Os Segredos de Colin Bridgerton
Capítulo 22
– Não tenho!
– Uma semana – decretou Cressida, com a voz áspera. – Quero o dinheiro em uma semana.
– Não o darei a você – sussurrou Penelope, mais para si mesma.
– Vai dar, sim – devolveu Cressida, confiante. – Se não der, eu a arruíno.
– Sra. Bridgerton?
Penelope ergueu a vista e deu com Dunwoody de pé no vão da porta.
– Há um assunto urgente que exige a sua atenção – disse ele. – Imediatamente.
– Tudo bem – falou Cressida, encaminhando-se para a porta. – Já terminamos aqui. – Ao chegar ao corredor, virou-se de modo que Penelope fosse forçada a encará-la. – Terei notícias suas em breve, certo? – indagou, com a voz suave e inocente, como se não estivesse falando de nada mais importante do que um convite para uma festa ou da data de uma reunião para um evento filantrópico.
Penelope assentiu de leve, apenas para se livrar dela.
Mas não importava. Cressida podia ter ido embora, porém os problemas de Penelope não iam a lugar algum.
CAPÍTULO 22
Três horas depois, Penelope continuava na sala de visitas, sentada no sofá, olhando fixamente para o nada e tentando descobrir como resolveria aquela situação.
Não era uma pessoa agressiva e não conseguia se lembrar da última vez que tivera um pensamento violento, mas naquele momento poderia torcer o pescoço de Cressida Twombley com prazer.
Olhou em direção à porta com uma sensação sombria de fatalidade, esperando o marido chegar em casa, sabendo que a cada segundo se aproximava o momento em que teria de confessar tudo a ele.
Colin não diria “Eu lhe avisei”. Jamais seria capaz de algo assim.
Mas pensaria.
Não ocorrera a Penelope, nem mesmo por um minuto, esconder aquilo dele.
As ameaças de Cressida não eram o tipo de coisa que se ocultava do marido, e, além do mais, iria precisar da ajuda dele.
Não sabia ao certo o que teria de fazer, mas o que quer que fosse não saberia fazê-lo sozinha.
No entanto, havia algo de que estava certa: não queria pagar nada a Cressida.
Não havia a menor possibilidade de sua inimiga se satisfazer com dez mil libras, não quando achava que poderia conseguir mais. Se Penelope cedesse agora, teria que sustentar Cressida pelo resto da vida.
Isso significava que, dentro de uma semana, ela contaria para o mundo que Penelope Featherington era a infame Lady Whistledown.
Penelope achava ter duas escolhas. Podia negar, chamar Cressida de tola e esperar que todos acreditassem nela, ou podia encontrar alguma forma de usar a revelação a seu favor.
Mas, por tudo o que lhe era mais precioso, não sabia como.
– Penelope?
Era a voz de Colin. Queria se atirar em seus braços e, ao mesmo tempo, mal conseguia se virar para ele.
– Penelope? – Agora ele parecia preocupado, os passos se tornando mais rápidos enquanto atravessava a sala. – Dunwoody me contou que Cressida esteve
aqui.
Ele se sentou ao lado dela e tocou a sua face. Ela se virou e viu as rugas de preocupação no rosto dele.
Nesse momento, ela finalmente se permitiu chorar.
Era engraçado como fora capaz de se controlar até o ver. Mas agora que ele havia chegado, a única coisa que conseguia fazer era enterrar o rosto no calor de seu peito e se aninhar em seus braços, como se de alguma forma ele pudesse fazer todos os seus problemas desaparecerem apenas com a sua presença.
– Penelope? – disse ele, a voz baixa e preocupada. – O que aconteceu? O que há de errado?
Ela se limitou a balançar a cabeça enquanto tentava reunir coragem para falar e controlar as lágrimas.
– O que ela fez com você?
– Ah, Colin – retrucou ela, de alguma forma conseguindo se afastar dele o suficiente para fitá-lo. – Ela sabe.
Colin ficou pálido.
– Como?
