Paris Apaixonada

Eloisa James · Capítulo 12 de 21

Páginas do PDF

Paris Apaixonada

Sobre seios e sutiãs

 

Hom ens têm um relacionam ento especial com seus pênis. Eles os nom eiam , com param , perdem tem po precioso aj ustando suas calças. Eu não vi m uitas m ulheres transform arem seus seios em secretos m elhores am igos, m esm o aquelas que ironicam ente referem -se a eles com o “as garotas”.

Pela m aior parte de m inha vida, considerei m eus seios com pletam ente

satisfatórios: alim entaram m eus filhos quando bebês e foram notavelm ente úteis na cam a. Esta abordagem cuidadosa era refletida em m inha gaveta de lingerie. Quando atingi a casa dos vinte anos, ela abrigava um a variedade heterogênea, com algodão sem adornos m isturado a sedosas peças de renda, destinadas para noites nas quais alguém poderia querer tirar m inha lingerie com os dentes. Estes eram as fotos de Mapplethorpe da m inha coleção de sutiãs: m arcados com “explícito” e reservados para apresentações especiais com garantia de inspirar um a reação calorosa.

Ao longo do tem po, do casam ento e – lam entavelm ente – do câncer, m eus

m ontes de renda e cetim desapareceram por desgaste, gradualm ente substituídos por sutiãs esportivos, de am am entação, e pelo pavoroso sutiã da “m astectom ia”, que tem todos os tipos de enchim entos. Após a reconstrução m am ária, fiquei obcecada com sutiãs de algodão orgânico, com o se elim inar tecidos sintéticos do m eu arm ário – assim com o m eu câncer havia sido elim inado – fosse fazer de m im um a pessoa m ais saudável, orgânica de fora para dentro. Meus preferidos eram dois sutiãs idênticos de algodão que a princípio eram verm elhos m as, após alguns giros na m áquina de lavar, desbotaram para cor de tij olo rosa. Eles m urchavam , m as m eus seios lindam ente reconstruídos, não, de form a que a estrutura inferior não parecia im portante.

Então, com o se diz, Paris aconteceu. Na história da m inha vida, este ano em

Paris pode perfeitam ente ser denom inado de O Ano do Sutiã. Em um determ inado m om ento, entrei no departam ento de lingerie da Galeries Lafay ette e, sem qualquer vergonha, escutei a conversa entre um a vendedora e um a cliente, m uito elegante e contida, d’un certain âge, talvez 65 ou setenta anos. A m adam e gostou do m odelo de um encantador punhado de seda cor de crem e bordada com rosas pretas, m as se não fosse possível com prar calcinhas que com binassem , então claram ente o sutiã não era para ela. Ocorreu-m e que era inteiram ente possível que um luxurioso, igualm ente elegante hom em parisiense, tam bém de um a certa idade (ou m ais novo!), esperasse por ela em casa, m as m ais im portante, sua opinião não faria a menor diferença para ela.

Ela estava se vestindo para ela m esm a. E os padrões eram m uito altos.

Virei-m e para as fileiras de sutiãs e tentei olhar para eles através de olhos franceses: com o deliciosos, encantadores acessórios que fariam os m eus seios parecerem peças de confeitaria – para m inha própria estim a e prazer. Peguei um punhado de sutiãs e os levei para o trocador. Alguns m inutos m ais tarde, olhei para a m inha figura adornada em tule m acio e seda. As alças eram enlaçadas com finos fios dourados, fazendo com que eu m e sentisse com o a esposa de um senador rom ano. Com prei este, outro de seda fúcsia plissada e um terceiro, azul m arinho com babados nas alças.

Não é preciso dizer que Alessandro celebrou esta m udança; no m eu

aniversário, ele m e deu um requintado sutiã de renda cor de cerej a. Dependurado de um pequenino laço estava um m edalhão gravado com espaço suficiente, ele apontou, para um a foto dele. Eu poderia guardar o m eu m arido perto do m eu coração. (Ou entre os m eus seios, com o você preferir – esta pode ser um a consideração de gênero.)

Neste tem po, acum ulei um a considerável coleção de sutiãs, com as

calcinhas para com binar, é claro. Tam bém acum ulei cinco quilos a m ais. Norm alm ente, este fato consternador teria m e feito evitar o espelho. Mas m inha lingerie parisiense afastou os m eus olhos de im perfeições, e os redirecionou diretam ente para curvas realçadas por renda e enchim ento discretam ente engenhoso. Mulheres am ericanas podem perder o seu tem po detestando suas cinturas e seus quadris, m as eu suspeito que m ulheres francesas passem seu tem po adm irando seus seios – e seus quadris – não im porta qual sej a o tam anho deles.

