Os Segredos de Colin Bridgerton

Julia Quinn · Capítulo 25 de 30

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Os Segredos de Colin Bridgerton

Capítulo 23

– De nada – respondeu Eloise, dando de ombros. Mas um sorriso misterioso continuou em seus lábios enquanto ela passava o braço pelo de Penelope e murmurava: – Vamos. A noite nos espera.

CAPÍTULO 23

Penelope estivera na Casa Hastings muitas vezes, tanto em festas formais quanto em visitas informais, mas nunca vira a imponente construção tão encantadora – ou mágica – quanto naquela noite.

Junto à sogra e às duas cunhadas, ela estava entre os primeiros convidados a chegar. Violet sempre dissera que era grosseiro que membros da família sequer cogitassem chegar elegantemente atrasados. E Penelope achou bom chegar tão cedo: ela teve a oportunidade de ver a decoração sem ter de enfrentar o empurra-empurra da multidão.

Daphne decidira que seu evento não seria temático, ao contrário do baile egípcio da semana passada e do grego da semana anterior a esta. Em vez disso, decorara a casa com a mesma elegância simples com a qual vivia o dia a dia.

Centenas de velas bruxuleantes adornavam as paredes e mesas, refletindo os imensos candelabros que pendiam do teto. As janelas estavam envoltas em um pano brilhoso e prateado, o tipo de tecido que se podia imaginar vestindo fadas.

Até o uniforme dos criados estava diferente. Penelope sabia que eles costumavam vestir azul e dourado, mas naquela noite o azul vinha adornado com prateado.

Era quase possível para uma mulher se sentir como uma princesa num conto de fadas.

– Eu imagino quanto isto tudo terá custado – comentou Hyacinth, com os olhos arregalados.

– Hyacinth! – ralhou Violet, dando um tapinha no braço da filha. – Você sabe que é deselegante fazer esse tipo de pergunta.

– Eu não perguntei. Só imaginei. Além do mais, é de Daphne que estamos falando.

– A sua irmã é a duquesa de Hastings – retrucou Violet –, e, como tal, tem certas responsabilidades com que arcar. Seria bom que você se lembrasse disso.

– Mas a senhora não concorda – disse Hyacinth, passando o braço pelo da mãe e apertando de leve a mão dela – que é bem mais importante que eu me lembre, simplesmente, que ela é minha irmã?

– Agora ela a pegou – comentou Eloise, com um sorriso.

Violet deixou escapar um suspiro.

– Hyacinth, eu declaro que você será a responsável pela minha morte.

– Não, não serei – replicou a jovem. – Gregory será.

Penelope se pegou prendendo o riso.

– Não vejo Colin em lugar algum – disse Eloise, esticando o pescoço.

– Não? – Penelope varreu o salão com os olhos. – Isso é surpreendente.

– Ele lhe disse que estaria aqui antes de você chegar?

– Não, mas, por algum motivo, achei que estaria.

Violet deu um tapinha tranquilizador em seu braço.

– Estou certa de que chegará em breve, Penelope. Então, logo saberemos que grande segredo é esse que o fez insistir que não desgrudássemos de você. Não –

acrescentou, apressada, os olhos arregalados de alarme – que estejamos encarando isto como um sacrifício. Você sabe que adoramos a sua companhia.

Penelope lhe lançou um sorriso tranquilizador.

– Eu sei. O sentimento é recíproco.

Havia poucas pessoas à frente delas na fila de recepção, então não demorou muito para que pudessem cumprimentar Daphne e o marido, Simon.

– O que está acontecendo com Colin? – perguntou Daphne, sem qualquer preâmbulo, tão logo teve certeza de que os outros convidados não poderiam ouvi-la.

Como a questão parecia, primordialmente, dirigida a ela, Penelope se viu forçada a dizer:

– Eu não sei.

– Ele também lhe mandou um bilhete? – perguntou Eloise à irmã.

Daphne fez que sim.

– Mandou. Segundo ele, é para ficarmos de olho em Penelope.

