Paris Apaixonada

Eloisa James · Capítulo 13 de 21

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Paris Apaixonada

Arroz e homens

 

Nos idos de 1990, arroz e am or entrelaçaram -se para sem pre na m inha m ente. Um hom em com quem eu estivera por dez anos term inou o relacionam ento, e a m inha resposta ao sofrim ento foi aprender a fazer risoto. Alguns m eses depois, fui a um encontro às escuras com Alessandro, e algum tem po depois encontrei-m e em Florença, buscando a aprovação da m inha futura sogra, cuj o prato favorito era risoto. Arroz e am or.

Quando m eu relacionam ento longo fracassou, eu estava m orando em um

pequenino apartam ento no gueto dos pós-graduandos de New Haven, Connecticut. Passei o m eu tem po livre cozinhando, chorando e lendo. Meu livro de receitas favorito era Chez Panisse Cooking, de Paul Bertolli, um a coleção de ensaios fervorosos incluindo um longo artigo sobre risoto. Eu parava em frente à panela, m exendo conform e Paul instruía, lendo um livro rom ântico em prestado da biblioteca pública e chorando a cada vez que parecia que as heroínas tinham um a vida m elhor do que a m inha. Após um m ês disto, eu estava fazendo risotos m uito bem e havia com eçado a pensar em hom ens de um a m aneira m ais alegre, o que m e levou ao encontro às escuras com Alessandro, então um aluno de pós-graduação em italiano com cachos pretos e o corpo de um nadador. Ele m e convidou para j antar na casa dele. Eu usei um m inúsculo vestido preto com botas de cam urça verde acim a dos j oelhos. A noite foi um sucesso, então, eu retribuí. Ele adorou o m eu risoto. Apenas anos depois, quando com i o risoto crem oso e delicioso de sua m ãe, que entendi o quão crucial aquele pequeno detalhe fora para a nossa vida futura.

Receitas de risoto estão por toda a parte, contudo, eu recom endo a leitura do

livro de Bertolli, se possível. A receita básica leva um a cebola, um alho pequeno, arroz arbório, um a xícara de vinho branco e caldo caseiro. Mas esta receita é com o o am or: você deve saborear cada passo. Quando puder sentir o cheiro de que a cebola está m acia e não dourada, adicione o alho. Quando sentir a explosão de perfum e do alho, j ogue o arroz e m exa até que adquira um brilho uniform e e encorpado. O cheiro do vinho deve saltar da panela quando você o derram ar e, finalm ente – Paul está certo a este respeito – o caldo é vagarosam ente adicionado, concha a concha. Mexa. Hoj e em dia, escuto podcasts em vez de ler livros rom ânticos, m as é tudo a m esm a coisa: um a panela cozinhando lentam ente, um a m exida, outra m exida.

O risoto do Chez Panisse m e veio quando eu estava com o coração partido e

levou-m e diretam ente a um italiano apaixonado por risotos por quem m e apaixonei e com quem m e casei. E isto levou à sua m ãe, com sua colher de pau e sua paixão por caldos, à m inha filha, cuj o prato favorito é risoto com abobrinha assada.

 

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O professor de história de Luca é m uito exigente e ele privilegia o m étodo socrático. Naturalm ente, assim que ele anuncia que é hora da interrogazione, todos os alunos entram em fila para ir ao banheiro. No refúgio do sanitário, Luca m andou um a m ensagem de texto para um am igo – “Quem foi escolhido?” – e recebeu a resposta “Acabou de com eçar.” Luca: “Ele term inou?” Silêncio. Luca não poderia ficar no banheiro para sem pre, então, ele finalm ente voltou para a sala e encontrou seu pobre am igo lastim osam ente de pé em frente à classe.

 

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“Ele é tão francês,” Alessandro disse de Florent, ao chegar em casa de sua conversação hoj e. “Ele fala e fala sobre Pauline: tão ardente, tão apaixonado. Mas ele disse algum a coisa sobre isto para ela? Não.” De acordo com o m eu m arido, se Florent fosse italiano em vez de francês, ele j á teria reservado um hotel para a lua de m el. Relem brando o estilo de cortej o de Alessandro, eu concordaria.

