Os Segredos de Colin Bridgerton
Capítulo 12
Na manhã seguinte, assim que acordou, Colin lembrou que não se desculpara com Penelope. Estritamente falando, era provável que já não fosse necessário: embora mal tivessem se falado no baile dos Macclesfields, na noite anterior, pareciam ter chegado a uma trégua implícita. Ainda assim, Colin achava que não se sentiria confortável consigo mesmo até pronunciar as palavras “Me desculpe”.
Era o correto a fazer.
Ele era um cavalheiro, afinal.
Além do mais, estava com vontade de vê-la naquela manhã.
Foi ao Número Cinco tomar café da manhã com a família, mas queria ir direto para casa após ver Penelope, então subiu na carruagem para fazer a viagem até a casa dos Featheringtons, na Rua Mount, apesar de a distância ser curta o bastante para que ele sentisse preguiça de percorrê-la.
Sorriu, satisfeito, e se recostou no assento para observar a encantadora paisagem primaveril que ia se revelando pela janela. Era um daqueles dias perfeitos nos quais tudo parecia correr bem. O sol brilhava, ele se sentia bem-disposto, tivera uma excelente refeição matinal...
Era quase impossível que a vida ficasse melhor do que aquilo.
E estava a caminho para ver Penelope.
Colin escolheu não analisar o motivo pelo qual se sentia tão ansioso para encontrá-la: esse era o tipo de coisa em que um homem solteiro de 33 anos em geral escolhia não pensar. Em vez disso, apenas deliciou-se com o dia: o sol, o ar, até mesmo as três elegantes casinhas por que passou na Rua Mount antes de vislumbrar a porta de Penelope. Não havia nada de diferente nem de original em qualquer uma delas, mas era uma manhã tão perfeita que lhe pareceram encantadoras, encostadas umas nas outras, altas, estreitas e imponentes, com sua fachada de pedras Portland cinzentas.
Era um dia maravilhoso, cálido e sereno, ensolarado e tranquilo...
A não ser pelo fato de que, quando começou a se levantar do assento, um pequeno movimento do outro lado da rua chamou a sua atenção.
Penelope.
Ela estava na esquina das Ruas Mount e Penter, onde não poderia ser vista por
ninguém que estivesse olhando de dentro da residência dos Featheringtons. E
estava subindo numa carruagem de aluguel.
Interessante.
Colin franziu a testa. Aquilo não era interessante. Que diabo ele estava pensando? Não era nada interessante. Talvez pudesse ser se ela fosse, digamos, um homem. Ou se a carruagem em que acabara de entrar pertencesse aos Featheringtons, em vez de ser um maltrapilho transporte de aluguel.
Mas não, aquela era Penelope, que não era um homem, em absoluto, e que entrava numa carruagem sozinha, talvez em direção a algum destino completamente inadequado, porque, se estivesse prestes a fazer algo apropriado e normal, estaria a bordo de um transporte da família Featherington. Ou, melhor, na companhia de uma de suas irmãs, de uma dama de companhia ou de qualquer outra pessoa, e não, maldita fosse, sozinha.
Aquilo não era interessante, era uma idiotice.
– Mas que mulher tola – murmurou Colin, saltando da carruagem com a intenção de correr em direção ao carro de aluguel, escancarar a porta e arrastá-la para fora.
Porém, no instante em que colocou o pé direito para fora, foi tomado pela mesma loucura que o levava a perambular pelo mundo.
A curiosidade.
Ele murmurou vários impropérios, todos direcionados a si mesmo. Não pôde se controlar. Era tão atípico de Penelope desaparecer daquela forma, num carro de aluguel, que Colin precisava saber aonde ela estava indo.
Assim, em vez de tentar colocar algum juízo na cabeça dela, mandou que o chofer seguisse a carruagem, que foi para o norte, em direção à movimentada Rua Oxford, onde, refletiu Colin, provavelmente Penelope pretendia fazer compras. Podia haver inúmeras razões pelas quais ela não estava usando a carruagem dos Featheringtons. Talvez estivesse quebrada ou, quem sabe, um dos cavalos tivesse adoecido, ou talvez ela fosse comprar um presente para alguém e quisesse fazer segredo.
