Os Segredos de Colin Bridgerton
Capítulo 20
– Mas por quê? – indagou.
– Se, por acaso, o segredo for revelado – respondeu ele, atento à presença de algum dos criados, que costumavam circular por ali àquela hora –, eu gostaria de estar na cidade para controlar o dano.
Penelope sentiu-se afundar na cadeira. Nunca era agradável ser chamada de dano, que era o que ele havia feito, ao menos indiretamente. Fitou o bolinho, tentando decidir se estava com fome. Constatou que, na verdade, tinha perdido o apetite.
Ainda assim, o comeu.
CAPÍTULO 20
Alguns dias depois, Penelope retornou de uma tarde de compras com Eloise, Hyacinth e Felicity e encontrou o marido no escritório, sentado atrás da escrivaninha. Ele lia alguma coisa, atipicamente curvado, com uma expressão meditativa.
– Colin?
Ele ergueu a cabeça de súbito. Não devia tê-la ouvido chegar, o que era surpreendente, uma vez que ela não fizera o menor esforço para ser silenciosa.
– Penelope – disse ele, levantando-se enquanto ela entrava no aposento –, como foi o... err... o que quer que tenha ido fazer na rua?
– Compras – respondeu ela, com um sorriso zombeteiro. – Fui fazer compras.
– Isso. Foi isso. – Ele transferiu o peso do corpo de um pé para o outro, discretamente. – Comprou alguma coisa?
– Um gorro – retrucou ela, tentada a acrescentar “e três anéis de diamantes” , só para ver se ele estava escutando.
– Muito bem, muito bem – murmurou Colin, claramente ansioso por voltar ao que quer que estivesse sobre a sua mesa.
– O que está lendo? – perguntou Penelope.
– Nada – falou ele, quase sem pensar, então acrescentou: – Bem, na verdade, é um dos meus diários.
Em seguida assumiu uma expressão esquisita, meio envergonhada por ter sido pego e meio desafiadora, quase a incitando a perguntar mais.
– Posso dar uma olhada? – pediu ela, mantendo a voz suave e não ameaçadora.
Era estranho pensar que Colin pudesse se sentir inseguro com relação a qualquer coisa. Qualquer menção aos seus diários, no entanto, parecia suscitar uma surpreendente e tocante vulnerabilidade.
Penelope passara tanto tempo vendo-o como uma torre invencível de felicidade e animação... Era autoconfiante, bonito, querido e inteligente. Como devia ser fácil ser um Bridgerton, ela costumava pensar.
Houvera tantas vezes – mais do que conseguia contar – que voltara para casa após o chá com Eloise e sua família e, encolhida na cama, desejara ter nascido
uma Bridgerton... A vida era fácil para eles. Eram inteligentes, atraentes, ricos, e parecia que todo mundo gostava deles.
E nem era possível odiá-los por isso, porque eram todos pessoas maravilhosas.
Bem, agora ela fazia parte da família, ainda que por casamento e não por nascimento, e via que era verdade: a vida era melhor como um Bridgerton, embora isso tivesse menos a ver com qualquer grande mudança do que com o fato de estar perdidamente apaixonada pelo marido e, por algum fabuloso milagre, ele se sentir da mesma forma.
Ainda assim, a vida não era perfeita, nem para os Bridgertons.
Até mesmo Colin – o menino de ouro, o homem de sorriso fácil e humor contagiante – tinha lá os seus fantasmas. Era perseguido por sonhos jamais realizados e inseguranças secretas. Como havia sido injusta ao ponderar sobre a vida dele e nunca lhe permitir fraqueza alguma...
– Não preciso ler tudo – prosseguiu ela. – Só um ou dois trechos pequenos.
Você escolhe quais. Algo de que você goste especialmente.
Ele baixou os olhos para o caderno aberto, fitando-o com ar inexpressivo, como se as palavras estivessem escritas em chinês.
– Eu não saberia o que escolher – resmungou. – Na verdade, é tudo a mesma coisa.
– É claro que não é. Compreendo isso melhor do que ninguém. Eu... – De repente ela olhou à sua volta, viu que a porta estava aberta e foi fechá-la. – Já escrevi inúmeras colunas – continuou –, e posso lhe assegurar que não eram todas a mesma coisa. Algumas, eu adorei. – Ela sorriu, nostálgica, recordando a onda de satisfação e de orgulho que a invadia quando escrevia o que considerava uma edição especial. – Era delicioso, entende o que quero dizer?
Ele fez que não.
– A sensação de saber que escolheu as palavras perfeitas – prosseguiu Penelope, tentando explicar. – Só é possível apreciar isso depois de ficar horas olhando para uma folha de papel em branco sem ter a menor ideia do que escrever.
– Isso eu entendo – comentou ele.
Penelope tentou não sorrir.
– Eu sei que você também conhece a sensação de prazer. É um escritor esplêndido, Colin. Já li o seu trabalho.
Ele ergueu a vista, assustado.
