Paris Apaixonada
A Torre Eiffel
Em um dia de outubro, pegam os Anna e sua nova am iga Erica depois da escola e fom os cam inhando até a Torre Eiffel. As m eninas corriam na frente, zunindo pra lá e pra cá, se exibindo com o pilotos de caça bêbados. Alessandro e eu tentam os im aginar por que os franceses planej aram dem olir a torre após a Feira Mundial de 1889. É um a obra tão bela e robusta; destruí-la seria com o pintar por cim a da Mona Lisa por causa de seu longo nariz.
Pequenos bateaux mouches, ou barcos turísticos, estavam ancorados no
Sena, perto da área de entrada da torre, ou pelo m enos era o que dizia no m eu guia. Nós passeam os sob o ferro rendilhado da torre, as m eninas zanzando de um lado para outro, gritando com o gaivotas. Ali em baixo, na entrada perto do Sena, com pram os os ingressos m ais baratos, que não davam direito a crepes e cham panhe. Com o tínham os um a espera de vinte m inutos, nos dirigim os para um carrossel antigo que fica j unto ao rio. Um a m ulher rechonchuda estava sentada encolhida em sua bilheteria, protegida dos turistas e da chuva, em bora nenhum dos dois tivesse aparecido ainda.
Anna e Erica subiram no carrossel, m as o operador continuou aguardando,
provavelm ente na esperança de que as duas crianças atraíssem outras. As m eninas sentavam -se ansiosas em seus cavalos pom posos, suas finas pernas um pouco com pridas dem ais. Aos dez anos de idade, logo elas vão se achar crescidas dem ais para tais brincadeiras de crianças. Mas não ainda.
Finalm ente, a m úsica com eçou e os cavalos arrancaram . Um carrossel
lotado em um dia ensolarado é um a m istura de sorrisos infantis e galopes. Mas quando as m eninas desapareceram da nossa vista, deixando-nos assistir a cavalos sem cavaleiros subirem e descerem , percebi que um carrossel vazio, em um dia nublado, perde essa alegria frenética, a sensação de que cavalgam em direção a algum a j ubilosa linha de chegada.
Esses cavalos poderiam ter feito parte dos objets trouvés descobertos entre a
poeira e colocados em uso. O cavalo atrás de Anna não tinha a m etade inferior da perna dianteira.
Seus pescoços foram arqueados com o se fossem cavalos de batalha
atravessando os Alpes em algum a cruzada m ilitar, m arcados pela luta e lúgubres. Cada pedaço lascado da tinta dourada arrancada pelos saltos dos sapatos de um a criança se destacava, bem definido e evidente.
Sem ter para onde ir, e sem nada m elhor para fazer, o operador deixou as
m eninas darem voltas e m ais voltas. Até que, finalm ente, o ritm o da m úsica foi dim inuindo, as últim as poucas notas foram sum indo desarticuladam ente no ar.
Cheguei à conclusão de que não há nada m ais m elancólico do que um
carrossel francês em um dia chuvoso, e desej ei ter pagado pelos crepes e cham panhe.
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No m etrô, a cam inho da escola, Anna desatou a fazer um a im itação debochada de sua furiosa professora de inglês batendo o pé: « Calém la bocá! Ssssentém -ssse! Pequenos cretinôs!” Todo o vagão do m etrô estava rindo, em bora Anna não percebesse de form a algum a sua cativa e cativada plateia.
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Alessandro trouxe para casa um presente que fez m uito sucesso, para com pensar o episódio das flores que eu nunca recebi: um queij o em form a de coração, um a espécie de Cam em bert/Brie, tão crem oso quanto m anteiga e bem m ais delicioso. Nós com em os com pão crocante, um a sim ples salada de pim entões am arelos e kiwis de sobrem esa.
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Acabei de m e deparar com um a lista que Luca fez em um pedaço de papel. Na parte superior da folha, ele escreveu (em letra cursiva) “Fim ”. A lista é intitulada “Vários Problem as”:
– Não sei escrever em letra cursiva – Não sei escrever em italiano
– Não acho que eu copiei a lição de casa de matemática corretamente – Fui mal na prova escrita de italiano – Tenho um trabalho de francês para segunda – Preciso dos meus livros para amanhã Eu m e sinto terrível. O que fizem os, trazendo-o para cá? Eu tenho úlceras só de ler a lista.
