Os Segredos de Colin Bridgerton

Julia Quinn · Capítulo 17 de 30

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Os Segredos de Colin Bridgerton

Capítulo 15

Penelope deu uma leve fungada, então tateou cegamente à procura do lenço de Colin, que ele já sacara do bolso e estendia à sua frente.

– Um dia você irá entender – disse Portia, dando um tapinha no braço da filha.

Então se virou para Colin e disse: – Estamos encantados em recebê-lo em nossa família.

Ele assentiu com a cabeça, sem grande entusiasmo, mas Penelope achou que ele fez um belo esforço, considerando a raiva que sentira apenas alguns instantes atrás.

Ela sorriu e apertou a mão dele, ciente de que estava prestes a embarcar na maior aventura de sua vida.

CAPÍTULO 15

– Sabe – começou Eloise, três dias depois de Colin e Penelope fazerem o seu anúncio surpresa –, é mesmo uma pena que Lady Whistledown tenha se aposentado, porque essa teria sido a notícia da década.

– Do ponto de vista de Lady Whistledown, sem dúvida seria – murmurou Penelope, levando a xícara de chá aos lábios e mantendo os olhos colados no relógio de parede da sala de visitas informal de Lady Bridgerton.

Pensou que seria melhor não olhar direto para Eloise. Ela tinha um jeito todo seu de descobrir segredos nos olhos das pessoas.

Era engraçado. Penelope passara anos sem se preocupar – ao menos não muito

– que a amiga desvendasse a verdade sobre Lady Whistledown. Mas agora que Colin sabia, de alguma forma parecia que o seu segredo flutuava no ar, como partículas de poeira, apenas esperando para se transformarem numa nuvem de conhecimento.

Agora que um dos Bridgertons a tinha descoberto, talvez fosse só questão de tempo antes que os outros fizessem o mesmo.

– O que quer dizer? – perguntou Eloise, interrompendo os pensamentos nervosos de Penelope.

– Se me lembro bem – começou Penelope, com cautela –, ela escreveu certa vez que teria de se aposentar se eu algum dia me casasse com um Bridgerton.

Eloise arregalou os olhos.

– Escreveu?

– Ou algo do tipo – retrucou Penelope.

– Você está brincando – disse Eloise, descartando a ideia com um aceno de mão. – Ela jamais seria cruel a esse ponto.

Penelope tossiu, sem achar que poderia dar fim ao assunto fingindo estar com uma migalha de biscoito na garganta, mas tentando mesmo assim.

– Não, sério – insistiu Eloise –, o que foi que ela disse?

– Não lembro as palavras exatas.

– Tente.

Penelope tentou ganhar tempo pousando a xícara e pegando outro biscoito.

Estavam tomando o chá sozinhas, o que era estranho. Mas Lady Bridgerton havia arrastado Colin para irem tomar alguma providência relacionada ao casamento iminente – marcado para dali a um mês! –, e Hyacinth estava fora fazendo compras com Felicity, que ao ouvir a novidade de Penelope havia atirado os braços ao redor da irmã e dado gritinhos estridentes de alegria até os ouvidos dela ficassem entorpecidos.

Tinha sido um maravilhoso momento entre irmãs.

– Bem – disse Penelope, mordiscando um biscoito –, acho que falou que, se eu me casasse com um Bridgerton, seria o fim do mundo conforme ela o conhecia e, como ela não saberia entender um mundo assim, teria de se aposentar.

Eloise a fitou por um momento.

– E isso não é uma lembrança precisa?

– Não há como esquecer algo assim – comentou Penelope.

– Humpf. – Eloise fez uma careta de desdém. – Bem, eu diria que isso foi terrível da parte dela. Agora mesmo é que eu queria que ainda estivesse escrevendo, porque teria de engolir as próprias palavras.

– Você é uma boa amiga, Eloise – disse Penelope, baixinho.

– Sou, sim – retrucou Eloise, com um suspiro afetado. – Eu sei disso. Das melhores.

