Paris Apaixonada

Eloisa James · Capítulo 14 de 21

Páginas do PDF

Paris Apaixonada

Batalhando nas férias

 

Todo bom cidadão natural de Minnesota vai para “o Norte” em j ulho, pousando lado a lado com gansos canadenses em lagos repletos de lanchas e veranistas de descendência escandinava e pernas pastosas. Minha m em ória m ais vívida das aventuras nortistas da m inha fam ília é a do verão em que m eus pais estavam se separando. Não consigo m e lem brar das brigas em si (contudo, eu estava ligeiram ente ciente que finanças e infidelidade eram assuntos preocupantes); eu não estava prestando atenção. Quem tinha tem po? Eu tinha 16 anos e estava obcecada por ganhar dinheiro para com prar um a calça branca com um pequeno gancho na lateral, claram ente feito para que um m enino adolescente o fisgasse com seu dedo. Um bronzeado intenso teria sido o cam inho m ais barato para ser um a “gatinha atraente”, m as j á que m inha herança genética excluiu esta possibilidade, fixei-m e na calça com o a chave para conseguir um nam orado. O esforço requerido para m anter este pensam ento m ágico no ar significava que eu não tinha energia m ental suficiente para dissecar as em oções explosivas e vergonhosas dos m eus pais.

Naquele verão, m eu pai estava encarregado de fazer os alm oços, o que não

era incom um ; m inha m ãe adotou a divisão das tarefas de casa a partir do m om ento em que Betty Friedan encostou a caneta no papel. Mas o repertório de papai não era extensivo: ovos m exidos, espaguete, purê de m açã – e língua. Ele era especializado em grandes línguas cozidas. Porque a realização das com pras havia sido prej udicada face às crescentes hostilidades, um pedaço de língua parecia sem pre estar no balcão da cozinha, rotulado de “alm oço”. Eu o encarava, em repulsa, até que eu ficasse tão fam inta a ponto de banhar um pedaço em sal e o m eter goela abaixo, m inha própria língua contorcendo-se num esforço para evitar a textura em polada. Minha irm ã, que era m ais sensível e m ais esguia, beirou a anorexia por puro ódio a língua. Meu apetite era m ais forte do que a m inha repulsa; eu não perdi um quilo sequer, m as perdi todo o respeito pelos m eus pais.

Caso alguém tivesse m e perguntado na época, eu teria confiantem ente respondido que j am ais exporia m eus filhos às cenas e aos sons revoltantes do conflito m atrim onial. Para nosso crédito, Alessandro e eu em grande parte nos saím os bem ao evitar a am argura; e passar ao largo da infidelidade aj uda. No entanto, assim com o foi para os m eus pais, as férias são o m om ento em que partim os para a guerra às claras – e nosso ponto de ebulição é dinheiro. Resum idam ente, eu gosto de um a boa ostentação; m eu m arido, por outro lado, pode ser parcim onioso até dem ais. As férias posicionam estas diferença na frente e no centro.

Mesm o antes de decidir vir para Paris, falam os de um a visita ao Vale do

Loire e seus castelos, e no fim das contas, decidim os que a viagem tam bém deveria celebrar os 16 anos de Luca. Eu estava encarregada de achar um restaurante adequado para o j antar de aniversário; a m issão de Alessandro era achar um hotel a distâncias razoáveis de m uitos castelos. Em um site contendo prom oções, ele encontrou um hotel oferecendo um a suíte com sala de estar e cozinha por um preço incrível. Porque o hotel era novíssim o, não tinha recom endações ainda. Isto era um pouco preocupante, m as o preço era baixo o suficiente para superarm os este m edo bobo.

Nesta altura do livro, você j á deve ter deduzido que eu tenho um a fraqueza

pelo luxo. Quando o assunto é hotéis, lençóis com contagem de fios m ais alta do que a dívida nacional fazem de m im um a m ulher feliz., assim com o pequenas em balagens de xam pu, principalm ente se rotulados no im perativo “Nutre”, por exem plo. Ou “Realça”. Na nossa prim eira vista do Hotel Pão Duro, percebi que não haveria tais m im os civilizados. O GPS do carro alugado negou ter conhecim ento do endereço, m as de algum a form a nos aventuram os por um a estrada de chão passando por um com plexo industrial, term inando em um canteiro de obras no qual um prédio de concreto despido erguia-se da poeira. Voilà. Nosso hotel.