Penelope fungou, em seguida enxugou o nariz com o dorso da mão.
– A culpa é minha – sussurrou.
Ele lhe entregou um lenço sem desviar os olhos dela.
– A culpa não é sua – falou, de forma rude.
Penelope abriu os lábios num sorriso triste. Sabia que o tom ríspido era direcionado a Cressida, mas ela mesma o merecia.
– É, sim – insistiu ela, a voz cheia de resignação. – Aconteceu exatamente o que você disse que aconteceria. Eu não prestei atenção no que escrevi. Cometi um erro.
– O que você fez?
Ela lhe contou tudo, desde o momento em que Cressida aparecera até a chantagem. Confessou que a sua péssima escolha de palavras seria a sua ruína, o que não era nada irônico, pois Penelope realmente se sentia com o coração partido.
Durante o relato, percebeu que a atenção de Colin se dispersava. Ele a escutava, mas era como se não estivesse ali. O olhar estava estranho e distante, mas ao mesmo tempo focado, intenso.
Ele estava planejando alguma coisa. Penelope tinha certeza disso.
Aquilo a apavorou.
E a excitou.
No que quer que Colin estivesse pensando, tinha a ver com ela. Penelope odiava o fato de ter sido a estupidez dela que o enredara naquele dilema, mas não conseguiu evitar o formigamento de entusiasmo que lhe percorria o corpo enquanto o observava.
– Colin? – chamou, hesitante.
Já tinha terminado o relato havia um minuto e ele ainda não dissera nada.
– Vou cuidar de tudo – garantiu ele. – Não quero que se preocupe com nada.
– Posso lhe garantir que isso é impossível – retrucou ela, com a voz trêmula.
– Levo os meus votos matrimoniais muito a sério – replicou ele, com a voz serena de uma forma quase assustadora. – E creio que prometi honrá-la e protegê-la.
– Deixe-me ajudá-lo – pediu ela, impulsivamente. – Juntos, podemos resolver isso.
Um dos cantos dos lábios dele se ergueu numa sugestão de sorriso.
– Você tem uma solução em mente?
Ela balançou a cabeça em negativa.
– Não. Passei o dia todo pensando e não sei... embora...
– Embora, o quê?
Penelope abriu a boca, depois a fechou, então a abriu outra vez e sugeriu:
– E se eu pedisse a ajuda de Lady Danbury?
– Está pensando em pedir a ela que pague Cressida?
– Não. Vou pedir que ela seja eu.
– Como assim?
– Todo mundo já acha que ela é Lady Whistledown – explicou Penelope. –
Bem, ao menos a maioria das pessoas. Se ela dissesse...
– Cressida a desmentiria no mesmo instante – interrompeu Colin.
– E quem acreditaria na palavra de Cressida em detrimento da de Lady Danbury? Sei que eu não ousaria contrariar Lady Danbury, qualquer que fosse o assunto. Se ela dissesse que é Lady Whistledown, é provável que eu mesma acreditasse.
– O que a faz pensar que pode convencer Lady Danbury a mentir por você?
– Bem, ela gosta de mim.
– Gosta de você? – ecoou Colin.
– Sim, bastante. Acho que iria gostar de me ajudar, sobretudo por detestar Cressida quase tanto quanto eu.
– Acha que a afeição dela por você a levará a mentir para toda a alta sociedade? – perguntou Colin, em tom de dúvida.
Penelope afundou no estofado.
– Vale a pena perguntar.
Ele se levantou bruscamente e foi até a janela.
– Prometa-me que não irá a ela.
– Mas...
– Prometa.
– Eu prometo, mas...
– Nada de “mas” – decretou Colin. – Se for necessário, recorreremos a ela, mas não até eu ter a chance de pensar em alguma outra coisa. – Ele passou os dedos pelos cabelos. – Deve haver outra solução.
– Temos uma semana – disse ela com a voz suave, embora não tenha considerado as próprias palavras tranquilizadoras e duvidasse de que Colin tivesse.