Penelope sorriu. A resposta jovial de Eloise deixou claro que não estava com disposição para emoção ou nostalgia. O que era bom. Tudo na vida tinha seu momento e lugar. Penelope dissera o que sentia e sabia que era recíproco da parte de Eloise, ainda que a amiga preferisse brincar e zombar dela naquele momento.

– Devo confessar, no entanto – continuou Eloise, pegando mais um biscoito –, que você e Colin me surpreenderam.

– Nós também me surpreendemos – admitiu Penelope, irônica.

– Não que eu não esteja encantada – apressou-se em acrescentar Eloise. – Não há ninguém que eu gostaria mais de ter como irmã. Bem, além das que já tenho, é claro. E se algum dia eu tivesse sonhado que vocês dois demonstrariam qualquer inclinação nessa direção, teria conspirado a favor sem qualquer pudor.

– Eu sei – disse Penelope, sem conseguir segurar o riso.

– Sim, bem... Não sou exatamente conhecida por cuidar da minha própria vida.

– O que é isso nos seus dedos? – indagou Penelope, chegando o corpo para a frente para poder ver melhor.

– O quê? Isso? Ah, nada. – Mas pousou as mãos sobre o colo, ainda assim.

– Não parece não ser nada – insistiu Penelope. – Deixe-me ver. Parece tinta.

– Bem, é claro que parece. É tinta.

– Então por que não disse logo, quando perguntei?

– Porque não é da sua conta – retrucou Eloise, com insolência.

Penelope recuou, chocada com o tom brusco da amiga.

– Me desculpe – disse, secamente. – Não fazia ideia de que tinha tocado em um assunto tão delicado.

– Ah, mas não é – apressou-se em negar Eloise. – Não seja boba. É só que sou desajeitada e não consigo escrever sem sujar os dedos todos. Eu poderia usar luvas, é claro, mas elas ficariam manchadas e eu teria que trocá-las sempre, e posso lhe garantir que não tenho o menor desejo de gastar toda a minha pequena mesada em luvas. Penelope a fitou, considerando a longa explicação, então perguntou:

– O que andou escrevendo?

– Nada. Apenas cartas.

Penelope percebeu, pelo tom enérgico da amiga, que ela não queria estender o assunto, mas estava sendo tão atipicamente evasiva que Penelope não conseguiu resistir:

– Para quem?

– As cartas?

– Sim – respondeu Penelope, embora achasse que fosse óbvio.

– Ah, para ninguém.

– Bem, a não ser que sejam um diário, não podem ser para ninguém – atalhou Penelope, a impaciência acrescentando um tom ríspido à voz.

Eloise olhou para ela com uma leve expressão de afronta.

– Você está um pouco intrometida hoje.

– Só porque você está muito evasiva.

– São para Francesca – disse Eloise, com um pequeno resfolegar.

– Ora, então por que não falou antes?

Eloise cruzou os braços.

– Talvez não tenha gostado de você ficar me questionando.

Penelope ficou boquiaberta. Não conseguia se lembrar de nenhuma vez em que ela e Eloise haviam tido qualquer coisa que se assemelhasse a uma briga.

– Eloise, o que há de errado?

– Não há nada de errado.

– Eu sei que não é verdade.

A garota ficou em silêncio, limitando-se a franzir os lábios e olhar em direção à janela, numa clara tentativa de encerrar o assunto.

– Está zangada comigo? – insistiu Penelope.

– Por que haveria de estar zangada com você?

– Não sei, mas me parece claro que está.

Eloise deixou escapar um pequeno suspiro.

– Não estou zangada.

– Bem, está alguma coisa.

– Eu só... eu só... – Ela balançou a cabeça. – Não sei. Estou inquieta, acho.

Estranha.

Penelope permaneceu em silêncio enquanto digeria aquilo, então disse, baixinho:

– Há algo que eu possa fazer?

– Não. – Eloise sorriu, soturna. – Se tivesse, pode ter certeza de que eu já teria lhe pedido.