Tendo feito o check-in em um balcão coberto de linóleo, fom os levados

para um quarto no quarto andar, de onde saím os do elevador para descobrir – da pior m aneira – que os corredores eram ilum inados por lâm padas com sensores de m ovim ento levem ente atrasados. Parados na escuridão total, congelam os até que os tubos fluorescentes piscassem para acender, revelando um carpete desencoraj ante em tom de cinza industrial – cuj a cor estendia-se até os quartos. Não que a cor do carpete da nossa suíte fosse m uito evidente: os ocupantes anteriores haviam dado um a festa e tanto, a j ulgar pela louça suj a, a pirâm ide de garrafas de vinho vazias e a form a com que as cinzas de cigarro polvilhavam o carpete com o caspa em um sacristão.

Na recepção, o gerente j ogou as m ãos para o alto e nos direcionou a outra

suíte, desta vez no terceiro andar. Abrim os a porta de um quarto que, ao que tudo indicava, havia sido com partilhado por três dúzias de m ochileiros, se considerarm os que a pilha de detritos do tam anho de um a duna deixada para trás fosse qualquer indicação. A esta altura, eu havia passado da consternação para revolta declarada e voltei para o térreo preparada para partir para a liberdade e para um hotel três estrelas – ou até uma. E então veio o m om ento da verdade: Alessandro confessou que ele j á havia pagado pela sem ana inteira. “A terceira tentativa é a da sorte!” ele disse, tentando expressar um ar de anim ação. Mas ele acabou soando com o um atendente de bordo oferecendo um segundo pacote de pretzels durante um atraso de cinco horas na pista. Em resposta, m eu rosto assum iu o rosnado de um tigre-dentes-de -sabre. Ainda que esta fosse um a expressão a qual os atendentes de bordo estão acostum ados, m eus filhos não estão.

Você se surpreenderia ao descobrir que a terceira tentativa não foi a da

sorte? Desta vez, largam os nossas m alas no segundo andar, onde a pia da cozinha não tinha louça suj a. Mas praticam ente não notam os, revoltados dem ais com as j anelas pretas de fuligem , intrincados com loucos padrões em form ato de teias de aranha. Parecia que o hotel dava de fundos para a linha de trem (que, conform e descobrim os posteriorm ente, seguia um cronogram a rigoroso), e houvera um incêndio em baixo da ponte do trem . Pode-se depreender que o incêndio teve origem na favela decrépita que fica em baixo da ponte, m as tal especulação era irrelevante. Havíam os identificado o teor da vizinhança ao fazer o check in.

“Se eu em purrar isto aqui”, Anna observou, passando o dedo pelo vidro de

padrão histérico, “a j anela estufa para fora. Está vendo? Maneiro, né?”

Meu coração batia de um j eito que sugeria um derram e im inente, então

retirei-m e para o quarto principal. A cam a possuía um a im pressão côncava, talvez um a pessoa houvesse relaxado para assistir televisão quando, na verdade, deveria estar lim pando outros quartos, e foi gentil o suficiente para deixar a televisão ligada para que outros hóspedes pudessem desfrutar. A esta altura, eu não queria nada além de voltar às pressas para a sala de estar e gritar insultos para o m eu m arido enquanto j ogava a m ala por aquela j anela em decom posição. Mas o fantasm a do m eu eu de 16 anos sentou-se no m eu om bro, sussurrando, “Não na frente das crianças”. Eu rangi os dentes, deitei e assisti TV – que, é claro, era em francês, então eu não entendi nada. Neste ponto, eu não poderia im aginar que as coisas pudessem piorar.

Mas o dia não havia acabado.

Eu havia feito um a reserva para o j antar de aniversário de Luca em um

encantador restaurante no cam po, aclam ado por seu cardápio tradicional. Portanto, vestim os as crianças em suas m elhores roupas – em bora colocar um adolescente em um a cam isa de botão exij a praticam ente um a em enda parlam entar – e saím os. Sim , havia algum a tensão no carro enquanto nos dirigíam os para lá. Luca estava cism ado com a m inha indigna escolha de vestuário, e Alessandro ficara ofendido com o m eu desgosto pelo hotel. Mas eu tentei respirar fundo e resgatar dentro de m im o Zen que sem pre procurei cultivar. É agora ou nunca!

