuma dúvida de que ela já vai ter passado para alguma outra atividade até eu conseguir tomar as devidas providências. – Ela fez um sinal em direção ao sofá. – Sente-se. Está parecendo um felino enjaulado, andando de um lado para outro desse jeito.
Ele obedeceu, embora estivesse se sentindo incomumente irrequieto.
– E, antes que peça – acrescentou Daphne –, já solicitei a Jeffries que providencie um lanche. Sanduíches serão o bastante?
– Deu para ouvir o meu estômago roncar do outro lado da sala?
– Do outro lado da cidade, sinto dizer – retrucou ela, rindo. – Toda vez que troveja, David diz que é a sua barriga, sabia disso?
– Ah, meu Deus – murmurou Colin, embora não parasse de rir.
O sobrinho era mesmo um menino esperto.
Daphne sorriu enquanto se acomodava entre as almofadas do sofá e pousava as mãos elegantemente sobre o colo.
– O que o traz aqui, Colin? Não que precise de um motivo, é claro. É sempre um prazer vê-lo.
Ele deu de ombros.
– Só estava passando.
– Foi ver Anthony e Kate? – indagou ela. A Casa Bridgerton, onde o irmão mais velho morava com a família, ficava em frente à Casa Hastings, na mesma praça. – Benedict e Sophie já estão lá com as crianças, para ajudar a preparar o seu baile de noivado, hoje à noite.
Ele balançou a cabeça.
– Não, sinto dizer que você foi a minha vítima escolhida.
Ela sorriu de novo, mas dessa vez a expressão foi mais suave, atenuada por certa dose de curiosidade.
– Há algo de errado?
– Não, é claro que não – respondeu ele, rapidamente. – Por quê?
– Não sei. – Ela inclinou a cabeça para o lado. – Você me parece estranho, só isso.
– Apenas cansado.
Ela assentiu, compreensiva.
– Por causa dos preparativos para o casamento, imagino.
– Isso – retrucou ele, aproveitando a desculpa, embora não tivesse a menor ideia do que tentava esconder dela.
– Bem, lembre-se de que, seja lá o que você estiver passando – disse ela, com uma expressão irritadiça –, é mil vezes pior para Penelope. É sempre pior para as mulheres. Pode acreditar.
– Para casamentos ou para tudo? – indagou ele, com delicadeza.
– Tudo – falou Daphne, de imediato. – Sei que vocês, homens, acham que têm as coisas sempre sob controle, mas...
– Eu nem sonharia em pensar nisso a sério – disse Colin, sem estar sendo
inteiramente sarcástico.
Ela franziu a testa, irritada.
– As mulheres têm muito mais a fazer do que os homens. Sobretudo quando se trata de casamentos. Com todas as provas de vestido que Penelope sem dúvida tem marcadas, já deve estar se sentindo como uma almofada para alfinetes.
– Eu sugeri que fugíssemos para nos casarmos – comentou Colin, com normalidade –, e acho que ela até teve esperança de que eu estivesse falando sério.
Daphne riu.
– Fico tão feliz que esteja se casando com ela, Colin...
Ele assentiu, sem planejar lhe dizer nada, então de repente se pegou falando:
– Daphne...
– Sim?
Ele abriu a boca e...
– Não é nada.
– Ah, não, você não vai fazer isso – retrucou ela. – Agora aguçou a minha curiosidade.
Ele tamborilou no sofá.
– Será que a comida já está chegando?
– Está mesmo com fome ou só tentando mudar de assunto?
– Estou sempre com fome.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
– Colin, o que ia dizer? – perguntou, por fim, a voz baixa e suave.
Ele se levantou de súbito, inquieto demais para permanecer parado, e pôs-se a caminhar de um lado para outro. Então, parou e se virou para a irmã, para o seu rosto preocupado.
– Não é nada – falou, embora isso não fosse verdade. – Como é que uma pessoa sabe? – perguntou atabalhoadamente, sem ao menos saber que havia completado a frase até ela responder.
– Sabe o quê?
Ele parou diante da janela. Parecia que iria chover. Teria de pegar uma carruagem emprestada de Daphne, a não ser que quisesse chegar em casa encharcado após a longa caminhada. No entanto, nem sabia por que estava pensando nisso, pois o que queria mesmo saber era...