Em algum a altura deste fervoroso período de aquisição de lingerie, Anna

anunciou que estava na idade adequada para ter um sutiã. Eu claram ente lem bro

de pedir um sutiã “de treinam ento”32 à m inha m ãe. Ela bufou, e perguntou-m e exatam ente com o eu planej ava controlar aqueles anim ais selvagens sem treinam ento. A piada não reconhecida deu lugar a um serm ão afirm ando que sutiãs e seios eram “usados por hom ens para m anter as m ulheres na cozinha” – em retrospecto, um a explicação que habilm ente evitava a questão da luxúria. A liberação da cozinha (e do sutiã) levou-m e a ser a única m enina do sexto ano a estar nua da cintura para cim a durante um exam e de escoliose – e, vej a só, tantos anos depois, eu ainda sinto um a onda de ressentim ento com esta m em ória. Consequentem ente, eu recebi o pedido de Anna com j úbilo: ela estava se tornando um a m ulher e nós iríam os nos divertir m uito, m uito, muito com prando o seu prim eiro sutiã. Ela olhou para m im . “Não é com o se eu tivesse falado que estava grávida”, ela apontou.

Ignorando este com entário desanim ador, saím os em busca de um sutiã de treinam ento. Le Bon Marché tinha um a parede inteira deste tipo de sutiãs (com calcinhas para com binar, naturellement). Anna instantaneam ente focou em um conj unto de babados e renda caracteristicam ente francês. Ela o tirou do cabide e o apertou contra seu seio nascente, com o um a com pradora ensandecida em um a liquidação de estoque.

Pode ser que m ães francesas considerem estas pequenas tiras de renda

com o sutiãs de treinam ento. E, se consideram , o treinam ento é consideravelm ente diferente do que m inha m ãe im aginava. Do m eu ponto de vista, um a m enina francesa é treinada para am ar a sua form a, e para ter orgulho pessoal nas suas vestim entas, m esm o que não tenham propósito de serem vistas por ninguém além da própria dona (e sua maman). Em outras palavras, estes artigos de arte não são destinados para exposições certam ente ilegais em determ inadas com unidades: eles não são para adolescentes selvagens, m as para glamour privado.

Em casa, Anna experim entou seu sutiã e sua calcinha, e depois – com o é de

costum e quando ela ganha roupas novas – foi para a sala de estar desfilar para seu pai e seu irm ão. Segurei no seu braço bem a tem po. “Lingerie é privada,” eu disse a ela. “Você é um a m ulher agora, lem bra?”

Ela franziu as sobrancelhas por um m om ento, registrando aquele fato, e em

seguida virou-se de volta para o espelho.

 

* * *

 

Alessandro voltou para casa triunfante do m ercado, com os prim eiros pêssegos da estação. O m eu era pequeno com um sabor instável entre doce e am argo – no entanto, cada m ordida celebrava a qualidade do pêssego, um sabor que fala ao paladar sobre dias de verão tão quentes que um a neblina fica no ar, sobre chá gelado, gram a volum osa e vestido branco de renda.

 

* * *

 

Tenho m uito o que fazer. Revisões para um artigo acadêm ico precisam ser entregues até o final do m ês. Tenho um a coluna a entregar para o site Barnes & Noble Review tratando de cinco rom ances. Prom eti ao m eu editor as prim eiras cem páginas do m eu livro “Beauty and The Beast”, e disse para a m inha universidade que eu term inaria o m eu livro acadêm ico até j unho. Então, passei o dia trabalhando em um rom ance para a qual não tenho contrato, editor, nem prazo. Alessandro revirou os olhos.

 

* * *

O Petit Palais está oferecendo um a retrospectiva Yves Saint Laurent, então eu e m inha prim a, Laura, esperam os na fila para conferir. Eu não fazia ideia de que YSL havia popularizado o terninho, tendo tom ado a decisão de que m ulheres deveriam estar à m esm a altura que hom ens na sala da diretoria. Ou o tal terninho (confiantem ente de risca de giz e usado com um a gravata) gerou este furor. Ao que tudo indica, um a socialite, cuj a entrada foi barrada em um restaurante de Nova Iorque porque estava usando calças, despiu-se das calças e entrou passeando vestida apenas com a j aqueta.