 

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Na noite passada, o ar estava tão cálido e belo que Alessandro e eu fizem os um a cam inhada m uito m ais longa do que de costum e – bem além dos aspirantes a aristocratas que bebem espum ante nos j ardins do Louvre, através do Palácio das Tulherias, em direção à Opéra... finalm ente, desabam os no Café de la Paix, com seu telhado cham ativo e dourado (m as m uito adorável). Meu chocolate quente veio em dois bules de prata. Um continha o chocolate derretido, tão escuro e espesso quanto lava, o segundo continha leite quente. Paraíso!

 

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Em um a pradaria de Minnesota, à noite o céu é ilum inado som ente por um punhado de estrelas. Vez ou outra, enquanto eu estava crescendo, nós podíam os até capturar um vislum bre da aurora boreal. Em Paris, por outro lado, nunca escurece. No nosso quarto, cortinas de tafetá azul pavão com eçam no teto e se esparram am chão. Mas, à noite, a luz do rua se em brenha pelo varão e banha o quarto; e m e lem bra que estou em um a cidade, cercada de pessoas. E eu am o isto.

 

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Em 1o de Maio, é com em orado o Dia do Trabalhador francês, que, no m eu país, significa que desfile. Aqui, significa um enorm e protesto. Pessoas inundaram Paris, m ilhares delas. Cada unidade tinha sua própria m úsica; eu estava orgulhosa porque m uitos grupos trabalhistas eram representados por hip hop am ericano. Tam bém havia bandas tocando m úsica francesa tradicional ao vivo, e alguns versos que pareciam consistir basicam ente de rim as com o “Sarkozy – oui!”

 

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Além de protestar, no 1o de Maio, parisienses com pram lírios do vale enrolados em papel para presentear uns aos outros. Alessandro com prou um buquê para m im , e em seguida um francês extraordinariam ente gentil m e deu outro na rua (um m om ento surpreendente e encantador), de form a que agora tenho um vaso cheio de pequenos chapéus de fadas encaracolados ao m eu lado, com o um a am ostra de floresta densa em cim a da m inha m esa. Aparentem ente, na linguagem das flores, estes lírios do vale sinalizam o retorno da felicidade. Sinto-m e m ais feliz do que se elas fossem diam antes.

 

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Após um a pesquisa extensiva, descobri o cam inho das pedras para um a torta perfeita. Ela deve ser bem pequena, não m uito m aior que um a m ordida, e ter um a m assa am anteigada e esfarelada, um pouco de crem e de confeiteiro e um a torre m iniatura de fram boesas. Um a ou duas fram boesas devem ser cobertas com folhas de ouro com estíveis, para criar a ilusão de que a pessoa que a com e é a própria Maria Antonieta, vestindo um a peruca feita de algodão doce, m ordiscando bolos e dando conselhos de cardápio.

 

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Apenas após m eses andando por cintilantes estátuas douradas de Pégaso, cada qual pareada com um a ninfa diferente segurando um a espada – quer dizer, as quatro estátuas na Pont Alexandre III – percebi um a coisa m uito interessante. Os cavalos têm ferozes ereções. Só para constar.

 

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Levei Nicole e Anna para a loj a italiana de sorvetes Am orino depois da escola. Um grande letreiro do lado de fora lista os diferentes tam anhos de porção oferecidos. Eu não estava prestando atenção e, de algum form a, perm iti que as m eninas pedissem duas taças tam anho “grandíssim o”. Antes de m ais nada, foi exorbitantem ente caro. Em segundo lugar, acabou sendo m ais sorvete do que eu j am ais havia visto em um a taça. Bastante irritada com igo m esm a – e nada feliz com elas – falei para as m eninas que elas deveriam com er tudo. Quando elas chegaram perto do fim , incluí a condição de que ninguém estava autorizado a vom itar. Anna term inou, m as Nicole relutantem ente adm itiu que a segunda condição havia sido m ais pesada do que a prim eira, e devolveu sua taça tam anho grandissimo com um a ou duas colheres de sorvete ainda dentro.

 

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Pela terceira vez, andei pelo Musée Nissim de Cam ondo e escutei a visita guiada por áudio (eu m esm a poderia ser guia, a esta altura). Desta vez, dem orei-m e na sala de j antar, olhando para o Busto de uma Negra em bronze, do início do século XIX. Aparentem ente, ele faz parte de um conj unto feito para um chafariz no qual um a servente negra, esculpida em bronze escuro, derram ava água sobre sua senhora branca, esculpida em m árm ore. Há m uito o que se pensar sobre isto, e nada é m uito bom .