Ele se virou e se dirigiu decididamente à porta.
– Eu voltarei – falou.
– Mas aonde vai? – quis saber Penelope, levantando-se de repente.
– Preciso pensar.
– Não pode pensar aqui, comigo? – sussurrou ela.
A expressão dele se suavizou e ele voltou ao seu lado. Murmurou o nome dela e lhe tomou o rosto entre as mãos.
– Eu te amo – falou, com a voz baixa e ardente. – Eu te amo agora e te amarei para sempre.
– Colin...
– Eu te amo mais do que tudo. – Ele se inclinou para a frente e a beijou suavemente nos lábios. – Pelos filhos que teremos, pelos anos que passaremos juntos. Por cada um dos meus sorrisos e mais ainda pelos teus.
Penelope se deixou arriar em uma cadeira próxima.
– Eu amo você – disse ele mais uma vez. – Sabe disso, não sabe?
Ela fez que sim, fechando os olhos enquanto roçava o rosto nas mãos dele.
– Tenho coisas para fazer – decretou Colin –, e não vou poder me concentrar se estiver pensando em você, preocupado se está chorando, me perguntando se está magoada.
– Eu estou bem – sussurrou ela. – Agora que lhe contei, me sinto melhor.
– Vou resolver essa situação – prometeu ele. – Só preciso que confie em mim.
Ela abriu os olhos.
– Com a minha vida.
Ele sorriu e ela teve certeza de que as palavras dele eram verdadeiras. Tudo
ficaria bem. Talvez não naquele dia nem no próximo, mas logo. A tragédia não podia coexistir no mundo junto com um dos sorrisos de Colin.
– Não creio que chegará a tanto – disse ele afetuosamente, acariciando a face dela uma última vez antes de se afastar. Então foi de novo até a porta e, no último momento, virou-se para a esposa. – Não se esqueça da festa de minha irmã hoje à noite.
Penelope deixou escapar um pequeno gemido.
– Temos mesmo que ir? A última coisa que quero é aparecer em público.
– Temos – disse Colin. – Daphne não oferece bailes com frequência e ficaria muito magoada se não fôssemos.
– Eu sei – concordou Penelope, com um suspiro. – Eu sei. Sabia até mesmo enquanto me queixava. Me desculpe.
Ele sorriu.
– Não tem importância. Você tem direito a um pouco de mau humor hoje.
– É verdade – retrucou ela, tentando retribuir o sorriso.
– Eu volto mais tarde – prometeu ele.
– Onde você... – começou ela a questionar, mas então se conteve.
Era óbvio que ele não queria responder a nenhuma pergunta naquele momento. Nem mesmo dela.
No entanto, para a sua surpresa, ele respondeu:
– Ver o meu irmão.
– Anthony?
– Sim.
Ela assentiu, encorajando-o, e murmurou:
– Vá. Eu ficarei bem.
Os Bridgertons sempre haviam encontrado forças uns nos outros. Se Colin achava que precisava dos conselhos do irmão, então devia ir.
– Não se esqueça de se arrumar para o baile de Daphne – lembrou ele mais uma vez.
Ela assentiu sem muita disposição e ficou olhando enquanto ele deixava a sala.
Depois que Colin saiu, ela foi até a janela para vê-lo passar, mas ele não apareceu. Devia ter ido direto à cavalariça. Ela suspirou, apoiando-se no parapeito. Não se dera conta de quanto desejara olhar para ele uma última vez.
Desejou saber o que o marido estava planejando.
Desejou ter certeza de que ele sabia o que fazer.
Ao mesmo tempo, sentia-se estranhamente tranquila. Colin daria um jeito na
situação. Disse que o faria, e jamais mentia.
Ela sabia que a ideia de pedir a ajuda de Lady Danbury não era a solução perfeita, mas, a não ser que Colin tivesse algo melhor em mente, o que mais poderiam fazer?
Por hora, podia tentar afastar tudo da cabeça. Estava tão chateada, tão cansada, que a única coisa que precisava era fechar os olhos e não pensar em mais nada além dos olhos verdes do marido, do brilho luminoso de seu sorriso.