 

* * *

 

Sou particularm ente fascinada pelas coleções de Yves Saint Laurent com inspirações retiradas da arte. Ele criou um vestido usando os quadriláteros coloridos de Mondrian, e um a j aqueta com as íris de Van Gogh que deve ter levado diversas sem anas de aplicação de contas, lantej oulas e pequenos laços para recriar a pintura. Laura e eu concordam os que ela era prim orosa, em bora não soubéssem os em qual ocasião poderia ser usada. “É m eu aniversário, e estou vestindo um Van Gogh”?

 

* * *

 

Minha parte preferida da exposição de Yves Saint Laurent foi um a alta parede exibindo todos os smokings que ele fez em sua longa carreira. Ele tinha 22 anos quando apresentou sua prim eira coleção, em 1958, e foi interessante ver os anos 50 evoluírem para os anos 60 com suas tendências hipsters, o crescim ento das om breiras nos anos 80, o aparecim ento da seda furtiva nos anos noventa. Ainda m elhor: a placa na parede inform ando que os smokings deveriam ser “usados com pele nua”. Eu sem pre achei que peles de anim ais ganhavam de pele nua.

 

* * *

 

Hoj e, Alessandro contou que Florent está m uito m ais apaixonado por sua colega, Pauline, do que j am ais esteve pela garçonete italiana. “Afinal de contas, eles podem falar um com o outro”, ele disse. “Isto é im portante, você não acha?” Geralm ente, concorda-se que a com unicação é um a parte essencial de um relacionam ento, sim .

 

* * *

Um a fileira de pet shops ocupa um par de quarteirões ao longo do Sena. Por incrível que pareça, visitam os cada um a delas em duas ocasiões, e não vim os um poodle sequer. Na Itália esquilos são anim ais de estim ação populares. Eles parecem (a m im ) bastante som brios, m as talvez brasileiros, ao verem papagaios em gaiolas em vez de em árvores, sintam o m esm o.

 

* * *

 

Ontem , Anna desatou a chorar na hora de dorm ir, dizendo que ela não tinha am igos, que ninguém ria das piadas dela, e que ela estava indo m al na escola (o boletim dela indica o contrário). Eu peguei um chaveiro da Grifinória que estava guardando para um a em ergência com o esta, e ela anim ou-se ao m e contar porque ela definitivam ente era da casa Grifinória, e não da Sonserina.

 

* * *

 

No apartam ento acim a do nosso, trabalhadores estão suspendendo as tábuas de m adeira do piso original de 1760 para recolocá-las de form a que não ranj am . O dia foi ruim para nós quando cada régua ruidosam ente saiu do seu lugar. Mas, em m om entos m ais silenciosos, eu escuto os trabalhadores cantando, às vezes, m úsicas portuguesas rom ânticas e, às vezes, o cham ado m uçulm ano à oração.

 

* * *

 

Paris está desabrochando! De m anhã cedo, andei pelo boulevard des Invalides. Árvores florindo do parques Invalides dobravam -se contra as grades, a prim eira com botões cor de verm elho rubi, depois outra com florescim entos fofos cor de rosa, com toques brancos, com o se polvilhados com açúcar de confeiteiro.

 

* * *

 

Nesta m anhã, quando entrávam os na igrej a, um distinto hom em francês com um enorm e bigode grisalho olhou com intento para os cabelos despenteados e incontrolavelm ente cacheados de Luca. Um a vez que estávam os dentro, percebi que nenhum outro pai ou m ãe havia conseguido encurralar um filho com m ais de oito anos para ir à igrej a, e não pude evitar de pensar que o senhor bigodudo deveria vir à m inha casa de m anhã cedo em um dia de dom ingo e tentar ele m esm o tirar um adolescente de 15 anos da cam a. Eu abri m ão da elegância em troca da presença.