Penelope sentiu uma risada brotando de si. Era tão típico de Eloise fazer um comentário como aquele...

– Acho que... – prosseguiu Eloise, erguendo o queixo, perdida em pensamentos. – Não, deixe para lá.

– Não – retrucou Penelope, estendendo a mão e tomando a da amiga. – Fale.

Eloise puxou a mão e desviou o olhar.

– Você vai me achar tola.

– Talvez – atalhou Penelope, sorrindo –, mas continuará sendo a minha melhor amiga.

– Ah, Penelope, não sou digna disso – disse Eloise, triste.

– Eloise, não diga tamanha loucura. Eu teria enlouquecido por completo, tentando me situar em Londres, em meio à alta sociedade, sem você.

Eloise sorriu.

– Nós bem que nos divertimos, não foi?

– Bem, sim, quando estávamos juntas – admitiu Penelope. – O resto do tempo foi uma tristeza dos infernos.

– Penelope! Acho que nunca a ouvi praguejar antes.

Penelope sorriu, encabulada.

– Escapuliu. Além do mais, não consigo pensar numa forma melhor de descrever a vida de uma moça invisível na alta sociedade.

Eloise deixou escapar uma risada inesperada.

– Eis aí um livro que eu adoraria ler: Uma moça invisível na alta sociedade.

– Só se gostar de tragédias.

– Ora, vamos, não pode ser uma tragédia. Tem de ser um romance. Afinal,

você vai ter um final feliz.

Penelope sorriu. Por mais estranho que parecesse, ia, sim, ter um final feliz.

Colin estava sendo um noivo encantador e atencioso, ao menos nos três dias em que vinha desempenhando esse papel. E sem dúvida não era nada fácil: estavam sujeitos a mais especulação e escrutínio do que Penelope poderia ter imaginado.

Mas não estava surpresa; quando ela (como Lady Whistledown) escrevera que o mundo como o conhecia terminaria se uma Featherington se casasse com um Bridgerton, achara estar ecoando o sentimento geral.

Dizer que a alta sociedade ficara chocada com seu noivado seria, no mínimo, um eufemismo.

No entanto, por mais que Penelope gostasse de antecipar as coisas e refletir sobre o casamento iminente, continuava perturbada com o temperamento estranho da amiga.

– Eloise – começou, séria –, quero que me diga o que a está incomodando tanto.

A jovem deixou escapar um suspiro.

– Tinha esperança de que você esquecesse o assunto.

– Aprendi a ser perseverante com uma mestra – retrucou Penelope.

Isso fez Eloise sorrir, mesmo que só por um instante.

– Eu me sinto tão desleal – disse ela em seguida.

– O que você fez?

– Ah, nada. – Ela levou a mão ao peito na altura do coração. – Está tudo aqui dentro. Eu...

Ela parou e olhou para baixo, na direção das franjas do tapete, mas Penelope achava que a amiga não estava enxergando muita coisa. Ao menos nada além do que atormentava sua mente.

– Estou tão feliz por você... – disse Eloise, despejando as palavras em uma explosão estranha, pontuada por pausas embaraçosas. – E acho, do fundo do coração, que não estou com ciúme. No entanto, ao mesmo tempo...

Penelope esperou enquanto ela organizava os pensamentos. Ou talvez estivesse reunindo coragem.

– Ao mesmo tempo – prosseguiu, tão baixinho que Penelope mal conseguia ouvi-la –, acho que sempre imaginei que você ficaria solteira comigo. Eu escolhi esta vida. Sei que escolhi. Eu poderia ter me casado.

– Eu sei – falou Penelope, com a voz também baixa.

– Mas nunca me casei, porque jamais pareceu certo, e eu não quis me acomodar por menos do que os meus irmãos e irmãs conseguiram. E agora,

Colin também – continuou ela, fazendo um sinal na direção de Penelope.

Penelope não mencionou que Colin não dissera que a amava. Não parecia o momento certo ou, francamente, o tipo de coisa que desejasse compartilhar.