A fachada do restaurante tinha trepadeiras e flores; o interior tinha calm as

tolhas de m esa brancas e garçons reverentes, e um grande aviso em diversas línguas especificando que TELEFONES CELULARES SÃO PROIBIDOS. Fom os levados até a nossa m esa por um garçom m uito, m uito francês.

Suspeito que m uita gente tenha que lidar com preconceito de um j eito ou de

outro. Visto que eles brilham quando anunciam que jamais teriam adivinhado que eu sou am ericana, acho que m uitos franceses focam nos m eus conterrâneos com o obj eto do seu desprezo. Quanto a m im ? No decorrer da m inha vida, desenvolvi um a profunda intolerância pelo arquétipo do garçom francês: hom ens arrogantes, presunçosos e enfatuados vestidos de preto. Eu particularm ente detesto a form a com que estes hom ens intim idam seus clientes até um estado de gratidão forçada, a partir desta postura subm issa os clientes im ploram por conselhos – que invariavelm ente são dados com um escárnio gaulês m al disfarçado.

Alessandro acaba de entrar em um a destas conversas com o nosso garçom

sobre cham panhe. Decidim os que um aniversário de 16 anos deveria ser celebrado com um brinde m as, porque eu estava cautelosa sobre crianças bebendo álcool (um a ideia que tanto italianos quanto franceses acham ridícula), eu estipulei m im osas (cham panhe com suco de laranj a). Com o o representante fluente da nossa fam ília, Alessandro foi, portanto, forçado a explicar o conceito de m im osa para o nosso cada-vez-m ais-arrogante garçom .

Não é preciso dizer que aquele Monsieur fez pouco esforço para conter o

desgosto pela ideia de m isturar suco com vinho. Fiquei na defensiva, fui j ulgada e considerada sem classe; até Alessandro ficou perturbado. Neste m om ento, o celular tocou. A fronte do Monsieur escureceu, m as Alessandro abriu o telefone e acabou por apertar o botão errado, colocando a cham ada em viva voz exatam ente no m om ento em que um grupo de parentes italianos j untou-se para gritar “Buon compleanno” para Luca. No segundo seguinte, eles com eçaram a cantar parabéns.

“Desligue o telefone!” estourei com Alessandro. “Não posso!” ele sussurrou de volta. “É a m inha mãe.” Eu estava agora nas garras da hum ilhação profunda. Casais sedados e

decorosos a toda volta viravam suas cabeças em nossa direção. A j ulgar pelo clam or em itido pelo telefone, Marina estava passando o celular de m ão em m ão do outro lado da linha e um a m esa cheia de italianos estava desej ando feliz aniversário para Luca, um por um . A esta altura, Alessandro olhou para os olhos pretos cintilantes do garçom e perguntou – hum ildem ente – “Você estaria de acordo se pedíssem os taças de cham panhe para as crianças?”

Tendo confirm ação de sua convicção de que era m estre do universo, o

Monsieur m archou em debandada, om bros contorcidos com escárnio e voltou com quatro taças grandes de cham panhe em form a de sino. Em seguida, com um floreio esvaecido, colocou na m esa duas garrafas fechadas de suco de laranj a.

Conseguim os fazer os nossos pedidos, m as m eu fantasm a de 16 anos j á

havia há m uito sido esquecido, e eu perdera tanto o m eu controle quanto o m eu respeito por m im m esm a. Não foi até que Alessandro expressou a opinião de que eu deveria m e cuidar ou acabaria virando a m inha m ãe que eu decidi que era hora de nos retirarm os da presença dos nossos filhos.

“Mas para onde vocês estão indo?” Anna questionou. “Diga ao garçom que fom os fum ar um cigarro”, Alessandro respondeu. “Vocês não fum am ,” ela lam entou.