* * *

 

Tem os am igos de Los Angeles nos visitando, dois artistas e sua filha de seis anos, Phoebe. Orgulhosos de poder nos gabar de um dia quase tão ensolarado com o os da Califórnia no dom ingo, andam os pelos m ercados, e Phoebe com prou um saco de ração francesa para porquinhos-da-Índia para levar para o m ascote da sua classe, Roxie. Dem onstrando ter um verdadeiro toque parisiense, a ração é colorida com o um arco íris. Divertim o-nos m uito no m ercado de pássaros na Île-de-la-Cité falando com papagaios incrivelm ente inteligentes, até um desastre: um a caixa de filhotes de coelho, pequeninos m ontinhos de pelo m acio com doces orelhas dobradas e narizes rosados. Phoebe e Anna am bas ficaram tom adas pelo desej o. Expliquei que, sem passaportes, os coelhinhos não poderiam tornar-se cidadãos am ericanos. Dem onstrando aptidão precoce para um a vida no crim e, Anna disse que ela poderia esconder um em seu bolso. “Ou nas m inhas calças,” ela adicionou.

 

* * *

 

Hoj e encontram os a m ãe da am iga de Anna, Nicole, que tinha consigo sua linda bebê de dois m eses. Anna e eu nos encurvam os sobre o carrinho da bebê enquanto ela sorria, olhos bem abertos e sem dentes, e nos disse enfaticam ente (em língua de bebê) tudo sobre a sua vida. Não pude deixar de pensar sobre a bebê Bárbara, de Mary Poppins, que prom ete ao pardal que j am ais esquecerá a língua dos pardais e das árvores. E quando ela esquece, ele chora.

 

* * *

 

Nesta tarde, passeam os pelo m ercado de pulgas de Clignancourt adm irando (m as sem com prar) antiguidades da Chanel, até que nossa visitante de seis anos, Phoebe, viu um velho chapéu de palha roxo. Depois de barganhar pesadam ente, ela saiu saltitando alegre. E todos nós percebem os subitam ente que, em seu elegante chapéu, Phoebe agora parecia-se com um a criança francesa, rebaixando-se a andar com am ericanos.

 

* * *

 

Anna passou por dificuldades hoj e, na escola, com a gangue de m eninas m ás de Beatrice, que tom ou posse dos colchões durante a aula de educação física e exigiu um a senha (que, é claro, elas não com partilhavam ). No cam inho para casa, conversam os sobre am igos e quão com plicados eles são, e no m etrô Anna sorriu e disse, “Eu tenho um am igo,” segurando o quinto livro da série de Harry Potter. Lem bro-m e bem desses dias. Eu tam bém tinha am igos: Anne de Green Gables, Dorothy Gale e Totó, Nancy Drew.

 

* * *

 

Hoj e, fom os a um teatro de m arionetes no Jardim de Luxem burgo. As prim eiras quatro fileiras estão reservadas para crianças, de form a que o boneco favorito delas, Guignol, pode pedir conselhos a elas. Nesta produção em particular, Guignol, com sua cabeça de lã, era servente de um aristocrata de peruca. “Qual é o problem a, les enfants? O que está acontecendo?” ele perguntava. Todas as crianças gritavam de volta, avisando-o do crocodilo que colocava a cabeça para fora da panela de sopa. Estávam os sentados atrás de um a fam ília com um a pequena m enina de óculos, que dava avisos para Guignol em um a voz aguda – até que um a aranha peluda desceu da cam a de Guignol e ela com eçou a gritar instruções. No intervalo, ela virou-se para os nossos convidados da Califórnia e perguntou m uito educadam ente o que eles estavam achando da peça. Eles explicaram (através de Alessandro) que eles não falavam francês. Ela pensou sobre a resposta por um m om ento e depois perguntou: “Por que não?”

 

* * *

 

Um am igo francês cham ou a nossa atenção para um m aravilhoso fato alim entício: as m ercearias vendem gaspacho fresco, bem ao lado do leite. Se você vai visitar Paris e quer fazer um piquenique, com pre baguete, queij o e um a caixa de gaspacho. Você pode beber a sopa diretam ente em copos de plástico e, até em recipientes tão pouco refinados, irá conferir ao seu piquenique um toque gourmet.

 

* * *

 

Hoj e, levam os os nossos convidados novam ente ao Jardim de Luxem bourgo, com planos de alugar um barco a vela de brinquedo para Phoebe e talvez um para Anna. Mas eles acabaram sendo sedutores, e acabam os alugando quatro: um navio pirata com caveira e ossos para Luca, um barco a vela com ostentando um peixe rosa para Anna, um barco da Mary Poppins para Phoebe. E o quarto? O pai de Phoebe, que tem 48 anos, retrocedeu para os seus oito anos e correu em volta do lago com um longo pedaço de m adeira, cutucando o seu barco para ir m ais depressa. O j ardim estava cheio de todos os tipos de gente que se esperaria encontrar em um parque urbano em um dia de sol, no entanto, ninguém sentava na gram a. Ninguém despia-se, ou tocava m úsica alta ou tentava seduzir outros a perderem dinheiro. Fom os alm oçar no café do parque, bebem os vinho branco sob o sol, e falam os sobre com o os franceses frequentem ente parecem ser as pessoas m ais felizes do m undo, em bora eu não tenha ideia se eles o são de fato.