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Antes de partirm os para a França, m inha irm ã m e contou que um parente da fam ília da nossa m ãe tinha publicado um livro de m em órias sobre a vida em Paris. Eu nunca tinha ouvido falar de Claude C. Washburn, que era um dos irm ãos da m inha avó e m orreu antes de eu nascer. Mas hoj e chegou pelo correio Pages from the Book of Paris, publicado em 1910. Pelo que eu pude entender, Claude nasceu em Duluth, Minnesota, e se m udou para a Europa depois de obter seu diplom a de graduação, tendo m orado na França e na Itália. Em determ inado m om ento, depois de m ais ou m enos um ano em Paris, casou-se com um a m ulher com o incom um nom e de Ivé. Não avancei m uito no livro, m as até agora ele tem caracterizado o casam ento com o “um a instituição ignom iniosa” e se vangloriado de sua “crescente exultação” em perm anecer um solteiro convicto, evitando “os obstáculos m atrim oniais, que cerceiam a evolução pessoal, em direção ao m ar aberto de um a solteirice assum ida”. Ivé deve ter sabotado o navio de Claude antes que ele pudesse afastar-se desses obstáculos.
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O tem poral com eçou enquanto estávam os j antando fora. Foi tão forte que um a névoa branca pairava sobre a calçada onde a chuva rebatia. Correm os até nossa casa, passando entre parisienses com guarda-chuvas e turistas desprevenidos usando j ornais dobrados com o chapéus, a água escorrendo pelos nossos pescoços, acom panhado de um grito de Anna por oito quarteirões.
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Hoj e fui ao m eu açougueiro galanteador favorito e apontei para algum as salsichas. Ele enrolou dois m etros dos em butidos e os colocou na balança, dizendo: “O hom em casado com você precisa com er m uita salsicha”. Um problem a com o m eu francês é que eu preciso de tem po para pensar antes de responder, então, acabei saindo de lá com salsichas dem ais e passei a hora seguinte tentando, sem sucesso, encontrar um a resposta desaforada em francês, que vou poder usar na m inha próxim a encarnação. Um a encarnação na qual serei poliglota, e nunca ficarei sem palavras.
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Ontem , Anna teve que ficar contra a parede duas vezes durante um a de suas aulas. Perguntei-lhe o porquê e ela disse que não conseguia se lem brar, e que, de todo j eito, ela não era tão m á quanto os m eninos. Eu m al posso esperar pela reunião de pais e professores. “Ela é um a am ericana ruim ” fica cruzando pela m inha cabeça ao som da m elodia de “She’s a very pretty girrrlll...”
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Entre as m uitas pontes de Paris, a m inha favorita é a Pont Alexandre III, e a m inha favorita de suas m uitas estátuas não é um a daquelas cobertas de ouro, m as aquela de um m enino sorrindo, segurando um tridente e m ontando um peixe. Apesar de ser apenas um a criança, ela é m aior do que eu, seus enorm es dedos dos pés suspensos em volta do peixe enquanto se contorce no ar. Mas ele é um m enino ainda, com um sorriso inocente, flagrado em um m om ento em que é suficientem ente grande para m ontar a parte de trás de um peixe, m as ainda não está fam iliarizado com as dores e os enganos do m undo. No extrem o da Pont Alexandre III, no lado oposto ao m enino do m ar, está a sua irm ã gêm ea. Ela parece ter acabado de sair da água; segurando frondes de algas m arinhas em um a m ão, e um a grande concha contra sua orelha na outra. Seu rosto está com penetrado enquanto olha para longe, ouvindo atentam ente. Im agino que ela está ouvindo o som caudaloso das ondas, o som de casa.
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Cada Peter Pan tem seu Capitão Gancho, cada Harry Potter, seu Malfoy... A inim iga de Anna é Dom itilla, a j ovem que lhe deu um tapa no parquinho. Dom itilla é um a italiana tagarela com propensão a m onopolizar os holofotes (que Anna prefere reservar para si m esm a). “Ela é diabólica”, Anna m e disse m uito a sério nesta m anhã, no cam inho para a escola.
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“Gostaríam os de vinho branco”, diz Alessandro ao nosso vendedor de vinhos, Monsieur Juneau. “O que vocês vão com er?” M. Juneau pergunta. “Peixe”. “Que tipo de peixe?” “Halibute com hortelã e lim ão”, respondo. “E o acom panham ento?” “Batatas”. “Pequenas ou grandes?”, pergunta Monsieur. (quem diria que isso im portava?) “Pequenas”. Nosso cardápio narrado em sua língua soava com o a carte du jour de um restaurante com três estrelas no Guia Michelin. “O vinho para vocês”, diz ele, carinhosam ente puxando um a garrafa. Em casa, o peixe é um desastre, m as o vinho, um a revelação.
