Os Segredos de Colin Bridgerton
Capítulo 5
Se alguém além de Penelope notou a sua evasão, não pôde questioná-lo a respeito, pois nesse momento os sanduíches chegaram e ele se tornou indisponível para qualquer conversa.
CAPÍTULO 5
Chegou ao conhecimento desta autora que Lady Blackwood torceu o tornozelo no início da semana enquanto perseguia o entregador deste humilde periódico.
Mil libras sem dúvida são uma bela quantia, embora Lady Blackwood não precise de dinheiro. Além do mais, a situação está se tornando absurda. Com certeza os londrinos têm algo melhor a fazer do que perseguir pobres entregadores numa tentativa infrutífera de descobrir a identidade desta autora.
Ou talvez não tenham.
Esta autora relata as atividades dos membros da alta sociedade há mais de uma década e não encontrou a menor prova de que eles tenham, de fato, coisa melhor a fazer com o seu tempo.
CRÔNICAS DA SOCIEDADE DE LADY WHISTLEDOWN,
14 DE ABRIL DE 1824
Dois dias depois, Penelope estava, mais uma vez, atravessando a Praça Berkeley a caminho do Número Cinco para ver Eloise. Desta vez, no entanto, era o fim da manhã, fazia sol e ela não encontrou Colin no percurso.
Não soube dizer se isso era ruim.
Ela e a amiga haviam combinado na semana anterior de fazerem compras, mas decidiram se encontrar no Número Cinco para saírem juntas e poderem dispensar a companhia de suas criadas. Era um dia perfeito – parecia mais que estavam em junho do que em abril – e Penelope estava ansiosa pela curta caminhada até a Rua Oxford. Mas, quando chegou à casa de Eloise, foi recebida por um mordomo confuso.
– Srta. Featherington – disse ele, piscando de forma frenética antes de conseguir concluir o raciocínio –, infelizmente a Srta. Eloise não está em casa no momento.
Penelope entreabriu os lábios em sinal de surpresa.
– Aonde ela foi? Combinamos este encontro há mais de uma semana.
Wickham balançou a cabeça.
– Não sei. Mas saiu com a mãe e a Srta. Hyacinth há duas horas.
– Compreendo – retrucou Penelope, franzindo a testa e tentando decidir o que fazer. – Posso esperar, então? Talvez ela tenha apenas se atrasado. Não é do feitio de Eloise esquecer-se de um compromisso.
Ele fez que sim, afavelmente, e indicou o caminho até a sala de visitas do segundo andar. Depois disse que lhe levaria um lanche e lhe entregou a última edição do Whistledown para passar o tempo.
Penelope já a lera, claro. O periódico chegava bem cedo e ela tinha o hábito de lê-lo durante o café da manhã. Com tão pouco para lhe ocupar a mente, ela foi até a janela e espiou as ruas de Mayfair. No entanto, não havia nada de novo: eram as mesmas construções que já vira mil vezes, e inclusive as mesmas pessoas caminhando pela rua.
Talvez por estar pensando sobre a mesmice de sua vida, notou o único objeto novo a seus olhos: um livro encadernado que se encontrava aberto sobre a mesa.
Até mesmo de alguns metros de distância, percebeu que não estava preenchido com palavras impressas, mas escrito à mão em uma caprichada caligrafia.
Aproximou-se e olhou para baixo sem tocar as folhas. Parecia uma espécie de diário e, no meio da página da direita, havia um cabeçalho destacado do restante do texto por um espaço em cima e um embaixo:
22 de fevereiro de 1824
Montes Troodos, Chipre
Levou uma das mãos à boca. Colin escrevera aquilo! Ele dissera, poucos dias antes, que estivera em Chipre, não na Grécia. Penelope jamais imaginara que ele mantivesse um diário.
Ergueu o pé a fim de dar um passo para trás, mas o corpo não se mexeu. Não devia ler aquilo, disse a si mesma. Aquele era o diário particular de Colin. Ela devia mesmo se afastar.
– Afaste-se – murmurou, olhando para os pés recalcitrantes. – Afaste-se.
Os pés não se moveram.
Mas talvez aquilo não fosse tão errado assim. Afinal de contas, será que estaria realmente invadindo a privacidade dele se lesse apenas o que se encontrasse à vista, sem virar a página? Ele tinha deixado o diário aberto sobre a mesa, para todo mundo ver.