Amanhã.
Amanhã ajudaria Colin a resolver os problemas deles.
Hoje, ela descansaria. Tiraria um cochilo e rezaria para encontrar uma forma de enfrentar toda a sociedade naquela noite, sabendo que Cressida estaria observando-a e ansiando que ela fizesse qualquer movimento em falso.
Era de esperar que após tantos anos fingindo ser apenas a invisível Penelope Featherington, estivesse acostumada a esconder a verdadeira identidade.
Ela se encolheu no sofá e fechou os olhos.
Tudo era diferente agora, mas isso não queria dizer que tinha de ser pior, certo?
Tudo ficaria bem. Tinha de ficar.
Não tinha?
Colin começava a se arrepender da decisão de tomar uma carruagem até a casa do irmão.
A princípio, ele pretendera ir caminhando – o vigoroso uso dos músculos das pernas e dos pés parecia ser o único escape socialmente aceitável para a sua fúria. No entanto, admitira que o tempo era precioso e que, mesmo com o trânsito, uma carruagem poderia levá-lo a Mayfair mais rápido do que os próprios pés.
Mas agora as laterais dos veículos pareciam próximas demais, o ar, sufocante, e, maldi ção, seria aquilo um carro de entrega de leite capotado, parando o trânsito?
– Meu Deus – murmurou, olhando a cena.
Havia cacos de vidro espalhados pela rua, leite derramado por todas as partes, e ele não saberia dizer quem guinchava mais alto: os cavalos, ainda enredados nas rédeas, ou as mulheres nas calçadas, cujos vestidos haviam ficado completamente molhados.
Colin saltou da carruagem com a intenção de ajudar a liberar o local, mas logo ficou claro que a Rua Oxford continuaria intransitável por pelo menos uma hora, com ou sem a sua ajuda. Certificou-se de que os cavalos da carruagem de leite estavam sendo bem tratados, informou ao chofer que continuaria o percurso a pé e partiu.
Fitava de forma desafiadora cada pessoa que passava, sentindo um prazer perverso quando elas desviavam o olhar ao notar sua óbvia hostilidade. Quase desejou que alguém fizesse um comentário só para ter quem agredir. Não importava que a única pessoa que queria de fato estrangular fosse Cressida Twombley; àquela altura, qualquer um teria sido um ótimo alvo.
A raiva o estava deixando desequilibrado, irracional, transformando-o em alguém que não era.
Ainda não sabia ao certo o que sentira quando Penelope lhe contara sobre a chantagem de Cressida. Aquilo era maior do que ira, maior do que fúria. Era físico: corria pelas suas veias, pulsava sob a sua pele.
Queria bater em alguém.
Queria chutar as coisas, atravessar uma parede com o punho.
Ficara furioso quando Penelope publicara a sua última coluna. Na verdade, achara que jamais sentiria raiva maior.
Enganara-se.
Ou talvez fosse apenas um tipo diferente de raiva. Alguém estava tentando machucar a pessoa que ele mais amava.
Como podia tolerar isso? Como podia permitir que acontecesse?
A resposta era simples: não podia.
Tinha de dar um fim àquilo. Precisava fazer alguma coisa.
Chegara a hora de agir.
Ergueu a vista, um tanto surpreso por já ter chegado à Casa Bridgerton. Era engraçado não ver mais a construção como lar. Crescera ali, mas agora era a residência do irmão.
Seu lar ficava em Bloomsbury. Seu lar era com Penelope.
Qualquer lugar com Penelope.
– Colin?
Ele se virou. Anthony estava na calçada, obviamente retornando de algum compromisso, e fez um sinal com a cabeça em direção à porta.
– Pretendia bater?
Colin olhou confuso para o irmão, só então se dando conta de que estava parado nos degraus só Deus sabia havia quanto tempo.
– Colin? – chamou Anthony outra vez, franzindo a testa, preocupado.