Não, aquilo não fazia muito sentido. Penelope jamais sairia para fazer compras por conta própria. Levaria uma dama de companhia, uma das irmãs, ou até uma das irmãs dele. Caminhar pela Rua Oxford sozinha era pedir para ser alvo de fofocas. Uma mulher naquela posição certamente seria o assunto da próxima coluna de Lady Whistledown .
Se Lady Whistledown ainda existisse, ele lembrou. Era difícil se acostumar à vida sem ela. Ainda não se dera conta de quanto se habituara a ver seu jornal
sobre a mesa do café da manhã quando estava na cidade.
E, por falar em Lady Whistledown, estava mais certo do que nunca de que ela só podia ser Eloise. Naquela manhã, fora ao Número Cinco para o desjejum com o único intuito de questioná-la, mas fora informado de que a irmã continuava indisposta e que não se juntaria à família.
Colin não deixara de notar, no entanto, que uma bandeja repleta de comida fora levada ao quarto dela. O que quer que estivesse fazendo mal à irmã, não havia afetado o seu apetite.
Ele não mencionara as suas suspeitas à mesa do café: não via motivo para perturbar a mãe, que sem dúvida ficaria horrorizada diante da ideia. Era difícil acreditar, porém, que Eloise, cuja disposição para fofocar sobre um escândalo só era menor que sua empolgação em descobrir um, perderia a oportunidade de comentar a revelação de Cressida Twombley na noite anterior.
A não ser que Eloise fosse Lady Whistledown, motivo pelo qual estaria no quarto, bolando o próximo passo.
As peças todas se encaixavam. Teria sido deprimente se Colin não fosse tomado por um estranho entusiasmo em descobri-la.
Após alguns minutos, enfiou a cabeça para fora da carruagem para se certificar de que o chofer não tinha perdido o veículo de Penelope de vista. Lá estava ela, bem à sua frente. Ou, pelo menos, ele acreditava ser ela. A maioria dos automóveis de aluguel era parecida, então teria de confiar que estava atrás do correto. No entanto, ao olhar para fora, constatou que haviam seguido bem mais para o leste do que havia se dado conta. Na verdade, acabavam de passar pela Rua Soho, o que significava que estavam quase em Tottenham Court Road, o que queria dizer que...
Por Deus, será que Penelope estava indo até a casa dele? A Praça Bedford ficava praticamente logo depois da esquina.
Foi tomado por uma deliciosa sensação, porque não conseguiu imaginar o que ela estaria fazendo naquela parte da cidade senão indo vê-lo. Quem mais uma mulher como Penelope conheceria em Bloomsbury? Não podia imaginar que sua mãe lhe permitisse se relacionar com pessoas que trabalhavam para viver, e os vizinhos de Colin, embora fossem bem-nascidos, não faziam parte da aristocracia e em raros casos pertenciam até mesmo à pequena nobreza. Eram médicos, advogados ou...
Colin fez uma careta de desaprovação. Acabavam de passar por Tottenham Court Road. Mas que diabo ela estaria fazendo tão para o leste? Talvez o condutor não conhecesse a cidade muito bem e tivesse achado melhor pegar a
Rua Bloomsbury até a Praça Bedford, apesar de ficar um pouco fora do caminho, mas...
Ele ouviu um barulho muito estranho e se deu conta de que era o som dos próprios dentes rangendo. Acabavam de passar pela Rua Bloomsbury e agora dobravam à direita em High Holborn.
Mas que diabo! Estavam praticamente na região de City. Por Deus, o que Penelope planejava fazer ali? Aquilo não era lugar para uma mulher. Ele mesmo jamais ia até lá. O mundo da alta sociedade ficava bem mais para oeste, nos sagrados prédios de St. James e Mayfair. Não em City, com suas ruas estreitas, serpenteantes e medievais, e sua perigosa proximidade com as casas de cômodos do East End.
Colin ficava cada vez mais perplexo à medida em que iam em frente... e em frente... e em frente... até que percebeu que estavam dobrando na Shoe Lane.
Esticou a cabeça para fora da janela. Só estivera ali uma vez, aos 9 anos, quando seu tutor o arrastara, junto com Benedict, para lhes mostrar onde o Grande Incêndio de Londres tivera início, em 1666. Colin lembrava-se de ter ficado um pouco desapontado ao saber que o culpado fora um simples padeiro que não molhara as cinzas do forno da forma correta. Um incêndio como aquele só podia ter sido criminoso.