Além do mais, mesmo que não a amasse, ela ainda achava que se importava com ela, e isso era o bastante.

– Eu jamais desejaria que você não se casasse – explicou Eloise. – Só achei que não fosse acontecer. – Ela fechou os olhos, com uma expressão de agonia. –

Não foi isso que eu quis dizer. Não foi minha intenção insultá-la.

– Não, não insultou – atalhou Penelope, com sinceridade. – Eu também nunca achei que me casaria um dia.

Eloise assentiu, triste.

– E, de alguma forma, isso fazia com que tudo ficasse... bem. Eu tinha quase 28 anos e era solteira, você já tinha 28 anos e era solteira, e nós sempre teríamos uma à outra. Mas agora você tem o Colin.

– Também tenho você. Pelo menos, espero que sim.

– É claro que tem! – exclamou Eloise. – Mas não vai ser a mesma coisa. Você precisa ser fiel ao seu marido. Ou, pelo menos, é o que todos dizem –

acrescentou ela com um brilho travesso nos olhos. – Colin virá em primeiro lugar, e é assim que deve ser. E, para ser sincera – acrescentou, o sorriso tornando-se um pouco zombeteiro –, eu teria de matá-la se fosse diferente.

Afinal, ele é o meu irmão preferido. Realmente, não seria justo que ele tivesse uma mulher desleal.

Penelope riu alto ao ouvir aquilo.

– Você me odeia? – indagou Eloise.

Penelope balançou a cabeça.

– Não – retrucou, baixinho. – Se for possível, eu a amo ainda mais, pois sei como foi difícil falar sobre isso comigo.

– Fico tão feliz por ter dito isso! – comemorou Eloise, com um suspiro alto e dramático. – Estava morrendo de medo que você falasse que a única solução seria eu também arrumar um marido.

A ideia havia, de fato, passado pela cabeça de Penelope, mas ela fez que não e afirmou:

– É claro que não.

– Que bom. Porque a minha mãe não para de falar isso.

Penelope sorriu.

– Eu ficaria surpresa se ela não o fizesse.

– Boa tarde, senhoras!

As duas ergueram a vista e depararam com Colin entrando na sala. O coração de Penelope deu um pequeno salto ao vê-lo e ela ficou sem fôlego. Já sentia isso havia anos, sempre que ele entrava em algum aposento, mas agora era diferente, mais intenso.

Talvez por ela saber.

Saber como era estar com ele, ser desejada por ele.

Saber que ele seria seu marido.

Seu coração deu outro salto.

Colin deixou escapar um gemido alto.

– Vocês acabaram com toda a comida?

– Só havia um prato pequeno de biscoitos – disse Eloise em defesa das duas.

– Não foi isso que me levaram a crer – resmungou ele.

Penelope e Eloise se entreolharam e começaram a rir.

– O que foi? – quis saber Colin, se abaixando para dar um beijo rápido e atencioso no rosto de Penelope.

– Você foi tão dramático... – explicou Eloise. – É só comida.

– Nunca é só comida – retrucou Colin, atirando-se em uma poltrona.

Penelope continuava a se perguntar quando sua bochecha pararia de formigar.

– E então – disse ele, pegando um biscoito comido pela metade do prato de Eloise –, sobre o que as duas estavam falando?

– Lady Whistledown – respondeu Eloise prontamente.

Penelope engasgou com o chá.

– É mesmo? – perguntou Colin, com delicadeza, embora Penelope tivesse detectado uma indiscutível impaciência em sua voz.

– É – confirmou Eloise. – Eu dizia a Penelope que é mesmo uma pena que ela tenha se aposentado, já que o seu noivado teria sido o mexerico mais digno de nota desta temporada.

– Interessante como isso foi acontecer – murmurou Colin.

– Aham – concordou Eloise. – Sem dúvida ela dedicaria uma coluna inteira ao seu baile de noivado amanhã.

Penelope não afastou a xícara da boca.