– Como uma pessoa sabe o quê, Colin? – repetiu Daphne.
Ele se virou e resolveu deixar as palavras saírem, livres:
– Como uma pessoa sabe se é amor?
Por um instante ela apenas o fitou, os olhos castanhos arregalados de surpresa, os lábios entreabertos.
– Deixe para lá – murmurou Colin.
– Não! – exclamou ela, levantando-se no mesmo instante. – Fico satisfeita por ter perguntado. Muito satisfeita. Só estou... surpresa, devo dizer.
Ele fechou os olhos, indignado consigo mesmo.
– Não acredito que lhe perguntei isso.
– Não, Colin, não seja bobo. É realmente bastante... gentil da sua parte ter perguntado. E não consigo expressar como estou envaidecida por ter me procurado quando...
– Daphne... – retrucou ele.
A irmã tinha um jeito especial de se afastar do assunto, e ele não estava com disposição para as divagações dela.
De repente, Daphne estendeu os braços e o abraçou. Depois, ainda com as mãos em seus ombros, disse:
– Eu não tenho ideia.
– Como?
Ela balançou a cabeça de leve.
– Eu não tenho ideia de como uma pessoa sabe que é amor. Acho que é diferente para cada um.
– Como você soube?
Ela mordeu o lábio inferior por vários segundos antes de responder:
– Não sei.
– O quê?
Ela deu de ombros, num gesto de impotência.
– Eu não me lembro. Já faz tanto tempo... Eu apenas... soube.
– Então, o que está dizendo – começou Colin, encostando-se no peitoril da janela e cruzando os braços – é que se uma pessoa não souber que ama outra, é provável que não ame.
– Isso – retrucou ela, com firmeza. – Não! Não foi isso que eu quis dizer de jeito nenhum.
– Então o que quis dizer?
– Eu não sei – respondeu ela, sem muita convicção.
Ele a fitou.
– E há quanto tempo está casada mesmo? – murmurou ele.
– Ora, Colin, não zombe de mim, estou tentando ajudar.
– E eu agradeço a tentativa, mas, realmente, Daphne, você...
– Eu sei, eu sei – interrompeu ela. – Eu sou uma inútil. Mas ouça: você gosta de Penelope? – Então ela sufocou um grito, horrorizada. – Estamos falando de Penelope, certo?
– É claro que estamos – retrucou ele, com impaciência.
Daphne suspirou aliviada.
– Que bom, porque, se não fosse, posso garantir que não teria nenhum conselho para lhe dar.
– Vou embora – anunciou ele, de forma abrupta.
– Não, não vá – implorou ela, colocando a mão sobre o seu braço. – Fique, Colin, por favor.
Ele olhou para a irmã e suspirou, experimentando uma sensação de derrota.
– Estou me sentindo um idiota.
– Colin – disse ela, guiando-o até o sofá e fazendo com que se sentasse. –
Ouça: o amor cresce e muda todos os dias. Não é como um raio que cai do céu e transforma você num homem diferente de forma instantânea. Eu sei que Benedict costuma dizer que foi assim com ele, e isso é encantador, mas, bem, Benedict não é normal.
Colin teve uma vontade imensa de morder a isca e começar a falar do irmão, mas ficou em silêncio.
– Não foi assim comigo – completou Daphne – e não acho que tenha sido com Simon, embora eu não me lembre de já ter perguntado.
– Devia perguntar.
Ela ficou boquiaberta por um instante, com os olhos arregalados, parecendo um pássaro surpreso.
– Por quê?
Ele deu de ombros.
– Para me contar.
– Por quê? Você acha que é diferente para os homens?
– Assim como tudo.
Ela fez uma careta.
– Estou começando a ter bastante pena de Penelope.
– Bem, acho que você deveria mesmo – retrucou ele. – Sem dúvida vou ser um péssimo marido.
– Não vai, não – disse ela, dando um tapa em seu braço. – Por que diabo haveria de falar uma coisa dessas? Você nunca seria infiel a ela.
– Isso é verdade – concordou ele. Ficou em silêncio por um momento e, quando enfim voltou a falar, a voz saiu baixa: – Mas talvez não a ame como ela
merece.