No entanto, aquela tragédia não era nada comparada ao que ele sentia agora.
Era bom que Penelope tivesse uma excelente razão para ir até ali sozinha. Ela não devia ir a lugar nenhum desacompanhada, muito menos a City.
Então, justo quando Colin estava convencido de que ela iria prosseguir até a costa de Dover, a carruagem atravessou a Rua Fleet e parou. Colin ficou imóvel, esperando para ver o que Penelope ia aprontar, embora cada fibra do seu ser gritasse para ele saltar da carruagem e abordá-la ali mesmo na calçada.
Por intuição ou por loucura, de alguma forma ele sabia que, se falasse com ela naquele momento, jamais descobriria o verdadeiro motivo de ela estar ali.
Quando ela já tinha se afastado o suficiente para que ele pudesse saltar sem ser notado, desceu da carruagem e a seguiu rumo ao sul, em direção a uma igreja que mais parecia um bolo de noiva.
– Pelo amor de Deus – murmurou Colin, sem se dar conta da quantidade de blasfêmias que proferia –, isso não é hora de ser religiosa, Penelope.
Ela desapareceu igreja adentro e ele foi atrás, diminuindo o ritmo apenas ao chegar à porta da frente. Não queria surpreendê-la cedo demais. Não sem antes descobrir o que ela pretendia. Não acreditava nem por um instante que Penelope tivesse sentido um súbito desejo de aumentar a frequência à igreja com visitas no
meio da semana.
Entrou na igreja, andando o mais silenciosamente possível. Penelope seguia pelo corredor central, encostando a mão esquerda de leve em cada um dos bancos, como se estivesse...
Contando?
Colin franziu as sobrancelhas quando ela escolheu o banco que queria e andou até o meio dele. Sentou-se imóvel por um instante, então enfiou a mão dentro da bolsa e sacou um envelope. Fez um movimento quase imperceptível com a cabeça para a esquerda, depois para a direita, e Colin imaginou sua expressão ao fazer isso, os olhos escuros dardejando nas duas direções enquanto procurava saber se havia outras pessoas ali. Ele estava a salvo no fundo da igreja, oculto nas sombras, quase encostado na parede. Além do mais, ela estava muito concentrada em ser discreta e não virou a cabeça o suficiente para vê-lo às suas costas.
Havia bíblias e livros de oração enfiados em pequenos bolsos às costas dos bancos, e Colin observou enquanto Penelope enfiava sorrateiramente o envelope atrás de um deles. Então ela se levantou e se dirigiu de novo ao corredor central.
Nesse momento, ele deu o bote.
Saiu das sombras e caminhou direto até ela, sentindo uma cruel satisfação ao ver o horror estampado em seu rosto ao deparar com ele.
– Col... Col... – gaguejou Penelope.
– Acho que está querendo dizer Colin – retrucou ele, estendendo cada sílaba enquanto a pegava pelo cotovelo.
O toque era suave, mas firme, e não havia a menor forma de ela achar que poderia escapar.
Inteligente como era, ela nem mesmo tentou.
Mas, inteligente como era, tentou se fazer de inocente.
– Colin! – conseguiu finalmente dizer. – Mas que... mas que...
– Surpresa?
Ela engoliu em seco.
– Isso.
– Tenho certeza que sim.
Penelope lançou um olhar rápido em direção à porta, depois à nave, em seguida a todos os lugares exceto o banco em que escondera o envelope.
– Eu... Eu nunca o vi por aqui antes.
– Eu nunca vim aqui.
Penelope abriu e fechou a boca várias vezes antes de conseguir dizer:
– Na verdade, é ótimo que esteja aqui, porque na verdade... na verdade... err...
você conhece a história de St. Bride?
Ele ergueu uma das sobrancelhas.
– É onde estamos?
Penelope claramente tentava sorrir, mas o resultado foi uma expressão mais embasbacada e boquiaberta. Em geral isso o teria divertido, mas ainda estava zangado com ela por ter saído sozinha, sem considerar a própria segurança ou bem-estar.