– Quer mais um pouco? – perguntou-lhe Eloise.

Ela fez que sim com a cabeça e lhe passou a xícara, embora tenha sentido muito a falta do objeto que estivera lhe servindo de escudo. Sabia que Eloise tinha tocado no nome de Lady Whistledown porque não queria que Colin soubesse de seus sentimentos ambíguos com relação ao casamento, mas ainda assim desejava com todas as forças que a amiga houvesse dito qualquer outra

coisa em resposta à pergunta do irmão.

– Por que não pede mais comida? – sugeriu Eloise a Colin.

– Já pedi. Wickham me interceptou no corredor e perguntou se eu estava com fome. – Jogou o último pedacinho do biscoito de Eloise na boca. – Sábio, esse Wickham.

– Aonde foi hoje, Colin? – indagou Penelope, ansiosa por desviar o assunto de Lady Whistledown de uma vez por todas.

Ele balançou a cabeça, agoniado.

– Como se fosse possível saber. Mamãe me arrastou de loja em loja o dia inteiro.

– Você não tem 33 anos? – indagou Eloise, toda doce.

Ele lhe respondeu com um olhar fuzilante.

– Eu só acho que você já passou da idade de ter a mamãe o arrastando por aí, só isso – murmurou ela.

– Mamãe nos arrastará por aí mesmo quando formos velhos tolos e senis, e você sabe disso – replicou ele. – Além do mais, está encantada por me ver casado, e eu realmente não consigo estragar o divertimento dela.

Penelope suspirou. Devia ser por isso que amava aquele homem. Qualquer um que tratasse a mãe tão bem sem dúvida daria um ótimo marido.

– E como estão indo os nossos preparativos do casamento? – perguntou Colin a Penelope.

Ela fez uma careta involuntária.

– Nunca me senti tão exausta em toda a minha vida – admitiu.

Ele estendeu a mão e catou uma migalha do prato dela.

– Devíamos fugir.

– Ah, podemos mesmo? – perguntou Penelope, pronunciando as palavras num ímpeto.

Ele piscou, aturdido.

– Na verdade eu estava brincando, embora me pareça uma ótima ideia.

– Vou providenciar uma escada – disse Eloise, batendo palmas de contentamento. – Assim você poderá chegar até o quarto dela e sequestrá-la.

– Tem uma árvore – argumentou Penelope. – Colin não terá a menor dificuldade.

– Meu Deus! – exclamou ele. – Não está falando sério, está?

– Não – suspirou ela. – Mas poderia. Se você estivesse.

– Não posso estar. Tem ideia do que isso faria com a minha mãe? – Ele revirou os olhos. – Sem falar na sua.

Penelope gemeu.

– Eu sei.

– Ela sairia à minha caça e me mataria – disse ele.

– A minha ou a sua?

– As duas. Uniriam forças. – Ele esticou o pescoço em direção à porta. – Onde está a comida?

– Você acabou de chegar, Colin – comentou Eloise. – Aprenda a esperar.

– E eu pensando que Wickham fosse alguma espécie de feiticeiro – resmungou ele – capaz de fazer a comida aparecer com um simples estalar dos dedos.

– Aqui está, senhor!

Era a voz de Wickham, que entrava elegantemente na sala com uma enorme bandeja.

– Viu só? – comentou Colin, erguendo as sobrancelhas primeiro para Eloise e depois para Penelope. – Eu lhes disse.

– Por que será que estou pressentindo que ouvirei essas palavras saindo da sua boca muitas vezes no futuro? – falou Penelope.

– Muito provavelmente porque ouvirá – respondeu Colin. – Você logo descobrirá – e aqui ele lhe lançou um sorriso muito insolente – que estou quase sempre certo.

– Ora, por favor – gemeu Eloise.

– Vou ter que concordar com Eloise neste caso – disse Penelope.

– E ficar contra o seu marido? – Ele levou uma das mãos ao coração (enquanto a outra apanhava um sanduíche). – Isso me magoou.