Mas, também, Colin tinha todos os motivos para achar que ninguém daria com seus escritos se deixasse o cômodo por alguns instantes. Devia saber que a mãe e as irmãs tinham saído pela manhã. A maioria das visitas era conduzida à sala de
estar formal, no primeiro andar. Até onde Penelope sabia, ela e Felicity eram as únicas não Bridgertons recebidas na sala informal. E, como Colin não a estava esperando (ou, o que era mais provável, não estava pensando nela em absoluto), não teria imaginado haver o menor perigo em deixar o diário aberto enquanto ia cuidar de outra coisa por um momento.
Por outro lado, ele havia deixado-o aberto.
Aberto, santo Deus! Se houvesse quaisquer segredos relevantes naquele diário, Colin sem dúvida tomaria o cuidado de escondê-lo ao sair do aposento.
Afinal de contas, não era idiota.
Penelope inclinou o corpo para a frente.
Ah, que droga. Não conseguia ler daquela distância. Conseguira compreender o cabeçalho porque havia muito espaço em branco em torno dele, mas o resto do texto era impossível de ser decifrado de longe.
De alguma forma, ela achava que não se sentiria tão culpada se não tivesse que se aproximar mais do diário para lê-lo. Apesar, é claro, de já ter atravessado o aposento para chegar aonde estava no momento.
Tamborilou o dedo na lateral do rosto, bem ao lado do ouvido. Esse era um bom argumento. Já atravessara o aposento, o que significava que o pior de seus pecados naquele dia provavelmente já fora cometido. Um passinho a mais não era nada comparado à extensão da sala.
Chegou um pouco mais para a frente, decidindo que aquilo contava apenas como um meio passo, então se aproximou mais e olhou para baixo, começando a leitura bem no meio de uma frase.
na Inglaterra. Aqui, a areia se ondula entre tons de bege e branco e tem uma consistência tão fina que desliza sobre o pé nu como o sussurro da seda. A água é de um azul inimaginável na Inglaterra: água-marinha com um lampejo do sol e azul-cobalto profundo quando as nuvens cobrem o céu. E é cálida – surpreendente e estarrecedoramente cálida, como uma água de banho que tenha sido aquecida, talvez, meia hora antes. As ondas são suaves e quebram na praia com delicados jatos de espuma, fazendo cócegas na pele e transformando a mais perfeita areia numa delícia macia que escorrega e desliza entre os dedos dos pés até que outra onda chegue para limpar aquela bagunça toda.
É fácil entender por que dizem que este é o local de nascimento de Afrodite. A cada passo, quase espero vê-la como no quadro de Botticelli, surgindo do mar, perfeitamente equilibrada sobre uma gigantesca concha, os longos cabelos ruivos fluindo à sua volta.
Se algum dia já nasceu uma mulher perfeita, sem dúvida foi aqui.
Estou no paraíso. E, no entanto...
E, no entanto, a cada brisa cálida e a cada céu sem nuvens sou lembrado de que este não é meu lar e que nasci para viver em outro lugar. Isso não abranda o desejo – não, a compulsão! – de viajar, de ver, de conhecer. Mas alimenta o estranho anseio por tocar um gramado coberto de orvalho úmido ou de sentir a brisa fria no rosto, ou mesmo de recordar a alegria de um dia perfeito depois de uma semana de chuva.
O povo daqui não tem como conhecer tal alegria. Seus dias são sempre perfeitos. É possível apreciar a perfeição quando ela é constante na vida de alguém?
22 de fevereiro de 1824
montes Troodos, Chipre
É impressionante que eu sinta frio. O mês, é claro, é fevereiro, e, como um inglês, estou bastante acostumado com o frio de fevereiro (assim como com o de qualquer mês), mas não estou na Inglaterra.
Encontro-me em Chipre, no coração do Mediterrâneo, e há apenas dois dias estive em Paphos, no litoral sudoeste da ilha, onde o sol bate forte e o mar é salgado e morno. Daqui, pode-se ver o pico do monte Olimpo, ainda coberto de uma neve tão branca que é capaz de cegar quando o sol reflete nela.
A escalada até aqui foi traiçoeira, com o perigo se escondendo por trás de muitas curvas. A estrada é rudimentar e, no caminho, encontramos
Penelope deixou escapar um suave grunhido de protesto ao se dar conta de que a página terminara no meio de uma frase. Quem ele teria encontrado? O que teria acontecido? Que perigo era aquele?