Mas, acima de tudo, estava furioso por ela ter um segredo.
Por mais irracional que fosse, ele simplesmente não tolerava esse fato. Aquela era Penelope. Ela devia ser um livro aberto. Ele a conhecia. Sempre a conhecera.
E, agora, parecia que se enganara a esse respeito.
– Sim – respondeu ela, enfim, nervosa. – É uma das igrejas de Christopher Wren, as que ele construiu após o Grande Incêndio e que estão espalhadas por toda parte aqui em City. Esta é a minha preferida. Eu realmente adoro o campanário. Não acha que parece um bolo de noiva?
Ela tagarelava, o que nunca era um bom sinal. Em geral significava que a pessoa tinha algo a esconder. Já tinha ficado bastante óbvio que Penelope estava sendo dissimulada, mas a rapidez atípica de sua fala dizia a ele que o segredo era muito, muito importante.
Fitou-a por um bom tempo, apenas para torturá-la, até enfim perguntar:
– É por isso que acha ótimo que eu esteja aqui?
Ela se mostrou confusa.
– O bolo de casamento... – instigou ele.
– Ah! – guinchou ela, com o vermelho profundo da culpa se insinuando em sua pele. – Não! De modo algum! É só que... O que quero dizer é que esta é a igreja para os escritores. E editores. Acho. Com relação aos editores, digo.
Ela tentava de tudo, em vão. E sabia disso. Colin o percebia em seus olhos, em seu rosto, na maneira como ela retorcia as mãos ao falar. Mas Penelope continuava tentando manter a farsa, e ele se limitou a lhe lançar um olhar sarcástico enquanto ela prosseguia:
– Mas tenho certeza em relação aos escritores. – Então, com um floreio que talvez tivesse sido triunfante se ela não tivesse estragado tudo engolindo em seco sem parar, acrescentou: – E você é escritor!
– Então está querendo dizer que esta é a igreja para mim?
– É... – Ela lançou um olhar rápido para a esquerda. – Estou.
– Ótimo.
Penelope engoliu em seco.
– É mesmo?
– É, sim – afirmou ele, imprimindo um tom sereno e informal às palavras com a intenção de apavorá-la.
Ela relanceou mais uma vez à esquerda... em direção ao banco no qual escondera o envelope. Até ali, conseguira manter a atenção longe da prova incriminadora. Ele quase sentiu orgulho dela por isso.
– Uma igreja para mim – repetiu ele. – Que ideia encantadora.
Penelope começou a arregalar os olhos, assustada.
– Acho que não entendi o que quer dizer.
Ele tamborilou um dos dedos no queixo, então estendeu a mão num gesto pensativo.
– Acho que venho desenvolvendo um gosto especial pela prece.
– Prece? – ecoou ela, com a voz fraca. – Você?
– Sim, eu.
– Eu... Bem... eu... eu...
– Sim? – disse ele, começando a gostar daquilo de forma um tanto doentia.
Jamais fizera o gênero irritadiço e rancoroso. Claramente nunca soubera o que estava perdendo. Havia algo de muito satisfatório em fazê-la se contorcer.
– Penelope? Queria dizer alguma coisa?
Ela voltou a engolir em seco.
– Não.
– Que bom. – Ele deu um sorriso afável. – Sendo assim, acho que preciso de alguns momentos a sós.
– Como?
Ele deu um passo para o lado, na direção do banco.
– Estou numa igreja. Logo, gostaria de rezar.
Ela também deu um passo para o lado.
– Como disse?
Colin olhou para Penelope com um ar de indagação.
– Falei que gostaria de rezar. Não é algo tão difícil de entender.
Percebeu que ela lutava de todas as formas para não morder a isca. Tentava sorrir, mas o maxilar estava tenso, e ele podia apostar que os dentes iriam se transformar em pó a qualquer instante de tanto ranger.
– Não achei que você fosse uma pessoa especialmente religiosa – comentou ela.
– E não sou. – Ficou em silêncio por um instante e acrescentou: – Minha
intenção é rezar por você.
Agora ela engolia em seco descontroladamente.
– Por mim? – guinchou.
– Porque – começou ele, depois aumentou o tom de voz a cada palavra, sem conseguir se conter – a prece é a única coisa capaz de salvá-la!