– Ou talvez ame. – Ela atirou as mãos para cima num gesto exasperado. – Pelo amor de Deus, Colin, o simples fato de você estar aqui perguntando à sua irmã sobre o amor provavelmente significa que já está na metade do caminho.
– Você acha?
– Se não achasse, não teria falado nada – retrucou ela, então deu um suspiro. –
Pare de pensar tanto, Colin. Vai achar o casamento algo bem mais fácil se deixar que tudo aconteça naturalmente.
Ele a olhou desconfiado.
– Quando você ficou tão filosófica?
– No momento em que você apareceu aqui e me forçou a pensar no assunto –
respondeu ela, de imediato. – Vai se casar com a pessoa certa. Pare de se preocupar tanto.
– Não estou preocupado – disse ele, de forma automática, embora estivesse, sim, preocupado, então nem tentou contestar quando Daphne lhe dirigiu um olhar sarcástico.
No entanto, sua apreensão não era se Penelope era a mulher certa. Disso tinha certeza.
Também não era em relação ao casamento ser bom ou não. Estava certo de que seria.
Não, sua preocupação era ridícula. Estava apreensivo com relação a amar Penelope ou não, mas não porque seria o fim do mundo se amasse (ou não amasse), e sim por estar muito incomodado com a sensação de não saber exatamente o que estava sentindo.
– Colin?
Ele olhou para a irmã, que o encarava com uma expressão bastante confusa.
Levantou-se, antes que dissesse algo tão embaraçoso que lhe causasse arrependimento, então se abaixou e a beijou no rosto.
– Obrigado – falou.
Ela estreitou os olhos.
– Não sei se está falando sério ou se está zombando de mim por ter sido inútil.
– Você foi completamente inútil – concordou ele –, mas ainda assim foi um agradecimento sincero.
– Pelo esforço?
– Podemos dizer que sim.
– Vai à Casa Bridgerton?
– Para quê? Ficar envergonhado na frente de Anthony também?
– Ou de Benedict. Ele também está lá.
O problema das famílias grandes era que nunca faltavam oportunidades para fazer papel de tolo na frente de um irmão.
– Não – retrucou ele, com um sorriso irônico –, acho que vou andando para casa.
– Andando? – ecoou ela, surpresa.
Ele olhou em direção à janela.
– Acha que vai chover?
– Pegue a minha carruagem, Colin, e, por favor, espere os sanduíches. Com certeza vai haver uma montanha deles. Se você for embora antes de chegarem, acabarei comendo metade e depois vou me odiar pelo resto do dia.
Ele assentiu e se sentou outra vez. Foi a melhor coisa que fez. Sempre adorara salmão defumado. Na verdade, levou um prato consigo na carruagem para comer no caminho até sua casa, debaixo da chuva torrencial.
Quando os Bridgertons ofereciam uma festa, faziam-no em grande estilo.
E quando ofereciam um baile de noivado... Bem, se Lady Whistledown ainda estivesse na ativa, teria levado no mínimo três colunas para narrar o evento.
Até mesmo aquele baile de noivado, planejado às pressas (nem Lady Bridgerton nem Lady Featherington estavam dispostas a correr o risco de que os filhos mudassem de ideia após um longo noivado), podia facilmente ser classificado como o baile da temporada.
Embora parte disso, pensou Penelope, sombria mas irônica, tivesse pouco a ver com a festa em si e tudo a ver com a especulação de por que diabo Colin Bridgerton escolhera uma ninguém como ela para desposar. Os rumores não foram tão graves nem quando Anthony se casara com Kate Sheffield, que, assim como Penelope, jamais fora considerada um diamante de primeira grandeza. Mas ao menos Kate não fora considerada velha. Penelope não tinha ideia de quantas vezes ouvira a palavra solteirona ser sussurrada às suas costas nos últimos dias.
Mas, embora os mexericos fossem um tanto entediantes, não a incomodavam, porque ela continuava navegando em um mar de felicidade. Era impossível para uma mulher não ficar completamente boba de tanta alegria depois que o homem por quem passara a vida inteira apaixonada a tinha pedido em casamento.
