Paris Apaixonada

Eloisa James · Capítulo 15 de 21

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Paris Apaixonada

Os horrores da peça de teatro da escola

Os horrores da peça

de teatro da escola

 

Minha m ãe frequentem ente dizia que suas am bições na vida eram casar com um poeta e ser dançarina de balé clássico. Tenho que supor que foi am bição frustrada que fez com que eu e m inha irm ã tivéssem os aulas de dança. Tenho um a m em ória, piedosam ente vaga, de fazer parte de um a peça da escola. Eu era um a folha de outono, pulando pelo refeitório da escola fundam ental com papel m arrom am assado balançando na m inha cintura. Senti-m e desengonçada e decididam ente nada com o um a folha, e tornei-m e desanim adoram ente ciente de que um talento para a dança não havia em ergido da m inha com binação genética.

Meus filhos herdaram m eus lam entáveis genes: som os os figurantes das

produções escolares, prontos para engrossar o coro ou interpretar um criado lorde, se preciso, o Bobo da Corte – m as nada m ais am bicioso. Este ano, para a produção em francês da escola italiana, Anna não atingiu sequer o nível de Bobo da Corte. Por sorte, suas aspirações são proporcionais aos seus talentos dram áticos, então ela ficou tranquila quando foi escalada para os papéis de relógio e m osca.

Na m anhã da perform ance, ela estava vestida de preto, com o cabe a um a

m osca. A única cam iseta preta que ela tem é estam pada com a logo dos Ram ones, então a instruím os a virá-la do lado avesso para entrar em cena, para certificar-se de que o público não pensaria que ela era um inseto punk. Suas responsabilidades de fala eram pequenas, m as ela teve que dizer as horas duas vezes – em francês, conform e ela apontou durante um ataque de nervos de últim a hora. Tic-tac!

A cam inho da escola, perguntei para ela sobre o que a peça era, m as ela

não parecia saber m uito bem . Ela m e disse, bastante incerta, que havia um a m ulher idosa que m orria. Soava com o um conto de fadas dos irm ãos Grim m para m im . Não tinha um a m ulher idosa que m orria ao com er um a m osca? Mas Anna m e certificou de que ela não seria devorada.

Naquela tarde, Alessandro e eu chegam os cedo para a apresentação e encontram os Anna zum bindo pelo ginásio em sua roupa preta, agora com pleta com um bico roxo. Isto não parecia com as m oscas que eu conheço e depois de algum as perguntas descobri que ela havia se confundido em relação ao seu papel – afinal de contas, ela não era um a m osca, m as um pequeno dem ônio que zum be em torno da m ulher m oribunda com o parte de um pesadelo. A tram a estava com eçando a soar estranham ente som bria, até kafkiana. Acom odam o-nos em nossos lugares para apreciar Dora, a Morta em vez de Dora, a Aventureira.

A “idosa” de dez anos de idade era claram ente reconhecível, envolta em

um cobertor. Mas esta foi a últim a coisa que entendem os. Antes de m ais nada, crianças italianas tagarelando em francês não são lá m uito inteligíveis. Além disso, a tram a tornou-se ainda m ais obscura pela contribuição criativa das crianças nas interpretações dos seus papéis. Um a m enininha um tanto descontente, por exem plo, ficava tom ando longos goles de um a garrafa de vinho (vazia). Eu nunca entendi qual era a relação dela com a m ulher m oribunda, ou porque ela estava buscando a em briaguez, em bora Anna depois tenha m e inform ado que ela era a narradora.

A tram a tornou-se ainda m ais obscura quando problem as técnicos

inevitáveis ocorreram . O m ecanism o que fechava as cortinas em perrou e com eçou a fazer barulhos. Os atores olharam para cim a e nervosam ente continuaram a tagarelar de um a form a que sugeria que eles com preendiam aproxim adam ente cinquenta por cento de suas falas e realm ente não se im portavam se nós na plateia não com preendêssem os nada. Dem ônios vieram e se foram , anj os dançantes apareceram , o alarm e do relógio disparou (gostam os disto), a bêbada andou pelo palco resm ungando. A plateia com eçou a ter ataques de riso em m om entos inapropriados o que atrapalhou os atores, j á perplexos.