Ficou encarando o diário, morta de vontade de virar a página para ver o que acontecia em seguida. Mas, quando começara a ler, conseguira justificar seu ato dizendo a si mesma que não estava de fato invadindo a privacidade de Colin.
Afinal de contas, ele é que deixara o livro aberto. Ela apenas vira o que ele deixara exposto.
Virar a página já era totalmente diferente.
Estendeu a mão, depois a recolheu. Aquilo não era certo. Não podia ler o diário dele. Bem, não além do que já lera.
Por outro lado, estava claro que aquelas eram palavras que mereciam ser lidas.
Era um crime que Colin as guardasse para si. Palavras deviam ser celebradas.
– Ora, pelo amor de Deus! – murmurou consigo mesma.
Estendeu a mão em direção ao canto da página.
– O que você está fazendo?
Penelope virou-se.
– Colin!
– Eu mesmo! – vociferou ele.
Ela deu um salto para trás. Jamais o ouvira usar aquele tom. Nem mesmo o imaginara capaz de falar daquele jeito.
Ele atravessou a sala, agarrou o diário e o fechou ruidosamente.
– O que está fazendo aqui? – perguntou.
– Esperando Eloise – conseguiu proferir Penelope, com a boca de repente muito seca.
– Na sala de visitas do segundo andar?
– Wickham sempre me traz para cá. Sua mãe disse a ele que devia me tratar como parte da família. Eu... hã... ele... bem... – Ela se deu conta de que torcia as mãos e se forçou a parar. – O mesmo acontece com a minha irmã Felicity. Por ela e Hyacinth serem tão amigas. Eu... Eu sinto muito. Pensei que soubesse.
Ele atirou o livro encadernado em couro sobre uma poltrona próxima e cruzou os braços.
– E você tem o hábito de ler os escritos particulares dos outros?
– Não, é claro que não. Mas o livro estava aberto e... – Ela engoliu em seco, reconhecendo que a desculpa era péssima no instante em que proferiu as palavras. – É um aposento público – murmurou ela, de alguma forma achando que tinha que finalizar a sua defesa. – Talvez você devesse tê-lo levado quando saiu.
– Não se costuma levar um livro ao lugar aonde eu fui – disse ele, ainda visivelmente furioso com ela.
– Mas não é um livro muito grande – insistiu Penelope, perguntando-se por que, por que, por que continuava a falar quando estava tão claramente errada.
– Pelo amor de Deus – explodiu ele. – Você quer que eu diga a palavra urinol na sua presença?
Penelope sentiu as faces esquentarem.
– É melhor eu ir – falou. – Por favor, diga a Eloise...
– Eu irei – retrucou Colin, quase rosnando. – De qualquer forma, esta tarde me mudo daqui. Assim, aproveito e parto agora, porque pelo visto você já se apossou da casa.
Penelope jamais achara que palavras pudessem causar dor física, mas, bem naquele momento, teve a sensação de tomar uma facada no coração. Não se dera conta, até aquele exato instante, de quanto significava o fato de Lady Bridgerton ter aberto a casa para ela.
Ou de quanto doeria saber que Colin se ressentia da sua presença ali.
– Por que precisa tornar tão difícil lhe pedir desculpas? – deixou escapar, seguindo-o de perto enquanto ele recolhia o restante dos seus pertences.
– E quer me dizer por que eu deveria facilitar as coisas? – devolveu ele, sem encará-la ou diminuir o passo ao falar.
Não a encarou nem diminuiu o passo ao falar.
– Porque seria o mais gentil a se fazer – retrucou Penelope.
Isso chamou a atenção dele. Colin se virou para fitá-la, os olhos cintilando com tanta fúria que Penelope deu um passo em falso para trás. Colin era gentil, sereno. Nunca perdia a compostura.
Até aquele momento.
– Porque seria o mais gentil a se fazer? – vociferou ele. – Foi nisso que você pensou enquanto lia o meu diário? Que seria gentil ler os textos particulares de outra pessoa?
– Não, Colin, eu...
– Não há nada que justifique isso – exclamou ele, cutucando-a no ombro com o indicador.
– Colin! Você...