– Podia ter sido pior – falou Hyacinth. – Nós três devemos grudar nela como cola. – Ela inclinou o corpo para a frente. – E ele sublinhou cola.

– E eu achando que não era um sacrifício – ironizou Penelope.

– Ora, e não é – garantiu Hyacinth, com leveza –, mas há algo muito prazeroso em pronunciar a palavra cola. Ela escorrega da língua de maneira muito agradável, não acha? Cola. Cooooolaaaa.

– Sou eu, ou ela enlouqueceu de vez? – perguntou Eloise.

Hyacinth a ignorou com um dar de ombros.

– Sem falar no aspecto dramático disso tudo. Parece que somos parte de alguma grande trama de espionagem.

– Espionagem – gemeu Violet. – Que Deus nos ajude.

Daphne inclinou o corpo para a frente, com a expressão grave.

– Bem, ele nos disse...

– Não é uma competição, meu amor – interrompeu Simon.

Ela lhe lançou um olhar bastante irritado antes de se virar outra vez para a mãe e as irmãs e continuar:

– Ele nos pediu que não a deixássemos chegar nem perto de Lady Danbury.

– Lady Danbury! – exclamaram todas.

Todas, menos Penelope, que tinha uma boa noção do motivo pelo qual Colin queria que ela ficasse longe da condessa. Devia ter bolado um plano melhor que o dela de convencer Lady Danbury a mentir e dizer a todos que ela era Lady Whistledown.

Só podia ser a teoria da contrachantagem. O que mais haveria de ser? Sem dúvida ele tinha descoberto algum segredo terrível sobre Cressida.

Penelope estava quase tonta de alegria.

– Achei que você fosse bastante próxima de Lady Danbury – disse-lhe Violet.

– E sou – retrucou Penelope, tentando mostrar-se perplexa.

– Isso é muito curioso – comentou Hyacinth, batendo com o indicador na face.

– Muito curioso mesmo.

– Eloise – chamou Daphne, de repente –, está muito quieta hoje.

– Só não estava quando me chamou de louca – destacou Hyacinth.

– Hummm? – Eloise estava olhando para o nada, ou talvez para algo que se encontrava atrás de Daphne e de Simon, e não estava prestando atenção. – Ah, bem, creio que não tenho nada para dizer.

– Você? – perguntou Daphne, incrédula.

– Exatamente o que eu estava pensando – acrescentou Hyacinth.

Penelope concordava com Hyacinth, mas decidiu guardar a opinião para si.

Não era do feitio da amiga permanecer em silêncio por tanto tempo, sobretudo numa noite como aquela, que ficava mais misteriosa a cada segundo.

– Vocês todos vinham fazendo colocações tão boas... – comentou Eloise. – O

que eu poderia ter acrescentado à conversa?

Isso pareceu muito estranho a Penelope. O sarcasmo estava dentro do contexto, mas sua melhor amiga sempre achava que tinha algo a acrescentar a uma conversa.

Eloise apenas deu de ombros.

– É bom irmos andando – disse Violet. – Estamos começando a atrapalhar os seus outros convidados.

– Eu as verei mais tarde – prometeu Daphne. – E... Ah!

Todas se aproximaram.

– Provavelmente vão querer saber que Lady Danbury ainda não chegou –

sussurrou ela.

– O que torna minha tarefa mais simples – comentou Simon, parecendo um tanto entediado com tanta intriga.

– Mas não a minha – queixou-se Hyacinth. – Ainda tenho de grudar nela...

– Como cola – exclamaram todas, inclusive Penelope.

– Por falar em cola... – começou Eloise, enquanto se afastavam de Daphne e Simon. – Penelope, acha que ficará bem com dois tubos, apenas, por um período? Eu gostaria de dar uma volta.

– Eu vou com você – anunciou Hyacinth.

– Não podem ir as duas – disse Violet. – Tenho certeza que Colin não iria querer que Penelope ficasse sozinha comigo.

– Posso ir quando ela voltar, então? – perguntou Hyacinth com uma careta. –

Não é algo que eu possa evitar.

Violet virou-se para Eloise, em expectativa.