Alguns m om entos devem ser revividos apenas entre cônj uges, então eu vou

colocar um véu discreto sobre o j eito infeliz com o qual gritam os um com o outro na silenciosa rua de paralelepípedos. Quando voltam os à m esa – basicam ente reconciliados à existência m atrim onial – nossos pratos principais haviam chegado e o cham panhe havia acabado. Luca, o convidado de honra, estava sentado com expressão de estátua, na linha do desgosto adolescente que eu instantaneam ente reconheci. Seu rosto m e levou direto de volta para o verão das calças brancas, da língua cozida, do divórcio im inente. Enquanto isso, Anna havia se aproveitado da nossa ausência para beber não só o seu cham panhe, m as o nosso tam bém . Ela estava rindo loucam ente com um a casca de noz vazia equilibrada em sua cabeça. A noz servia-lhe de chapéu de bruxa, e ela estivera se divertindo interpretando personagens de Harry Potter um após o outro para o bem do seu irm ão horrorizado. (Mencionei que este era um restaurante elegante e m uito solene?)

No início do nosso ano na França, eu decidira que com eria de m aneira

aventureira enquanto estivesse aqui e, neste espírito, eu havia pedido um a iguaria local: tête de veau. Cabeça de vitela. Agora eu via que a tête havia sido transform ada em um a pequena torta – sobre a qual um a crista de galo averm elhada e flácida servia de decoração. Monsieur le Garçom reapareceu e explicou que a crista de galo cozida era o acom panham ento perfeito para um a torta recheada de cérebro e que eles deveriam ser consum idos j untos. Foi quando Luca abandonou seu protesto silencioso e fez sua prim eira contribuição para sua festa de 16 anos: um exagerado barulho de regurgitação.

Eu sequer levantei os olhos para ver o que os outros convidados ou o garçom

achavam do com portam ento do m eu filho. Eu estava paralisada dem ais pela crista de galo.

A predileção do m eu pai por língua cozida – assim com o a ira da m inha

m ãe por com pras suntuosas que a fam ília não poderia custear – precipitaram -se de volta para m im .

Em um dia, eu reproduzira um verão inteiro da m inha infância. A crista de galo trouxe de volta o profundo desespero que reverberou pela

nossa fam ília naquele m ês de j ulho – com o nenhum adulto percebeu que m inha irm ã praticam ente havia parado de com er, com o nenhum adulto falava calm am ente um com o outro, quem dirá com civilidade. Alessandro e eu, por outro lado? Poderíam os dorm ir em lençóis com m ilhares de fios de algodão ou em lençóis feitos de aniagem de saco de grãos, m as ainda estaríam os nos falando na m anhã seguinte. Sem pre vam os perceber se um de nossos filhos parar de com er. Aprendem os a não guardar rancor sobre coisas com o o Hotel Pão Duro e garçons franceses insultantes.

A crista de galo estava bastante boa, de sua m aneira. A torta de cérebro? Incom estível.

 

* * *

 

Château de Blois foi o cenário do assassinato do Duque de Guise em 1588 pelo Rei Henrique III e existe um ar realm ente assom broso em saber que o quarto era, com o Henry Jam es coloca, “o cenário dos principais eventos do reinado depravado e dram ático [de Henrique III].” Sendo as criaturas depravadas e dram áticas que crianças são, Anna e Luca brigaram para ficar no local exato onde Guise foi esfaqueado por oito atacantes.

 

* * *

 

Depois de nossa visita ao castelo de Blois, Anna e eu decidim os que as gárgulas m ais pavorosos não se parecem com répteis ou dragões, com escam as, rabos e orelhas pontudas. Não, gárgulas hum anas são m uito m ais aterrorizantes, com seus olhos vazios, desdentados, com as bocas abertas. Elas parecem as alm as que Dante descreve no Inferno, bocas escancaradas em eterno uivo.

 

* * *

 

Na praça principal da cidade de Blois fica a Maison de la Magie, isto é, um m useu de m ágica. Seis cabeças de dragões em ergem das j anelas no andar superior do m useu e rugem para a praça. Eles têm focinhos longos e terríveis e olhos azuis claros que parecem ainda m ais ferozes por terem um a coloração tão lím pida.