Ele se virou para continuar recolhendo seus pertences, dando as costas para ela da maneira mais rude que conseguiu enquanto decretava:
– Não há nada que possa justificar o seu comportamento.
– Não, é claro que não, mas...
– AI!
Penelope sentiu o sangue se esvair de seu rosto. O grito de Colin era de dor verdadeira. O nome dele escapou de seus lábios num sussurro apavorado enquanto ela corria para o seu lado.
– O que... Ah, meu Deus!
O sangue jorrava de um corte na palma de sua mão.
Penelope nunca era muito articulada em momentos de crise, mas conseguiu dizer:
– Ah! Ah! O tapete!
Em seguida, saltou para a frente com uma folha de papel que encontrou em cima de uma mesa próxima e colocou-a sob a mão dele para aparar o sangue,
antes que arruinasse o tapete de valor inestimável.
– Que enfermeira atenciosa – disse Colin, com a voz vacilante.
– Bem, você não vai morrer – explicou ela –, e o tapete...
– Está tudo bem – afirmou ele. – Eu estava brincando.
Penelope ergueu os olhos para fitá-lo. Ele lhe pareceu extremamente pálido.
– Acho melhor você se sentar – sugeriu ela.
Ele assentiu, soturno, e arriou sobre uma poltrona.
Penelope experimentou um embrulho no estômago, como se estivesse em alto-mar. Jamais se sentira muito bem ao ver sangue.
– Talvez seja bom eu me sentar, também – murmurou, apoiando-se na mesinha baixa que se encontrava à frente dele.
– Você está bem? – perguntou ele.
Ela fez que sim, engolindo em seco para afastar a onda de náusea.
– Precisamos arrumar algo para enrolar em seu dedo – declarou ela, fazendo uma careta ao olhar para a mão dele.
O papel não era absorvente e deixava o sangue se esvair enquanto Penelope tentava de todas as formas impedir que pingasse pelos lados.
– Tenho um lenço no bolso – informou Colin.
Com todo o cuidado, ela enfiou a mão no bolso da camisa dele, tentando não se concentrar nas cálidas batidas de seu coração enquanto tateava desajeitadamente em busca do pequeno retalho de fazenda cor de creme.
– Está doendo? – indagou, envolvendo o lenço em sua mão. – Não, não diga nada. É claro que está doendo.
Ele conseguiu lhe dar um sorriso muito vacilante.
– Está doendo, sim.
Ela espiou o corte, forçando-se a olhá-lo de perto apesar de o sangue fazer o seu estômago se revirar.
– Acho que não precisará de pontos.
– Você entende alguma coisa sobre ferimentos?
Ela fez que não.
– Nada. Mas não me parece muito sério. A não ser por... hã, esse sangue todo.
– É pior do que parece – brincou ele.
Ela olhou para o rosto dele, horrorizada.
– Outra piada – esclareceu Colin. – Bem, na verdade, não. A sensação é realmente pior do que a aparência, mas posso lhe garantir que é suportável.
– Me desculpe – disse ela, aumentando a pressão sobre o corte para estancar o sangue. – A culpa foi minha.
– Por eu ter cortado a mão?
– Se não o tivesse deixado tão furioso...
Ele se limitou a balançar a cabeça, fechando os olhos devido à dor.
– Não seja tola, Penelope. Se eu não tivesse me zangado com você, teria me zangado com outra pessoa, em algum outro momento.
– E, é claro, teria uma faca de cartas ao seu lado quando isso acontecesse –
murmurou ela, levantando os olhos para ele enquanto se debruçava por cima do corte.
Quando ele a encarou, seu olhar estava cheio de humor e, talvez, um leve toque de admiração.
E alguma outra coisa que ela achou que jamais veria: vulnerabilidade, hesitação e até mesmo insegurança. Penelope se deu conta, chocada, de que ele não sabia como os seus textos eram bons. Não tinha a menor ideia e, na realidade, estava envergonhado por ela tê-los visto.
– Colin – começou ela, pressionando o lenço com mais força ainda, instintivamente. – Eu preciso lhe dizer: você...
Ela parou ao ouvir passos se aproximando pelo corredor.
– É Wickham – falou, olhando em direção à porta. – Ele insistiu em trazer alguma coisa para comer. Pode manter a pressão aqui, por enquanto?
Colin assentiu.
– Não quero que ele saiba que me machuquei. Vai acabar contando à minha mãe e eu nunca mais terei paz.