– O que foi? – quis saber a jovem.

– Estava esperando que você dissesse o mesmo.

– Eu sou digna demais – fungou Eloise.

– Ora, por favor... – murmurou Hyacinth.

Violet soltou um gemido.

– Tem certeza que deseja ficar conosco? – perguntou a Penelope.

– Não achei que tivesse escolha – respondeu Penelope, divertindo-se com o diálogo.

– Vá – disse Violet a Eloise. – Mas não demore.

Eloise assentiu e então, para a surpresa de todas, se aproximou de Penelope e lhe deu um abraço rápido.

– Por que isto? – indagou Penelope com um sorriso carinhoso.

– Por nada – retrucou Eloise, retribuindo o sorriso com um muito parecido com os de Colin. – Só acho que esta vai ser uma noite muito especial para você.

– Acha mesmo? – disse Penelope, cautelosamente, sem saber o que a amiga já poderia ter intuído.

– Bem, é óbvio que alguma coisa está prestes a acontecer – declarou Eloise. –

Não é do feitio de Colin agir de forma tão misteriosa. E eu queria oferecer o meu apoio.

– Você vai voltar em alguns minutos – observou Penelope. – O que quer que vá acontecer, se é que algo vai acontecer de fato, não é provável que você perca.

Eloise deu de ombros.

– Foi um impulso. Um impulso nascido de muitos anos de amizade.

– Eloise Bridgerton, está ficando sentimental?

– A esta altura da vida? – indagou Eloise, fingindo-se ultrajada. – Não creio.

– Eloise – interrompeu Hyacinth. – Quer ir logo? Não posso esperar a noite toda.

Com um rápido aceno da cabeça, Eloise se afastou.

Durante a hora seguinte, elas apenas caminharam pelo salão, misturando-se aos outros convidados e se deslocando – Penelope, Violet e Hyacinth – como um ser único e gigantesco.

– Três cabeças e seis pernas, é o que temos – observou Penelope, andando em direção à janela com as duas Bridgertons se alvoroçando para chegarem logo ao seu lado.

– O que disse? – perguntou Violet.

– Você realmente queria olhar pela janela ou só estava nos testando? E onde está Eloise? – murmurou Hyacinth.

– Em grande parte, eu as estava testando – admitiu Penelope. – E tenho certeza que Eloise foi detida por algum outro convidado. Você sabe tão bem quanto eu que é muito difícil escapar de uma conversa com várias das pessoas presentes aqui.

– Humpf – resmungou Hyacinth. – Pelo jeito ela não conhece muito bem a definição de cola.

– Hyacinth, se precisar se ausentar por alguns minutos, vá em frente, por favor

– disse Penelope. Então se virou para Violet. – A senhora também. Se precisar ir, prometo ficar bem aqui, neste canto, até o seu retorno.

Violet a olhou, horrorizada.

– E voltar atrás na nossa palavra com Colin?

– Err... Vocês chegaram a prometer alguma coisa a ele? – observou Penelope.

– Não, mas sem dúvida isso estava implícito no pedido dele. Ah, olhe! –

exclamou ela, subitamente. – Lá está ele!

Penelope tentou fazer um sinal discreto para o marido, mas todas as suas tentativas de circunspecção foram abafadas pelos vigorosos acenos e gritos de Hyacinth:

– Colin!

Violet gemeu.

– Eu sei, eu sei – disse Hyacinth, sem o menor sinal de arrependimento. –

Devo agir mais como uma dama.

– Se sabe, por que não o faz? – queixou-se Violet.

– Qual seria a graça?

– Boa noite, senhoras – cumprimentou Colin, beijando a mão da mãe antes de tomar o seu lugar, elegantemente, ao lado de Penelope, e passar o braço em torno de sua cintura.

– Bem...? – disse Hyacinth, em tom de expectativa.

Colin se limitou a erguer uma das sobrancelhas.

– Não tem nada para nos contar? – insistiu ela.

– Tudo em seu devido tempo, querida irmã.

– Você é um homem muito, muito mau – resmungou Hyacinth.