Em seguida, empurrou-a para o lado e se dirigiu ao local onde ela escondera o envelope.
– Colin! – gritou Penelope, correndo, desesperada, atrás dele. – Não!
Ele arrancou o envelope de trás do livro de orações com um puxão, sem o olhar por ora.
– Quer me contar o que é isto? Antes que eu mesmo veja?
– Não – respondeu ela, a voz sumindo no meio da palavra.
O coração dele se partiu à visão do pavor nos olhos dela.
– Por favor – implorou Penelope. – Por favor, me dê isso.
Então, quando ele nada fez além de encará-la muito sério, ela sussurrou:
– É meu. É um segredo.
– Um segredo que vale o seu bem-estar? – retrucou ele, quase rugindo. – A sua vida?
– Do que você está falando?
– Tem alguma ideia de como é perigoso uma mulher andar sozinha por aqui?
Ou por qualquer lugar?
A única resposta dela foi:
– Colin, por favor.
Estendeu a mão pedindo o envelope, ainda longe do seu alcance. E, de repente, ele já não sabia mais o que estava fazendo. Aquele não era ele.
Aquela fúria insana, aquela ira não podiam ser dele.
E, no entanto, eram.
Mas a parte mais inquietante era... era o fato de Penelope tê-lo deixado assim.
E o que ela fizera? Atravessara Londres sozinha? Ele estava irritado com ela por sua falta de preocupação com a própria segurança, mas isso não era nada comparado à raiva que sentia por ela estar escondendo segredos.
Sua raiva era completamente injustificada. Não tinha o menor direito de esperar que Penelope compartilhasse seus segredos com ele. Não tinham compromisso algum um com o outro, nada além da amizade e um único – ainda que comovente, de uma forma bastante inquietante – beijo. Sem dúvida ele não teria lhe mostrado seu diário se Penelope não o tivesse encontrado por acaso.
– Colin – sussurrou ela. – Por favor... não faça isso.
Penelope vira seus escritos secretos. Por que ele não haveria de ver os dela?
Será que ela tinha um amante? Toda aquela história sobre jamais ter sido beijada seria mentira?
Por Deus, o que era aquele fogo que queimava em seu estômago? Ciúme?
– Colin – repetiu ela, agora engasgando.
Pousou a mão sobre a dele, tentando impedi-lo de abrir o envelope. Fez isso com delicadeza, pois jamais seria capaz de vencê-lo pela força.
Só que não havia a menor forma de ele conseguir se conter naquele momento.
Preferiria morrer a lhe devolver aquele envelope sem ver o que continha.
Abriu-o com um rasgão.
Penelope deixou escapar um grito estrangulado e saiu correndo da igreja.
Colin leu o que estava escrito.
Então desabou no banco da igreja, ficando sem ar.
– Ah, meu Deus – sussurrou. – Ah, meu Deus.
Ao chegar aos degraus externos da igreja de St. Bride, Penelope estava histérica.
Ou, ao menos, o mais histérica que já ficara. Tinha a respiração entrecortada, as lágrimas pinicavam-lhe os olhos, e seu coração...
Bem, seu coração lhe dava a sensação de querer vomitar, se tal coisa fosse possível.
Como ele podia ter feito uma coisa daquelas? Ele a seguira. Seguira. Por quê?
O que tinha a ganhar com isso? Por que ele...
De repente, ela olhou em volta.
– Ah, droga! – gemeu, sem se importar se alguém a ouviria.
A carruagem partira. Ela dera instruções específicas para que o chofer a aguardasse, mas não o via em lugar nenhum.
Mais um percalço pelo qual podia culpar Colin. Ele a fizera se demorar na igreja e agora a carruagem partira, deixando-a presa ali, na escadaria da St.
Bride, a muitos quilômetros de casa. Agora as pessoas a encaravam e ela tinha certeza de que a qualquer instante alguém a abordaria, porque provavelmente ninguém ali nunca vira uma mulher de tão fina estirpe sozinha nas redondezas, muito menos uma que se encontrava tão claramente à beira de um ataque de nervos.