Ainda que ela não conseguisse compreender exatamente como tudo aquilo tinha acontecido.
Bem, o importante é que tinha acontecido.
Colin era tudo o que qualquer pessoa podia sonhar num noivo. Passou quase a noite inteira a seu lado, e Penelope nem teve a impressão de que o fizera para protegê-la dos boatos. Na verdade, ele parecia ignorar por completo todo o falatório.
Era quase como se... Penelope sorriu. Era quase como se Colin estivesse ao seu lado porque queria.
– Você viu Cressida Twombley? – sussurrou Eloise em seu ouvido enquanto Colin dançava com a mãe. – Está verde de inveja.
– É só o vestido dela – retrucou Penelope com impressionante impassibilidade.
Eloise riu.
– Ah, como eu queria que Lady Whistledown estivesse na ativa. Ia acabar com ela.
– Achei que ela fosse Lady Whistledown – disse Penelope, com cautela.
– Ora, mas que besteira. Não acredito nem por um instante que Cressida seja Lady Whistledown, e tampouco acredito que você ache isso.
– É, tem razão – concordou Penelope.
Sabia que seu segredo ficaria mais bem protegido se afirmasse acreditar na história de Cressida, mas qualquer um que a conhecesse consideraria isso tão sem sentido que pareceria suspeito demais.
– Cressida só queria o dinheiro – continuou Eloise, com desdém. – Ou, talvez, a notoriedade. Provavelmente, os dois.
Penelope observou a inimiga sendo paparicada pelos súditos do outro lado do salão. Seus seguidores de sempre se amontoavam a seu redor, junto com pessoas novas, que deviam estar curiosas sobre o boato de Lady Whistledown.
– Bem, pelo menos notoriedade ela conseguiu.
Eloise assentiu.
– Não consigo nem imaginar por que foi convidada. Com certeza não há nenhum laço entre você duas e nenhum de nós gosta dela.
– Colin insistiu.
Eloise se virou para ela, boquiaberta.
– Por quê?
Penelope suspeitava que o principal motivo fosse a afirmação recente de Cressida de que era Lady Whistledown; a maioria dos membros da alta sociedade não sabia ao certo se ela estava mentindo, mas ninguém se dispunha a lhe negar um convite para um evento, caso tivesse dito a verdade.
E Colin e Penelope teoricamente não tinham motivo algum para saber com certeza.
No entanto, Penelope não podia revelar isso a Eloise, então lhe contou o resto da história, que continuava sendo verdade:
– Sua mãe não queria dar margem a nenhum tipo de boato cortando-a da lista, e Colin também disse...
Ela ruborizou. Na realidade, tinha sido muita gentil da parte dele.
– O quê? – quis saber Eloise.
Penelope não conseguiu falar sem sorrir:
– Ele disse que queria que Cressida fosse forçada a me assistir em meu momento de triunfo.
– Ah. Meu. Deus. – Eloise deu a impressão de que precisava se sentar. – Meu irmão está apaixonado.
O rubor de Penelope aumentou ainda mais.
– Está – exclamou Eloise. – Só pode. Ah, você tem de me contar. Ele já falou?
Havia algo maravilhoso e terrível em ouvir Eloise se entusiasmar daquele jeito. Por um lado, era sempre ótimo compartilhar os momentos mais perfeitos da vida com a melhor amiga, e a alegria e animação de Eloise eram contagiantes.
Mas, por outro lado, não eram necessariamente justificadas, pois Colin não a amava. Ou, pelo menos, não o dissera.
No entanto, agia como se a amasse! Penelope se agarrava a esse pensamento, tentando se concentrar nele em vez de no fato de ele nunca ter pronunciado aquelas palavras.
Ações eram mais importantes do que palavras, certo?
E as ações dele a faziam se sentir como uma princesa.
– Srta. Featherington! Srta. Featherington!
Penelope olhou para a esquerda e ficou exultante. A voz que tinha ouvido só podia ser de Lady Danbury.
– Srta. Featherington – repetiu a velha senhora, enquanto cutucava as pessoas com a bengala até conseguir passar pela multidão e estar bem na frente de Penelope e de Eloise.
– Lady Danbury, que prazer em vê-la.