 

* * *

 

Luca voltou da escola com um sorriso engraçado... dia de educação sexual, ao estilo francês! Ele fora m andado para casa com um livreto inform ativo em quadrinhos. Anna ficou fascinada com a página intitulada “Tudo É Norm al,” que m ostrava um a série de m eninas de todas as form as e tam anhos. “Estes parecem com os seus seios, Mam ãe. Talvez os m eus sej am assim . Mas aquela m enina ali, ela tem os seios da vovó – vê com o eles são m aiores? Talvez os m eus sej am assim !” Era com o um a vitrine para pré-adolescentes.

 

* * *

 

Quando se está com o cabelo laranj a, graças a um cabeleireiro ruim , o único j eito de ultrapassar a crise é com um estilo agressivo. Lancei m ão de um visual Victor/Victoria bastante severo. Ontem , com prei um par de óculos elegantes e estreitos, e, em seguida, im pulsivam ente com prei um par de óculos escuros Fendi tam bém . Ao que tudo indica, agora pareço ser local; no cam inho para casa, m e pediram direções três vezes. Nenhum a das quais eu fui capaz de responder, infelizm ente.

 

* * *

 

Na noite passada, Alessandro e eu peram bulam os a cam inho de Montm artre, e nos encontram os em um a rua especializada em duas coisas: loj as de guitarra e clubes de striptease. Com o as loj as de guitarra pareciam ser frequentadas por fervorosos e j ovens aspirantes a m usicistas, considerações financeiras sugerem que a clientela dos dois com ércios raram ente coincidem . Um dos clubes de striptease, cham ado Venus, era seguido de perto por outro, cham ado Eve. Olham os através da porta de vidro de um terceiro e vazio clube e vim os um a m ulher esperando pelos clientes no bar. Ela estava usando um a peruca prateada tão lisa e m acia que parecia um a antiga fotografia das Cataratas do Niágara pintada a m ão.

* * *

 

Gosto m uito de um a escultura gigantesca de Winston Churchill que pode ser vista na avenue levando o seu nom e, inscrita com os dizeres JAMAIS NOS RENDEREMOS. O escultor, Jean Cardot, deliberadam ente nunca alisou a argila (agora transform ada em bronze), deixando ela irregular e gretado. É com o se Cardot tivesse pegado a voz de Churchill, aquela obstinada, áspera inteligência dele, e tivesse criado um corpo a partir dela. Gosto de passar por ela e im aginariam ente saudar o prim eiro m inistro.

 

Cheguei em Bochum , Alem anha, para dar um a palestra sobre a Londres renascentista na conferência da Sociedade Shakespeariana Alem ã. Alessandro vai j untar-se a m im daqui a alguns dias. O trem de Paris a Colônia conduziu-m e através de fazendas onde aglom erados de delicadas turbinas eólicas brancas erguiam -se com o garças, conversando j untas no topo de um m orro.

 

* * *

 

Antes de entrar no trem , Alessandro assegurou-m e que todos – m as todos – na Alem anha falam inglês. Isto pode ser verdade em Berlim ou Ham burgo, m as definitivam ente não em Bochum , um a cidade não m uito grande na região Norte do Reno-Vestfália. No prim eiro restaurante em que entrei, com m eu am igo Steven, outro professor universitário am ericano, houve um pânico porque nenhum de nós sabia alem ão, nem a equipe de atendim ento falava inglês. Depois de algum tem po, o cozinheiro saiu da cozinha em seu avental e traduziu o cardápio. No dia seguinte, a m esm a coisa aconteceu em um restaurante diferente: apenas o cozinheiro falava inglês. Talvez cozinheiros sej am particularm ente adeptos a idiom as, ou talvez eles sej am m ais nôm ades do que o residente m édio de Bochum .