– Só um pedaço, naquela vez – assegurou-lhe ela. – Eu jamais leria os seus
cadernos sem você saber. – Ela ruborizou, recordando que lera escondida o trecho sobre a viagem dele ao Chipre. – Bem, não atualmente, pelo menos –
acrescentou. – Mas estava bom, Colin. Quase mágico, e, em algum lugar do seu íntimo, você sabe disso.
Ele se limitou a fitá-la, parecendo não saber o que dizer. Era uma expressão que ela já vira diversas vezes, mas nunca nele, e era tão estranho... Quis chorar, depois quis abraçá-lo. Acima de tudo, foi tomada por uma intensa necessidade de fazê-lo sorrir de novo.
– Eu sei que você já experimentou a sensação que descrevi – insistiu. – A certeza de que escreveu algo bom. – Ela o olhou, esperançosa. – Entende o que eu quero dizer, não entende?
Colin ficou em silêncio.
– Entende, sim – afirmou ela. – Eu sei que entende. Não pode ser um escritor e não saber.
– Não sou escritor – retrucou ele.
– É claro que é. – Ela fez um gesto em direção ao diário. – A prova é essa. –
Deu um passo à frente. – Colin, por favor, me deixe ler um trecho. Pela primeira vez, ele lhe pareceu em dúvida, o que Penelope considerou uma pequena vitória.
– Você já leu quase tudo o que eu já escrevi na vida – argumentou ela. – É
justo que...
Penelope parou quando viu a expressão no rosto dele. De repente o marido lhe pareceu fechado, distante, inalcançável.
– Colin? – sussurrou.
– Se não se importa, eu preferiria manter isso para mim mesmo – disse ele.
– Não, é claro que não me importo – garantiu ela, mas ambos sabiam que estava mentindo.
Colin permaneceu tão imóvel e silencioso que ela não teve escolha senão pedir licença e deixá-lo sozinho no aposento, fitando a porta, impotente.
Ele a magoara.
Não fora sua intenção, mas isso não importava. Ela lhe estendera a mão e ele fora incapaz de aceitá-la. E a pior parte era que Colin sabia que Penelope não compreendia. Achava que ele sentia vergonha dela. Ele lhe dissera que não, mas como não conseguira lhe contar a verdade – que sentia inveja dela –, imaginava que ela não tinha acreditado nele.
Ora, ele também não teria acreditado. Colin parecera estar mentindo porque, de certa forma, estava mentindo. Ou, pelo menos, omitindo uma verdade que o deixava desconfortável. Mas, no instante em que ela lhe lembrara que ele lera tudo o que ela já escrevera, o incômodo crescera dentro dele.
Colin lera tudo o que ela escrevera porque ela havia publicado tudo, enquanto as incursões literárias dele permaneciam foscas e sem vida dentro dos seus diários, guardadas num lugar onde ninguém jamais as veria.
Será que o que um homem escrevia tinha importância se ninguém jamais lesse? As palavras tinham sentido se jamais fossem vistas?
Ele jamais considerara publicar os diários até Penelope sugerir isso, várias semanas antes. Agora a ideia o consumia (quando não era consumido por Penelope, é claro). Só que ele morria de medo. E se ninguém quisesse publicar o seu trabalho? E se alguém publicasse, mas apenas porque ele vinha de uma família rica e poderosa? Colin queria, mais do que tudo, brilhar por si mesmo, ser conhecido pelas próprias realizações, não pelo sobrenome, pela posição social, pelo sorriso ou pelo poder de sedução.
Então, ele pensava na possibilidade mais assustadora de todas: e se os seus escritos fossem publicados, mas ninguém gostasse deles?
Como lidaria com aquilo? Como poderia existir como um fracassado?
Ou seria pior permanecer como agora: um covarde?
Mais tarde, naquela mesma noite, depois que Penelope se obrigara a levantar da poltrona, bebera uma restauradora xícara de chá e ficara andando de um lado para outro do quarto até enfim se acomodar nos travesseiros com um livro no qual não conseguiu se concentrar, Colin apareceu.
A princípio ele não disse nada, limitou-se a ficar ali parado sorrindo para ela; só que não era um de seus sorrisos de sempre, daqueles que iluminavam o ambiente e levavam quem estivesse presente a sorrir de volta.
Era um sorriso tímido, envergonhado.
Um sorriso de desculpas.
Penelope apoiou o livro no colo.
– Posso? – perguntou, fazendo um gesto em direção ao local vazio ao lado dela.
Ela chegou para o lado.
– É claro – murmurou, e em seguida colocou o livro na mesa de cabeceira.
– Marquei alguns trechos – disse ele, estendendo-lhe o diário. – Se quiser ler para... – Pigarreou para limpar a garganta – dar a sua opinião, eu acharia... –
Tossiu. – Eu acharia bom.
Penelope olhou para o diário elegantemente encadernado em couro cor de carmim na mão dele, então ergueu a vista para encará-lo. Colin estava sério, com um ar sombrio, e, embora não movesse um centímetro do corpo, ela sabia que estava nervoso.