– He, he, he. – O rosto de Lady Danbury ficou quase jovem devido à força de seu sorriso. – É sempre um prazer me ver, não importa o que as outras pessoas digam. E você, sua diabinha? Veja só o que você fez.
– Não é o máximo? – comentou Eloise.
Penelope olhou para a melhor amiga. Mesmo com toda a confusão de emoções que expressara, Eloise estava sinceramente feliz por ela. De súbito, o fato de estarem no meio de um salão de baile abarrotado, com todos a olhá-la como se ela fosse algum espécime num experimento de biologia, não teve mais importância. Ela se virou e deu um abraço apertado em Eloise, sussurrando:
– Eu a amo muito.
– Eu sei que ama – murmurou Eloise.
Lady Danbury bateu com a bengala com força no chão.
– Ainda estou aqui, senhoras.
– Ah, desculpe – disse Penelope, envergonhada.
– Não há problema – retrucou Lady Danbury, com um atípico grau de paciência. – Se querem saber, é muito agradável estar diante de duas moças que preferem se abraçar a se esfaquear nas costas.
– Obrigada por vir até aqui me dar os parabéns – falou Penelope.
– Eu não teria perdido isto por nada neste mundo – comentou Lady Danbury.
– He, he, he. Este bando de tolos tentando descobrir como você conseguiu que ele a pedisse em casamento quando a única coisa que fez foi ser você mesma.
Penelope entreabriu os lábios e as lágrimas arderam em seus olhos.
– Ora, Lady Danbury, deve ser a coisa mais gentil...
– Não, não – interrompeu a velha senhora, em voz bem alta. – Nada disso.
Não tenho tempo ou inclinação para sentimentalismo.
Mas Penelope notou que ela sacara o lenço e secava os olhos discretamente.
– Ah, Lady Danbury – disse Colin, retornando ao grupo e passando o braço pelo de Penelope num gesto de possessividade. – Que prazer em vê-la.
– Sr. Bridgerton – retrucou ela, num breve cumprimento. – Só vim dar os parabéns à sua noiva.
– Ah, mas sem dúvida quem merece os parabéns sou eu.
– Hum, sábias palavras – elogiou Lady D. – Acho que tem razão. Ela é um prêmio muito melhor do que todos percebem.
– Eu percebo – retrucou ele, numa voz tão grave e séria que Penelope achou que poderia desmaiar de emoção. – Agora, com sua licença – acrescentou, com educação –, preciso apresentar minha noiva a meu irmão...
– Eu já conheço seu irmão – interrompeu Penelope.
– Considere isto uma tradição – explicou ele. – Temos de dar as boas-vindas oficiais a você na família.
– Ah. – Ela ficou emocionada diante da ideia de se tornar uma Bridgerton. –
Que encantador.
– Como eu ia dizendo – continuou Colin –, Anthony gostaria de fazer um
brinde e, em seguida, eu dançarei uma valsa com Penelope.
– Muito romântico – observou Lady Danbury, em tom de aprovação.
– É, bem, eu sou romântico – concordou Colin.
Eloise deixou escapar um resfolegar alto.
Ele se virou para ela com uma sobrancelha arqueada de forma arrogante.
– Mas eu sou.
– Pelo bem de Penelope – replicou sua irmã –, eu espero que seja mesmo.
– Eles são sempre assim? – indagou Lady Danbury a Penelope.
– Na maior parte do tempo.
A velha senhora assentiu.
– Que bom. Meus filhos quase nunca se falam. Não por má vontade, é claro, mas por não terem nada em comum. É triste, na verdade.
Colin deu um pequeno apertão no braço de Penelope.
– Realmente temos de ir.
– É claro – murmurou ela.
Mas, ao se virar para caminhar em direção a Anthony, que estava do outro lado do salão, parado próximo à pequena orquestra, ouviu um tumulto à porta.
– Atenção! Atenção!
O sangue fugiu-lhe do rosto em menos de um segundo.
– Ah, não – sussurrou.
Aquilo não devia acontecer. Não naquela noite, pelo menos.
Segunda-feira, sua mente gritou. Ela pedira ao tipógrafo na segunda-feira. No baile dos Mottram.