 

* * *

 

No sábado, tive a m anhã livre, então passeei por Bochum . A cidade estava sediando um festival cultural, com estandes enfileirados nas ruas principais. Fiquei fascinada ao ver três corpulentas e altam ente respeitáveis senhoras alem ãs de um a certa idade em um estande de cervej a, segurando grandes canecos. Notem , eram apenas dez horas da m anhã. Meus colegas alem ães m ais tarde disseram que elas estavam apreciando Frühschoppen, ou um “copo m atutino” – reservado para ocasiões especiais. .

* * *

 

Os fundos do m eu hotel dão vista para um parque com um adorável lago. Ontem , vi um corvo m arinho bem no topo de um a árvore, posando contra o céu com suas asas com pletam ente abertas. Observei-o por pelo m enos cinco m inutos enquanto ele ficou ali, im óvel, secando as asas após um m ergulho na água. Ele erguia sua cabeça às alturas, com o se m editasse sobre algum a coisa m uito m ais séria do que a população de peixes de um lago em Bochum , Alem anha.

 

* * *

 

Alessandro chegou na noite passada e, atravessando o parque perto do hotel a cam inho do j antar, dem os de encontro com um grupo de coelhos. Deveria haver pelo m enos vinte deles brincando, ocupados dem ais se divertindo para prestar atenção em nós. Não pude deixar de pensar sobre a alegria incom ensurável ao final de The Velveteen Rabbit, quando o coelho de brinquedo torna-se real porque o m enino o am ava tanto, e encontra-se na m ata, sob a luz da lua, brincando com coelhos de verdade. .

 

* * *

 

Nosso hotel em Bochum tem um pequeno estande no saguão cham ado Struppi’s Buffet, com com ida e bebida para cachorros visitantes. Outras coisas que adorei a respeito deste hotel: as luzes do banheiro acendem -se apenas quando você insere seu cartão de hóspede em um a fenda. A eletricidade é econom izada, e eu não perdi m eu cartão sequer um a vez. Além do m ais, no chuveiro você escolhe, através de um com putador, o grau preciso da água quente que você desej ar: nada de girar as torneiras infinitesim alm ente para a direita ou para a esquerda, tentando chegar a um a tem peratura tolerável.

 

* * *

 

Tenho escutado histórias fascinantes sobrea reunificação da Alem anha Oriental e da Ocidental do ponto de vista de shakespearianos alem ães. Antes da queda do Muro de Berlim , em 1989, havia duas sociedades shakespearianas nas duas Alem anhas, com dois presidentes, duas diretorias, duas coleções de ensaios e duas conferências. Nós, acadêm icos, preocupam o-nos ferozm ente com nossas hierarquias – entretanto, quando o Muro caiu, os dois feudos separados precisaram tornar-se um . Hoj e em dia, os Shakespearianos reunidos têm um ar cuidadosam ente otim ista, com o um casal que casou novam ente depois de anos de separação.

 

* * *

 

Enquanto eu escutava a apresentação de artigos investigativos e reflexivos abordando o trabalho de Shakespeare, Alessandro experim entava um a piscina recom endada pelo hotel. Ao chegar, ele descobriu que o local era, na verdade, um spa “sem tecidos”, um a descrição um tanto pudica para um lugar destinado à diversão sem roupas. O spa dispunha de um núm ero im pressionante de saunas, m ais de quinze, cada qual oferecendo um a experiência diferente – a “sauna Him alaia”, por exem plo, seguida da “sauna de TV”. Na m inha cabeça, só o núm ero alto de saunas j á evocava atividades eróticas, m as Alessandro adentrou a “Saara” e encontrou-a j á ocupada por um respeitável (ainda que nus) casal de m eia idade, que estava m eram ente sentado, suando j untos. A piscina tinha form ato de feij ão e era claram ente feita para relaxar, em vez de praticar natação. Ele andou pelo spa intrepidam ente, segurando firm em ente sua toalha, m as depois disse que teria sido m ais divertido se eu estivesse lá. Ao que parece, todas as outras pessoas estavam em pares. Caso você estej a se perguntando, recusei-m e a fazer um a visita.