Por que, por que, por que fora tão tola em acreditar que ele era o homem perfeito? Passara a metade da vida venerando alguém que nem era real. Porque
era muito claro que o Colin que ela conhecia – não, o Colin que ela pensara conhecer – não existia. E, quem quer que fosse aquele homem, ela nem sabia ao certo se gostava dele. O rapaz que ela amara com tanta lealdade ao longo dos anos jamais teria se comportado daquela forma. Ele nunca a teria seguido. Bem, teria, sim, mas apenas para garantir sua segurança. No entanto, ele não teria sido tão cruel e sem dúvida não teria aberto a sua correspondência particular.
Ela havia lido duas páginas do diário dele, era verdade, mas o caderno não estava dentro de um envelope lacrado!
Penelope desabou sobre as escadas e sentiu a pedra fria através do tecido do vestido. Não havia muito o que pudesse fazer agora além de ficar ali, sentada, à espera de Colin. Só mesmo uma tola sairia a pé, sozinha, por um lugar tão longe de sua casa. Pensou que poderia fazer sinal para uma carruagem na Rua Fleet, mas e se estivessem todas ocupadas? Além do mais, qual era a finalidade de fugir de Colin? Ele sabia onde ela morava e, a não ser que Penelope decidisse se mudar para as Órcades, não era muito provável que fosse conseguir escapar de um confronto com ele.
Deu um suspiro. Colin provavelmente a encontraria nas Órcades, viajante experiente que era. E ela nem ao menos queria ir para as ilhas.
Conteve um soluço. Agora ela não estava nem pensando direito. Por que a ideia fixa nas Órcades?
Nesse momento, ouviu a voz de Colin atrás de si.
– Levante-se – foi só o que ele disse, rápido e com frieza.
Então ela se levantou, não porque ele tivesse mandado (pelo menos foi o que disse a si mesma), e não porque tivesse medo dele, mas porque não podia permanecer sentada nas escadas da St. Bride para sempre, e mesmo que fosse adorar passar os próximos seis meses escondida de Colin, naquele instante ele era sua única forma segura de chegar em casa.
Ele indicou a rua com um gesto rude da cabeça.
– Entre na carruagem.
Ela obedeceu e, enquanto subia, ouviu Colin dar o endereço de sua casa ao chofer, instruindo-lhe a ir “pelo caminho mais longo”.
Ah, Deus.
Depois de quase um minuto, ele lhe entregou a folha de papel que estivera dobrada dentro do envelope que ela deixara na igreja.
– Acredito que isto lhe pertença – falou.
Ela engoliu em seco e olhou para o papel. Não que precisasse fazê-lo: sabia as palavras de cor. Escrevera e reescrevera aquelas frases tantas vezes na noite
anterior que achava que elas jamais lhe sairiam da memória.
Não há nada que eu deteste mais do que um cavalheiro que acha divertido dar um tapinha condescendente na mão de uma senhora enquanto murmura “Uma mulher tem o direito de mudar de ideia”. E, de fato, como acredito que devemos respaldar nossas palavras com ações, me empenho para manter minhas opiniões e decisões firmes e verdadeiras.
É por isso, caro leitor, que quando escrevi minha coluna de 19 de abril, realmente tinha a intenção de que fosse a última. No entanto, acontecimentos fora de meu controle (ou, na verdade, que não contam com a minha aprovação) me forçaram a levar a caneta ao papel uma última vez.
Senhoras e senhores, esta autora NÃO É Lady Cressida Twombley. Ela nada mais é do que uma impostora intrigueira, e meu coração ficaria partido ao ver anos do trabalho árduo serem atribuídos a alguém como ela.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
21 DE ABRIL DE 1824
Penelope dobrou o papel outra vez com toda a concentração, aproveitando o instante para tentar se recompor e descobrir o que devia dizer num momento como aquele. Por fim, tentou sorrir, sem encarar Colin, e brincou:
– Você imaginava?
Ele ficou em silêncio, então ela foi forçada a erguer a vista e, assim que o fez, se arrependeu. Colin lhe pareceu completamente diferente. O sorriso fácil que sempre brincava em seus lábios, o bom humor que permeava seu olhar – tudo isso havia sumido, sendo substituído por rugas profundas e uma frieza absoluta.
O homem que ela um dia conhecera, o homem que ela amara por tanto tempo... Penelope já não sabia quem era.