Nervoso. Colin. Pareceu-lhe a coisa mais estranha possível.
– Seria uma honra – disse ela, baixinho, puxando o caderno da mão dele com todo o cuidado.
Notou que algumas páginas estavam marcadas e, com cautela, abriu em um dos locais selecionados.
14 de março de 1819
As Terras Altas encontram-se estranhamente castanhas.
– Isso foi quando visitei Francesca na Escócia – interrompeu Colin.
Penelope lhe deu um sorriso indulgente, como uma leve repreensão por tê-la interrompido.
– Desculpe – murmurou ele.
Seria de imaginar, ou pelo menos alguém vindo da Inglaterra imaginaria, que os montes e vales seriam verde-esmeralda. Afinal, a Escócia está localizada na mesma ilha e, segundo todos os relatos, sofre com as mesmas chuvas que afligem a Inglaterra.
Conta-se que estas estranhas colinas bege são chamadas de planaltos e que são áridas, castanhas e ermas. E, no entanto, tumultuam a alma.
– Isso foi quando eu estava em uma altitude bem elevada – explicou ele. –
Mais baixo, perto dos lagos, é bastante diferente.
Penelope se virou para ele séria.
– Desculpe – disse Colin mais uma vez.
– Talvez você se sinta mais confortável se não ficar lendo por cima do meu ombro – sugeriu ela.
Ele piscou, surpreso.
– Com certeza, você já conhece todos estes textos. – Diante do olhar perplexo dele, ela acrescentou: – Então, não precisa lê-los de novo. – Esperou uma reação e Colin continuou em silêncio. – Logo, não precisa ficar colado às minhas costas, lendo por cima do meu ombro – concluiu.
– Ah. – Ele se afastou um pouco. – Perdão.
Penelope lhe lançou um olhar ambíguo.
– Levante-se da cama, Colin.
Ele obedeceu e em seguida afundou numa poltrona na outra extremidade do
quarto. Cruzou os braços e ficou batendo o pé no chão numa impaciente cadência.
Tap tap tap. Tap tap tap.
– Colin!
Ele ergueu a vista, genuinamente surpreso.
– O que foi?
– Pare de bater o pé no chão!
Ele olhou para os próprios pés como se o eles fossem um corpo estranho.
– Eu estava batendo com o pé no chão?
– Estava.
– Ah. – Ele apertou os braços ainda mais de encontro ao peito. – Desculpe.
Penelope se concentrou outra vez no diário.
Tap tap.
Ela ergueu a cabeça.
– Colin!
Ele plantou os pés firmemente de volta sobre o tapete.
– Não pude evitar. Nem percebi o que estava fazendo.
Ele descruzou os braços e os apoiou na poltrona, mas não parecia relaxado: os dedos das duas mãos estavam tensos e arqueados.
Penelope o encarou por vários instantes, checando se de fato ele seria capaz de permanecer quieto.
– Não vou fazer de novo – garantiu ele. – Prometo.
Ela sustentou o olhar por mais um momento e voltou a prestar atenção ao texto.
Como povo, os escoceses detestam os ingleses, e muitos diriam que com razão. Individualmente, no entanto, são calorosos, afáveis e sempre ávidos por compartilhar um copo de uísque, uma refeição quente, ou para oferecer um local bem aquecido para se passar a noite. Um grupo de ingleses – na verdade, qualquer inglês – trajando qualquer tipo de uniforme não terá uma boa acolhida em qualquer vilarejo do país. Mas caso um inglês solitário esteja caminhando por alguma de suas ruas principais, a população local o receberá de braços abertos e com imensos sorrisos.
Foi assim quando cheguei a Inveraray, às margens do Lago Fyne.
Uma cidadezinha bem organizada e bem planejada, projetada por Robert Adam quando o duque de Argyll decidiu transferir a cidade inteira para acomodar o seu novo castelo, encontra-se à beira da água,
seus prédios caiados de branco enfileirados em ângulos retos (sem dúvida uma disposição estranhamente organizada para alguém como eu, criado em meio às encruzilhadas tortas de Londres).
Eu estava jantando no George Hotel, deleitando-me com um uísque de qualidade excepcional em vez do comum que poderia ser encontrado em qualquer estabelecimento semelhante na Inglaterra, quando me dei conta de que não tinha a menor ideia de como chegaria ao meu próximo destino, nem mesmo de quanto tempo levaria até lá. Abordei o proprietário (um certo Sr. Clark), expliquei a minha intenção de visitar o Castelo Blair e em seguida não pude fazer nada mais que piscar sem parar, maravilhado e confuso, enquanto os demais ocupantes da pousada se intrometiam na conversa, dando conselhos.
– Castelo Blair? – ribombou o Sr. Clark. (Era mesmo o tipo de homem a ribombar, nada dado a falas mansas.) – Bem, se a sua intenção é ir para lá, com certeza deve seguir para oeste, em direção a Pitlochry, e depois para o norte.
A resposta foi recebida por um coro de aprovações – e um eco igualmente ruidoso de desaprovações.