A apresentação estava lentam ente se aproxim ando do grande m om ento de

Anna – a declaração da hora certa pelo relógio – quando a “idosa” repentinam ente m orreu. Os outros atores pareceram bastante surpresos, m as eles anim adam ente reuniram -se enquanto ela j ogava seu cobertor e dançava, em um a interpretação rítm ica do paraíso.

Na verdade, a atriz ficou confusa e m orreu dois atos antes da hora. Mas na

altura em que seu erro foi reconhecido, j á não havia m ais salvação. Havia um sentim ento com um de que (especialm ente na plateia) assim que o personagem principal m orresse, a peça estaria acabada. É hora de fechar a cortina.

Anna nunca chegou a proferir sua grande fala, então, ela a anunciou no

j antar. “Il est neuf heures”. Ela a disse m uito bem .

 

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Os alunos da escola fundam ental de Florent com eçaram a cham ar Pauline de Madam e Selig (o sobrenom e de Florent), porque os dois passam tanto tem po j untos. Este é um desdobram ento interessante. Adolescentes são observadores astutos de adultos; eles j á percebem os dois com o um casal. Agora, apenas Pauline precisa ser convencida.

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Alessandro e eu desertam os as crianças à noite e nos levam os para j antar em um pequeno restaurante cham ado Sauvers & Coïncidences, subtitulado “A Culinária dos Bons Sentidos.” Nossa garçonete era casada com o chef; ela disse que seu m arido há m uito sonhava em abrir um restaurante onde a com ida fosse tão fresca que eles não precisariam de um refrigerador. Alguns dos pratos eram bons e outros eram m edianos (hom ens italianos – sem citar nom es – deveriam parar de pedir risoto em outros países porque nunca chega à altura do italiano), m as a paixão era inconfundível. E enquanto a Madam e falava, um m enininho vestindo um avental de chef apropriado para o seu tam anho colocou a cabeça para fora da cozinha.

 

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Fom os a um a grande loj a esportiva hoj e para com prar m uitas roupas brancas para as crianças usarem no acam pam ento. Anna usou sua m esada duram ente econom izada para com prar um a lanterna de espeleologia rosa shock de am arrar na cabeça. “Para ler Harry Potter debaixo das cobertas,” ela m e disse. Algum dia, quem sabe, ela aprenderá a não alertar o policial antes de com eter um crim e.

 

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Hoj e eu fiz um a pesquisa na internet para descobrir alguns fatos sobre Claude. Pages from the Book of Paris [Páginas do livro de Paris] foi o seu prim eiro livro; depois disso, ele escreveu rom ances e m ais não ficção, incluindo um trabalho intitulado Opinions [Opiniões], que tem – tentadoram ente – capítulos intitulados “Pornografia” e “Meditações sobre Mulher”. Estrem eço ao pensar no que Claude achava de pornografia, sem m encionar o que ele teria pensado dos m eus rom ances. Mas tam bém achei um a crítica na qual seu livro de m em órias de Paris foi condenado com pouco elogio por seus “esboços picantes”. Minha m ãe nunca gostou dos m eus livros rom ânticos, que ela rotulou com o “aquele troço sexual”. Ainda assim , m eu talento obviam ente ignom inioso para “esboços picantes” é hereditário – e vem do lado dela da fam ília!

 

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Hoj e fom os a um m useu divertido e pequeno, o Musé de la Vie Rom antique, que abriga m obília e bens que pertenciam à escritora George Sand. Francam ente, a arte não é digna de nota, em bora a reconstrução de sua sala de visitas sej a fascinante e faça a visita valer a pena. Isto, e sentar para um a xícara de chá na pequena sala de chá no j ardim . Um a vinha exuberante desabrochava com flores verm elho-alaranj ado e pendurava-se sobre um a parede de tij olos às nossas costas, com o se a própria Natureza estivesse zom bando os artistas cuj os trabalhos ela havia superado.