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Luca pegou um a virose, e declarou desconsoladam ente esta m anhã que havia
apenas um a coisa no m undo que ele conseguiria com er: 7 Froot Loops. Busquei Anna na escola, e nós desviam os do cam inho para ir até um a pequena loj a cham ada The Real McCoy, que atende expatriados am ericanos com saudades de casa. Na m osca! Nós com pram os açúcar m ascavo, marshmallows e Froot Loops. Luca com eu três tigelas .
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Bailarinas lançam -se do conservatório para a nossa rua, ansiosas para fum ar. Elas se aglom eram em torno dos degraus, ossos do quadril salientes. Hoj e, duas delas estão resplandecentes em tutus cor de rosa, distraidam ente alongando os m úsculos de suas coxas.
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Esta tarde, trabalhei duro em O Beijo Encantado, a m inha releitura de Cinderela. Minha heroína tem o peito achatado, coitadinha, e parte de sua transform ação envolve um par de “am igos do peito” feitos de cera. Esses apetrechos são m eticulosam ente históricos, e m uito divertidos escrever sobre. Eu dei a ela tantas desventuras que m e senti m uito feliz por ter realizado a cirurgia de reconstrução, assim , eu não tenho que andar por aí usando um a prótese de cera.
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Hoj e, Alessandro teve seu prim eiro encontro com um francês do site de “troca de conversação”. Seu nom e é Florent, e ele quer aprender italiano porque com prou um pedaço de terra em um pequeno vilarej o perto de Lucca, na Toscana, e planej a construir um a casa lá. Mas, sobretudo, porque ele está apaixonado por um a garçonete que conheceu no vilarej o. Aparentem ente, ela é m uito, m uito tím ida e reservada.
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Fom os acordados esta m anhã por um a cam ada de chuva torrencial desabando na rua com o tipo intensidade concentrada que m e fez im aginar, sonolenta, que o nosso quarto pudesse estar atrás de um a cachoeira: um a caverna à m eia luz e fria, e as nossas grandes j anelas seriam um a vidraça de água em m ovim ento.
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Hoj e Anna foi expulsa da aula de m atem ática e m andada para o corredor para “pensar sobre si m esm a”. Perguntei o que ela pensou. Em vez de um autoreflexão, ela planej ou um a nova fam ília para o The Sims, m as adm itiu que estava com m edo que eu a m atasse antes que ela conseguisse fazê-la.
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Um a am iga preocupada acabou de m e escrever da Inglaterra para m e inform ar que a leitura de econom ia de seu filho incluía o fato de que 650 parisienses são hospitalizados todos os anos devido a acidentes relacionados a cocô de cachorro. Depois de m orar aqui por quase dois m eses, não m e surpreendo com este dado. A boa notícia é que (ainda) não estam os entre os acidentados.
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Eu estava voltando para casa ao anoitecer, e todos por quem eu passava estavam com endo um a baguete. A calçada estava com o se centenas de crianças perdidas tivessem j ogado m igalhas para que pudessem encontrar o cam inho de casa novam ente.
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A arquirrival de Anna, Dom itilla, tinha acabado de voltar do funeral de sua avó, na Itália. Aparentem ente, Dom itilla olhou por cim a do caixão e viu Jesus suspenso no ar. O com entário de Anna: “Eu fiquei bastante surpresa ao ouvir isso”. Mas outro colega, Vincenzo, entrou na conversa e disse que conhecia um rapaz sem pernas que foi à igrej a e rezou, e depois de ver um hom em de barba branca flutuando, levantou-se e andou. “Então isso foi m elhor do que apenas ver Jesus”, apontou Anna.
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Minha editora está na cidade a cam inho da Feira do Livro de Frankfurt, e ela m e levou para alm oçar na Brasserie Lipp, onde Sim one de Beauvoir e Jean-Paul Sartre costum avam alm oçar todos os dias. Eu tom ei um a escura e deliciosa sopa de peixe e m uito vinho; falam os de escrever sobre com ida e da vida antes dos filhos.
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As pessoas beij am o tem po todo aqui: rom anticam ente, m elancolicam ente, docem ente, apaixonadam ente, em saudação e em despedida. Eles se beij am nas m argens do Sena, debaixo de pontes, nas esquinas das ruas, no m etrô. Eu não tinha percebido que Anna tinha notado isso até ontem , quando sugeri que um caso de um a m ãe solteira em sua sala de aula talvez pudesse ser explicado pelo divórcio. Anna não concordou. “Eles não se divorciam por aqui”, ela retrucou. “É porque eles se beij am m uito.”
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De m anhã bem cedo, a única luz vem de padarias totalm ente fechadas. As cadeiras estão de cabeça para baixo em cim a das m esas, m as o cheiro de pão assando que se sente é um convite de boas-vindas.
7 N.T. Cereal Matinal da Kellogg’s.