– Claro que não! – gritou outro, cujo nome era MacBogel, conforme descobri mais tarde. – Desse jeito ele vai ter de atravessar o Lago Tay, e jamais se conheceu receita melhor para o desastre. Melhor rumar direto para o norte e depois virar para oeste.
– Sim – interrompeu um terceiro –, só que, assim, ele terá Ben Navis no caminho. Está querendo dizer que uma montanha é um obstáculo menor do que um laguinho minúsculo?
– Está chamando o Lago Tay de minúsculo? Ouça bem: eu nasci às margens do Lago Tay, e não admito que ninguém o chame de minúsculo na minha presença.
Não tenho a menor ideia de quem disse isso, ou, para ser sincero, qualquer coisa que tenha sido dita a seguir, embora tudo tenha sido pronunciado com grande emoção e certeza.
– Ele não precisa seguir até Ben Navis. Pode virar para oeste em Glencoe.
– Ora, essa é boa! É melhor levar uma garrafa de uísque, então. Não há uma única estrada decente em Glescoe que vá para oeste. Está tentando matar o pobre rapaz?
E assim por diante. Se o leitor se deu conta de que parei de informar quem disse o quê, foi porque a barulheira de vozes era tão intensa que ficou impossível discernir quem era quem, e isso continuou no mínimo por mais dez minutos, até, finalmente, o velho Angus Campbell, que devia ter uns 80 anos, falar e, por respeito, todos se calarem.
– O que ele precisa fazer – arquejou Angus – é viajar até o sul, até Kintyre, rumar outra vez para o norte e atravessar o estuário de Lorne até Mull, depois seguir em direção a Iona, velejar até Skye, ir até o continente em Ullapool, descer até Inverness, prestar as suas homenagens em Culloden e, dali, pegar o sul até o Castelo Blair, parando em Grampian, se assim escolher, para ver como é feita uma garrafa de uísque decente.
Um silêncio absoluto se seguiu ao seu pronunciamento. Por fim, um homem corajoso observou:
– Mas isso irá levar meses.
– E quem disse que não? – concordou o velho Campbell, com uma leve belicosidade. – O inglês está aqui para conhecer a Escócia. Quer dizer que ele vai conseguir fazer isso se seguir em linha reta daqui até Pertshire?
Ao ouvir isso, sorri e tomei a minha decisão: seguiria exatamente a rota traçada por ele e, quando voltasse a Londres, teria a certeza de que conhecera a Escócia.
Colin observara Penelope enquanto ela lia. De vez em quando, sua esposa sorria e o coração dele dava um salto. Então, percebeu que o sorriso se tornara permanente e que ela franzia os lábios como se prendesse o riso.
Nesse momento, Colin se deu conta de que ele também sorria.
Ficara muito surpreso com a reação dela na primeira vez em que lera o seu diário: tinha sido uma reação totalmente apaixonada, mas ao mesmo tempo muito analítica e precisa. Agora tudo fazia sentido, é claro. Penelope também era escritora, talvez até melhor do que ele, e tinha plena compreensão do texto escrito.
Era difícil acreditar que levara tanto tempo para pedir a opinião dela. O medo, supunha, o impedira. Medo, preocupação e todas aquelas emoções idiotas que ele fingia não sentir.
Quem teria imaginado que a opinião de uma mulher se tornaria tão importante para ele? Colin se empenhara em escrever os seus diários durante anos, registrando todas as viagens com cuidado, tentando captar além das coisas que via, fazia e sentia. E jamais, nem uma vez, os mostrara a quem quer que fosse.
Até agora.
Nunca tinha havido ninguém a quem desejasse mostrá-los. Não, não era verdade. No fundo, quisera mostrá-los a muitas pessoas, mas o momento nunca lhe parecera oportuno, ou então achara que mentiriam para ele e diriam que haviam adorado apenas para não magoá-lo.
Mas Penelope era diferente. Era escritora. E uma ótima escritora, aliás. Se ela dizia que as suas anotações eram boas, ele quase conseguia acreditar.
Ela franziu os lábios levemente ao tentar virar a página, então franziu a testa quando não conseguiu. Umedeceu o dedo médio com a língua, fez outra tentativa, dessa vez bem-sucedida, e começou a ler outra vez.
E a sorrir, outra vez.
Colin deixou escapar o ar sem se dar conta de que o estivera prendendo.
Por fim, ela baixou o diário sobre o colo, deixando-o aberto na passagem que acabara de ler. Olhou para Colin e falou:
– Você queria que eu parasse de ler ao final do registro, certo?
Não era o que ele esperava que ela dissesse, e isso o confundiu.
– Hã... se você quiser – balbuciou. – Se preferir continuar, acho que não há problema.
Penelope abriu um sorriso capaz de iluminar o cômodo inteiro.