 

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Florent contou para Alessandro sobre um restaurante vietnam ita sensacional cham ado Minh Chau, então fom os j antar lá na noite passada. Dez m esas esprem iam -se no espaço e a com ida vem do andar de cim a, de um a escada íngrem e e sinuosa. É m al cuidado, decorado com flores de plástico e um pouco claustrofóbico – m as a com ida! Com i um a incrível salada de cenoura e coentro para com eçar, delicadam ente tem perada e deliciosa, seguida de frango com gengibre tão bom que quase lam bem os os nossos pratos. A conta? O equivalente a 15 dólares!

 

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Alessandro foi para a Áustria para dar um a palestra em um a universidade e trouxe um a caixa de bom bons pra m im , com a cara do Mozart em cada um e um bolo de m arzipã no m eio. Perguntei, “Isto é bom para a m inha dieta, certo?” O professor assegurou-m e que eles não têm calorias e quem sou eu para discutir?

 

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Estava cruzando a m inha ponte favorita, Pont Alexandre III, nesta m anhã e pausei para cum prim entar a estátua do m enino tritão. Dois turistas passaram por m im , am bos segurando pequenas câm eras de vídeo na frente dos seus rostos. Eles viravam as câm eras para lá e para cá, desesperados para gravar tudo, com o se a docum entação fosse algo significativo por si só. Quero ter a experiência do lugar onde estou e do que estou vendo, e não ver tudo apenas através dos olhos da câm era, para visualização lim itada m ais tarde.

 

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Florent veio j antar novam ente e m e disse que Pauline é extrem am ente bonita, m uito inteligente e tem um diálogo fascinante. Ela tem 26 anos, o que não m e parece j ovem dem ais para um relacionam ento a longo prazo. Florent certam ente parece ter bem m enos do que 41 anos; à prim eira vista, supus que ele tivesse aproxim adam ente trinta anos. Ele tem um encantador e tím ido charm e francês. Gostaria que ele im igrasse para os Estados Unidos e casasse com um a de m inhas am igas. Poderíam os servir tortas de lim ão no casam ento.

 

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Em nossas cam inhadas noturnas, Alessandro e eu geralm ente andam os pela m inha rua preferida para fazer com pras, rue des Marty rs, passando por Autour du Saum on – um a loj a que não vende nada além de salm ão. Ontem entram os e tivem os um a conversa séria sobre seis ou sete tipos diferentes de salm ão defum ado antes de escolher um . Devoram os o salm ão (delicioso!), m as eu nunca achei um salm ão defum ado de que não gostasse, então talvez este processo de decisão deliberativo e tão francês tenha sido desperdiçado conosco.

 

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O fim do ano escolar está chegando e eu im agino que os colegas da escola fundam ental de Florent terão um a longa reunião e, em seguida, com o é de costum e aqui, sairão para um j antar ainda m ais longo antes que todos separem -se para as férias. Alessandro cedeu m ais conselhos rom ânticos italianos, enfatizando em ação física direta. Florent e sua am ada não fizeram nada além de falar por horas todas as vezes em que se encontraram ; Alessandro acha que é hora de partir para o beij o. “O am or não é feito de palavras”, ele m e disse. Um ponto de vista bastante m asculino.

 

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É o últim o dia de aula de Anna, e eu vou andar para casa, pela rue des Invalides, sobre a Pont Alexandre III, dizer adeus para o m enino tritão sorridente e para o Sr. Churchill, pelo m enos por agora, andar através do adorável parque perto da Concorde... Doces “últim as vezes” em pilham -se em m inha m ente: a últim a vez que abracei a m inha m ãe, a últim a vez que sequei Luca depois de um banho (agora ele é m uito m ais alto do que eu), a últim a vez que li Goodnight Moon em voz alta... Ainda leio em voz alta para Anna, porque não consigo suportar o pensam ento do últim o livro.