– Você ainda não é meu marido.

Colin se virou para Eloise.

– A gatinha tem garras.

Eloise ergueu as sobrancelhas.

– Não se deu conta disso antes de pedi-la em casamento?

– É claro que sim – respondeu ele, dando uma mordida no sanduíche. – Só não pensei que as usaria contra mim.

Então ele a olhou com uma expressão de tanto desejo e domínio que Penelope ficou completamente derretida.

– Bem – anunciou Eloise, levantando-se de repente. – Vou conceder aos futuros recém-casados alguns momentos de privacidade.

– Mas quanta consideração da sua parte – murmurou Colin.

Eloise olhou para ele com um sorriso irritado.

– Qualquer coisa por você, meu querido irmão. Ou melhor – acrescentou, a expressão tornando-se sarcástica –, qualquer coisa por Penelope.

Colin se levantou e se virou para a noiva.

– Parece que estou despencando na ordem de prioridades.

Penelope sorriu por trás da xícara e disse:

– Jamais ficar no meio de uma rusga entre Bridgertons agora faz parte da minha política pessoal.

– Ha ha! – riu Eloise. – Sinto informar que não conseguirá manter essa política por muito tempo, Srta. Quase-Bridgerton. Além do mais – acrescentou, com um sorriso malicioso –, se está pensando que isto aqui é uma rusga, mal posso esperar que nos veja em plena forma.

– Está querendo dizer que eu nunca vi? – perguntou Penelope.

Tanto Eloise quanto Colin balançaram a cabeça de uma forma que a deixou muito temerosa.

Ah, céus.

– Há algo que eu deva saber? – perguntou Penelope.

Colin deu um sorriso ardiloso.

– Tarde demais.

Penelope olhou para Eloise com uma expressão de impotência, mas a amiga só riu enquanto saía da sala, fechando a porta ao passar.

– Isso foi realmente simpático da parte de Eloise – murmurou Colin.

– O quê? – indagou Penelope, com um ar de inocência.

Os olhos dele brilharam.

– A porta.

– A porta? Ah! – exclamou ela. – A porta.

Colin sorriu enquanto se aproximava do sofá para se sentar ao seu lado. Havia algo encantador a respeito de Penelope numa tarde chuvosa. Ele mal a tinha visto desde que ficaram noivos – os preparativos para um casamento tinham um jeito todo especial de fazer isso com um casal –, e, no entanto, ela não saíra de sua mente, nem mesmo durante o sono.

Engraçado como aquilo acontecera. Havia passado anos sem jamais pensar nela de verdade, a não ser que estivesse bem diante dele, e agora ela permeava cada um de seus pensamentos.

Cada um de seus desejos.

Como aquilo havia ocorrido?

Quando ocorrera?

E tinha alguma importância, de fato? Talvez a única coisa que importasse era

que ele a desejava e que ela era – ou pelo menos ia ser – sua. Uma vez que colocasse a aliança no dedo dela, os comos, porquês e quandos se tornariam irrelevantes, contanto que aquela loucura que ele sentia jamais passasse.

Levou o dedo ao queixo de Penelope e inclinou seu rosto em direção à luz. Os olhos dela brilhavam de ansiedade e os lábios... Por Deus, como era possível que os homens de Londres jamais tivessem notado como eram perfeitos?

Ele sorriu. Aquela era uma loucura permanente. E ele não podia estar mais satisfeito.

Colin jamais fora contrário ao casamento. Só era contra um casamento entediante. Não era exigente; apenas desejava paixão, amizade, uma conversa estimulante em termos intelectuais e uma boa risada de vez em quando. Uma esposa a quem não quisesse trair.

Surpreendentemente, encontrara isso em Penelope.

Só o que precisava fazer agora era se certificar de que o Grande Segredo dela permanecesse assim. Um segredo.

Porque achava que não aguentaria ver a dor nos olhos de Penelope caso fosse rejeitada pela sociedade.

– Colin? – sussurrou ela com a respiração entrecortada, fazendo com que ele realmente desejasse beijá-la.