– Preciso da sua ajuda – retrucou Colin.
Era tudo o que precisava dizer.
Penelope já estava vestida para o baile quando a dama de companhia lhe levou um bilhete de Colin.
– Dunwoody recebeu do mensageiro – informou a jovem.
Então fez uma breve reverência e deixou Penelope sozinha para lê-lo com privacidade.
Ela abriu o envelope e tirou lá de dentro a folha única que continha a caligrafia elegante e caprichada que se tornara tão familiar para ela desde que começara a editar os diários de Colin.
Irei por minha conta ao baile desta noite. Vá para o Número Cinco. Mamãe, Eloise e Hyacinth estão à sua espera para acompanhá-la à Casa Hastings.
Com todo o amor,
Colin.
Para alguém que escrevia diários tão bem, bilhetes não eram seu forte, pensou Penelope com um pequeno sorriso irônico.
Levantou-se e ajeitou o vestido. Escolhera um modelo verde, sua cor preferida, na esperança de que talvez lhe desse coragem. A mãe sempre dissera que, quando uma mulher estava bem-vestida, se sentia bem; achava que Portia tinha razão. Deus sabia que ela passara quase dez anos se sentindo bastante mal nos vestidos que a mãe insistira tanto que usasse.
Os cabelos estavam presos num penteado que lhe realçava o rosto, e a dama de companhia havia até passado alguma coisa nos fios (Penelope temera perguntar o quê) que parecia destacar as mechas ruivas.
Cabelos ruivos não estavam muito em voga, é claro, mas, certa vez, Colin dissera que gostava da maneira como a luz das velas realçava os dela, então Penelope decidira que aquele era um caso no qual ela e a moda teriam de discordar.
Quando chegou lá embaixo, a carruagem estava à sua espera e o chofer já havia sido instruído a levá-la ao Número Cinco.
Colin providenciara tudo. Penelope não sabia por que isso a surpreendia, afinal ele não era o tipo de homem que se esquecia dos detalhes. Mas estivera preocupado com outras coisas, então ela estranhou que tivesse gastado tempo
enviando instruções aos criados sobre como deveria ser levada à casa da mãe quando ela mesma poderia tê-lo feito.
Ele só podia estar planejando alguma coisa. Mas o quê? Será que ia interceptar Cressida Twombley e despachá-la para alguma colônia penal?
Não, melodramático demais.
Talvez tivesse descoberto algum segredo a seu respeito e planejado uma contrachantagem. Silêncio por silêncio.
Penelope assentia, em sinal de aprovação, enquanto a carruagem percorria a Rua Oxford. A resposta só podia ser aquela. Era bem do feitio de Colin inventar algo tão diabolicamente apropriado e inteligente. Mas o que será que teria desencavado sobre Cressida em tão pouco tempo? Em todos os seus anos como Lady Whistledown, jamais ouvira nem mesmo um sussurro de qualquer coisa de fato escandalosa ligada ao nome daquela mulher.
Cressida era má e mesquinha, mas nunca dera um passo que fosse fora das regras estabelecidas pela sociedade. A única coisa ousada de verdade que já fizera fora afirmar ser Lady Whistledown.
A carruagem rumou para o sul, entrando em Mayfair, e, poucos minutos depois, pararam diante do Número Cinco. Eloise devia estar olhando pela janela, pois desceu as escadas quase voando e teria se chocado com a carruagem se o chofer não tivesse descido naquele momento exato, bloqueando a sua passagem.
Eloise ficou saltando de um pé para outro enquanto esperava que o chofer abrisse a porta do veículo. Na verdade, parecia tão impaciente que Penelope ficou surpresa com o fato de a amiga não ter passado direto por ele e aberto a porta por si mesma. Finalmente, ignorando a ajuda do homem, entrou na carruagem sozinha, quase tropeçando na barra do vestido e caindo no chão do carro no processo. Assim que recuperou o equilíbrio, olhou para um lado, depois para o outro, a testa franzida numa expressão furtiva, e fechou a porta com um puxão, quase arrancando o nariz do chofer ao fazê-lo.