 

* * *

 

Meu lugar favorito em Orléans é a Chocolaterie Roy ale, onde com pram os laranj as de chocolate, folha de chocolate ao leite com am êndoas e folha de chocolate branco com oxicoco e – o m elhor – m edalhões de chocolate com a estátua de Joana D’Arc no centro. Sentindo-se culpado pelo desastre do hotel, Alessandro trazia m ais coisas para o caixa até que tínham os gastado aproxim adam ente m etade do preço do nosso quarto de hotel em um a farra de chocolate artesanal.

 

* * *

 

Para alguém com o Anna – que passa os dias (a) lendo livros de Harry Potter, (b) exam inando seu cabelo para ver se seus cachos j á estão com o os de Herm ione e (c) tentando achar um galho que se pareça com um a varinha de condão – um passeio por castelos franceses é com o fazer visitas repetidas à Disney lândia. Ela deu um grito no salão do Castelo de Cham bord (igual a Hogwarts!), cum prim entou o brasão do Castelo de Blois (em Hogwarts, brasões são bastante tagarelas) e ficou alegrem ente perdida no labirinto do Château de Chenonceau (infelizm ente, nenhum cálice m ágico foi encontrado).

 

* * *

 

O Château de Chenonceau foi cenário de intensas disputas entre Catarina de Médicis, rainha de Henrique II, e a am ante de Henrique, Diane de Poitiers, a quem ele deu posse sobre o castelo. Quando Henrique m orreu, Catarina retom ou o castelo. Diane encom endara um retrato no qual ela era representada com o a deusa Diana, então Catarina fez o m esm o – e os dois retratos agora estão pendurados no m esm o salão. Diane é a Diana m ais agradável.

 

* * *

 

Beatrice astutam ente garante a sua posição com o Abelha Rainha do quarto ano por m eios de arbitrariam ente dispensar algum as garotas e dar boas vindas a outras (em bora nunca Anna). Hoj e, ela sum ariam ente descartou um a colega de classe cham ada Maria do grupo das m eninas descoladas, por razões conhecidas apenas por Sua Maj estade. “Maria chorou o dia todo”, Anna m e contou. “Senti pena dela, m as ela acha que sou estranha, então eu não pude aj udar.”

 

* * *

 

Minha am iga, Anne, e eu exploram os o m inúsculo Musée Bourdelle hoj e. Antoine Bourdelle (1861-1929) foi um escultor; o m useu era sua casa e ateliê. No j ardim , fiquei apaixonada por Le Fruit, um a estátua de Eva com um sorriso m alicioso e um giro sinuoso no quadril. Em sua m ão direita, três m açãs. Na esquerda, atrás das suas costas, outra m açã. Trançadas nos seus cabelos... m açãs! E no andar de cim a, encontram os um a prim orosa Bacchante, um a das groupies de Baco – um a versão m ais feroz de Eva, com o m esm o giro sexy nos quadris, m as com hera nos cabelos em vez de m açãs.

 

* * *

 

Luca diz que o fato de que eu e Alessandro travam os um a batalha no seu aniversário de 16 anos sem som bras de dúvidas o estarreceu para sem pre e ele nunca m ais sairá de férias conosco. Nesse m eio tem po, ele gostaria de ter o seu com putador de volta para que pudesse se com unicar com outros adolescentes cuj os pais são loucos desvarridos. Estam os unidos em nossa decisão de que ele terá que sobreviver sem o tenro apoio de seus colegas até que ele passe do nono ano.

 

* * *

 

Hoj e eu fiz um considerável progresso no livro de Claude, um a vez que Alessandro m e deixou esperando por ele em um café e eu tinha o livro com igo. Claude alongou-se sobre “a inconsciente graciosidade do m ovim ento, a suavidade do com portam ento, a cortesia instintiva” que caracteriza as classes altas. Ele diz que a aristocracia dem ora-se “com o um perfum e sobre a própria existência.” Tem o que a m inha resposta tenha sido bastante hostil. Você nasceu em Dulluth, Minnesota, Claude. Quem é que você acha que está enganando?

 

* * *

 

Na noite passada Alessandro e eu cam inham os para casa enquanto o céu tom ava um tom de lilás azulado, o pico do crepúsculo. No fim da rue du Conservatoire fica La Pause, um pequenino bar onde estudantes de m úsica encontram -se no fim do dia. Dois hom ens estavam sentados do lado de fora tocando violões; um deles com eçou a assobiar e a m úsica clara e cintilante nos seguiu rua abaixo, enchendo o ar até o céu que escurecia.