– Vou interpretar isso como um não – falou, vacilante.
– Sabe o que estou tentando fazer neste instante? – perguntou ele, a voz atemorizante e alta em meio ao barulho ritmado dos cascos dos cavalos.
Ela abriu a boca para dizer que não, mas um único olhar para o rosto dele deixou claro que Colin não desejava uma resposta, então ela segurou a língua.
– Estou tentando decidir o que exatamente me deixa com mais raiva –
prosseguiu ele. – Porque há tantas coisas que não consigo me concentrar em
apenas uma.
Estava na ponta da língua de Penelope sugerir algo – a mentira que ela criara, por exemplo –, mas, pensando bem, aquele parecia ser um excelente momento para ficar calada.
– Em primeiro lugar – disse Colin, com o tom comedido demonstrando que ele de fato tentava se controlar (e isso era, por si só, bastante inquietante, pois ela jamais se dera conta de que ele pudesse perder o controle) –, não posso acreditar que você tenha sido estúpida a ponto de se aventurar sozinha até aqui. E numa carruagem alugada, ainda por cima!
– Como se eu pudesse vir em uma das nossas carruagens... – devolveu Penelope, antes de se lembrar que decidira permanecer em silêncio.
Colin moveu a cabeça dois centímetros para a esquerda. Ela não soube o que aquilo significava, mas não podia ser boa coisa, sobretudo porque o pescoço dele parecia se enrijecer cada vez mais enquanto ele virava a cabeça.
– O que disse? – quis saber ele, ainda naquele terrível tom de voz. Bem, agora ela devia responder, certo?
– Err... não foi nada – falou, esperando que ele não prestasse tanta atenção ao resto da resposta. – É só que não me deixam sair sozinha.
– Eu sei – ladrou ele. – E há um ótimo motivo para isso.
– Então, se eu quisesse sair sozinha – continuou ela, escolhendo ignorar a segunda frase dele –, não poderia usar uma de nossas carruagens. Nenhum de nossos condutores concordaria em me trazer até aqui.
– Os seus condutores são, claramente, homens sábios e sensatos – vociferou ele.
Penelope não respondeu.
– Tem alguma ideia do que poderia ter acontecido com você? – prosseguiu Colin, a máscara de autocontrole começando a se desmanchar.
– Err... não exatamente, na verdade – admitiu ela, engolindo em seco. – Já estive aqui antes e...
– O quê? – Ele fechou a mão ao redor do braço dela com força. – O que você falou?
Penelope não teve coragem de repetir, então se limitou a fitá-lo na esperança de que ele se acalmasse e voltasse a ser o homem que ela conhecia e que tanto amava.
– Só quando preciso deixar uma mensagem urgente para o tipógrafo –
explicou. – Envio uma mensagem em código, então ele sabe que tem de pegar o meu bilhete aqui.
– E, por falar nisso – disse Colin, rudemente, agarrando a folha de papel dobrada de suas mãos –, que diabo é isto?
Penelope olhou para ele, confusa.
– Imaginei que estivesse óbvio. Eu sou...
– Sim, é claro que você é a maldita Lady Whistledown e deve estar rindo de mim há semanas enquanto eu insisto que é Eloise.
Colin contorcia o rosto enquanto falava, quase partindo o coração dela.
– Não! – gritou Penelope. – Não, Colin, nunca. Eu jamais riria de você!
Mas o rosto dele deixou claro que ele não acreditava. Seus olhos esmeralda transbordavam humilhação, algo que ela jamais vira, algo que nunca esperara testemunhar. Ele era um Bridgerton. Popular, autoconfiante, autossuficiente.
Nada podia envergonhá-lo. Ninguém podia humilhá-lo.
A não ser, ao que parecia, ela.
– Eu não podia lhe contar – sussurrou Penelope, tentando desesperadamente fazer com que aquela expressão desaparecesse. – É claro que você entende que eu não podia lhe contar.
Colin ficou em silêncio por um longo e agonizante momento. Depois, como se ela não tivesse dito nada, como se não houvesse tentado se explicar, ele ergueu a folha de papel incriminadora no ar e a balançou, ignorando por completo o clamor dela.
– Isto é estupidez – exclamou. – Você enlouqueceu?
– Não entendi.