– É claro que prefiro continuar – exclamou ela, entusiasmada. – Mal posso esperar para saber o que aconteceu quando você chegou a Kintyre, e Mull, e... –
Com uma careta, ela consultou o caderno aberto. – Skye, Ullapool, Culloden e Grampian. – Olhou mais uma vez para o texto. – Ah, sim, e ao Castelo Blair, é claro, se é que algum dia chegou até lá. Imagino que estivesse planejando visitar amigos.
Ele fez que sim.
– Murray – falou, referindo-se a um amigo de escola que era irmão do duque de Atholl. – Mas devo lhe avisar que acabei não seguindo exatamente o caminho recomendado pelo velho Angus Campbell. Primeiro, porque não encontrei estradas que ligassem metade dos lugares que ele mencionou.
– Talvez devêssemos ir até lá na nossa viagem de lua de mel – sugeriu ela, com ar sonhador.
– À Escócia? – perguntou ele, surpreso. – Não quer ir a algum lugar quente e exótico?
– Para alguém que nunca se afastou mais do que 100 quilômetros de Londres, a Escócia é exótica – retrucou ela.
– Eu posso lhe garantir que a Itália é mais exótica. E mais romântica – disse ele, sorrindo, enquanto atravessava o quarto e se acomodava na beirada da cama.
Ela ruborizou, o que o deixou encantado.
– Ah – murmurou, levemente envergonhada.
Ele se perguntou por quanto tempo ela ainda ficaria constrangida ao ouvi-lo falar de romance, amor e todas as esplêndidas atividades que acompanhavam ambos.
– Iremos à Escócia em outra ocasião – garantiu. – Costumo ir para o norte de tempos em tempos para visitar Francesca, de qualquer forma.
– Fiquei surpresa por ter pedido a minha opinião – comentou Penelope, após um breve silêncio.
– A quem mais eu pediria?
– Não sei – respondeu ela. – Aos seus irmãos, suponho.
Ele colocou a mão sobre a dela.
– E o que eles sabem sobre escrever?
Ela ergueu a cabeça e o fitou com seus olhos castanhos, límpidos e afetuosos.
– Eu sei que a opinião deles é importante para você.
– É verdade – concordou Colin –, mas a sua é mais.
Ele observou o rosto dela com cuidado enquanto avaliava as emoções que o perpassavam.
– Mas você não gosta do que eu escrevo – prosseguiu Penelope, a voz hesitante e, ao mesmo tempo, esperançosa.
Colin tocou a face de Penelope carinhosamente, fazendo-a olhar para ele.
– Nada poderia estar mais longe da verdade – declarou, com uma intensidade abrasadora. – Considero você uma escritora maravilhosa, capaz de chegar à essência de uma pessoa com uma simplicidade e uma especificidade ímpares.
Durante dez anos, fez todos rirem. Também os fez se encolherem, sobressaltados. Você os fez pensar, Penelope. Não consigo imaginar realização maior. Sem falar que escrevia sobre a sociedade, e fazia isso de forma divertida, interessante e espirituosa, quando todos sabemos que esse assunto muitas vezes é mais do que entediante.
Por um longo momento, Penelope não conseguiu dizer nada. Sentira orgulho do próprio trabalho durante anos e sorrira em seu íntimo cada vez que ouvia alguém se referir a uma de suas colunas ou rir de um de seus comentários sarcásticos. Mas não tivera ninguém com quem compartilhar os triunfos.
O anonimato lhe dera uma perspectiva solitária.
Mas, agora, tinha Colin. E, embora o mundo jamais viesse a saber que Lady Whistledown era, na verdade, a sem graça e invisível Penelope Featherington,
que tinha escapado por um triz de ser para sempre uma solteirona, Colin sabia.
Ela começava a se dar conta de que mesmo que não fosse a única coisa que importava, sem dúvida era a mais importante.
Apesar disso, continuava sem compreender as ações dele.
– Por que, então – começou ela, bem devagar –, você fica tão distante e frio sempre que eu menciono o assunto?
Quando ele respondeu, sua voz era pouco mais que um sussurro:
– É difícil explicar.
– Eu sou uma boa ouvinte – retrucou ela, baixinho.
Colin afastou a mão que segurava o rosto dela com tanto carinho e deixou-a despencar sobre o colo. Então, disse a única coisa que Penelope jamais teria esperado:
– Eu tenho inveja de você. – Ele deu de ombros, mostrando-se impotente. –
Sinto muito.
– Não entendi o que quer dizer – retrucou ela.
Não teve a intenção de sussurrar, mas não conseguiu falar mais alto que isso.
– Olhe só para você, Penelope. – Ele tomou as mãos dela nas suas e a encarou.
– É um enorme sucesso.
– Um sucesso anônimo – lembrou ela.
– Mas você sabe, e eu sei. Além do mais, não é disso que estou falando. – Ele soltou uma das mãos dela e passou os dedos entre os cabelos enquanto procurava as palavras. – Você realizou algo. Possui uma obra.
– Mas você tem...
– O quê, Penelope? – interrompeu Colin, levantando-se. Então começou a caminhar de um lado para outro. – O que eu tenho?