Ele chegou mais perto.

– Hum?

– Estava tão calado...

– Estava só pensando.

– Em quê?

Ele lhe deu um sorriso tolerante.

– Você anda passando tempo demais com a minha irmã.

– O que isso quer dizer? – indagou ela, os lábios estremecendo de tal forma que ele percebeu que ela jamais deixaria de zombar dele.

Ali estava uma mulher que o manteria sempre em estado de alerta.

– Você parece ter desenvolvido certa tendência à insistência.

– Tenacidade?

– Também.

– Mas isso é bom.

Os lábios dos dois continuavam a poucos centímetros de distância, mas o impulso de darem continuidade à conversa provocante era muito forte.

– Quando você insiste em proclamar obediência ao seu marido – murmurou ele –, é uma coisa boa.

– É mesmo?

Colin moveu o queixo muito de leve para cima e para baixo, na insinuação de um sim.

– E quando você agarra o meu ombro com tenacidade quando eu a beijo, isso também é bom.

Ela arregalou os olhos escuros de forma tão encantadora que ele teve de acrescentar:

– Você não acha?

Então ela o surpreendeu.

– Assim? – falou, colocando as mãos nos ombros dele.

Seu tom de voz era desafiador, e os olhos, puro flerte.

Deus, como ele adorava o fato de ela conseguir surpreendê-lo...

– Isso é um começo – falou. – Talvez você tenha de... – ele deslocou uma das mãos de maneira a cobrir a de Penelope, pressionando os dedos dela na própria pele – me abraçar com um pouco mais de tenacidade.

– Entendi – murmurou ela. – Então o que está dizendo é que eu jamais deveria soltá-lo?

Ele pensou naquilo por um momento.

– Isso mesmo – respondeu, dando-se conta de que havia um significado mais profundo nas palavras dela, quer fosse a intenção ou não. – É exatamente o que estou dizendo.

E então as palavras já não eram mais necessárias. Levou os lábios aos dela, a princípio com delicadeza, mas em seguida o ardor tomou conta dele, e Colin a beijou com uma paixão que nem ele mesmo sabia que possuía. Não era uma questão de desejo – ou, pelo menos, não apenas.

Era uma questão de necessidade.

Experimentou uma sensação estranha, ardente e feroz que o incitava a reivindicá-la, a de alguma forma marcá-la como sua.

Desejava-a desesperadamente e não tinha a menor ideia de como haveria de resistir um mês inteiro antes do casamento.

– Colin? – arfou Penelope, enquanto ele a deitava de costas no sofá.

Ele beijava seu queixo e seu pescoço, e os lábios estavam ocupados demais para qualquer coisa além de um murmúrio:

– Hum?

– Nós... Ah!

Ele sorriu ao mesmo tempo que mordiscava o lóbulo da orelha dela. Se ela conseguisse terminar uma frase, então ele claramente não a estava deixando tão

tonta quanto deveria.

– O que estava dizendo? – sussurrou, então lhe deu um beijo profundo na boca, somente para torturá-la.

Depois afastou os lábios dos dela apenas o suficiente para que ela retrucasse:

– Eu só...

Logo ele a interrompeu com outro beijo e ficou tonto de prazer quando ela gemeu de desejo.

– Me desculpe – falou Colin, correndo as mãos por baixo da bainha do vestido dela e, em seguida, as usando para fazer todo tipo de coisas perversas com as panturrilhas dela. – O que você estava dizendo mesmo?

– Eu? – indagou ela, com os olhos embaçados.

Ele subiu as mãos um pouco mais, até a parte de trás dos joelhos dela.

– Você estava dizendo alguma coisa – respondeu ele, pressionando o quadril contra o dela por achar que explodiria em chamas naquele exato momento se não o fizesse. – Eu acho – sussurrou, deslizando a mão pela pele macia de sua coxa –

que ia me pedir para tocá-la aqui.