 

* * *

 

Estou obcecada por achar um a m úsica que escutei em um a loj a, um a versão francesa de “Blowin’ in the Wind”, de Bob Dy lan. Na verdade, existem várias versões; a que eu estava procurando era de Richard Anthony, de 1964, “Écoute dans le vent.” (Apesar do nom e anglo, ele é um francês nascido no Egito.) No vídeo que achei na internet, ele está vestindo um suéter preto, suas m ãos displicentem ente entocadas nos bolsos e ele canta enquanto os m úsicos atrás dele dedilham seus violões vestindo ternos de lapela fina e gravatas. Em 1963 e 1964, Dy lan cantou a plenos pulm ões esta m úsica com o um protesto contra o ideal am ericano de m asculinidade e sua celebração da violência e da guerra; ele cantava num tem po em que nosso envolvim ento m ilitar com o Vietnã estava rapidam ente aum entando. Por m ais que eu adore a versão de Anthony, ele transform ou um a m úsica de protesto em um a m úsica de discoteca... faz com que você se pergunte se ele sequer entendeu a letra original.

 

* * *

Hoj e nós finalm ente oferecem os um lance para um quadro no Hôtel Drouot, apesar de não term os ganhado. Era um a pequena m adona m aravilhosa do século XVII. Seguindo as instruções de am igos m ais experientes, determ inam os um preço m áxim o. Mas outra pessoa, atrás de nós, queria a nossa m adona. Ele deu um lance; Alessandro deu um lance. Os valores aum entavam cada vez m ais, até que chegam os ao nosso lim ite. Alessandro m e olhou e hesitou. O leiloeiro solicitam ente interveio: “A m adam e diz sim !” Rim os e aum entam os o lance, até que Alessandro m e lançou outro olhar nervoso, e eu abanei negativam ente a cabeça. “Monsieur”, o leiloeiro disse enquanto levantávam os para ir em bora, “tem os m ais quadros para os quais a m adam e vai dizer sim !” Mas evitam os a tentação ganhar por ganhar e, em vez disto, fom os alm oçar.

 

* * *

 

Hoj e fui a Le Phare de la Baleine, que significa O Farol da Baleia, um a loj a onde os locais com pram aquelas fabulosas cam isetas listradas – a versão autêntica, não aquelas para turistas. Eles tam bém oferecem adoráveis roupas infantis e toalhas de praia grossas, cor de cerej a salpicadas com pequenas baleias brancas. Com prei um fabuloso chapéu de palha azul claro, com quarto pontas e um laço. Agora que estou em casa, acho que o laço é m uito pom poso, em bora em um a m adam e francesa, talvez, fique retrô e irônico.

 

* * *

 

Quando cheguei na faculdade, diretam ente de um a fazenda em Minnesota, fiquei aterrorizada com os j ovens vestindo caxem ira e linho que passaram as suas férias esquiando nos Alpes. A m em ória daqueles m eninos – “euros”, os cham ávam os, anos antes que a palavra definisse a m oeda de um continente – continuava reprim ida até ontem , quando levei Luca para fazer com pras. Ele escolheu três coisas em cinco m inutos: um a calça jeans verm elha escura, um a cam iseta rosa am assada e um suéter j usto de tricô fino. Ele agora se parece precisam ente com os garotos que m e petrificavam e intim idavam ... porque ele é um deles. Eu dei à luz o inim igo.

 

* * *

 

Desenvolvi um m étodo à prova de erros para cozinhar peixe com pele: prim eiram ente, corte um padrão de xadrez na pele. Em seguida, esfregue a pele com um a m istura de tem peros contendo pelo m enos um toque de curry (Galeries Lafay ette tem um a m istura m oída na hora com o nom e de “couscous”). Aqueça um pouco de azeite em fogo alto e frite o peixe com a pele para baixo (se o peixe estiver inteiro, vire um a vez). Quando estiver dourado, j ogue suco de lim ão e coloque no forno por cinco m inutos se j á não estiver branco e se desfazendo. Isto garantirá um a pele crocante e um sabor levem ente exótico que até as crianças vão apreciar.