– Não posso negar – murmurou ele, olhando à sua volta. – E onde está Eloise?

– Boa pergunta – resmungou Hyacinth ao mesmo tempo que Penelope dizia:

– Estou certa de que logo estará de volta.

Ele assentiu, sem parecer realmente interessado.

– Mamãe – começou, virando-se para Violet –, como tem passado?

– Você envia bilhetes misteriosos pela cidade inteira e quer saber como eu tenho passado? – retrucou Violet.

Ele sorriu.

– Quero.

Violet começou a balançar o dedo para ele, algo que proibira terminantemente os próprios filhos de fazer em público.

– Ah, não, nada disso, Colin Bridgerton. Não vai se safar assim. Você me deve uma explicação. Eu sou sua mãe. Sua mãe!

– Estou ciente disso – murmurou ele.

– Não vai entrar aqui valsando e me distrair com uma frase inteligente e um sorriso travesso.

– Acha o meu sorriso travesso?

– Colin!

– Mas de fato a senhora trouxe à tona uma excelente questão.

Violet piscou, aturdida.

– Eu trouxe?

– Trouxe. A respeito da valsa. – Ele inclinou a cabeça levemente para o lado.

– Creio estar ouvindo o início de uma valsa.

– Não estou ouvindo nada – comentou Hyacinth.

– Não mesmo? Que pena. – Ele agarrou a mão de Penelope. – Vamos, minha esposa. Creio que seja o nosso número de dança.

– Mas ninguém está dançando – observou Hyacinth, entre os dentes.

Ele lhe lançou um sorriso de satisfação.

– Mas logo estarão.

Então, antes que alguém tivesse chance de retrucar, ele deu um puxão na mão de Penelope e logo os dois avançavam pela multidão.

– Você não queria dançar a valsa? – perguntou Penelope, sem fôlego, logo depois de passarem pela pequena orquestra, cujos integrantes pareciam fazer uma pausa prolongada.

– Não, só queria escapar – explicou ele, passando com ela por uma porta lateral.

Alguns momentos mais tarde, depois de subirem uma escadaria estreita, estavam escondidos numa pequena sala, cuja única iluminação provinha das tochas bruxuleantes que ardiam do lado de fora da janela.

– Onde estamos? – perguntou Penelope, olhando à sua volta.

Colin deu de ombros.

– Não sei. Pareceu-me um lugar tão bom quanto qualquer outro.

– Vai me contar o que está acontecendo?

– Não. Primeiro vou beijá-la.

Antes que ela pudesse reagir (não que Penelope tivesse protestado), os lábios dele encontraram os seus num beijo que foi, ao mesmo tempo, faminto, urgente e terno.

– Colin! – arquejou ela, durante o décimo de segundo em que ele parou para respirar.

– Agora não – sussurrou ele, beijando-a outra vez.

– Mas... – A palavra saiu abafada, perdida de encontro aos lábios dele.

Era o tipo de beijo que a envolvia da cabeça aos pés, desde o modo como Colin mordiscava os seus lábios até a forma como ele apalpava o seu traseiro e deslizava as mãos por suas costas. Era o tipo de beijo que poderia facilmente tê-la deixado de pernas bambas, fazendo-a desmaiar no sofá e permitir que ele fizesse qualquer coisa com ela, apesar de estarem apenas a alguns metros de distância de cerca de quinhentos membros da alta sociedade, a não ser...

– Colin! – exclamou ela, de alguma forma conseguindo afastar a boca da dele.

– Shhhh.

– Colin, precisa parar!

A expressão dele era a de um cachorrinho confuso.

– Preciso?

– Sim, precisa.

– Imagino que vá dizer que é por causa de todas as pessoas que estão aqui ao

lado.

– Não, embora seja um ótimo motivo para considerar o autocontrole.

– Para considerar e depois... ignorar, talvez? – disse ele, esperançoso.

– Não! Colin... – Ela se desvencilhou dos braços dele e se afastou vários metros, apenas por precaução. – Colin, você precisa me dizer o que está acontecendo.