Ela arfou, depois gemeu e então, de alguma forma, conseguiu retrucar:

– Acho que não era isso que eu ia dizer.

Ele sorriu de encontro ao seu pescoço.

– Tem certeza?

Ela fez que sim.

– Quer que eu pare?

Ela fez que não. Freneticamente.

Ele se deu conta de que poderia possuí-la naquele instante. Podia fazer amor com ela bem ali, no sofá da mãe, e ela não só permitiria como adoraria.

Não seria uma conquista. Não seria nem mesmo uma sedução.

Seria mais do que isso. Quem sabe até mesmo...

Amor.

Ele ficou paralisado.

– Colin? – sussurrou ela, abrindo os olhos.

Amor?

Não era possível.

– Colin?

Ou talvez fosse.

– Há algo errado?

Não é que ele temesse o amor, ou não acreditasse nele. Apenas... não o esperara.

Sempre pensara que o amor caísse sobre as pessoas como um raio, que um dia, ao flanar por um salão em uma festa, morto de tédio, um homem deparasse com uma mulher e soubesse, no mesmo instante, que sua vida estava mudada para sempre. Fora isso que acontecera com o irmão, Benedict, e Deus sabia que ele e a esposa, Sophie, eram imensamente felizes levando uma vida rústica, no campo.

Mas Penelope... Ela chegara de mansinho, sem ser vista. A mudança havia sido lenta, quase letárgica, e se era amor, bem...

Se era amor, será que ele não saberia?

Observou-a com toda a atenção, talvez esperando encontrar a resposta em seus olhos, ou no movimento de seus cabelos, ou na maneira como o corpete do vestido se entortava levemente para um lado. Talvez, se a observasse por tempo suficiente, soubesse.

– Colin? – sussurrou ela, começando a demonstrar um pouco de ansiedade.

Ele a beijou outra vez, agora com uma determinação feroz. Se aquilo era amor, será que não ficaria óbvio quando se beijassem?

Mas se a sua cabeça e o seu corpo funcionavam separados um do outro, então era claro que o beijo estava ligado ao corpo, porque, enquanto a mente era um borrão confuso, a necessidade do corpo estava bastante evidente.

Droga, agora ele estava sentindo pontadas agudas no baixo-ventre. E não podia fazer nada a respeito na sala de estar da casa da mãe, nem mesmo se Penelope participasse de bom grado.

Começou a se afastar dela, deslizando a mão da coxa em direção ao joelho.

– Não podemos fazer isto aqui.

– Eu sei – concordou ela, tão triste que ele manteve a mão em seu joelho e quase desistiu de fazer o que era correto de acordo com as convenções sociais.

Pensou rápido. Era possível fazer amor com ela sem que ninguém os flagrasse. É claro que, em seu estado atual, seria um ato constrangedoramente curto de qualquer forma.

– Quando é o casamento? – rosnou ele.

– Daqui a um mês.

– O que podemos fazer para adiantá-lo para daqui a quinze dias?

Ela pensou por um momento.

– Suborno ou chantagem. Talvez ambos. Nossas mães não mudariam de ideia com tanta facilidade.

Ele gemeu, mergulhando o quadril de encontro ao dela por um delicioso último momento antes de se afastar. Não podia possuí-la agora. Ela iria ser sua

esposa. Haveria muito tempo para amassos ao meio-dia em sofás, mas ele queria usar uma cama pelo menos na primeira vez. Devia isso a ela.

– Colin? – disse ela, ajeitando o vestido e os cabelos, embora não houvesse a menor maneira de conseguir que o último ficasse nem remotamente apresentável sem o uso de um espelho, uma escova e talvez até mesmo uma dama de companhia. – Algum problema?

– Eu quero você – sussurrou ele.

Ela o olhou, aturdida.

– Só queria que soubesse disso – continuou. – Não quero que ache que parei porque não a desejo.

– Ah. – Ela fez uma expressão de quem queria dizer alguma coisa; parecia extremamente feliz com as palavras dele. – Obrigada por dizer isso.