– Bem, tome aqui, então. – Ela se levantou e atirou o diário em sua direção. –
Finja que está lendo isto.
Colin mal teve tempo de abri-lo e colocá-lo sobre a mão machucada antes que o mordomo entrasse carregando uma enorme bandeja.
– Wickham! – exclamou Penelope, virando-se para olhá-lo. – Como sempre, trouxe muito mais comida do que sou capaz de comer. Por sorte, o Sr.
Bridgerton está aqui me fazendo companhia. Tenho certeza de que, com a ajuda dele, conseguirei dar conta de todos esses quitutes. Wickham assentiu e removeu as tampas dos pratos. Havia carnes, queijos e frutas, além de uma jarra alta de limonada.
Penelope abriu um largo sorriso.
– Espero que não tenha pensado que eu conseguiria comer isto tudo sozinha.
– Lady Bridgerton e as filhas devem chegar daqui a pouco. Achei que poderiam estar com fome também.
– Comigo aqui, não vai sobrar nada para elas – afirmou Colin com um sorriso
jovial.
Wickham fez uma discreta reverência em sua direção.
– Se eu soubesse que estava aqui, Sr. Bridgerton, teria triplicado as porções.
Quer que eu faça um prato para o senhor?
– Não, não – retrucou Colin, abanando a mão que não estava machucada. –
Vou levantar assim que... hã... acabar de ler este capítulo.
– Avisem se precisarem de qualquer outra coisa – acrescentou Wickham, antes de deixar o aposento.
– Aaaai – gemeu Colin assim que ouviu os passos de Wickham se afastarem pelo corredor. – Maldição! Quer dizer, droga! Como dói!
Penelope pegou um guardanapo da bandeja.
– Tome, vamos substituir esse lenço. – Ela tirou o pedaço de pano da mão dele, mantendo os olhos fixos no tecido em vez de no ferimento. Com isso, seu estômago não ficou tão embrulhado. – Sinto dizer que o seu lenço está arruinado.
Colin apenas fechou os olhos e balançou a cabeça. Penelope era inteligente o bastante para entender que isso queria dizer que ele não se importava. E era sensível o suficiente para não falar mais nada sobre o assunto. Não havia nada pior do que uma mulher tagarela.
Ele sempre gostara de Penelope, mas como podia ter deixado de perceber, até aquele momento, quão inteligente ela era? Supunha que, se tivessem lhe perguntado sua opinião, teria dito que era esperta, mas na verdade nunca tinha pensado muito sobre o assunto.
No entanto, tornava-se cada vez mais claro para ele que a jovem era, de fato, muito inteligente. E talvez a irmã tivesse comentado, certa vez, que também era uma leitora voraz.
E, provavelmente, crítica.
– Acho que o sangramento diminuiu – disse ela, envolvendo o guardanapo limpo em torno de sua mão. – Na verdade, tenho certeza, pois já não fico tão enjoada cada vez que olho para o ferimento.
Ele teria preferido que ela não tivesse lido o seu diário, mas já que tinha...
– Hã, Penelope... – começou ele, surpreso com a nítida hesitação na própria voz.
Ela ergueu os olhos.
– Desculpe. Estou apertando demais?
Por um instante, Colin só piscou. Como era possível que jamais tivesse notado como os olhos dela eram grandes? Sabia que eram castanhos, é claro, e... Não,
pensando bem, se fosse sincero, teria que admitir que, se alguém lhe perguntasse, antes daquela manhã, qual era a cor dos olhos dela, ele não teria sido capaz de responder.
Mas, de alguma maneira, sabia que jamais se esqueceria outra vez.
Ela diminuiu a pressão.
– Assim está melhor?
Ele fez que sim.
– Obrigado. Eu mesmo o faria, mas é a minha mão direita e...
– Não precisa dizer mais nada. É o mínimo que posso fazer depois de... depois de...
Penelope olhou discretamente para o lado e ele percebeu que ela estava prestes a pedir desculpas de novo.
– Penelope – tentou ele mais uma vez.
– Não, espere! – bradou ela, os olhos escuros cintilando com... paixão?
Sem dúvida não era o tipo de paixão com o qual ele estava acostumado. Mas havia outros tipos, certo? Paixão pelo aprendizado. Paixão pela... literatura?