– O que está acontecendo? – exigiu saber ela.
Penelope se limitou a encará-la.
– Eu poderia lhe perguntar a mesma coisa.
– Poderia? Por quê?
– Porque quase derrubou a carruagem na sua pressa de entrar!
– Ah – resmungou Eloise, descartando o comentário. – A culpa é toda sua.
– Minha?
– Sim, sua! Quero saber o que está acontecendo. E quero saber agora.
Penelope tinha certeza que Colin não tinha contado à irmã sobre a chantagem
de Cressida, a não ser que o seu plano fosse a irmã dar um sermão tão longo em Cressida que duraria até sua morte.
– Não sei do que você está falando.
– Você tem de saber do que estou falando! – insistiu Eloise, olhando de volta para a casa. A porta da frente estava se abrindo. – Ora, mas que chateação.
Mamãe e Hyacinth já estão chegando. Conte-me!
– Contar-lhe o quê?
– Por que Colin nos enviou aquele bilhete tão misterioso nos instruindo a grudar em você como cola a noite toda.
– Ele fez isso?
– Fez, e ainda sublinhou a palavra cola.
– E eu aqui achando que a ênfase fosse toda sua – devolveu Penelope, secamente.
Eloise fez uma careta.
– Penelope, isto não é hora de zombar de mim.
– E quando é?
– Penelope!
– Desculpe-me, não pude resistir.
– Sabe sobre o que é o tal bilhete?
Penelope fez que não. O que não era uma mentira completa, disse a si mesma.
Ela realmente não sabia o que Colin planejara para aquela noite.
Nesse momento, a porta se abriu e Hyacinth entrou no veículo.
– Penelope! – exclamou, com grande entusiasmo. – O que está acontecendo?
– Ela não sabe – respondeu Eloise.
Hyacinth olhou para a irmã com um ar irritado.
– É claro que você tinha de correr aqui para fora antes.
Violet enfiou a cabeça para dentro do veículo.
– Elas estão brigando? – perguntou à nora.
– Só um pouco – respondeu Penelope.
Violet se sentou ao lado de Hyacinth, em frente a Penelope e Eloise.
– Bem, eu não conseguiria mesmo detê-las. Mas agora, por favor, nos conte o que Colin quis dizer quando nos instruiu a grudarmos em você como cola.
– Eu lhes garanto que não sei.
Violet estreitou os olhos, como se avaliasse a sinceridade de Penelope.
– Ele foi bastante enfático. Até sublinhou a palavra cola.. .
– Eu sei – retrucou Penelope.
Ao mesmo tempo, Eloise disse:
– Eu contei a ela.
– Sublinhou duas vezes – acrescentou Hyacinth. – Se ele tivesse sido só um pouco mais enfático eu teria ido pessoalmente buscá-la em casa com a carruagem.
– Hyacinth! – exclamou Violet.
Hyacinth deu de ombros.
– É tudo muito intrigante.
– Na verdade – começou Penelope, tentando mudar de assunto –, estou aqui me perguntando o que Colin haverá de vestir.
Isso capturou a atenção de todas.
– Ele saiu de casa com roupas vespertinas – explicou Penelope –, e não voltou. Imagino que sua irmã não aceitaria nada menos que um traje de noite completo para o baile.
– Ele deve ter pegado algum emprestado de Anthony – retrucou Eloise, com ar despreocupado. – Os dois vestem o mesmo tamanho. Gregory também, na verdade. Só Benedict é diferente.
– Cinco centímetros mais alto – comentou Hyacinth.
Penelope fez que sim, fingindo interesse enquanto olhava pela janela. O
chofer acabara de diminuir a velocidade, presumivelmente para tentar contornar o grande número de carruagens que abarrotava a Praça Grosvenor.
– Quantas pessoas foram convidadas? – quis saber Penelope.
– Acredito que quinhentas – respondeu Violet. – Daphne não dá muitas festas, mas ela compensa em tamanho a falta de frequência.