– Bem, você tem a mim – disse ela, de forma débil.
Mas sabia que não era a isso que ele se referia.
Colin olhou para ela, fatigado.
– Não é disso que estou falando, Penelope...
– Eu sei.
– Preciso de uma meta – afirmou ele. – De um objetivo. Anthony tem um, Benedict também, mas eu só tenho coisas avulsas.
– Colin, não é assim. Você...
– Estou cansado de pensarem em mim como nada além de... – Ele se deteve.
– O quê, Colin? – perguntou ela, um tanto surpresa com a expressão de desgosto que de repente atravessou o rosto dele.
– Droga – praguejou ele, baixinho.
Ela arregalou os olhos. Colin não costumava blasfemar.
– Não posso acreditar – murmurou ele, balançando a cabeça numa negativa, claramente sofrendo.
– No quê? – indagou ela, suplicante.
– Eu me queixei com você – disse ele, incrédulo. – Queixei-me com você a respeito de Lady Whistledown.
Ela fez uma careta.
– Muita gente já fez isso, Colin. Estou acostumada.
– Não posso acreditar. Eu me queixei com você sobre o fato de Lady Whistledown ter me chamado de encantador.
– Ela me chamou de fruta cítrica madura demais – devolveu Penelope, tentando suavizar a conversa.
Ele interrompeu o passo apenas para encará-la, irritado.
– Estava rindo de mim o tempo todo enquanto eu me lamuriava dizendo que as gerações futuras só se lembrariam de mim por causa das colunas de Lady Whistledown?
– Não! – exclamou ela. – Espero que você me conheça melhor do que isso.
Ele balançou a cabeça, incrédulo.
– Não posso acreditar que fiquei reclamando por não ter nenhuma realização própria quando você tinha todas as suas colunas.
Ela se levantou da cama. Era impossível ficar ali, sentada, assistindo-o andar de um lado para outro como um tigre enjaulado.
– Colin, não tinha como você saber.
– Ainda assim. – Ele suspirou. – Seria uma ironia perfeita, se não fosse dirigida a mim.
Penelope entreabriu os lábios para falar, mas não conseguiu dar voz ao que estava em seu coração. Colin tinha tantas realizações que ela não conseguia nem começar a enumerá-las. Não eram algo palpável, como um exemplar do Crônicas da sociedade de Lady Whistledown, mas eram igualmente especiais.
Talvez até mais especiais.
Ela se lembrou de todos os momentos em que ele fizera as pessoas sorrirem, de todas as vezes que passara direto pelas garotas populares em um baile e convidara para dançar a que estava tomando chá de cadeira. Pensou no elo forte e quase mágico que compartilhava com os irmãos. Se essas coisas não eram realizações, então ela não sabia o que mais seria.
No entanto, entendia que não eram o tipo de marco ao qual ele se referia.
Tinha consciência do que ele precisava: de um objetivo, uma vocação.
Algo para mostrar ao mundo que ele era mais do que pensavam que fosse.
– Publique as suas memórias de viagem – sugeriu ela.
– Eu não...
– Publique-as – insistiu ela. – Arrisque-se e veja o que acontece.
Ele a encarou, então olhou para o diário, que ela ainda segurava com força.
– Elas precisariam ser editadas – murmurou.
Penelope riu, porque sabia ter vencido. E ele também vencera. Ainda não tinha consciência disso, mas vencera.
– Todo texto precisa ser editado – comentou ela, o sorriso se alargando mais e mais a cada palavra. – Bem, exceto os meus, imagino – brincou ela. – Ou talvez precisassem, sim – acrescentou, dando de ombros. – Mas nunca saberemos, pois não havia ninguém para fazer isso.
Ele ergueu a vista, de repente.
– Como você fazia?
– Como eu fazia o quê?
Ele franziu os lábios, impaciente.
– Você sabe. Como fazia a coluna? Era preciso mais do que apenas escrever.
Havia a impressão e a distribuição. Alguém tem de ter sabido sua identidade.
Ela deu um longo suspiro. Guardara aqueles segredos por tanto tempo que se sentia estranha em compartilhá-los, até mesmo com o marido.
– É uma longa história. Talvez você deva se sentar.
Os dois se acomodaram, recostando-se nos travesseiros, com as pernas estendidas à frente.
– Eu era muito jovem quando tudo começou – relatou Penelope. – Tinha apenas 17 anos. E aconteceu por acaso.
Ele sorriu.
– Como algo assim pode acontecer por acaso?
– Escrevi de brincadeira. Estava muito infeliz durante aquela primeira temporada. – Ela o encarou com honestidade nos olhos. – Não sei se lembra, mas eu pesava uns 6 quilos a mais do que hoje, e olhe que não sou esbelta, de acordo com a moda vigente.
– Eu a acho perfeita – retrucou ele, de imediato.
Isso era, pensou Penelope, um dos motivos pelos quais ela própria o achava perfeito.