 

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À tarde, andei pelo pequeno parque na place de la Concorde que é repleto de castanheiros da índia em flor, cada pétala branca em pertigada com um coração cor de cerej a. Houvera um a tem pestade de vento. Abri cam inho por entre correntezas de pétalas, am ontoadas e em pilhadas com o se fossem serragem .

 

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Aqui vai um dos bordões de Anna: “Eu detesto peixe, a não ser que sej a cherne.” Isto porque, era um a vez, há m uito tem po atrás, durante um verão tranquilo, seu irm ão pescou um cherne em um lago de Minnesota e ela ainda se lem bra de com er o peixe com prazer. Adicione a isto a engenhosidade de um a m ãe: todo peixe que eu cozinho é cherne (não im porta de que o peixeiro francês queira cham á-lo).

 

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Descobrim os um a m aravilhosa creperia, Breizh Café, que faz crepes bretões de farinha escura de trigo sarraceno. O cardápio é incrivelm ente variado, de salgado a doce. Com i um crepe feito com geleia am arga de laranj a e Cointreau. Flam bado, é claro. Sentam os ao lado de um avô e seu neto de oito ou nove anos. Cada um estava com endo um enorm e crepe clássico – coberto apenas com um pouco de açúcar. Eles os com eram e, em seguida, o avô convocou o garçom : m ais dois pedidos da m esm a coisa! Eles falaram sobre leões, sobre o quão rápidos e ferozes eles eram . Pensei sobre um avô leão gentil, deitado sobre a som bra de um a árvore de baobá, dividindo ossos e histórias com um filhote.

 

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As provas de m atem ática ainda são um a perspectiva aterrorizante para Luca. Ele tem aulas com um tutor um a vez por sem ana, e m uitas noites ele e Alessandro estudam até tarde, decifrando sua lição de cálculo. Alguns dias atrás, ele chegou em casa desanim ado; houvera um teste e, ao com parar respostas com outros depois da aula, Luca descobriu que ninguém tivera os m esm os resultados que ele. Mas hoj e as notas foram entregues. Adivinhe quem teve a segunda m elhor nota da classe?

 

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Meu am ado pai está perdendo a sua m em ória. Hoj e recebi um a carta dele com o endereço correto, m as sem o m eu nom e, ou qualquer nom e na verdade. Por sorte, nosso carteiro deduziu que um a carta dos Estados Unidos deveria ser para nós. Dentro do envelope, papai anexou um a cópia do seu adorável poem a, recentem ente publicado na The New Yorker: “Eu tenho filhas e eu tenho filhos.” Tenho tanto m edo do dia em que não haverá m ais poem as, ou cartas.

 

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A classe de literatura italiana de Luca acabou de ler a Ilíada, de Hom ero, a antiga história de guerreiros tom ando a cidade de Troia de assalto. Seus am igos apelidaram um dos colegas de classe de Aquiles porque ele sem pre está irritado e é destrutivo; de fato, cadeiras e m esas da sala de aula j á foram derrubadas por sua ira. Alessandro repentinam ente lem brou-se de um m enino em sua classe de ensino fundam ental que fora rotulado de Aquiles Pés Velozes por conta de sua rapidez. Há algo a se dizer sobre o declínio da cultura nestes dois exem plos.

 

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Na sem ana passada, escrevi sobre abrir cam inho por entre um a correnteza de flores e hoj e descobri que Claude teve a m esm a experiência. As flores dele cobriam o chão com o “espum a branca”, e seus olhos encheram -se subitam ente de lágrim as em resposta à “alm a irrestrita da beleza”. É possível que eu tenha que parar de ler o seu livro. A retórica exagerada de Claude faz com que eu m e sinta rude e superior, um a com binação ruim . Suspeito que m inha irritação irradie não do sentim entalism o, m as do fato de que ele é indiscutivelm ente m eu predecessor, se não o m eu protótipo: estam os descrevendo as m esm as flores, em bora com cem anos de distância. Não gosto de pensar sobre a m inha sobrinha neta gozando da m inha retórica, m as eu suspeito que isto sej a inevitável.