 

* * *

 

Estou sentada na m inha m esa, logo antes das sete da m anhã. O céu do lado de fora do m eu escritório está com um tom azul perolado, tão pálido que parece um a som bra de azul, ou a m em ória de azul. Andorinhas voam sobre os telhados do outro lado da rua, riscando o céu de preto e desaparecendo de novo.

 

* * *

 

Estou tendo um a experiência nova com o livro que estou escrevendo, um a versão de A Bela e a Fera que se passa durante o período de regência de George, Príncipe de Gales (posteriorm ente, George IV). Geralm ente, trabalho incansavelm ente nas falas dos m eus personagens, as reescrevendo infinitam ente. Mas este livro é diferente. É com o se eu estivesse descrevendo um film e que está se desenrolando bem na m inha frente, o que faz com que eu m e sinta estranham ente delirante.

 

* * *

 

Os m eses em Paris não fizeram nada pelo m eu francês sofrível. Neste dom ingo, na igrej a, eu estava cantando alegrem ente com os dem ais, pensando pouco sobre as palavras. Tão bom , eu pensei, aqui estam os cantando que Jesus libertou os peixes: “nous libérant du péché.” ... Não, não, não pode estar certo. Talvez sej a um a canção do sindicato e Jesus tenha libertado os pescadores. Alessandro m e inform a que o Seigneur Jésus nos libertou do pecado. Pecado, não sardinhas.

 

* * *

 

Florent e Pauline finalm ente abordaram o assunto de um rom ance entre os dois. Infelizm ente, quando ele abriu o seu coração, ela respondeu que não estava pronta para um relacionam ento duradouro. Ele respondeu que ela era com o um a torta de lim ão que ele conseguia ver em um a vitrine, m as não podia com er. Ele ganhou o m eu coração com esta m etáfora – em bora Alessandro tenha apontado (m ais um a vez) que se Florent fosse italiano, ele j á estaria na confeitaria com prando a torta.

 

* * *

 

Está ficando m ais quente na França e as m ulheres parisienses tiraram seus shorts do arm ário. Elas vão para o trabalho de m anhã vestindo berm udas j ustas na altura dos j oelhos, geralm ente com barras dobradas e costuradas (às vezes, inclusive, de denim ). As berm udas são com binadas com respeitáveis j aquetas e saltos m uito, m uito altos. O resultado é – para a m inha surpresa – estiloso em vez de barato.

 

* * *

 

Term inei m inha versão de A Bela e a Fera! Para com em orar, fom os ao restaurante tailandês da vizinhança e discutim os títulos. Porque o m eu herói é inspirado no program a de televisão House M.D., as crianças estão defendendo “The Cranky Cripple and the Bodacious Bride” (O Manco Mau Hum orado e a Noiva Ousada), m as m eu editor dispensou esta opção por When Beauty Tamed the Beast (Quando a Bela Dom ou a Fera). Eu gosto, em bora tem o secretam ente que m eu herói sej a perm aneça tão indom ável quanto sem pre foi.

 

* * *

 

Estava sentada em um café quando um a adorável criança de dois anos passou por m im vestindo m eia-calça preta, vestido xadrez preto e branco e um suéter preto. E um a pregadeira de cabelo preta. Não é de se espantar que parisienses sej am sofisticados sem qualquer esforço – eles aprendem as virtudes de um vestidinho preto quando nós, am ericanos, ainda estam os vestindo cam isetas da Disney com brilhantes cor de rosa e óculos escuros com binando.

 

* * *

 

Sem pre corro na rue La Fay ette para que eu possa parar na frente da Graziella, um a m inúscula loj a com duas ou três vestim entas, no m áxim o, na vitrine. Tudo que eles desenham e vendem é im pressionante, com estilo e dram a. As peças, especialm ente um casaco com gola larga e botões fabulosos, trazem à m ente um film e antigo de Katharine Hepburn.

* * *

 

Estam os m andando Luca e Anna para um acam pam ento de tênis italiano. Luca vai para m ais duas sem anas de acam pam ento de tênis francês em seguida. Ele está furioso com nossos planos para a sua vida social. Se ele pudesse escolher, dorm iria o dia todo e passaria a noite inteira no Facebook (ou pior). Mas m antem os a soberania, por m ais algum tem po.