– Bem – começou ele, lentamente. – Eu a estava beijando...

– Não foi isso que eu quis dizer e você sabe disso.

– Muito bem. – Colin se afastou, com os passos ecoando alto nos ouvidos dela. Quando ele se virou outra vez, a expressão se tornara muito séria. – Decidi o que fazer com relação a Cressida.

– Decidiu? O quê? Quero saber.

Colin fez uma careta.

– Na verdade, acho melhor não lhe contar até o plano já estar em curso.

Ela o fitou com incredulidade.

– Não pode estar falando sério.

– Bem... – Ele olhava para a porta com ansiedade, claramente esperando um motivo para escapar.

– Conte-me – insistiu ela.

– Muito bem.

Ele deixou escapar um suspiro, e outro em seguida.

– Colin!

– Vou dar uma declaração – disse ele, como se aquilo explicasse tudo.

A princípio Penelope ficou em silêncio, achando que tudo ficaria claro se ela esperasse um instante e pensasse a respeito. Mas não funcionou, então ela perguntou bem devagar, com toda a cautela:

– Que tipo de declaração?

Colin assumiu uma expressão decidida.

– Vou contar a verdade.

Ela sufocou um grito.

– A meu respeito?

Ele fez que sim.

– Mas não pode!

– Penelope, acho que é o melhor a fazer.

O pânico começou a brotar dentro dela e seus pulmões lhe deram a sensação de estarem impossivelmente comprimidos.

– Não, Colin, não pode fazer isso! O segredo não lhe pertence para que você o

revele!

– Quer sustentar Cressida pelo resto da vida?

– Não, é claro que não, mas posso pedir a Lady Danbury...

– Não vai pedir a Lady Danbury que minta em seu nome – disse ele, com rispidez. – Isso não é condizente com a sua pessoa e você sabe muito bem disso.

Penelope arquejou diante do tom rude de Colin. Mas, no fundo, sabia que ele tinha razão.

– Se estava tão disposta a permitir que alguém usurpasse a sua identidade –

continuou ele –, então devia simplesmente ter permitido que Cressida o fizesse.

– Eu não podia – sussurrou Penelope. – Não ela.

– Muito bem. Então chegou a hora de enfrentarmos a realidade.

– Colin – sussurrou ela –, isto vai me arruinar.

Ele deu de ombros.

– Podemos nos mudar para o campo.

Ela balançou a cabeça, tentando desesperadamente saber o que dizer.

Colin tomou as mãos dela.

– Isso tem mesmo tanta importância? – perguntou ele, de forma afetuosa. –

Penelope, eu amo você. Contanto que fiquemos juntos, seremos felizes.

– Não é isso – disse ela, tentando desvencilhar as mãos das dele para secar as próprias lágrimas.

Mas ele não as soltou.

– O que é, então?

– Colin, você também ficará arruinado – sussurrou ela.

– Eu não me importo.

Ela o fitou, incrédula. Colin lhe soou tão insolente, tão relaxado com relação a algo que poderia mudar a sua vida de uma forma que ele não era capaz nem de imaginar...

– Penelope, é a única solução – disse ele num tom tão sensato que ela achou quase intolerável. – Ou nós contamos ao mundo, ou Cressida conta.

– Podemos pagar pelo silêncio dela.

– É realmente o que você quer fazer? – perguntou ele. – Dar-lhe todo o dinheiro que você trabalhou tanto para ganhar? Então poderia ter deixado todos acreditarem que ela era Lady Whistledown.

– Não posso permitir que você faça isso – insistiu ela. – Acho que não compreende o que é viver fora da sociedade.

– E você compreende? – devolveu ele.

– Melhor do que você!

– Penelope...

– Está tentando agir como se não importasse, mas não se sente assim. Ficou com tanta raiva de mim quando publiquei aquela última coluna, tudo porque achava que eu não deveria ter arriscado o meu segredo dessa maneira...

– E, no final das contas, eu tinha razão – observou ele.

– Viu só? Continua com raiva de mim por isso!