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A últim a reunião da escola, aberta para todos os pais, foi um a ocasião angustiante. Paralisada pelo nervosism o, Anna ficou travada enquanto lia sua história em voz alta e desatou a chorar. Dom itilla prontam ente apareceu para lhe dar um longo abraço e, depois, com o se as lágrim as fossem contagiosas, desatou descontroladam ente a chorar ela m esm a porque Anna estava indo em bora de Paris. Com o as coisas m udaram desde o outono passado, quando Dom itilla era a Inim iga Núm ero Um !

 

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Na noite passada, um pequeno quarteirão perto da nossa casa deu um a festa, com um a banda especializada em sucessos am ericanos das décadas de 1970 e 1980. Deixam os as j anelas do quarto abertas para aproveitar m elhor o show gratuito. Um a m úsica que ficará gravada em m inha m em ória é a interpretação deles, com forte sotaque francês, de “Play that funky music, white boy. Wew-hewwww!” Rim os histericam ente. Em certo ponto, Luca entrou no quarto gritando: “Escutem ! Eles estão tentando tocar White Stripes agora!”

 

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Viviane convidou-nos para j antar na noite passada. A refeição com eçou com sua versão de um aperitivo que ela recentem ente com era em um restaurante com três estrelas Michelin (bárbaro!) e term inou com um bolo que ela com prou na “m elhor confeitaria em Paris” – Dalloy au no boulevard Beaum archais. O interior tinha diversas cam adas: um a m ousse de fram boesa azeda, coberta com um a delicada cam ada de lim ão, rodeada por bolo de pistache com um desenho m aravilhoso em açúcar de fram boesa. A parte de cim a brilhava com um a cam ada clara de lim ão e tinha um delicado arranj o de frutas verm elhas. No dia seguinte, m archam os em direção à confeitaria, com pram os o m esm o bolo e o levam os para casa para ser devorado.

 

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A única coisa que velou a m inha felicidade aqui foi o m eu cabelo; foi realm ente o Ano do Cabelo Ruim . Prim eiro, m e deram luzes douradas. Depois, um a j ovem espalhou tintura platinada no m eu cabelo. A cabeleireira desaprovadora que deu sequência a este desastre conseguiu criar o seu próprio, transform ando-m e em um a laranj a escandolosa com tintura vegetal. Agora a tinta havia em palidecido, a não ser perto do couro cabeludo, onde ainda pareço com um a cenoura. Um a desesperada busca na internet revelou um salão onde se fala inglês, Sty lePixie. O site anuncia, “Para em ergências capilares, por favor, ligue para o salão”. Liguei para o salão.

 

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Musée Carnavalet é o m useu da história de Paris e isto significa que tudo que se pode im aginar está dentro dos seus aproxim adam ente cem côm odos. São m aj oritariam ente côm odos autênticos, retirados dos seus locais originais e reinstalados aqui: o salon bleu de Luís XVI, a sala de visitas de Maria Antonieta, o quarto de Marcel Proust. Se tivesse a opção, tenho que adm itir, eu sem pre escolheria espiar quartos de gente fam osa em vez de arte (sinal de um a m ente superficial, obviam ente).

 

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Viva! O j antar de fim de ano escolar da Florent foi noite adentro... com endo, bebendo, fum ando, celebrando. No final, ele e Pauline deixaram o restaurante j untos e andaram pela cidade. Eles passearam da Bastilha à rue du Faubourg-Saint-Antoine, e depois entraram no boulevard Voltaire até République, falando loucam ente, andando até o am anhecer. Finalm ente, quando o sol subia rosa sobre o Sena, Pauline olhou para ele e disse, “Você m e com parou a um a torta de lim ão que não pode com er”. Ele concordou. Ela abriu sua bolsa e acom odada no fundo estava um a pequena torta de lim ão perfeita.