 

* * *

 

No trem de volta a Paris, encontram o-nos atrás de um casal am ericano discutindo ferozm ente porque, veio à tona, ele havia feito piada do andar dela. (Gostaria de adicionar, em m inha defesa, que era im possível não prestar atenção na conversa deles, dada a m aneira energética com a qual eles conduziam o diálogo.) Ela era roliça e triste, e com padeci-m e dela, ainda que sua dependência naquela palavra com F enquanto substantivo, verbo e adj etivo fosse irritante. Eles estavam casados há três anos, aparentem ente. Finalm ente, ela sibilou, “Você não é tão im portante na m inha vida,” e partiu. E então senti m uita pena dela, um a vez que ela sentia-se assim em relação ao hom em com quem se casara. Alessandro é m uito im portante na m inha vida. (Em bora, a título de registro, ele j am ais sonharia em zom bar o m eu j eito de andar. Ele tem um forte instinto de sobrevivência.)

 

* * *

 

Depois da triste experiência de ontem no trem , estive pensando sobre casam ento. Não há com o negar que a instituição leva aos m elhores e piores m om entos. Um dia destes, Alessandro olhou para m im e disse, “Você vai sair assim ?” Por um m om ento, contem plei o hom icídio. Mas, na noite passada, ele m e apertou e disse, “Não em agreça, eu gosto quando você tem curvas.” Fiquei m uito feliz por não tê-lo assassinei.

 

* * *

 

Alessandro e eu descobrim os um a loj a m aravilhosa: Heratchian Frères, na rue Lam artine, que é especializada em produits alimentaires exotiques et d’Orient. Com o na caverna de algum pirata gastrônom o, há prateleiras de latas m isteriosas; enorm es sacas de m inúsculas lentilhas alaranj adas, cevada e fubá; recipientes da altura dos m eus j oelhos com azeitonas em salm oura; e cinco tipos de feta. Um a seção inteira de m anj ar turco: sabor de rosas, de pistache, de duplo pistache. Um a prateleira que brilhava no canto provou estar repleta de potes contendo sete tipos diferentes de pastilhas prateadas, decorações com estíveis que realm ente parecem ser a pilhagem de um pirata.

 

* * *

 

Decidim os tirar Anna da escola por alguns dias porque os centros de lazer estão abertos, e ela parece aprender m ais francês brincando por um dia em um destes lugares do que em três m eses de aulas. Entram os no espaço e a cena era de caos, com crianças zunindo em todas as direções. Anna segurava firm em ente na m inha m ão, e em seguida um professor saiu cam inhando e tocando seu violão. Todos correram até ele, ao estilo do Flautista de Ham elin. “Anna!” ele cham ou com um sorriso, e a m ão dela escorregou pela m inha e ela partiu.

 

* * *

 

Levei am igos ao Musée Jacquem art-André hoj e. Esta era a m inha segunda visita, m as eu não havia notado até então um a deslum brante peça de porcelana Destruição de Ganimedes resguardada em um nicho no alto de um a grande escada. Ganim edes foi o garoto raptado por Zeus para tornar-se seu copeiro. Considerado o m ais belo m enino na Terra, ele é frequentem ente ilustrado com sensualidade exuberante; aqui, ele é um j ovem delgado e m elancólico, à beira de deixar o seu lar.

 

* * *

Outra descoberta: do extraordinário Paolo Uccello, São Jorge e o Dragão, na Galeria Florentina. No painel do século XV, a princesa – a quem São Jorge está no processo de resgatar – está bem atrás do dragão, que possui um rabo perfeitam ente encaracolado. Ela está vestindo um vestido verm elho com pérolas costuradas em padrões florais e sapatilhas laranj as, m as sua elegância é dim inuída por sua face pálida e dócil e sua postura de prece. Ela não está tentando fugir e eu não pude deixar de pensar que ela depositou m uita fé nas habilidades ainda não testadas de São Jorge em assassinar répteis. Por sorte, São Jorge está, de fato, habilm ente cravando o dragão.

 

* * *

 

Do outro lado da rua, oposto ao nosso apartam ento, fica um pequeno hotel, Hôtel Pey ris Opéra, que Anna cham a de hotel do Harry Potter devido às suas iniciais. Paris está gloriosam ente quente e prim averil, e hoj e o restaurante do hotel colocou três pequenas m esas na entrada, com toalhas brancas, copos de vinho cor de rosa e flores rosas. Eu tive que ficar em frente ao com putador, m as a única coisa que quero fazer é colocar um vestido e saltos, descer as escadas e beber vinho sob a luz do sol.

 

32 N.T. Nos EUA, é com um referir-se ao prim eiro sutiã de um a m enina com o “sutiã de treinam ento”.