Colin deu um longo suspiro. A conversa não estava evoluindo da forma que esperara. Sem dúvida ele não imaginara que a esposa lhe jogaria na cara sua insistência anterior de que ela não contasse a ninguém.

– Se você não tivesse publicado aquela última coluna – argumentou ele –, nós não estaríamos nesta posição, é verdade, mas isso agora não tem mais a menor importância, não concorda?

– Colin, se você contar para o mundo que eu sou Lady Whistledown e as pessoas reagirem da forma como acho que reagirão, você nunca verá os seus diários publicados.

O coração dele parou por um momento.

Porque foi nesse instante que ele finalmente a compreendeu.

Ela já lhe dissera que o amava e também demonstrara o seu amor de todas as formas que ele lhe ensinara. Mas esse sentimento nunca estivera tão claro, tão franco, tão cru.

Durante todo o tempo que ela lhe implorara que não contasse a verdade, fora por ele.

Ele engoliu o bolo que começava a se formar em sua garganta, lutou para encontrar as palavras, lutou até mesmo para respirar.

Penelope estendeu o braço e tocou a sua mão, os olhos suplicantes, o rosto ainda molhado das lágrimas.

– Eu jamais poderia me perdoar – falou. – Não quero destruir os seus sonhos.

– Nunca foram meus sonhos até conhecer você – sussurrou ele.

– Não quer publicar os diários? – indagou ela, piscando, perplexa. – Estava fazendo isso só por mim?

– Não – disse ele, porque Penelope não merecia nada além da mais completa sinceridade. – Eu quero, sim. É o meu sonho. Mas é um sonho que você me deu.

– O que não significa que eu possa tomá-lo de você.

– E não vai.

– Sim, eu...

– Não – exclamou ele, decidido –, não vai. E ter o meu trabalho publicado...

Bem, não chega aos pés do meu verdadeiro sonho, que é passar o resto da vida

com você.

– Você sempre terá isso – retrucou ela, baixinho.

– Eu sei. – Ele sorriu e depois acrescentou de forma bastante arrogante: – E

então, o que temos a perder?

– Possivelmente mais do que jamais poderemos imaginar.

– E, possivelmente, menos – retrucou Colin. – Não se esqueça de que sou um Bridgerton. E agora, você também. Exercemos certo poder nesta cidade.

Penelope arregalou os olhos.

– O que quer dizer?

Ele deu de ombros, com modéstia.

– Anthony está preparado para lhe dar todo o apoio.

– Contou a Anthony? – arquejou ela.

– Tive de contar. Ele é o chefe da família. E há muito poucas pessoas neste planeta que ousariam se indispor com ele.

– Ah. – Penelope mordeu o lábio inferior, considerando aquilo tudo. Então, porque precisava saber, perguntou: – O que ele disse?

– Ficou surpreso.

– Imagino.

– E bastante satisfeito.

O rosto dela se iluminou.

– É mesmo?

– E achou graça. Disse que só podia admirar alguém que conseguiu guardar um segredo como esse durante tantos anos. E falou que mal podia esperar até contar a Kate.

Ela assentiu.

– Imagino que teremos de dar essa declaração agora. O segredo não é mais só nosso.

– Anthony não contará nada, se eu lhe pedir – disse Colin. – Isso não tem nada a ver com o motivo de eu querer contar a verdade ao mundo.

Ela olhou para ele com um misto de expectativa e desconfiança.

– A verdade é que sinto orgulho de você – explicou Colin, puxando as mãos dela e trazendo-a mais para perto.

Penelope se viu sorrindo, o que foi estranho, pois apenas alguns minutos antes ela não conseguira se imaginar jamais voltando a sorrir.

Colin baixou o rosto até os seus narizes se tocarem.

– Quero que todos saibam como sinto orgulho de você. Quando eu terminar, não haverá uma única pessoa em Londres que não reconhecerá como você é

inteligente.

– Talvez continuem me odiando – observou ela.

– Talvez – concordou ele –, mas isso será problema delas, não nosso.

– Ah, Colin – suspirou ela. – Eu amo você. Que maravilha sentir isso.

Ele sorriu.