– Concordo – murmurou Hyacinth. – Detesto multidões. Não vou conseguir respirar direito hoje.
– Sorte minha que você foi a última filha – comentou Violet com afeição, apesar do ar de cansaço. – Eu não teria energia para mais ninguém depois de você, tenho certeza.
– Pena que não fui a primeira – retrucou Hyacinth, com um sorriso insolente.
– Pense só na atenção que eu teria tido. Sem falar na fortuna.
– Você já é uma herdeira e tanto – devolveu Violet.
– E sempre arruma uma forma de ser o centro das atenções – zombou Eloise.
Hyacinth se limitou a sorrir.
– Sabia – começou Violet, virando-se para Penelope – que todos os meus filhos estarão presentes esta noite? Não consigo me lembrar da última vez que estivemos todos juntos.
– E no seu aniversário? – perguntou Eloise.
Violet balançou a cabeça.
– Gregory não pôde deixar a universidade.
– Não está esperando que façamos uma fila de acordo com o tamanho para entoar uma canção festiva, está? – perguntou Hyacinth, não totalmente de brincadeira. – Já consigo nos ver: os Bridgertons Cantores. Ganharíamos fortunas nos palcos.
– Você está animada esta noite – comentou Penelope.
A menina deu de ombros.
– Só estou me aprontando para a transformação eminente em cola. Pelo visto isso requer certo tipo de preparação mental.
– Um estado de ânimo grudento? – indagou Penelope, com leveza.
– Exatamente.
– Temos de casá-la logo – disse Eloise à mãe.
– Você primeiro – devolveu Hyacinth.
– Estou trabalhando nisso – retrucou Eloise, misteriosa.
– O quê?
O volume da pergunta foi bastante amplificado pelo fato de ter sido pronunciada por três bocas ao mesmo tempo.
– É só isso que vou dizer – avisou Eloise com tal seriedade que todas souberam que falava sério.
– Podem acreditar que eu conseguirei mais detalhes – assegurou Hyacinth à mãe e a Penelope.
– Não tenho dúvidas – replicou Violet.
Penelope se virou para Eloise e disse:
– Você não vai ter a menor chance.
Eloise se limitou a erguer o queixo e olhar para fora da janela.
– Chegamos – anunciou.
As quatro esperaram até que o chofer abrisse a porta e, uma por uma, saltaram.
– Minha nossa – exclamou Violet, em tom de aprovação. – Daphne realmente se superou.
Era difícil não parar e olhar. A Casa Hastings estava toda iluminada. Cada uma das janelas havia sido adornada com uma vela e arandelas externas sustentavam tochas, assim como o grande grupo de criados que recebiam as carruagens
– Que pena que Lady Whistledown não está aqui – comentou Hyacinth, sem qualquer vestígio de insolência, ao menos dessa vez. – Ela teria adorado.
– Talvez esteja aqui – disse Eloise. – Não duvido nada.
– Será que Daphne convidou Cressida Twombley?
– Tenho certeza que sim – retrucou Eloise. – Não que eu ache que ela seja Lady Whistledown.
– Acho que ninguém mais acredita nisso – completou Violet, enquanto subia o primeiro degrau da escadaria. – Vamos, meninas, a noite nos espera.
Hyacinth foi em frente para acompanhar a mãe, enquanto Eloise caminhava ao lado de Penelope.
– Há algo mágico no ar – comentou Eloise, olhando à sua volta, como se nunca tivesse presenciado um baile londrino. – Está sentindo?
Penelope apenas a olhou, temendo deixar escapar todos os seus segredos se abrisse a boca. Eloise tinha razão. Havia algo de estranho e eletrizante na noite, uma energia crepitante, do tipo que se sente um pouco antes de uma tempestade.
– Parece quase um momento decisivo – refletiu Eloise –, como se a vida de uma pessoa pudesse mudar por completo numa única noite. – Do que você está falando, Eloise? – indagou Penelope, assustada com a expressão da amiga.