– Mas, como ia dizendo – continuou –, eu não estava numa fase muito feliz, então redigi um relato bastante mordaz sobre uma festa à qual fora na noite anterior. Então escrevi outro, e mais outro. A princípio não os assinei como Lady
Whistledown; apenas os escrevi por diversão e os escondi na minha escrivaninha. Daí, um dia, me esqueci de escondê-los.
Colin inclinou o corpo para a frente, absorto pela narrativa.
– O que aconteceu?
– Toda a família tinha saído, e eu sabia que ficariam fora por algum tempo, porque na época mamãe ainda achava que poderia transformar Prudence num diamante de primeira linha e as compras das duas duravam o dia todo.
Colin rolava a mão pelo ar, indicando que ela devia chegar logo à essência da história.
– De qualquer forma – continuou Penelope –, eu decidi escrever na sala de estar, porque o meu quarto estava úmido e cheirando a mofo, pois alguém, suponho que eu mesma, tinha deixado a janela aberta durante uma tempestade.
Mas então eu tive de... Bem, você sabe.
– Não – disse Colin, de forma brusca –, não sei.
– Tive de cuidar de um assunto particular – sussurrou Penelope, ruborizando.
– Ah, certo – retrucou ele, sem prestar a menor atenção, claramente nem um pouco interessado nessa parte da história. – Continue.
– E quando voltei o advogado de meu pai estava lá. E estava lendo o que eu havia escrito! Fiquei horrorizada.
– E aí, o que aconteceu?
– Durante um minuto inteiro eu nem consegui falar. Mas, então, vi que ele estava rindo, e não por achar que eu era boba, mas por considerar o texto bom.
– Bem, seus textos são bons.
– Agora eu sei disso – retrucou ela com um sorriso irônico –, mas você precisa lembrar que eu tinha 17 anos. E dissera coisas bem horrendas.
– Sobre pessoas horrendas, imagino – disse ele.
– Bem, claro, mas ainda assim... – Ela fechou os olhos enquanto as lembranças afloravam. – Eram pessoas populares. Influentes. Gente que não gostava muito de mim. O fato de serem terríveis não importaria muito se o que eu tinha escrito fosse descoberto. Na verdade, seria bem pior. Eu teria sido arruinada, assim como toda a minha família.
– E o que aconteceu, então? Suponho que a publicação tenha sido ideia dele.
Penelope fez que sim com a cabeça.
– Foi. Ele tomou todas as providências junto ao tipógrafo, que, por sua vez, encontrou os meninos para fazerem a entrega. E também foi ideia dele a distribuição gratuita nas primeiras duas semanas. Disse que precisávamos viciar a alta sociedade .
– Eu estava fora do país quando a coluna começou – disse Colin –, mas minha mãe e minhas irmãs me contaram tudo a respeito.
– As pessoas resmungaram quando o jornal começou a ser cobrado – relatou Penelope. – Mas todas pagaram.
– Uma ideia muito inteligente da parte do seu advogado – murmurou Colin.
– Sim, ele era muito esperto.
Ele reparou no uso do pretérito.
– Era?
Ela assentiu, triste.
– Ele faleceu há alguns anos. Mas sabia que estava doente, então, antes de morrer, me perguntou se eu queria continuar. Eu poderia ter parado, mas não tinha mais nada na vida, e, certamente, nenhum pretendente. – Ela ergueu a vista, rápido. – Eu não quero... Estou querendo dizer...
Colin curvou os lábios num sorriso autodepreciativo.
– Pode me criticar à vontade por não tê-la pedido em casamento há anos.
Penelope retribuiu o sorriso. Como não amar aquele homem?
– Mas só depois de terminar a história – acrescentou ele, com bastante firmeza.
– Certo – assentiu ela, forçando-se a retomar o assunto. – Depois que o Sr... –
Penelope ergueu a vista, hesitante. – Não sei ao certo se deveria dizer o seu nome.
Colin sabia que ela estava dividida entre o amor e a confiança que depositava nele e a lealdade por um homem que tinha, muito provavelmente, sido um pai para ela depois que o seu deixara este mundo.
– Tudo bem – disse ele, baixinho. – O nome dele não importa.
Ela soltou a respiração.
– Obrigada – falou, depois mordeu o lábio inferior. – Não é que eu não confie em você. Eu...
– Eu entendo – garantiu ele, tranquilizando-a. – Se quiser me contar em outra ocasião, tudo bem. E se não quiser, não há problema.
Penelope assentiu com os lábios trêmulos, tentando segurar o choro.
– Depois que ele morreu, passei a trabalhar diretamente com o tipógrafo.
Idealizamos um sistema de distribuição e os pagamentos continuaram a ser feitos da mesma forma: numa conta aberta em meu nome.
Colin respirou fundo, pensando em quanto dinheiro ela devia ter ganhado ao longo dos anos. Mas como ela poderia tê-lo gastado sem suscitar suspeitas?
– Fez algum saque? – perguntou ele.
Ela assentiu.