– Eu sei.

– Não, não sabe. Achei que o amava antes, e tenho certeza de que amava, mas não era nada comparado ao que sinto agora.

– Ótimo – disse ele, com um brilho bastante possessivo surgindo nos olhos. –

É assim que eu gosto. Agora, venha comigo.

– Aonde?

– Por aqui – retrucou ele, abrindo uma porta.

Para surpresa de Penelope, ela se viu numa pequena sacada, que dava para todo o salão de baile.

– Meu. Deus. Do. Céu – falou, engolindo em seco, tentando puxá-lo de volta para o quarto.

Ninguém os vira até o momento, então ainda podiam fugir.

– Tsc, tsc – ralhou ele. – Coragem, minha querida.

– Que tal se você publicasse alguma coisa no jornal? – sussurrou ela, com urgência. – Ou contasse a alguém e deixasse que o boato se espalhasse?

– Nada como um grande gesto para comunicar a mensagem.

Penelope começou a engolir em seco sem parar. Definitivamente aquele seria um gesto dos grandiosos.

– Não sou muito boa em ser o centro das atenções – disse ela, tentando normalizar o ritmo da respiração.

Ele apertou a sua mão.

– Não se preocupe. Eu é que vou ser.

Ele fitou a multidão e trocou um olhar com o anfitrião da festa, seu cunhado, o duque de Hastings. Diante do aceno da cabeça de Colin, o duque se dirigiu à orquestra.

– Simon sabe? – arfou Penelope.

– Eu lhe contei quando cheguei – murmurou Colin. – Como acha que eu encontrei a sala com a sacada?

Então, algo notável aconteceu. Um verdadeiro tropel de criados surgiu do nada e começou a entregar compridas taças de champanhe aos convidados.

– Aqui estão as nossas – disse Colin, em tom de aprovação, enquanto pegava duas taças que os aguardavam no canto. – Exatamente como pedi.

Penelope aceitou a dela em silêncio, ainda incapaz de compreender tudo o que estava acontecendo.

– A esta altura as borbulhas já devem ter se desfeito – brincou Colin, num sussurro conspiratório que, ela sabia, tinha o intuito de fazê-la se acalmar. – Mas foi o melhor que consegui fazer, dadas as circunstâncias.

Enquanto Penelope segurava aterrorizada a mão do marido, observava, impotente, Simon silenciar a orquestra e gesticular para que a multidão de convidados voltasse a atenção para o irmão e a irmã, na sacada.

Irmão e irmã, pensou ela, maravilhada. Os Bridgertons realmente inspiravam um elo. Ela jamais pensara ver o dia em que o duque se referiria a ela como sua irmã.

– Senhoras e senhores – começou Colin, a voz forte e confiante ribombando através do salão –, eu gostaria de propor um brinde à mulher mais extraordinária do mundo.

Um discreto murmúrio se espalhou pelo salão e Penelope permaneceu imóvel enquanto todos a observavam.

– Sou um recém-casado – continuou ele, encantando a todos os presentes com seu sorriso enviesado –, e, portanto, todos vocês ainda têm de tolerar meu comportamento de homem apaixonado.

Uma simpática onda de gargalhadas se espalhou pela multidão.

– Eu sei que muitos se surpreenderam quando pedi Penelope Featherington para ser minha esposa. Eu mesmo me surpreendi.

Algumas risadinhas abafadas e indelicadas se fizeram ouvir, mas Penelope se manteve perfeitamente imóvel e orgulhosa. Colin sabia o que estava fazendo.

Ela tinha certeza disso. Ele sempre dizia a coisa certa.

– Eu não me surpreendi com o fato de ter me apaixonado por ela – frisou ele, olhando para todos com uma expressão que os desafiava a tecer qualquer comentário –, e sim por isso ter demorado tanto para acontecer. Afinal, eu a conhecia havia tantos anos – continuou, a voz tornando-se mais suave –, mas, de alguma forma, jamais havia me dado o trabalho de notar a mulher linda, brilhante e espirituosa na qual ela se transformou.