– Eu tenho que lhe dizer isto – recomeçou ela, com urgência. – Eu sei que ler o seu diário foi uma intromissão imperdoável da minha parte. Eu só estava...
entediada... esperando... e não tinha nada para fazer, então vi aquilo e fiquei curiosa.
Ele abriu a boca para interrompê-la, para falar que o que estava feito estava feito, mas ela não parava e ele foi obrigado a escutá-la.
– Eu deveria ter me afastado assim que percebi do que se tratava – continuou Penelope –, mas, no instante em que li uma frase, não consegui mais parar!
Colin, foi maravilhoso! Era como se eu estivesse lá. Pude sentir a água, e sabia exatamente a temperatura que tinha. Foi tão inteligente da sua parte descrevê-la daquela forma... Todo mundo sabe como é a água de banho meia hora depois de a banheira ter sido preparada.
Por um momento, Colin não conseguiu fazer nada além de fitá-la. Nunca vira Penelope tão animada, e era muito estranho – muito bom, na verdade – que tanta animação se devesse ao seu diário.
– Você... você gostou? – perguntou ele, por fim.
– Se eu gostei? Colin, eu adorei! Eu...
– Ai!
Em sua animação, ela começara a apertar a mão dele um pouco forte demais.
– Ah, me desculpe – disse ela distraidamente. – Colin, eu preciso saber. Qual era o perigo? Não aguento ficar sem saber.
– Não foi nada – retrucou ele, com modéstia. – A página que você leu não foi das melhores.
– De fato, foi quase toda descritiva – concordou ela –, mas a descrição foi muito envolvente e evocativa. Eu consegui ver a cena. Ainda assim, não foi...
Ah, meu Deus, como posso explicar?
Colin percebeu que estava muito ansioso para que ela conseguisse se expressar.
– Às vezes – continuou Penelope –, quando lemos uma passagem descritiva, ela é um tanto... bem, não sei... distante. Clínica, até. Você deu vida à ilha.
Outras pessoas talvez dissessem que a água era morna, mas você a ligou a algo que todos conhecemos e compreendemos. Me deu a sensação de estar lá, mergulhando o dedo do pé bem ao seu lado.
Colin sorriu, ridiculamente satisfeito com o elogio.
– Ah! E antes que eu me esqueça, houve outra coisa brilhante que eu queria mencionar.
Agora ele estava sorrindo como um imbecil. Brilhante, brilhante, brilhante.
Que palavra boa.
Penelope se aproximou um pouco dele ao dizer:
– Também mostrou ao leitor como você reagiu à cena e como ela o afetou.
Tornou-se algo além da mera descrição, porque soubemos qual foi a sua reação.
Colin sabia que estava pedindo para ser elogiado, mas não se importou muito com isso ao perguntar:
– O que quer dizer?
– Bem, se você olhar para... Posso ver o diário outra vez para refrescar a memória?
– É claro – murmurou ele, entregando-o a ela. – Espere, deixe-me encontrar a página certa para você.
Assim que Colin lhe deu o caderno, Penelope vasculhou as linhas até encontrar o trecho que procurava.
– Bem aqui. Veja só esta parte, onde você se lembra de que a Inglaterra é a sua casa.
– É engraçado como viajar pode fazer isso com uma pessoa.
– Fazer o quê? – quis saber ela, com os olhos cheios de interesse.
– Fazer uma pessoa apreciar o próprio lar – disse ele, baixinho.
Ela o encarou com olhos sérios, questionadores.
– E, ainda assim, você gosta de partir.
Ele assentiu.
– Não consigo evitar. É como uma doença.
Ela riu e sua risada soou inesperadamente melodiosa.
– Não seja ridículo – falou. – Uma doença é algo nocivo. Está claro que suas viagens alimentam a sua alma. – Ela baixou os olhos para a mão dele e puxou o guardanapo com todo o cuidado para inspecionar o ferimento. – Já está quase melhor – declarou.
– Quase – concordou ele.
Na verdade, suspeitava que o sangramento tivesse estancado por completo, mas relutava em permitir que a conversa chegasse ao fim. Sabia que, no instante em que Penelope terminasse de cuidar dele, iria embora.
Ele não achava que ela quisesse partir, mas, de alguma forma, sabia que isso aconteceria. Consideraria que era o mais apropriado e, provavelmente, também acreditaria que era isso que ele desejava.