– Quando a coluna completou quatro anos, minha tia-avó faleceu e deixou o que tinha para minha mãe. O advogado de meu pai escreveu o testamento. Ela não possuía muita coisa, então nós dois fingimos que o meu dinheiro era dela. –
O rosto de Penelope se iluminou enquanto ela balançava a cabeça. – Minha mãe ficou tão surpresa... Jamais imaginara que tia Georgette fosse tão rica. Passou meses sorrindo. Eu nunca a tinha visto daquela maneira.
– Foi muito gentil da sua parte – comentou Colin.
Penelope deu de ombros.
– Era a única forma de eu poder usar o meu dinheiro.
– Mas você o deu à sua mãe – observou ele.
– Ela é minha mãe – retrucou Penelope, como se aquilo explicasse tudo. –
Sempre me sustentou. Dava tudo na mesma.
Ele quis dizer mais, mas não o fez. Portia era mãe de Penelope, e se Penelope quisesse amá-la, Colin não tentaria impedi-la.
– Desde então – continuou Penelope –, não toquei mais no dinheiro. Bem, não para mim mesma. Fiz algumas doações para instituições de caridade. – Ela franziu o rosto. – Doações anônimas.
Colin ficou em silêncio por um momento, pensando em tudo o que ela fizera na última década, completamente sozinha, em segredo.
– Se quiser o dinheiro agora – disse ele, por fim –, deve usá-lo. Ninguém irá questionar o fato de você de repente ter recursos. Afinal, é uma Bridgerton. – Ele deu de ombros, com modéstia. – Todos sabem que Anthony estabeleceu um padrão de vida muito confortável para todos os irmãos.
– Eu nem saberia o que fazer com tanto dinheiro.
– Compre alguma coisa nova – sugeriu ele.
Não era verdade que todas as mulheres gostavam de fazer compras?
Ela olhou para ele com uma expressão estranha e quase indecifrável.
– Acho que você não imagina quanto dinheiro eu tenho – retrucou Penelope, com cautela. – Acho que nunca conseguiria gastá-lo por inteiro.
– Guarde-o para os nossos filhos, então – sugeriu Colin. – Tive a sorte de meu pai e meu irmão me proporcionarem todos os recursos, mas nem todos os filhos mais novos têm esse privilégio.
– E filhas – lembrou Penelope. – Nossas filhas devem ter o próprio dinheiro.
Separado dos dotes.
Colin teve de sorrir. Arranjos do tipo eram raros, mas é claro que Penelope insistiria em algo assim.
– Como você quiser – falou de forma afetuosa.
Penelope sorriu, deixou escapar um suspiro e se ajeitou nos travesseiros.
Passou os dedos preguiçosamente sobre o dorso da mão dele, mas seu olhar estava distante e Colin duvidou que ela tivesse consciência dos próprios movimentos.
– Tenho uma confissão a fazer – disse ela em uma voz muito baixa e até mesmo um pouco tímida.
Ele olhou para ela, curioso.
– Maior do que sobre Lady Whistledown?
– Diferente.
– O que é?
Penelope virou o rosto para ele e fitou-o com um olhar intenso.
– Eu tenho me sentido um pouco... – Ela mordeu o lábio enquanto fazia uma pausa e procurava as palavras certas. – Acho que tenho andado impaciente com você nos últimos tempos. Não, não é isso. Na verdade, ando desapontada.
Uma sensação estranha invadiu o peito dele.
– Como assim, desapontada?
Ela deu de ombros de leve.
– Você parecia tão zangado comigo... Por causa de Lady Whistledown.
– Já lhe expliquei que era porque...
– Não, por favor – pediu ela, pousando a mão no peito dele. – Deixe-me terminar. Você sabe que eu pensei que tivesse vergonha de mim. Tentei deixar para lá, mas doeu muito, de verdade. Pensei que soubesse quem você era, e não podia acreditar que se consideraria tão melhor do que eu a ponto de sentir tanta vergonha das minhas realizações.
Ele a olhou em silêncio, esperando que continuasse.
– Mas o mais engraçado é que... – Ela se virou para ele com um sorriso sábio.
– Não era porque você estivesse envergonhado. Você simplesmente queria ter algo parecido. Algo que se assemelhasse à minha coluna. Agora parece bobagem, mas tive tanto medo de que você não fosse o homem perfeito dos meus sonhos...
– Ninguém é perfeito – retrucou ele, baixinho.
– Eu sei. – Ela chegou para a frente e lhe deu um beijo impulsivo no rosto. –
Você é o homem imperfeito do meu coração, e isso é até melhor. Sempre o considerei infalível, sempre achei que a sua vida fosse perfeita, que você não tivesse preocupações, medos ou sonhos irrealizados. Mas isso não foi muito justo da minha parte.
– Nunca senti vergonha de você, Penelope – sussurrou ele. – Nunca.
Os dois permaneceram em um confortável silêncio até Penelope dizer:
– Lembra que lhe perguntei se poderíamos fazer uma viagem de lua de mel tardia?
Ele fez que sim.
– Por que não usamos um pouco do meu dinheiro para isso?