Penelope sentiu as lágrimas escorrendo pelas faces, mas não conseguiu se mexer. Mal era capaz de respirar. Esperara que Colin revelasse o seu segredo e, em vez disso, ele estava lhe dando aquele presente incrível, aquela declaração de amor espetacular.

– Assim – prosseguiu ele –, tendo todos vocês como testemunhas, eu gostaria de dizer o seguinte: Penelope... – Virou-se para ela, tomou sua mão livre e

exclamou: – Eu amo você! Venero o solo sobre o qual você pisa. – Então, dirigindo-se outra vez à multidão, ergueu a taça e falou: – À minha esposa!

– À sua esposa! – gritaram todos, capturados pela magia do momento.

Colin bebeu e Penelope o imitou, embora não conseguisse deixar de se perguntar quando ele iria lhes contar o verdadeiro motivo daquela declaração.

– Baixe a sua taça, minha querida – murmurou ele, depois a tirou de sua mão e colocou-a de lado.

– Mas...

– Você me interrompe demais – ralhou, em seguida a calou com um beijo apaixonado, bem ali, na sacada, diante de toda a alta sociedade.

– Colin! – arfou ela, assim que ele lhe deu a oportunidade de respirar.

Ele lhe lançou um sorriso malicioso enquanto a plateia rugia a sua aprovação.

– Ah, mais uma coisa! – anunciou Colin para a multidão.

Todos estavam entusiasmados, atentos a cada palavra que ele dizia.

– Vou deixar a festa mais cedo. Agora mesmo, na verdade. – Olhou de soslaio para Penelope com uma expressão muito travessa. – Tenho certeza que compreendem.

Os homens presentes assoviaram e gritaram enquanto Penelope ficava vermelha como um tomate.

– Mas, antes disso, tenho uma última declaração a fazer. Algo simples, para o caso de ainda não acreditarem quando lhes digo que minha esposa é a mulher mais espirituosa, inteligente e encantadora de Londres.

– Nãããão! – gritou uma voz vinda do fundo do salão, que Penelope soube ser de Cressida.

Mas nem mesmo Cressida era páreo para a multidão, que não permitiu que ela passasse nem deu ouvidos aos seus gritos angustiados.

– É possível dizer que minha esposa tem dois nomes de solteira – começou ele, pensativo. – É claro que todos vocês a conheciam por Penelope Featherington, assim como eu. Mas o que ninguém sabia, e nem mesmo eu fui esperto o bastante para descobrir até ela mesma me contar...

Ele fez uma pausa, esperando que o silêncio reinasse no salão.

– ... é que ela também é a brilhante, a espirituosa, a magnífica... Ora, vocês todos sabem de quem estou falando... – continuou ele, fazendo um gesto abrangente com o braço em direção à multidão. – Eu lhes apresento minha esposa, Lady Whistledown! – exclamou ele, com todo o seu amor e orgulho.

Por um instante nenhum dos presentes emitiu qualquer som. Era quase como se ninguém nem ousasse respirar.

Então, começou. Clap. Clap. Clap. Devagar, mas de forma metódica, com tanta força e determinação que todos tiveram de se virar para ver quem ousava romper o silêncio escandalizado.

Era Lady Danbury.

Ela tinha dado a bengala para outra pessoa segurar e erguia os braços no alto, aplaudindo sonora, radiante e orgulhosamente.

Em seguida, outra pessoa também começou a aplaudir. Penelope virou a cabeça para ver quem era...

Anthony Bridgerton.

Depois, Simon Basset, o duque de Hastings.

Então, as Bridgertons, e as Featheringtons, e outros, e outros, e cada vez mais gente, até o salão inteiro dar vivas.

Penelope não conseguia acreditar.

No dia seguinte talvez se lembrassem de sentir raiva dela, de ficar irritados por terem sido enganados por tantos anos, mas naquela noite...

Naquela noite, a única coisa a fazer era admirá-la e dar vivas.

Para uma mulher que tivera de realizar o que ela realizara em segredo, aquilo era tudo o que sonhara.

Bem, quase tudo.